Arquivo do mês: dezembro 2011

Lista dos 233 torturadores

A Revista de História da Biblioteca Nacional divulgou uma lista com o nome de 233 militares acusados de torturarem presos políticos durante o período da ditadura militar no Brasil (1964-1984). A lista foi obtida a partir de um relatório do Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil que estavam arquivados no acervo pessoal de Luiz Carlos Prestes que será doado por sua viúva, Maria Prestes, ao Arquivo Nacional.

Dentre os documentos que serão doados pela viúva de Prestes, está o “Relatório da IV Reunião Anual do Comitê de Solidariedade aos Revolucionários do Brasil”, datado de fevereiro de 1976.

Além da lista com a identificação dos torturadores, o relatório contém outros capítulos intitulados “mais desaparecidos”, “novamente a farsa dos suicídios” e “o braço clandestino da repressão”.  Elaborada por 35 presos políticos que cumpriram pena no Presídio da Justiça Militar Federal. A lista foi divulgada pela primeira vez em junho de 1978 pelo periódico “Em Tempo” que, à época tinha uma tiragem de 20 mil exemplares, esgotada rapidamente nas bancas. Segundo a reportagem da Revista de História da Biblioteca Nacional, logo após a publicação da lista em 1978, a redação do jornal sofreu dois atentados, um em Curitiba e outro em Belo Horizonte.

Entre os autores da lista estão ex-presos políticos que assumem cargos públicos como Hamilton Pereira da Silva, José Genoino Neto, ex-presidente do PT e assessor do Ministério da Defesa, e Paulo Vanucchi, ex-ministro dos Direitos Humanos e criador da comissão da verdade. Os outros autores da lista são: Alberto Henrique Becker, Altino Souza Dantas Júnior, André Ota, Antonio André Camargo Guerra, Antonio Neto Barbosa, Antonio Pinheiro Salles, Artur Machado Scavone, Ariston Oliveira Lucena, Aton Fon Filho, Carlos Victor Alves Delamonica, Celso Antunes Horta, César Augusto Teles, Diógenes Sobrosa, Elio Cabral de Souza, Fabio Oascar Marenco dos Santos, Francisco Carlos de Andrade, Francisco Gomes da Silva, Gilberto Berloque, Gilney Amorim Viana,Gregório Mendonça, Jair Borin, Jesus Paredes Soto, José Carlos Giannini, Luiz Vergatti, Manoel Cyrillo de Oliveira Netto, Manoel Porfírio de Souza, Nei Jansen Ferreira Jr., Osvaldo Rocha, Ozeas Duarte de Oliveira, Paulo Radke, Pedro Rocha Filho, Reinaldo Moreno Filho e Roberto Ribeiro Martins.

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Roda Viva entrevista Laurentino Gomes

Nesta última segunda-feira o programa Roda Viva, da TV Cultura, entrevistou Laurentino Gomes, jornalista e escritor que ficou bastante conhecido nacionalmente após a publicação dos livros 1808 e 1822, ambos regalados com o Prêmio Jabuti de melhor livro de não ficção.

Para compor a bancada de entrevistadores foram convidados: Oscar Pilagallo (jornalista e escritor), Marcos Augusto Gonçalves (editor de Opinião da Folha de S. Paulo), Mona Dorf (apresentadora do programa Letras e Leituras, da Rádio Eldorado, e colunista de cultura do IG), Ubiratan Brasil (editor do Caderno 2 de O Estado de S. Paulo) e Maria Aparecida de Aquino (professora de História da USP e do Mackenzie

Embora os livros de Laurentino Gomes tenham como objeto eventos históricos, como a vinda da Família Real ao Brasil (1808) e o processo de Independência vivido por este país (1822), vale lembrar que este jornalista não trabalha com produção de conhecimento histórico, como ele mesmo lembra logo no início da entrevista. Seu trabalho está, na verdade, mais na linha de reportagens de divulgação histórica, o que por si só, não é nada ruim.

Assim como outros jornalistas que já exploraram esse filão, para escrever suas reportagens Gomes reúne livros que foram produzidos por diversos historiadores, compila os dados encontrados naquelas pesquisas e escreve-os de maneira mais palatável a um público não habituado com a linguagem acadêmica dos historiadores. É uma pena que poucos historiadores tenham interesse em produzir obras destinadas a este público específico. Como já havia destacado em post anterior (História do Brasil Nação), recentemente a antropóloga Lilia Moritz Schwarcz abordou sobre esse tema em entrevista ao programa EntreLinhas, também da TV Cultura. Ali ela informou o lançamento de uma nova coleção de História, escrita por historiadores, justamente com o objetivo de atingir um público mais amplo e avesso aos academicismos. É esperar para ver!

