O negócio da Univer$idade no Brasil

Lendo o jornal de domingo, uma notícia me chamou a atenção: Sem-diploma perdem 20% da renda nos Estados Unidos nos últimos cinco anos. A reportagem de Luciana Coelho, publicada no caderno Mundo da Folha de S.Paulo, divulga os resultados de uma pesquisa conduzida por dois economistas que saíram do Conselho de Acessores Econômicos de Barack Obama, Michael Greenstone e Adalm Looney.

Segundo o estudo, a crise atual apenas exarcebou uma tendência anterior de desvalorização dos salários de homens de 25 a 64 sem diploma universitário nos Estados Unidos que passaram a ganhar 20% nos últimos cinco anos. Na opinião dos autores do estudo as razões por trás dessa desvalorização é o dinamismo na economia estadunidense, que “depreciaram as habilidades de parte dos trabalhadores”, além do chamado “Outsourcing”, que é a exportação de empregos por companhias que buscam mão-de-obra barata ao redor do mundo.

A reportagem revela um pensamento comum nas sociedades atuais que transformou o papel da Universidade nesses dois últimos séculos: um título universitário serve para aumentar a renda de seu diplomado. No Brasil este novo papel da Universidade ficou evidente com a proliferação das universidades privadas a partir da década de 1990. Oculto por trás de um discurso de aumentar a oferta de vagas do ensino superior a uma demanda reprimida pela incapacidade das universidades públicas em suprir essas vagas, estava uma excelente oportunidade de negócio de milhões e mihões de reais: o ensino superior. Liberadas à vontade pelo Governo Tucano através do Ministério da Educação, as concessões de novas faculdades enriqueceram muitos empresários que pouco se preocupavam com a qualidade do ensino de seus cursos, o que importava mesmo era erguer novos prédios com muitas salas de aula e garantir que os vestibulares não reprovassem ninguém. Pronto, estava descoberta a fórmula de fazer dinheiro.

Na outra ponta deste negócio, milhares e milhares de trabalhadores brasileiros que não tinham acesso às universidades públicas, cativados pela promessa de melhores salários e pelo sonho de um diploma universitário, decidiram investir grande quantidade de dinheiro na compra de um título de graduação parcelado em quatro anos. A consequência óbvia deste processo é, por um lado, o endividamento da classe trabalhadora e, por outro, a manutenção de uma mão-de-obra desqualificada, já que a qualidade dos cursos de grande parte das universidades privadas não é capaz de preparar seus estudantes para as demandas de um mercado cada vez mais exigente.

Curiosamente, pela carência absoluta de mão-de-obra qualificada, o mercado acaba absorvendo estes profissionais inaptos oriundos das universidades privadas e acaba, ele mesmo, formando sua mão-de-obra. Ou seja, a passagem de um indivíduo pela Universidade só serviu para duas coisas: enriquecer os negociantes da educação e realizar o sonho do título universitário. Ao menos esta última é legítima.

Passou o momento de discutirmos qual o real papel da Universidade em nossa sociedade. Algumas perguntas, cujas respostas já sabemos, precisam estar na cabeça de todos: será mesmo que as universidades públicas são incapazes de suprir a demanda de vagas do ensino superior no Brasil? A quem interessa esse número absurdo de cursos superiores sem nenhuma qualidade? Porque o Governo não compromete uma maior fatia do PIB com a educação ao invés de terceirizá-la a iniciativa privada? A formação da mão-de-obra para o mercado deve passar necessariamente pela Universidade? Qual a razão do mercado valorizar tanto um título universitário, mesmo que estes títulos sejam de instituições sem qualidade?

Enquanto estas e dezenas de outras perguntas não forem parte da preocupação diária das pessoas envolvidas com a educação superior no Brasil, continuaremos com o mesmo quadro de deterioramento que aí está. A universidade pública vai perdendo qualidade por falta de investimento, o número de vagas nas universidades privadas vai aumentando e, para piorar tudo, há ainda a campanha de privatização das principais universidades públicas do país, como é o caso das três universidades estaduais de São Paulo: USP, Unicamp e UNESP, que vem passando por um processo camuflado de privatização no qual, cada vez mais, vão surgindo cursos pagos com professores destas universidades dentro do próprio campus.

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