Higienização pode estar em andamento na comunidade São Remo

João Grandino Rodas

Reitor da USP, João Grandino Rodas, em cartoon de Carlos Latuff

Uma notícia bastante preocupante foi publicada hoje no caderno Cotidiano da Folha de S. Paulo sob a manchete USP QUER QUE GOVERNOS REURBANIZEM FAVELAS VIZINHAS A SEU CAMPUS.

Na curta reportagem de FÁBIO TAKAHASHI e JULIANNA GRANJEIA, somos informados de que o reitor João Grandino Rodas, solicitou ao Estado e à prefeitura a reurbanização de favelas no entorno da USP, pois avalia que a instituição tenha que dar atenção às mais de 3.000 famílias que vivem nas favelas São Remo e Carmine Lourenço. Para isso, o reitor teria afirmado que a universidade daria todo o apoio técnico a iniciativa.

Conhecendo o magnífico reitor como só os alunos da USP o conhecem, toda essa boa vontade está cheirando muito mal. Some-se a isso as recentes atuações dos governos municipal e estadual na “reurbanização” de algumas áreas da cidade, e logo justifica-se um forte receio da possível retirada de famílias de uma região TÃO VALORIZADA como a do Butantã. Especialmente após a chegada da linha amarela do metrô ao bairro.

Segundo a reportagem, um protocolo de cooperação já foi assinado em dezembro por USP, governo estadual e prefeitura, sendo o objetivo inicial deixar pronto até março de 2012 o levantamento parcial patrimonial e o potencial de ocupação.

Questionado por Takahashi e Granjeia, o coordenador da associação de moradores da comunidade São Remo, Givanildo Santos, demonstrou toda sua preocupação ao deixar para os leitores a seguinte pergunta: “Será que eles não querem tirar as pessoas de um terreno valorizado?”.

Cartoon de Frank ironiza o alvo preferido dos executores da justiça em São Paulo.

Embora João Grandino Rodas negue, é melhor deixarmos nossas barbas de molho, pois Alckmin e Kassab tem dado mostras recorrentes de que estão à serviço da especulação imobiliária em São Paulo. Além disso sabemos que se tiverem uma só oportunidade de retirar essa “gente diferenciada” de bairros valorizados para ganhar muito dinheiro, não hesitarão sequer um minuto.

Portanto, embora São Remo e Carmine Lourenço possam parecer comunidades difíceis de serem expulsas da região onde se encontram, as notícias nos dão indícios claros de que estamos no caminho de mais uma “higienização” em São Paulo.

OUTROS TEXTOS RELACIONADOS:

Anúncios

20 Comentários

Arquivado em Jornais, Política, Universidade

20 Respostas para “Higienização pode estar em andamento na comunidade São Remo

  1. Pr. Vandir Allas

    Nada há mais certo e justo. O terreno, certamente, tem dono e foi invadido. Os imóveis vizinhos, comprados com dificuldade e suor dos seus proprietários são desvalorizados com a vizinhança das favelas. Acredito que o Sr. Rogério e os leitores não gostariam de ter uma favela ao lado de sua casa. Deve a prefeitura construir conjunto habitacional, com toda a infra-estrutura, e transferir as famílias.

    • Patricia

      Vandir Allas, não é somente os imóveis vizinhos que compraram seus imóveis com dificuldade e suor! Aqui na São Remo também tem muita gente trabalhadora e que também conseguiu comprar uma casa aqui com muita dificuldade porque é que seu orçamento permite! Ou você acha que muitas pessoas moram aqui porque querem?

  2. Vc é pastor, Valdir? Bem superficial vc hein?

  3. Não sei nem por onde começar a responder, especialmente porque moro na região do Capão Redondo, na famosa M’ Boi Mirim, e notei um certo tom desabonador (pra dizer o mínimo) no trecho “Acredito que o Sr. Rogério e os leitores não gostariam de ter uma favela ao lado de sua casa”.

