O machista dentro de nós

Há pouco tempo conheci o blog da professora Lola Aronovich, o Escreva Lola Escreva. Ao ler muitos dos posts que ela escreve tão bem ali, constatei um fato que, para minha surpresa (e vergonha) nunca quis admitir: durante vários momentos de minha vida tive alguns comportamentos machistas. Com isso não estou dizendo que espanquei mulheres, fui fisicamente violento ou defendi que elas fossem discriminadas pelo simples fatos de serem mulheres. Não é nada disso. Mas o que ocorreu comigo foi que, conforme ia lendo o blog, consegui me identificar em algumas situações em que ela descrevia como comportamentos e pensamentos tipicamente machistas. Desde pequenas coisas, como passar adiante piadas e mensagens eletrônicas de conteúdo claramente machista (piadas de loiras ou de mulheres dirigindo, imagens onde mulheres aparecem caracterizadas como objetos, ou ainda, piadas onde o comportamento lascivo dos homens é incentivado e as mulheres aparecem figuradas como tolas), chegando até a alguns comportamentos mais reprováveis como o Homexplicanismo ou a incrível dificuldade em aceitar um “NÃO” de uma mulher, preferindo imaginar inúmeras explicações para aquele “não”, atribuindo à ela o problema e não a mim ou a uma simples falta de interesse naquele momento.

Claro, a primeira reação quando você flagra um comportamento indesejado e vergonhoso, como o machismo,  é o de tentar justificar-se ou, pior ainda, negá-lo tentando provar que os outros é que estão errados e que o que você fez ou pensou não é machismo coisa nenhuma. O problema é que ao encarar a dura realidade, ao deparar-se consigo mesmo e sua consciência, você sabe que foi realmente machista. A verdade é que a grande maioria de nós tenta esconder os comportamentos e ideias machistas que há dentro de cada um, mas vez ou outra eles se revelam e, mesmo que seja só em pensamento, eles estão lá e se não nos policiarmos, buscando identificá-los e conhecê-los, eles vão sair em forma de ações machistas e, ao menos para mim, isso é intolerável. É por isso que o blog da Lola tem sido bastante importante para mim neste sentido: identificar, reconhecer e evitar.

A explicação mais fácil a qual recorremos para justificar comportamentos e pensamentos machistas recai, quase sempre, na maneira como fomos criados, transferindo para nossas mães a culpa de agirmos tão mal com as mulheres. Explicação fácil, mas igualmente equivocada e também carregada de machismo. Equivocada porque a educação cabe sim à família, que é composta pelo pai e pela mãe e não só pela mãe, a quem muitos homens atribui a educação por puro comodismo e por não desejarem assumir seu papel na criação de seus filhos. Mas além da família, outras instituições como a escola e a Igreja, por exemplo, são responsáveis pela educação do indivíduo. Instituições estas que refletem em sua própria estrutura as características de uma sociedade ainda bastante machista, mesmo com os avanços das últimas décadas. Desta forma, entendo que a culpa de nosso comportamento machista não pode ser simplesmente atribuído a nossas mães, mas de toda uma sociedade e suas instituições criadas por machos e para machos. A mudança desta sociedade tem sido lenta, gradual e ainda deverá demorar décadas até que TODAS as mulheres tenham, de fato, um tratamento igual ao do homem pelo conjunto da sociedade. Ainda não recebem este tratamento e exemplos dessa diferença não faltam. A violência doméstica segue fazendo vítimas e seus algozes continuam impunes; a diferença salarial entre homens e mulheres exercendo o mesmo cargo ainda persiste; a tolerância com a infidelidade masculina continua excessivamente alta, enquanto mulheres morrem por adultério; isso para não mencionar os constantes casos de homicídios de mulheres que decidiram simplesmente colocar um fim em seus relacionamentos fracassados, enfim, exemplos não faltam.

Para concluir, não vejo outro remédio contra o machismo vigente em nossa sociedade que não o mesmo prescrito para os crimes de ódio, isto é, EDUCAÇÃO. Enquanto a sociedade não se reconhecer como machista, mudar suas leis e educar para combater este mal, vamos continuar vendo esses crimes horrorosos dia após dia e, tal como ocorreu comigo, identificar apenas posteriormente alguns comportamentos vergonhosos que porventura tenhamos cometido em nossas vidas. Pessoalmente, não vou me contentar em apenas identificar e sentir vergonha do que passou. Estou comprometido em continuar lendo e me informando cada vez mais sobre o assunto para poder me policiar e evitar estes comportamentos e ideias que estão introjetados em minha pessoa.

Cabe aqui um agradecimento a Lola, por seu blog, e a algumas amigas que passaram pela minha vida sempre me desafiando com seus conhecimentos e me ensinando com a independência de suas posições e a convicção de estarem fazendo o que é correto. Queria dedicar este post especialmente a minha amiga Liana.

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4 Comentários

Arquivado em Pensamentos

4 Respostas para “O machista dentro de nós

  1. Liana

    Ahhh, muito legal!!! Fico contente por você e espero poder ter contribuído um pouco para sua auto reflexão. Grande beijo.

  2. Renata Vilela

    Em primeiro lugar parabéns pela reflexão! É claro que nós mulheres gostaríamos que isso fosse comum entre os amigos intelectuais, progressistas, etc., mas não é. Logo, parabenizo você por ler e escrever sobre o machismo, incentivando mulheres e homens a se juntar a nossa causa.

  3. Pingback: Total apoio ao Coletivo Feminista Marias Baderna | Hum Historiador

  4. È um alento um depoimento como o seu. O machismo, a meu ver, é a pior mazela atual para os relacionamentos saudáveis entre as pessoas. Muito difícil de se combater por estar enraizado historicamente e ser tão comum que é “aceito” como “natural”.

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