A obscenidade da F1, a fome e Sísifo

Nesta semana muita gente festejou a notícia de que Bruno Senna vai permanecer por mais um ano no circo da Fórmula 1, após ter conseguido uma vaga na escuderia Williams. Infelizmente não posso celebrar tal notícia ao tomar conhecimento de que foi necessário comprar, à peso de ouro, esta vaguinha no cockpit da Williams. Nada contra Bruno Senna, que até parece ser um rapaz simpático e é só mais um que usa do expediente de recorrer a patrocinadores bilionários que tem na Fórmula 1 o seu hobby. Outro brasileiro que fez o mesmo no passado foi Pedro Paulo Diniz, filho de ninguém menos do que Abílio Diniz.

No caso mais recente, o negócio foi realizado por um pool de bilionários formado por OGX (Eike Batista), MRV (Rubens Menin) e Embratel (Carlos Slim), além da Procter & Gamble. Segundo levantou a reportagem da Folha de S. Paulo, especula-se que o valor para garantir a permanência de Bruno Senna na Fórmula 1 tenha girado em torno dos R$ 30 milhões.

A verdade é que essa notícia me passaria despercebida, não fosse uma frase bastante infeliz proferida meses atrás por Eike Batista, sobre o que pretende fazer em relação à sua fortuna pessoal depois de compará-la à de seu colega (e copatrocinador de Bruno Senna), Carlos Slim: “Preciso competir com o senhor Slim. Não sei se vou ultrapassá-lo pela direita ou pela esquerda, mas vou passá-lo.”

A ultrapassagem a qual Eike Batista se refere não tem nada a ver com Fórmula 1. Segundo a Forbes, o Sr. Batista seria o oitavo homem mais rico do planeta, com uma fortuna pessoal estimada em US$ 30 bilhões, enquanto seu concorrente mexicano, dono de Claro, Embratel e Net, dentre outras, é o homem mais rico com uma fortuna estimada em US$ 72 bi.

Os números das fortunas dos senhores Batista e Slim, além de OBSCENOS, servem para explicitar AINDA MAIS a crueldade do sistema em que vivemos, especialmente por estes indivíduos virem de países tão marcados por injustiças sociais.

As normas do CAPITALISMO regem, como há séculos estamos aprendendo pela experiência,  que para ser possível a existência de alguns Batistas e Slims ao redor do mundo, é condição sine qua non a co-existência de milhões de pessoas vivendo na mais absoluta miséria. E, para não deixar de lembrar aqui o saudoso MILTON SANTOS, este desejo de Eike Batista em acumular mais outros tantos bilhões de dólares,  para ultrapassar seu concorrente nessa verdadeira competição macabra, escancara de vez que a questão da fome no mundo não deixa de ser uma questão de decisão. Apenas decidimos que alguns não devem comer. É, portanto, uma opção. Nós decidimos que seja assim.

Gosto demais da frase extraída do livro de JOSUÉ DE CASTRO, o Geopolítica da Fome, escolhida para abrir o trecho selecionado do vídeo acima: “A humanidade está dividida em dois grupos: o grupo dos que não comem e o grupo dos que não dormem, com receio da revolta dos que não comem.” 

O grande problema é que este segundo grupo conseguiu convencer o primeiro de que, para garantir a segurança de todos, eles deveriam deter o monopólio da violência. Não por acaso, todas as revoltas populares são reprimidas com extrema violência pelo braço armado que o grupo dos que não dormem criou para defender seus próprios interesses. Isso para não mencionar que este grupinho seleto conta ainda com o apoio inestimável de outros indivíduos, cooptados a fazer parte do grupo com o propósito de executarem a estratégica tarefa de se comunicar com “a ralé”.

O papel destes últimos é fazer com que os milhões e milhões que não pertencem ao grupo dos Batistas e Slims, acreditem na ilusão de que, se trabalharem duro e batalharem pra valer por toda a vida, talvez um dia possam fazer parte da patotinha. Estes agentes de que estou falando são ninguém menos do que os Marinhos, os Civitas, os Mesquitas, os Frias e toda essa gente boa que nos diz, cotidianamente, o que devemos assistir, ler e comprar, ou ainda, como devemos nos comportar e, até mesmo, o que devemos pensar a respeito de tudo o que acontece no mundo. Tal como no ensaio filosófico do mito de Sísifo, de Albert Camus, ao invés de nos rebelarmos, seguimos empurrando nossa pedra para cima do morro só para vê-la rolar para baixo e, no dia seguinte, voltar à árdua tarefa de empurrá-la novamente até o topo.

No capitalismo fomos transformados em seres condenados a realizar diariamente uma mesma tarefa enfadonha e sem sentido: viver.

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