    Nada mais estranho do que ver um pastor que não gosta de ovelhas e não segue os preceitos daquele que ele diz seguir, mas acho que esta é a regra em um meio tão descuidado dos valores espirituais e mais preocupado com os materiais. Mesmo em uma situação hipotética, defender a propriedade de uns poucos em detrimento de milhares que serão expulsos e com extrema violência e não terão onde morar, deveria ser incabível para um religioso, mas como vemos constantemente, e ficou bem claro acima, não é.

    Enfim, a situação de São Remo não é a mesma de Pinheirinho, Pastor Valdir. Ali a situação é regularizada e estamos falando de um bairro constituído há anos e anos em São Paulo. Sugiro se informar sobre o bairro para podermos debater melhor.

    • Laura da Silva Gonçalves

      Muito bom Rogerio o seu comentário a respeito da postagem do Pr. Vandir Allas ,que diz: -( Deve a prefeitura construir conjunto habitacional, com toda a infra-estrutura, e transferir as famílias.) com certeza ele quer dizer para um lugar bem longe do Butantâ; Esse comentário é um absurdo, nós também suamos, lutamos, trabalhamos muito para construir nossas moradias..Tem famílias que estão aqui a muito mais de 40 anos, só a associação de moradores da São Remo existe a 40 anos, ela foi fundada e registrada em cartório em 15/01/1972.
      Aqui construímos nossa vida, Criamos nossos filhos e netos, tudo que temos esta aqui, a nossa estória esta aqui..
      E agora que o bairro esta super valorizado eles querem nos expulsar, nos excluir, isso não é justo!!!

      • Olá Laura,

        Com certeza não é justo e desde já saiba que muitos alunos da graduação e pós-graduação da USP, além de professores, lutarão para que vocês não sejam expulsos de suas casas. Eu e este blog sempre estaremos do lado de quem luta por moradia digna. Acho que a ocupação é um instrumento legítimo de luta e dou todo meu apoio.

        Um beijo pra você e toda a força para que continuem criando suas famílias em São Remo.

    • Laura da Silva Gonçalves

      Muito obrigado Rogério, por estar abrindo esse espaço no blog, falando dos problemas da comunidades,somos trabalhadores, infelizmente com salário de R$ 622,00 como é o caso de muitos aqui, não tem como comprar uma residencia, mal da para colocar o alimento no prato, aqui pagamos água/ esgoto e luz, só ai já vai quase R$ 100,00,
      não somos oportunistas, apenas temos uma classe social mais baixa, mais temos dignidade, somos trabalhadores, a maioria dos moradores daqui é funcionários terceirizados e concursados da Universidade.
      E achei um absurdo, um pastor que é um cervo(representante) de Deus que tem que pregar o amor ao próximo como Deus nos ensinou, sem discriminação de cor, raça ou classe social, fazer comentários tão preconceituosos,
      Aqui na São Remo(No terreno do estado, USP) existe 5 igrejas evangélicas e a católica, e tanto aqui como em outras fora que já frequentei os pastores, ancião ou padre sempre pregaram o amor e não de preconceito.
      Foi muito infeliz o comentário do pastor.
      PRECONCEITO É CRIME.

  4. Pr. Vandir Allas

    Amados Srs. JOSUÉ e ROGÉRIO,

    Permita-me lembrá-los que eu não estou em discussão. Ao invés de críticas à minha pessoa, otimizaria este espaço a postagem de informações acerca da San Remo. Todavia, para não deixá-los falando sozinhos…

    Sei que a San Remo é antiga e que a área é pública (USP).

    Seja qual for a situação, mesmo que regularizada, a minha visão é a mesma. Afinal, o que é regularização? É pagamento pela invasão da área alheia? E os proprietários dos imóveis vizinhos, desvalorizados, foram ressarcidos? Se não e não, ainda que legalmente regularizada, é imoral.

    Reitero a minha afirmação em relação à vizinhança. Ninguém deseja uma favela vizinha à sua casa. Ou os Srs. desejam?

