Roda-Viva: sobre jornalismo e vergonha alheia

Em janeiro de 2004, quando São Paulo completava 450 anos, o famoso programa Roda-Viva, da TV Cultura, decidiu chamar o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, que oportunamente lançava seu livro A Capital da Solidão: uma história de São Paulo das origens até 1900, para falar da história da cidade de São Paulo. Que jornalistas escrevem bem e tem um senso de oportunismo mais apurado que historiadores na hora de escolherem seus temas e lançarem seus livros, disso não temos dúvidas. Eduardo Bueno e Laurentino Gomes estão aí na praça com seus milhões de cópias vendidas e falam por si só. Não é sobre isso que quero falar neste post. Aqui vou falar é de vergonha alheia, que foi o que senti quando vi este programa.

Curiosamente, embora o programa fosse discutir um livro que trata sobre História de São Paulo, a bancada de entrevistadores não contou com nenhum historiador. O mais próximo disso eram dois arquitetos da Universidade de São Paulo, únicos a puxar um pouco pra cima o nível do programa. Aliás, não foi a primeira vez que isso aconteceu. Parece ser um problema comum e recorrente do Roda-Viva, que dificilmente convida historiadores para compor sua bancada, mesmo quando o assunto do programa é História. Não sei a explicação, talvez tenham medo de que os historiadores vão melar o programa, ou então, quem sabe não são os próprios entrevistados que solicitam para que não haja algum especialista da área. Vai saber.

O problema é que, por mais esforçados que fossem os convidados da bancada, evidentemente o programa deixou muito a desejar. Em geral as perguntas foram tolas e o programa todo serviu muito mais para promover o livro e o entrevistado do que para falar sobre a história de São Paulo, que era o objetivo inicial. Prova cabal da tolice das perguntas feitas ao entrevistado [e é aqui que entra a vergonha alheia que senti ao ver o programa], é sintetizada pela pergunta do jornalista Ricardo Soares, da TV Cultura, na qual ele busca saber do entrevistado sua opinião pessoal sobre o verdadeiro papel dos bandeirantes na História do Brasil. Por mais que ele tenha elaborado a pergunta, no fim ela acabou soando como: Roberto, o que você acha dos Bandeirantes: mocinhos ou bandidos?

Não dá pra continuar assistindo ao programa depois desta pergunta. Claro que o jornalista pode alegar em sua defesa o nível de conhecimento de História do Brasil da audiência, jogando no colo dos telespectadores a estupidez de sua pergunta. Mas por mais que ele tente fazer isso, é impossível não assistir esse trecho da entrevista sem se envergonhar por ele. Como não ficar todo vermelho ao ver a cara de pateta de quem acha que fez uma pegunta muito inteligente e revelou ao povo brasileiro e paulista como os heróis que dão nome às nossas estradas são, na verdade, grandes vilões? Impossível!

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