Quanto ao Roda Viva, para quem tiver interesse em acompanhar a entrevista, a TV Cultura disponibilizou todo o conteúdo da mesma em seu canal do YouTube. Abaixo incorporei o link aqui no blog para facilitar a vida dos leitores do Hum Historiador.

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Década do desencanto

VLADIMIR SAFATLE escreveu hoje sua coluna semanal na Folha sobre os afetos que caracterizam cada época. Para ele, a década de 90 foi marcada pela euforia; já a década da virada do século XX para XXI, inaugurada com o 9/11, foi o medo quem prevaleceu e observa que é o desencanto quem parece que vai prevalecer na década que principiou com o ano de 2011. Ao falar sobre este ano que está se encerrando, destaca a força produtiva do desencanto, que levou muitas pessoas às ruas a reivindicarem a saída de líderes políticos em quem já não mais acreditavam.Sentimento que pode ser resumido pela frase: “Aqueles que transformaram 2011 no ano das revoltas sabem que todo verdadeiro movimento sempre começa com a mesma frase: “Não acreditamos mais”. Não acreditamos mais em suas promessas de desenvolvimento social, de resolução de conflitos dentro dos limites da democracia parlamentar, de consumo para todos.”

A conclusão a que Vladimir Safatle chegou em sua coluna foi bastante interessante e vale a pena ser reproduzida aqui:

“Mas todo acontecimento vem sempre acompanhado de um contra-acontecimento. Se o grande acontecimento de 2011 foi essa nova economia afetiva no campo político, o grande contra-acontecimento ocorreu na Grécia e na Itália: a expulsão dos políticos do centro de decisão em prol de meros estafetas do sistema financeiro.

Como se, de um lado, tivéssemos em marcha a dinâmica de reconstrução do político. De outro, sua anulação completa através da falácia gerencial de empregados do Goldman Sachs travestidos de primeiros-ministros. Estas são as duas vias às quais a década que agora nasce será confrontada.”

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Boas Festas

Bom amigos, tempo de festas e visitar parentes. Dia 27 teremos novos posts por aqui, por enquanto fica o meu Feliz natal e o desejo de ótimas festas a todos vocês.

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A volta do PM Coxinha

O grafite PM Coxinha que havia sido censurado no canteiro de obras da futura estação do metrô Adolfo Pinheiros, foi refeito por seu autor Beto Silva. O Hum Historiador já havia comentado a censura promovida pelo metrô no post: A Censura do Metrô Paulistano.

Em seu novo grafite, Silva surpreendeu mais uma vez e, além de refazer seu polêmico personagem do PM Coxinha, ironizou a maneira como o primeiro grafite havia sido coberto pelos funcionários do metrô. Quando questionado pela reportagem da Folha de S.Paulo sobre sua nova obra, Beto Silva afirmou que “Queria deixar um registro do que ocorreu e deixar evidente por que o trabalho foi apagado”.

O problema é que o grafite recém refeito já sofreu novo ataque, como noticiou o caderno Cotidiano da Folha de hoje. Como pode ser visto na foto abaixo, a obra foi manchada com tinta branca bem em cima do PM Coxinha. Ao ser informado sobre o aparecimento da mancha em sua obra, Silva disse que ainda não havia visto. “Vou passar lá pra ver como está, mas nem sei se vou retocar, porque esse negócio já está enchendo o saco”.

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Boni e a PIG

BoniEstava lendo a Piauí deste mês e nela há um artigo de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, falando de suas relações com seu patrão , Roberto Marinho. Lendo o que ele fala sobre Globo, Roberto Marinho e Ditadura Militar, meu estômago deu reviravoltas e quase vomitei sobre a revista ao mesmo tempo em que me indignava com a quantidade de gente cara de pau neste mundo de meu Deus.

Logo no começo do artigo, o ex-todo poderoso da Globo fala que não foi só sua antiga emissora, mas todos os jornais que apoiaram a chamada “revolução redentora”, referindo-se ao golpe militar de 1964, como se isso, por si só, justificasse o suporte que a mídia golpista deu aos militares.

Em outra passagem, digamos, “curiosa”, fala que Roberto Marinho não tinha restrições ideológicas para contratar funcionários para a Globo, destacando que Marinho costumava dizer: “nos meus comunistas, mando eu!”. Por falar em “comunistas”, em entrevista ao programa Roda-Viva, da TV Cultura, revelou que em um incidente quando os militares incendiaram a sede da Rede Globo e incriminaram os militantes da luta armada,quando soube do incêndio decidiu ir até as instalações da emissora empunhando seu revólver para receber os comunistas à bala. Um verdadeiro cão de guarda, não? Será que Marinho jogou ossinho pra ele depois?