    Por amar as minhas ovelhas ensino-as a não invadir propriedade alheia. Foi assim que, após 1954, quando meus pais e cinco filhos migramos para Sampa, vivemos e lutamos, trabalhando de dia, desde 9, 10 anos de idade, e estudando à noite, pagando aluguel, sem nunca “passar a perna” em ninguém e sem pôr filhos no mundo irresponsavelmente. Aqui em SJCampos, nenhuma família da Igreja Batista invadiu o Pinheirinho.

    Defendo a desocupação das áreas invadidas, sem violência, e a realocação das famílias em conjuntos habitacionais, com infraestrutura, etc.

    Prá mim isto basta. Espero que passem a discutir o tema e não a minha pessoa

    Recebam o meu carinho,
    pr vandir allas

  5. Rogerio Beier

    Vandir,

    Do ponto de vista legal, vou deixar a palavra com José Osório de Azevedo Jr, desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo e professor de direito civil desde 1973, que escreveu o seguinte artigo sobre o Pinheirinho, na Folha de S. Paulo em 09/02/2012, mas que acredito que pode elucidar a questão quanto a função social da terra e processos de reintegração de posse.

    =============================

    AINDA O PINHEIRINHO

    Decisão judicial não se discute, cumpre-se? Apenas em casos corriqueiros, mas não quando pessoas indefesas são atingidas; o direito não é monolítico

    Os fatos são conhecidos: uma decisão judicial de reintegração de posse sobre uma favela. A ocupação começou em 2004, por pessoas necessitadas de moradia.

    Segundo a Folha, a proprietária obteve reintegração liminar em 2004. Durante um imbróglio processual, os ocupantes permaneceram. Em 2011, uma nova decisão ordena a reintegração. Foi essa a ordem que o Poder Executivo cumpriu no dia 22 de janeiro, com aparato policial, caminhões e máquinas pesadas.

    A ordem era, porém, inexequível, pois, em sete anos, a situação concreta do imóvel e sua qualificação jurídica mudaram radicalmente.

    O que era um imóvel rural se tornou um bairro urbano. Foi estabelecida uma favela com vida estável, no seu desconforto. Dir-se-á que a execução da medida mostra que a ordem era exequível. Na verdade, não houve mortes porque ali estava uma população pacífica, pobre e indefesa.

    Ninguém duvida da exequibilidade física da ordem judicial, pois todos sabem que soldados e tratores têm força física suficiente para “limpar” qualquer terreno.

    O grande e imperdoável erro do Judiciário e do Executivo foi prestigiar um direito menor do que aqueles que foram atropelados no cumprimento da ordem.

    Os direitos dos credores da massa falida proprietária são meros direitos patrimoniais. Eles têm fundamento em uma lei também menor, uma lei ordinária, cuja aplicação não pode contrariar preceitos expressos na Constituição.

    O principal deles está inscrito logo no art. 1º, III, que indica a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República. Esse valor permeia toda a ordem jurídica e obriga a todos os cidadãos, inclusive os chefes de Poderes.

    As imagens mostram a agressão violenta à dignidade daquelas pessoas. Outro princípio constitucional foi afrontado: o da função social da propriedade. É verdade que a Constituição garante o direito de propriedade. Mas toda vez que o faz, estabelece a restrição: a propriedade deve cumprir sua função social.

    Pois bem, a área em questão ficou ociosa por 14 anos, sem cumprir função social alguma. O princípio constitucional da função social da propriedade também obriga não só aos particulares, mas também a todos os Poderes e os seus dirigentes.

    O próprio Tribunal de Justiça de São Paulo já consagrou esse princípio inúmeras vezes, inclusive em caso semelhante, em uma tentativa de recuperação da posse de uma favela. O tribunal considerou que a retomada física do imóvel favelado é inviável, pois implica uma operação cirúrgica, sem anestesia, incompatível com a natureza da ordem jurídica, que é inseparável da ordem social. Por isso, impediu a retomada. O proprietário não teve êxito no STJ (recurso especial 75.659-SP).
    Tudo isso é dito porque o cidadão comum e o estudante de direito precisam saber que o direito brasileiro não é monolítico. Não é só isso que esse lamentável episódio mostrou. Julgamento e execução foram contrários ao rumo da legislação, dos julgados e da ciência do direito.

