Música gospel e Lei Rouanet: a verdadeira pornografia

Dia 09/01/2012 não ficou marcado “apenas” pela agressão do policial ao estudante da USP, mas também pelo fato de a presidenta Dilma Rousseff ter sancionado Lei que transformou a música gospel em manifestação cultural.

A alteração na lei número 8.313, também conhecida como Lei Rouanet, incluiu o artigo 31-A, que diz textualmente: “Para os efeitos dessa Lei, ficam reconhecidos como manifestação cultural a música gospel e os eventos a ela relacionados, exceto aqueles promovidos por igreja.”

Na prática, essa alteração permite que a música gospel e eventos relacionados com este segmento sejam beneficiados por incentivos fiscais. Isso mesmo, a partir de agora, dinheiro do contribuinte poderá ser utilizado para financiar shows e demais eventos de música gospel.

Para mim foi impossível não relacionar a alteração da Lei Rouanet com notícia que abalou o mundo evangélico nesta semana, divulgada na Revista Salvador e que chegou a mim através do blog do Marcelo Rubens Paiva: o PORNÔ GOSPEL. Segundo a reportagem, os organizadores da indústria cinematográfica pornô-cristã, revelaram que os filmes produzidos deverão ser fundamentados no maior respeito, chegando a estabelecer regras para as filmagens (abaixo segue link para reportagem da revista na íntegra).

A relação pode não parecer óbvia, mas para este que vos fala a verdadeira pornografia gospel foi a alteração da Lei Rouanet e não esta besteira de indústria pornográfica cristã. Vai dizer que não é uma baixaria saber que daqui por diante, amparadas por esta lei, as milionárias Igrejas neo-petencostais vão recorrer a dinheiro público para bancar seus eventos? Já houve quem me dissesse que essa alteração não passou de uma questão de igualdade de tratamento, uma vez que a Lei de Incentivo já considerava como manifestação cultural músicas ligadas a outras denominações religiosas, tais como músicas afrobrasileiras ligadas ao candomblé. Acho desnecessário me aprofundar muito em dizer que tal comparação é descabida, seja pela quantidade de dinheiro movimentada por produções ligadas ao Candomblé e as produções dos evangélicos, seja pela riqueza da cultura africana e afrobrasileira quando comparada com a assim denominada “cultura gospel”.

Já recebi mensagens de evangélicos trazendo definições de dicionários para o verbete “cultura”, justificando e comemorando a sanção da nova lei. Embora eu mesmo reconheça que a definição seja própria para a produção deste grupo específico de pessoas, ainda assim não concebo que a Lei Rouanet incentive eventos de música gospel. Em país que se diz laico, injetar dinheiro público em eventos religiosos é, além de uma grande contradição, uma verdadeira pornografia.

ARTIGOS RELACIONADOS:

Íntegra da Lei 12.590, de 09 de janeiro de 2012

Folha – Dilma sanciona artigo que fortalece música gospel na Lei Rouanet

Marcelo Rubens Paiva – Oh! God.

Revista Salvador – Filme pornô cristão

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1 comentário

Arquivado em Cultura, Música

Uma resposta para “Música gospel e Lei Rouanet: a verdadeira pornografia

  1. Ricardo Miguel

    Como você mesmo citou o “exceto aqueles promovidos por igreja”, acho que houve uma contradição sua, pois é o cantor que buscará angariar recursos para desenvolver o seu trabalho, certo? Um abraço!

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