Um pouco mais adiante, tenta defender o papel da Globo no caso da Proconsult e das eleições para governador, onde o então candidato Leonel Brizola foi prejudicado constantemente pela cobertura das pesquisas realizada pelos jornais do grupo e pela emissora. O argumento de Boni era que, nestes casos, a Globo é quem foi ludibriada por seus parceiros e que ela não estava mal intencionada. [hum rum].

Por fim, para não gastar muito mais tempo com as insanidades desse massivo consumidor de óleo de peroba, Boni quer fazer acreditar que a Globo cobriu as manifestações populares clamando por Diretas Já como festa pelo aniversário da cidade de São Paulo em razão de o Roberto Marinho temer a perda da concessão pública da Globo numa época em que a ditadura do General Figueiredo já não tinha mais força e caminhava para a transição a um governo civil. Digam se a argumentação de Boni não se trata de uma piada de mau gosto?

Em uma semana na qual a mídia ocultou o escândalo da PRIVATARIA TUCANA, denunciado pelo livro de Amaury Ribeiro Jr., não é coincidência que ela tenha sido marcada por uma super exposição do BONI e do livro que ele está lançando. Além de textos e indicações em jornais diários como Folha, Estadão e O Globo, Boni também apareceu com destaque na Piauí 63 e em programas de TV como Jô Soares (os 3 blocos), Roda Viva e outros afins.

REGISTRO aqui meu REPÚDIO a tanto espaço para personagem tão repugnante dos últimos anos no cenário cultural brasileiro JUSTAMENTE em um momento no qual sérias acusações de desvio de dinheiro público estão sendo encobertados pela MÍDIA GOLPISTA.

EU ME ENVERGONHO DA MÍDIA BRASILEIRA. FIM AO PIG JÁ!!!!

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O Corpo das Mulheres

Esse é o título de um documentário italiano de 25 minutos sobre o uso do corpo da mulher na televisão. Segundo os realizadores do filme, o documentário partiu de uma urgência, que foi a constatação de que as mulheres, as mulheres reais, estão desaparecendo da televisão e sendo substituídas por uma representação grotesca, vulgar e humilhante. Essa é uma perda enorme: trata-se do cancelamento da identidade das mulheres, que está acontecendo sob o olhar de todos, mas sem que haja uma resposta adequada até mesmo pelas mulheres.

A partir desta constatação, os realizadores do documentário partiram para a idéia de selecionar as imagens da televisão que tivessem em comum o uso manipulador do corpo das mulheres, para contar o que está acontecendo não só a quem nunca assiste a televisão, mas especialmente a quem a assiste e “não vê”. O objetivo é fazer-nos refletir quais as razões para esta supressão, um verdadeiro “massacre”, do qual somos todos espectadores silenciosos. Em particular, o trabalho colocou ênfase especial sobre o cancelamento dos rostos adultos da TV, o uso da cirurgia estética para apagar qualquer sinal da passagem do tempo e as consequências sociais desta remoção.

Este é um documentário feito por italianos com base no uso do corpo da mulher na TV italiana, mas não há como não constatar que trata-se de um fenômeno que ocorre no mundo todo. No Brasil, talvez, a exploração desta representação vulgar das mulheres nos canais abertos seja ainda maior. A reflexão proposta pelo documentário é mais do que pertinente e nos chama a todos, em especial as mulheres, a dar uma resposta imediata para os produtores de conteúdo de TV se esta é mesmo a imagem da mulher que queremos continuar vendo daqui por diante. Os perigos da exposição dessa falsa representação são evidentes e passam pela manutenção da mulher como mero objeto de diversão do homem. Quando as mulheres reais, que são aquelas com quem vivemos diariamente, decidem não tomar seu papel neste jogo fantástico divulgado pela TV, é que surgem as inúmeras violências contra a mulher: insultos, agressões e até mesmo homicídios por homens que só querem que sua mulher seja exatamente como aquela que ele vê diariamente na telinha mágica.

Não deixem de assistir o documentário, compartilhá-lo, discutí-lo e, por fim, refletir o quanto desta imagem da mulher você já interiorizou. Será que nosso comportamento para com elas já não é tremendamente afetado por esta falsa imagem a qual estamos expostos cotidianamente?