    Será verdade que uma decisão tem de ser cumprida sempre? Só é verdade para os casos corriqueiros. Não para os casos gravíssimos que vão atingir diretamente muitas pessoas indefesas.
    Estranha-se que o governador tenha usado o conhecido chavão segundo o qual decisão judicial não se discute, cumpre-se. Mesmo em casos menos graves, os chefes de Executivo estão habituados a descumprir decisões judiciais. Nas questões dos precatórios, por exemplo, são milhares de decisões judiciais definitivas não cumpridas.

    JOSÉ OSÓRIO DE AZEVEDO JR., 78, é desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de São Paulo e professor de direito civil desde 1973

  6. Rogerio Beier

    Do ponto de vista religioso, sinceramente, não vou discutir com você. Muita preguiça!!!! Se você acredita realmente naquilo que escreveu, então parece não ter entendido a mensagem daquele que o senhor diz ser representante.

    Quando disse que morava na M’Boi Mirim, pensei que tivesse deixado claro que moro NO MEIO DE MUITAS FAVELAS e nunca tive problema nenhum com isso. Estudei em escolas no meio de favelas, como professor, participei de aulas dentro de favelas, tenho amigos que moram na favela, com quem jogo futebol periodicamente, vou à casa deles e tenho uma vida com eles da mesma forma como tenho com outras pessoas que não moram em favelas. Não vejo nenhuma diferença.

    Enfim, sua pergunta “Ninguém deseja uma favela vizinha à sua casa. Ou os Srs. desejam?”, além de bastante preconceituosa, é HEDIONDA. Frases como esta demonstram claramente que quem as profere tem nojo e não consegue coexistir com pobres, e isso é inaceitável para qualquer pessoa, muito mais para um religioso. Por seu depoimento, entendi que em vez de evitar que outras pessoas tenham que sofrer o que sua família sofreu, você quer que elas sofram tanto ou mais que vocês. Ou seja, em vez de corrigir o erro, deseja a sua permanência para que outros passem pelo que passou… é um absurdo!!! É doentio. Você precisa de tratamento.

    Como milhões de brasileiros, você comprou a ideia criminosa de que os culpados de as pessoas viverem em favelas, na maior parte das vezes em locais sem a menor infraestrutura para se viver dignamente, são os próprios moradores. Não consegue perceber que estas pessoas são vítimas de um sistema que permite a existência de propriedades privadas que não servem para nada, a não ser para a especulação. Usar um argumento tão baixo e vil quanto o de que a situação de miséria dessas pessoas é, também, fruto da falta de controle de natalidade, além de demonstrar a sua ignorância sobre o assunto, novamente reforça seu preconceito e nojo de pobres. Especialmente porque logo na sequência dessa argumentação, defende que estas pessoas sejam retiradas de seus lares, mesmo se estiverem regularizados, para serem jogadas em lugares distantes (quando muito), para longe das vistas dos iluminados.

    Enfim, disse que não iria discutir e já escrevi demais. Sinto muito por você, por suas opiniões reacionárias e de caráter anti-cristãs. Acho que já deixamos claro nossas posições e não precisamos perder mais tempo por aqui.

    Passar bem,

    RB

  7. “Seja qual for a situação, mesmo que regularizada, a minha visão é a mesma. Afinal, o que é regularização? É pagamento pela invasão da área alheia? E os proprietários dos imóveis vizinhos, desvalorizados, foram ressarcidos? Se não e não, ainda que legalmente regularizada, é imoral.”

    Pelamordedeus, né.
    Pobres coitados dos proprietários com imóveis desvalorizados pela pobreza alheia. Você lá, querendo usar a piscina e aqueles pobres te enfeiando a vida. Se pelo menos eles morassem longe da vista, né.

