Folha Transparência e Wikileaks

Claramente inspirado no Wikileaks, o grupo Folha tem um projeto chamado Folha Transparência que é uma ótima fonte de pesquisa para os historiadores, especialmente aqueles que dedicam-se à História do Brasil Contemporâneo.

Segundo reportagem do próprio jornal, a partir de julho de 2011 o grupo teve acesso a milhares de telegramas confidenciais produzidos pelo corpo diplomático do Itamaraty e selecionou pouco mais de 15 mil páginas para divulgar. Até o momento foram publicados no site do projeto 1964 telegramas sigilosos produzidos entre 1973 e 2001 por representações brasileiras. A Folha define seu projeto como “um conjunto de iniciativas, nas esferas administrativa e judicial, para divulgar documentos e informações de interesse da sociedade sob guarda do poder público.”

Ao entrar no site, além do mecanismo de busca para localizar telegramas de acordo com seu interesse de pesquisa, você também pode navegar por documentos pré-selecionados ou por notícias já publicadas pelos jornais do grupo, como por exemplo, a notícia publicada em 16/10/2011 sob a manchete “Brasil ajudou ‘anjo da morte’ argentino, dizem documentos”.

Apenas para dar um exemplo de como funciona o mecanismo de busca do site, ao digitar a palavra-chave Pinochet, obtivemos como resultado 32 telegramas produzidos, especialmente pela embaixada brasileira no Chile, durante a ditadura do General Augusto Pinochet entre as décadas de 70 e 90. Um dos telegramas que vieram como resultado, foi este, produzido em 1975, com a descrição de que o Brasil defendeu no México os interesses do governo Pinochet. Ao consultar outros telegramas que surgiram na pesquisa, vemos que o México não reconhecia o governo Pinochet, que chegou ao poder após o golpe que depôs Salvador Allende, e o Chile solicitou ajuda do Brasil para intermediar as relações internacionais com o México e buscar o reconhecimento daquele governo. Em troca, o Brasil receberia do governo chileno total apoio a candidatos brasileiros a cargos em organismos internacionais.

Apesar de ser um ótimo instrumento de pesquisa e fonte para produção de conhecimento sobre o período de 1973-2001, não podemos nos abdicar de criticar o projeto da Folha Transparência questionando-os qual foi o critério de seleção das 15266 páginas e da divulgação dos 1964 telegramas. Se o objetivo do projeto é divulgar documentos e informações de interesse da sociedade sob guarda do poder público, como dizem em seu site, então cabe perguntar porque o projeto Folha Transparência não passou adiante TODOS os telegramas a que tiveram acesso e se houve alguma intervenção do governo brasileiro solicitando que não se publicasse alguns dos telegramas a que o projeto teve acesso (leia-se censura). Seguramente, esta relação entre o grupo Folha e o Itamaraty e a seleção de quais documentos podem ser publicados no site sem prejuízo para o Governo é o que difere o projeto Folha Transparência do Wikileaks.  Independentemente disso, tendo consciência dos problemas inerentes desta fonte, ainda podemos aproveitar o potencial de pesquisa que ela tem a nos oferecer.

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