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Roda-Viva: sobre jornalismo e vergonha alheia

Em janeiro de 2004, quando São Paulo completava 450 anos, o famoso programa Roda-Viva, da TV Cultura, decidiu chamar o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, que oportunamente lançava seu livro A Capital da Solidão: uma história de São Paulo das origens até 1900, para falar da história da cidade de São Paulo. Que jornalistas escrevem bem e tem um senso de oportunismo mais apurado que historiadores na hora de escolherem seus temas e lançarem seus livros, disso não temos dúvidas. Eduardo Bueno e Laurentino Gomes estão aí na praça com seus milhões de cópias vendidas e falam por si só. Não é sobre isso que quero falar neste post. Aqui vou falar é de vergonha alheia, que foi o que senti quando vi este programa.

Curiosamente, embora o programa fosse discutir um livro que trata sobre História de São Paulo, a bancada de entrevistadores não contou com nenhum historiador. O mais próximo disso eram dois arquitetos da Universidade de São Paulo, únicos a puxar um pouco pra cima o nível do programa. Aliás, não foi a primeira vez que isso aconteceu. Parece ser um problema comum e recorrente do Roda-Viva, que dificilmente convida historiadores para compor sua bancada, mesmo quando o assunto do programa é História. Não sei a explicação, talvez tenham medo de que os historiadores vão melar o programa, ou então, quem sabe não são os próprios entrevistados que solicitam para que não haja algum especialista da área. Vai saber.

O problema é que, por mais esforçados que fossem os convidados da bancada, evidentemente o programa deixou muito a desejar. Em geral as perguntas foram tolas e o programa todo serviu muito mais para promover o livro e o entrevistado do que para falar sobre a história de São Paulo, que era o objetivo inicial. Prova cabal da tolice das perguntas feitas ao entrevistado [e é aqui que entra a vergonha alheia que senti ao ver o programa], é sintetizada pela pergunta do jornalista Ricardo Soares, da TV Cultura, na qual ele busca saber do entrevistado sua opinião pessoal sobre o verdadeiro papel dos bandeirantes na História do Brasil. Por mais que ele tenha elaborado a pergunta, no fim ela acabou soando como: Roberto, o que você acha dos Bandeirantes: mocinhos ou bandidos?

Não dá pra continuar assistindo ao programa depois desta pergunta. Claro que o jornalista pode alegar em sua defesa o nível de conhecimento de História do Brasil da audiência, jogando no colo dos telespectadores a estupidez de sua pergunta. Mas por mais que ele tente fazer isso, é impossível não assistir esse trecho da entrevista sem se envergonhar por ele. Como não ficar todo vermelho ao ver a cara de pateta de quem acha que fez uma pegunta muito inteligente e revelou ao povo brasileiro e paulista como os heróis que dão nome às nossas estradas são, na verdade, grandes vilões? Impossível!

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Histórias Apócrifas

Que boa surpresa esse Histórias Apócrifas de Karel Capek. Recomendo-o fortemente para qualquer um que queira ter enorme prazer e diversão na leitura. Logo no começo, o conto “Sobre a decadência dos tempos”, já nos faz dar boas risadas ao imaginarmos um velho casal da idade das pedras lamentando a decadência das novas gerações e a falta de perspectiva da humanidade; pouco depois, vem Tersites, conto que destaca os comentários maldosos de soldados gregos durante o cerco de Troia; mais adiante ainda, tem o conto “Sobre cinco pães”, que narra a opinião de um esforçado padeiro sobre os milagres de multiplacação de pães de Jesus. Há outros bastante interessantes e que são igualmente recomendáveis. Estou me divertindo muito com essa leitura.

Abaixo, um pequeno trecho extraído das páginas 26-27 do conto Tersites, que é uma ótima sacada do Capek. Neste conto, Capek narra o descontentamento de soldados gregos, acampados em frente a Tróia, antes de nova onda de ataque. Tersites é um dos soldados que reclamam e lamentam a sorte dos gregos nos dez anos de guerra contra Tróia, dando suas explicações das possíveis razões porque ainda a guerra não foi liquidada.

Curtam o trechinho que selecionei.


(…) Dizem que Aquiles se ofendeu  terrivelmente, porque Agamêmnon devolveu aos pais aquela escrava, como é mesmo o nome dela? Briseis, Kriseis, uma coisa assim… Ele tomou isso como uma afronta, mas parece que estava mesmo apaixonado pela moça… Olha, rapaz, que isso não é nenhuma comédia.