    E se a gente, pastor, botasse eles num trem com vários vagões e mandasse eles pra bem longe? Ouvi dizer que na Alemanha, há umas décadas, tinham uns que serviam mais ou menos pra isso.

    Vou te sugerir umas leituras sobre campos de concentração. Tenho certeza que você vai conseguir bastante informações técnicas pra te ajudar na sua obra neo-nazista com os pobres.

    Você envergonha quem se dá ao trabalho de cuidar de almas.

  8. Pr. Vandir Allas

    Amados Srs. ROGÉRIO,e FILIPE,

    Infelizmente, insistem em abandonar o campo das idéias e em discutir a minha pessoa.

    Quando eu citei a minha família e a minha origem, eu não reclamei de sofrimento. Honra-me poder dizer que, sendo muito pobres e vindos do interior, nós trabalhamos e vencemos, com nossos próprios méritos e suor. Nunca invadimos propriedade alheia, mesmo aquelas ociosas. Nunca pusemos filhos no mundo, irresponsavelmente, para depois usá-los como escudo ou entregá-los a creches. Fomos criados e educados pelos nossos pais e criamos e educamos os nossos filhos. Isto não é sofrimento. É responsabilidade familiar e social.

    São três os bairros limítrofes ao Pinheirinho, em São José dos Campos,, o Campo dos Alemães, o Residencial União e o J. Imperial. São constituídos de famílias pobres, de igual origem social que as do Pinheirinho. Todavia, antes de ali morarem, pagavam aluguel e não invadiram propriedade alheia. Não se pode confundir pobreza com esperteza. As famílias dos bairros acima, todas elas pobres, há muito desejavam e aprovaram o atual desfecho do Pinheirinho. Conheço pessoalmente aquela gente e sei do que falo.

    Reitero que das duas Igrejas Batistas vizinhas (distam cerca de 400m), nenhuma família invadiu o Pinheirinho.

    Reitero ainda que ninguém gosta de favela em terreno vizinho à sua casa. Eu não confundo favela com gente pobre. Gente pobre com brio trabalha e vence, como vencemos eu, meus pais, meus irmãos e todos os moradores dos bairros vizinhos ao Pinheirinho. Tais pessoas eu quero junto a mim, pois eu sou uma delas.

    Aquelas pessoas são vítimas? Sim. São vítimas de políticos socialistas que as incentivam ao ilícito, mas o fazem apenas em cidades administradas por opositores do PT, para depois usar as imagens em campanhas eleitorais.

    Agradeço o espaço a mim cedido. Espero que seja.publicada mais esta postagem, a qual desejo ser a última, e que poupe-me de críticas pessoais, pois eu não estou em discussão.

    Recebam o meu carinho,
    pr vandir allas

  9. O HUMANISMO TRIUNFARÁ NO FINAL
    por Eduardo Guimarães
    em http://www.blogcidadania.com.br/2012/02/o-humanismo-triunfara-ao-final/

    Vivemos dias difíceis para o senso de humanidade, diriam muitos, pois exemplos de selvageria e de insensibilidade de homens contra homens se alastram como centelha em folhas secas. O novo milênio, assim, parece assistir a um revival do que poder-se-ia chamar “desumanismo”, ou perda da capacidade de se solidarizar com a dor alheia.

    Ora, não vimos impérios inconquistáveis despejaram toda a sua fúria sobre mulheres, crianças e velhos em pleno alvorecer do século XXI enquanto entoavam discursos sobre “democracia”, “justiça” e “coragem”? E não fizeram isso com orgulho, com o peito estufado e sob o aplauso de multidões catárticas?

    Por que nos espantamos, então, quando o Estado brasileiro pisoteia outros desvalidos de composição análoga à dos povos orientais enquanto é ovacionado pelas mesmas multidões tomadas por perversão análoga à necrofilia? Se o homem é capaz de fazer o que os Estados Unidos fizeram no Oriente Médio, por que não faria o que estão fazendo com os flagelados do Pinheirinho e congêneres?

