Denúncias de arapongagem na USP

A edição de janeiro da revista Fórum trouxe matéria especial revelando um esquema de espionagem de alunos e funcionários que teria sido tocado pela reitoria da USP. A revista informa que obteve um documento que relata atividades de estudantes, professores e trabalhadores da universidade, monitoradas durante 28 dias nos quais se discutia um movimento de greve. Os espiões contratados pela reitoria, identificados como “sala de crise da USP”, conseguiram acesso a informações que, de acordo com sindicalistas, teriam circulado somente em reuniões muito restritas, o que sugere a utilização de métodos pouco “ortodoxos” de investigação.

A reportagem relembra que no final de outubro, logo após a Polìcia Militar ter efetuado a prisão de alguns alunos por posse de maconha dentro do campus universitário, foi iniciada uma grande polêmica que desencadeou na ocupação do prédio administrativo da FFLCH e, em seguida, da própria reitoria da USP. Discutia-se a revogação do convênio entre a PM e a universidade, o fim dos processos administrativos contra alunos, professores e funcionários e um novo regimento geral para a USP. Tais pontos estão diretamente relacionados com com a necessária independência do campus, como bem lembra a reportagem que nos pergunta: Que outra universidade de país democrático tem polícia armada no seu campus?

Infelizmente, além da presença de polícia armada no campus,  a USP parece também ser uma das poucas que, em um país democrático, mantém um esquema de arapongagem de alunos, professores e lideranças de trabalhadores. A denúncia é baseada em um relatório da greve de abril de 2010 produzido pela dita “sala de crise da USP” e enviado ao responsável pela segurança no Campus, Ronaldo Pena, diretor  da divisão técnica de operações e vigilância da Coordenadoria do Campus (Cocesp). Segundo a matéria, este relatório mantém o padrão daqueles produzidos por agentes do Serviço Nacional de Informação à época da Ditadura Militar.

Em notícia divulgada no site SpressoSP, o professor aposentado do Departamento de Filosofia, Paulo Arantes, avalia o caso e revela: “É curioso, mas totalmente coerente com as medidas até agora implantadas pelo reitor João Grandino Rodas. A reitoria da universidade hoje, toda ela, não só o Rodas, é uma organização criminosa. Tem muito mais coisa a se averiguar”.

O professor Arantes ainda sugere que uma investigação detalhada seja feita e, obrigatoriamente, passe pela questão de como está sendo investido o dinheiro da Universidade. “O grande problema hoje é saber o que acontece com o orçamento da USP, o que a reitoria faz com ele. A maior universidade do país nada em dinheiro, mas não contrata, não faz nada a não ser serviços de zeladoria dentro do campus. Por que isso? O esquema da arapongagem é mais um elemento na luta contra a reitoria, pois evidencia mais uma de suas ferramentas, mas gostaria de ver uma investigação sobre o dinheiro”.

Para quem é aluno da USP e participa da militância política, não surpreendem as denúncias levantadas pela revista Fórum. Eu mesmo fui testemunha de alunos sendo fotografados durante suas participações em assembléias e, pior ainda, vi uma colega que participou ativamente na negociação para a desocupação da reitoria neste último episódio de novembro, ser perseguida pela Polícia durante a truculenta reintegração de posse levada á cabo pelo Choque. Ela nem estava na ocupação no dia da reintegração e, mesmo assim, acabou sendo presa durante a operação, quando foi levada à delegacia para ser criminalizada por suas ações políticas.

Para o filósofo também não é novidade que alunos e funcionários sejam fotografados durante assembleias, até porque, pelo número de pessoas presentes, fica difícil o controle. O problema é quando as reuniões são menores, pois “Há grampos, e com isso tem que se tomar cuidado.” O professor Paulo Arantes ainda lembra algo que era defendido por Milton Santos, que dizia que os dirigentes só se preocupam com a ordem patrimonial, ou econômica. “Quando dizem que estão perturbando a ordem, se referem apenas a ordem patrimonial”. E conclui: “Quem me dera fazer parte de um partido que realmente ameaçasse o capitalismo como alegam. Quanto a isso, nós estamos comendo poeira ainda”.

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Arquivado em Política, Revistas, Universidade

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