– Para mim vens dizer isso? – Perguntou Tersites. – Sei muito bem como tudo aconteceu! Agamêmnon simplesmente tomou-lhe a escrava, entendes? Mas para ele isso não é problema, porque se apossou de tantas jóias que nem sabe o que fazer com elas, e não pode ver um rabo de saia, que… Mas chega de mulheres! Afinal, foi por causa daquela tal de Helena que a coisa toda começou, e agora essa outra… Não ouvistes? Parece que a Helena agora está arrastando a asa para o Heitor. Essa aí já foi possuída por tod mundo em Troia, até pelo Príamo, que está com um pé na cova. E nós, agora, vamos passar pela necessidade e lutar por causa de uma fulaninha dessas? Muito obrigado, mas para mim chega!

– Dizem – observou Laomedon, meio envergonhado – que Helena é muito bonita.

– Dizem, dizem – respondeu Tersites, com desprezo. – Mas já está meio passada, e além disso é uma rameira de marca. Eu não daria por ela nem um prato de feijão. Sabeis rapazes, que é que eu desejo para o tonto do Menelau? Que ganhemos esta guerra de uma vez para ele receber a mulher de volta. A beleza de Helena não passa de lenda, impostura e um pouco de pó de arroz.

– Então nós, gregos, estamos lutando por uma simples lenda? É isso, Tersites?! – perguntou Hipodamos.

– Meu caro Hipodamos – respondeu Tersites -, percebo que não enxergas a essência das coisas. Nós, gregos, lutamos, primeiro, para que a raposa velha do Agamêmnon possa encher as burras com nosso butim; segundo, para que o janotinha do Aquiles possa saciar sua imensa sede de glória; terceiro, para que o vigarista do Odisseu possa nos escorchar fornecendo o armamento; por fim, lutamos para que um bardo vulgar e corrupto, o tal de Homero, ou lá como se chame, possa glorificar, por uns trocados sujos, os maiores traidores da nação grega e, ao mesmo tempo, vilipendiar ou ignorar os verdadeiros, modestos e abnegados heróis da Acaia, heróis como vós. É isso, Hipodamos. (…)

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Greve de alunos e bônus aos professores?

Acabo de tomar conhecimento de que o magnífico reitor da Universidade de São Paulo, o senhor João Grandino Rodas, vai pagar uma gratificação de R$ 3.500,00 a professores e servidores da USP no fim deste ano. Segundo o informativo USP Destaque, na opinião do reitor o avanço da universidade nos rankings internacionais deve-se ao “esforço dos servidores com a continuidade de suas atividades sem nenhuma espécie de paralização.” O caderno Cotidiano da Folha de hoje, 14/12/2011, também dá destaque a esta notícia lembrando que o benefício, instituído em 2008, não foi concedido em 2010, quando os servidores entraram em greve e ocuparam a reitoria por 23 dias.

Diante desta notícia não há como não relacioná-la com a decisão da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (ADUSP) em não aderir à greve decretada pelos estudantes logo após a desastrosa reintegração de posse da reitoria realizada pela PM, em novembro deste ano. Claro, a associação é imediata, mas não devemos tirar conclusões precipitadas. A ADUSP não tinha como saber que o magnífico reitor justificaria a concessão do bônus com esta pérola e, além disso, após todos os eventos ocorridos na universidade nos últimos meses, a figura do reitor ficou excessivamente desgastada e contestada, portanto a concessão da bonificação poderia ser encarada como uma estratégia da reitoria na tentativa de baixar a poeira e começar o próximo ano com menos oposição entre professores e servidores.

Em seu informativo de número 339, a ADUSP se posiciona questionando aos professores se este não seria um prêmio por bom comportamento, lembrando que esta bonificação se insere na lógica produtivista, vinculada à variação dos indicadores de desempenho da universidade através da qual a reitoria decide arbitrariamente se vai ou não conceder o prêmio anual, se eximindo de negociar aumentos reais. Traduzindo mais claramente, se os professores se comportarem direitinho e abrirem mão do seu direito de greve, receberão prêmio no fim do ano, mas nada de aumentos reais.

Por mais que a decisão da reitoria em conceder a bonificação aos professores e servidores esteja desvinculada do posicionamento da ADUSP contra a greve dos estudantes, não há como negar que ela causa um tremendo mal estar entre esses dois grupos. Entre os alunos já é bastante comum a ideia de que os professores só aderem aos movimentos de reivindicação pela melhoria das condições da universidade quando na pauta consta a questão salarial. Fora das atividades letivas e quando não há greve, poucas são as reuniões entre professores e alunos para discutir a universidade. Uma maior proximidade entre estes grupos é premente para que se acabe com este mal estar que é alimentado pela reitoria. Deveríamos aproveitar este momento crítico de autoritarismo pelo qual a universidade está passando e fazer da paralização e das férias uma oportunidade para refletir e começar 2012 com propostas para que professores e alunos, ao menos, estejam remando para o mesmo lado.

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