    A desumanidade parece poderosa, vigorosa e vencedora, pois não? Olhando do ponto de vista histórico, porém, a resposta é negativa. A impiedade humana não diminuiu através dos séculos, mas a cada dia é mais repudiada, o que torna o mundo contemporâneo muito menos desumano do que era há um século, por exemplo.

    Tortura ou castigos físicos já foram políticas de Estado. Hoje, apesar de existirem, são ilegais. Os direitos à moradia digna, à instrução, à liberdade de expressão, entre outros, podem não ser realidade, mas ao menos existem como dogmas, quando, em outros tempos, jamais se cogitaria defendê-los publicamente.

    Em outros tempos, o Brasil chacinaria a população do Pinheirinho assim como os Estados Unidos chacinaram a população do Iraque e ninguém ligaria muito. Hoje, atender completamente aos instintos bestiais dos desumanos seria um escândalo sem precedentes e teria conseqüências, ao menos em termos de ampla reprovação pública.

    A má notícia, entretanto, é a de que o senso de humanidade da nossa espécie evolui tão lentamente que provavelmente essas pessoas que degustam o sofrimento dos mais indefesos entre os indefesos terminarão as suas vidas inúteis sem ao menos o opróbrio da sociedade.

    Mas há uma boa notícia: ao lutar contra a desumanidade, planta-se um futuro que muito provavelmente não veremos, mas que certamente terá tornado motivo de vergonha alguém apoiar um massacre social ou literal enquanto de seus lábios brotam conceitos como “democracia”, “justiça”, “estado de direito” ou “coragem”.

  10. Luana

    Bom dia! é por causa de pessoas como vc Pr. Vandir Allas que o mundo está como está!!!, melhor seria se ñ colocasse ser pastor…pq suas palavras são contraditórias as suas “boas ações” com algo em discussão que nem a você pertence…

  11. Célia Regina da Silva

    Depois de ler tudo isso e depois de “refazer meu espírito” contando até dez várias vezes pra não ceder ao impulso e abandonar o tal do campo das ideias e partir para a crítica pessoal, acho que posso dizer algumas palavras.
    Morei na Portaria 3 da USP, em um prédio de frente para a São Remo, durante quase um ano. Exercia minhas atividades na USP normalmente e nunca tive problemas para chegar em casa sã e salva mesmo em horários avançados. Nunca senti que perdia algo pela existência da Comunidade São Remo. Antes pelo contrário: Em uma época em que vivia muito fechada no mundo acadêmico, os bares cheios de trabalhadores bebendo sua cerveja ou sua pinguinha depois do trabalho faziam me sentir ainda parte deste mundo, que na sua essência é HUMANO. Afinal, ainda que o paraíso celestial um dia venha, como diz a profecia, ainda fazemos parte deste mundo HUMANO e é como HUMANOS que devemos nele agir.
    Creio que algumas pessoas ainda não entenderam que o problema da insegurança não é mais localizado e sim geral, fruto de uma sociedade doente. Não adianta querer vencer na vida através dos moldes liberais e mudar-se para os Jardins, pois mais dia, menos dia, alguém, cuja origem bairrística você desconhece por completo, vai apontar uma arma pra você e te roubar a 100m de uma guarita de segurança em plena Oscar Freire, do mesmo modo que poderia fazê-lo na São Remo ou na Cracolândia. A violência é uma questão social senhor Vandir e não de moral ou mesmo de polícia. E como toda problemática social é de uma dinâmica vertiginosa. Ela anda de ônibus e até de linha verde do metro. Vai espalhando-se por todos os lados, pois assim como uma doença degenerativa invade e compromete todas as partes de um organismo, assim também o faz uma doença social. Embora, esta seja uma visão sociológica pouco Weberiana, pois dá a impressão de não levar em conta o indivíduo, creio que serve para explicitar a questão de forma clara e distinta, como diria Descartes, a calvinistas incautos como o senhor Vandir.
    Todavia, partindo de um pressuposto teológico( é sempre bom tratar a questão sob vários pontos de vista, sob pena de ser taxado de satanista, ou coisa parecida), se acreditares, ao menos por um segundo, que o Deus que você serve se preocupou em dar a cada uma das suas criaturas uma essência única, tens de admitir que as pessoas reagem de maneira diversa às contingências e mazelas cotidianas como, por exemplo, a perda de um emprego que pode mergulhar uma família inteira no desespero e na miséria, culminando em atos de violência desatinados que ecoam como gritos de socorro e que no, entanto, tapamos os nosso ouvidos com o som de louvores entoados com todo entusiasmo ao Deus cristão, e ao seu filho, o príncipe do amor ao próximo, da compressão e da paz. Nem todos conseguem superar a miséria através da fé em um paraíso que tarda a chegar, ao passo que o inferno o rodeia por completo.
    Acho que retirar os moradores da São Remo do entorno da USP é algo extremamente violento. Muitas das pessoas que lá moram prestam serviço para a Universidade, na maioria das vezes através de empresas terceirizadas. Afastá-las dali seria afastá-las de tudo que elas conhecem, inclusive do trabalho. Sou contra. Ninguém merece ser destituído do lugar onde mora, não por questões que se referem meramente a propriedade privada, mas por questões que envolvem sentimento de pertencimento e de identidade, tão caros a nossa condição humana.

