Greve de alunos e bônus aos professores?

Acabo de tomar conhecimento de que o magnífico reitor da Universidade de São Paulo, o senhor João Grandino Rodas, vai pagar uma gratificação de R$ 3.500,00 a professores e servidores da USP no fim deste ano. Segundo o informativo USP Destaque, na opinião do reitor o avanço da universidade nos rankings internacionais deve-se ao “esforço dos servidores com a continuidade de suas atividades sem nenhuma espécie de paralização.” O caderno Cotidiano da Folha de hoje, 14/12/2011, também dá destaque a esta notícia lembrando que o benefício, instituído em 2008, não foi concedido em 2010, quando os servidores entraram em greve e ocuparam a reitoria por 23 dias.

Diante desta notícia não há como não relacioná-la com a decisão da Associação dos Docentes da Universidade de São Paulo (ADUSP) em não aderir à greve decretada pelos estudantes logo após a desastrosa reintegração de posse da reitoria realizada pela PM, em novembro deste ano. Claro, a associação é imediata, mas não devemos tirar conclusões precipitadas. A ADUSP não tinha como saber que o magnífico reitor justificaria a concessão do bônus com esta pérola e, além disso, após todos os eventos ocorridos na universidade nos últimos meses, a figura do reitor ficou excessivamente desgastada e contestada, portanto a concessão da bonificação poderia ser encarada como uma estratégia da reitoria na tentativa de baixar a poeira e começar o próximo ano com menos oposição entre professores e servidores.

Em seu informativo de número 339, a ADUSP se posiciona questionando aos professores se este não seria um prêmio por bom comportamento, lembrando que esta bonificação se insere na lógica produtivista, vinculada à variação dos indicadores de desempenho da universidade através da qual a reitoria decide arbitrariamente se vai ou não conceder o prêmio anual, se eximindo de negociar aumentos reais. Traduzindo mais claramente, se os professores se comportarem direitinho e abrirem mão do seu direito de greve, receberão prêmio no fim do ano, mas nada de aumentos reais.

Por mais que a decisão da reitoria em conceder a bonificação aos professores e servidores esteja desvinculada do posicionamento da ADUSP contra a greve dos estudantes, não há como negar que ela causa um tremendo mal estar entre esses dois grupos. Entre os alunos já é bastante comum a ideia de que os professores só aderem aos movimentos de reivindicação pela melhoria das condições da universidade quando na pauta consta a questão salarial. Fora das atividades letivas e quando não há greve, poucas são as reuniões entre professores e alunos para discutir a universidade. Uma maior proximidade entre estes grupos é premente para que se acabe com este mal estar que é alimentado pela reitoria. Deveríamos aproveitar este momento crítico de autoritarismo pelo qual a universidade está passando e fazer da paralização e das férias uma oportunidade para refletir e começar 2012 com propostas para que professores e alunos, ao menos, estejam remando para o mesmo lado.

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Universidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s