    • Pr. Vandir Allas

      Sra. CÉLIA REGINA DA SILVA,

      Grato por seu retorno.

      Nada há melhor do que dialogar com quem conta “até dez várias vezes”, ainda que a Senhora tenha me “xingado” ao me chamar de calvinista. Hehehe

      Falando sério… A Senhora fala comigo, mas parece que fala a outra pessoa. Eu não liguei a existência da insegurança e da criminalidade às favelas. Entendo, logo não citei, nem neguei, que o desemprego seja fonte de desequilíbrio, de fins de casamento, desgraças, etc. Ele é terrível! Cheiro de povo, Senhora, eu conheço, pois sempre fui e convivo com povo de periferia. Por 20 anos, dos meus 5 aos 25, vivi em Sampa, sempre na periferia. Meu pai, na década de 50, foi motorista da antiga Serraria Slaviero aí no Jaguaré, na Rua Santo Eurilo, onde hoje há um posto Esso, vizinho da Colgate. Como pastor batista, há mais de 30 anos, atuo na periferia.

      “Bares cheios de trabalhadores bebendo sua cerveja ou sua pinguinha depois do trabalho” existem em qualquer comunidade, inclusive naquelas formadas por pessoas pobres que, mercê do seu suor, adquirem o seu chão. São pessoas que, não acreditando em calvinismo, lutam e vencem, sem invadirem propriedade alheia, por não acreditarem em destino. São pessoas que seus pais as “predestinaram”, desde o ventre, à dignidade e à honra e, logo, acreditam em si próprias, respeitam regras e os direitos dos seus alheios.

      A San Remo é uma invasão de área pública. Certo? Pois se trata de um roubo a todos os cidadãos que pagam impostos, sejam os dos Jardins, quanto os de Parelheiros, Cidade Tiradentes, Pirituba, Jaçanã, etc. Não há juiz, nem lei de usucapião que torne isto moral.

      Há “sanremistas” trabalhando na vizinhança, na USP?.E daí? Quantos milhões de trabalhadores da Grande SP compraram (e não roubaram, invadindo!) o seu terreno onde, em finais de semana, levantaram a sua casa, a 10km, 20, 30 km longe do seu trabalho. Consomem, diariamente, de 4 a 5 horas em lotados ônibus, metrôs, etc. Eles moram em Carapicuíba, Jandira, Barueri, Itapevi, etc. São estas pessoas que merecem ser honradas e a sua propriedade respeitada.

      Quanto a ninguém merecer “ser destituído do lugar onde mora, não por questões que se referem meramente a propriedade privada, mas por questões que envolvem sentimento de pertencimento e de identidade, tão caros a nossa condição humana”, permita-me lembrá-la de um relevante detalhe. A esmagadora maioria dos paulistanos, osasquenses, etc., descendem de famílias que, um dia, migraram para SP, saindo do “lugar onde nasceram e moravam” sem se preocupar com “sentimento de pertencimento e de identidade”.

      Deus a abençoe.

      Caso queira conversar diretamente, peça ao Sr. Rogério o meu e-mail ou telefone.

      Receba o meu carinho,
      pr vandir allas
      sjcampos sp

  12. Olha Célia, se você aceitar uma sugestão, aí vai ela: se eu fosse você, ficava sossegada e nem me dignava a responder. Trollagem tem limites e o limite do Pr. Vandir já foi mais do que ultrapassado. Gastar mais palavras com ele, seria como gastar muita vela com pouco defunto. Se ele realmente acredita em tudo isso que ele colocou aí e não está apenas nos trollando, o azar é dele, pois o infeliz aqui é ele, que se revela uma pessoa seriamente doente assim como toda nossa sociedade.

    Ah! E esse lenga-lenga de Deus a abençoe pra cá e receba o meu carinho pra lá também é uma coisa tão cretina, que chega a me dar nojo! Pura falsidade de quem quer se mostrar superior. Infelizmente, muitos Batistas são assim, inclusive meus parentes que moram em Brasília. No que se refere a mim, pode guardar o seu carinho e a sua benção pro seu rebanho. Quero distância de você e de todos os Batistas da face da Terra.

  13. carlos

    Caros leitores que aqui discutem com tanto ardor essa questão. Muito me admira que esse pastor retenha tanto da atençao de vocês com a “opinião dele” que a meu ver é so a expressão de uma pessoa que nao quer ter perto de si uma favela. Pois bem, ele tem todo o direito a expressar sua opinião e creio eu que cada ser humano goza de mesmo direito. Ninguém é obrigado a concordar com as idéias desse pastor, que alias diga-se, pouco conhece a respeito da historia biblica. Pois bem, caro pastor, quero só lembra-lo que na historia biblica Deus disse a abraão que onde a planta dos pés dele pisassem Ele lhe daria a posse. Será que realmente somos tão donos assim da terra, a ponto de comercializa-la? Voce mesmo, julga ser dono de sua casa? Deixe de pagar seu IPTU e veja se consegue se manter nela? Ah, antes que escreva alguma palavra minha com aspas, nao ligo pra acentuação e nem regras gramaticais, que o senhor tanto faz questão de tentar mostrar dominio. Dominio este que nao tem, desculpa minha franqueza. Mas vou me ater ao raciocinio. Ja pensou que na historia do povo judeu eles tambem nao tinham terra e que Deus os guiou pelo deserto e que atraves de muitas guerras eles foram se apossando de terras antes de outros dominios? Julgaria tambem o pastor a Deus lhe facultando algum caracter humano, dizendo de Deus que ele tambem pratica o roubo, ja que foi isso que deixou claro em suas mensagens a respeito desse povo que “invadiu uma propriedade privada”.
    Tenho certeza que o pastor veio ate aqui espressar apenas suas “ideias”. Erradas ou não, sao apenas ideias, que nao farão mais do que podem fazer…. nada. Essas ideias a meu ver são mesquinhas, egoístas e não refletem a maioria dos pastores, mas apenas a uma minoria, que fique claro.
    Espero sinceramente, que o pastor que aqui escreveu nao venha mais nos ferir os olhos com novas cartas onde tenta nos engolir goela abaixo suas ideias contrarias as da grande maioria.
    Agradeço a todos pela atenção e compreensao.

  14. Pingback: Aniversário de 6 meses do blog: mais de 20 mil acessos | Hum Historiador

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s