Arquivo do mês: março 2012

Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão (Parte II)

“As nações pobres são aquelas onde o povo se sente à vontade;  as nações ricas são aquelas onde ele é, normalmente, pobre.”

Destutt de Tracy

No post anterior, começamos a contar o caminho que o trabalho percorreu de maldição divina, quando segundo a tradição judaico-cristã Deus expulsa Adão e Eva do Éden até chegar a essa visão que temos hoje na qual o trabalho se transformou em uma louca paixão na qual

Começamos essa trajetória com a tradição judaico-cristã e a maldição divina; passamos pela visão de sociedades antigas escravistas (Grécia e Roma), até chegarmos ao momento de virada, quando a ética protestante, juntamente com o espírito do capitalismo, transformou a visão do trabalho de algo vil e desprezível, digno apenas dos escravos, na maior das virtudes a ser perseguida pela humanidade.

Terminamos a primeira parte deste post apresentando um contraponto a esta visão de trabalho das sociedades europeias dominadas pela ética protestante (em especial a inglesa e a francesa), no diálogo estabelecido pelo calvinista francês Jean de Lery com um velho Tupinambá que vivia na Baía da Guanabara por volta dos anos 1557-58.

A segunda parte deste post tratará de como aquela visão de trabalho proposto pela ética protestante tal como proposta por Max Weber, transformou-se, com a distribuição social do trabalho imposta pelo modo de produção capitalista, nessa estranha e louca paixão que faz com que os trabalhadores lutem pelo direito de ser explorados.

Lafargue e o Direito à Preguiça

Ao escrever este panfleto revolucionário em 1880, Paul Lafargue chegou a pensar em nomeá-lo como direito ao lazer e, depois, direito ao ócio. Contudo, como explica Marilena Chaui, ao propor como direito um pecado capital para intitular seu panfleto, o autor visava atacar frontalmente o que ele chamava de “religião do trabalho”, o credo da burguesia para dominar as mãos, os corações e as mentes do proletariado, em nome da nova figura assumida por Deus, o Progresso.

Neste sentido, O Direito à Preguiça, surge como uma tentativa de Lafargue em responder justamente como os proletários podem reivindicar o trabalho como um direito. Trata-se, portanto, de um panfleto cujo objetivo é realizar a crítica materialista do trabalho assalariado ou do trabalho alienado.

Trabalho Alienado

Para entendermos o que é trabalho alienado é preciso, em primeiro lugar, entendermos o conceito de alienação a que se refere Lafargue quando escreve sua obra. Tal como nos ensina Marilena Chaui

“as palavras “alienação” e “alienado” são derivados de um pronome da língua latina, alienus, aliena, alienum, que significa “outro, outra”, no sentido de “alheio, alheia”. Quando se diz que um doente mental é um alienado, o que se quer dizer é: 1) ou que ele se tornou um outro para si mesmo, tornou-se alheio a si mesmo, não se reconhece tal como é, mas se imagina como um outro (por exemplo, aquele que imagina que é Cristo, Napoleão ou Hitler); 2) ou que ele imagina a existência de um outro superpoderoso ou uma existência alheia à sua que pode dominá-lo, forçá-lo a fazer o que não quer, matá-lo, etc. A paranóia é um dos casos clínicos da primeira forma da alienação, e a esquizofrenia é um dos casos clínicos da segunda. Não será por acaso que Lafargue se refira à “paixão pelo trabalho” como um caso de loucura. O trabalho de que ele fala é o trabalho alienado.

Outra coisa que é necessário entender antes de seguirmos com a definição de trabalho alienado, é entendermos que para Marx e Lafargue, o trabalho, em si mesmo, é uma das dimensões da vida humana que revela nossa humanidade, pois é por ele que dominamos as forças da natureza e que satisfazemos nossas necessidades vitais básicas e é nele que exteriorizamos nossa capacidade inventiva e criadora. Portanto, segundo esta visão, o trabalho exterioriza numa obra a interioridade do criador, isto é, o sujeito que produziu uma determinada obra se reconhece como produtor daquele objeto.

Assim sendo, para que o trabalho se torne alienado, isto é, para que oculte, em vez de revelar, a essência dos seres humanos e para que o trabalhador não se reconheça como produtor das obras, é preciso que a divisão social do trabalho, imposta historicamente pelo capitalismo, desconsidere as aptidões e capacidades dos indivíduos, suas necessidades fundamentais e suas aspirações criadoras e os force a trabalhar para outros como se estivessem trabalhando para a sociedade e para si mesmos. Resumindo de maneira bem esquemática tal como proposto por Chaui: “sob os efeitos da divisão social do trabalho e da luta de classes, o trabalhador individual pertence a uma classe social – a classe dos trabalhadores -, que, para sobreviver, se vê obrigada a trabalhar para uma outra classe social – a burguesia -, vendendo sua força de trabalho no mercado”. Ao proceder desta forma, o trabalhador aliena para um outro sua força de trabalho que, ao ser vendida e comprada, se torna uma mercadoria destinada a produzir mercadorias. É justamente por este motivo que o trabalho, reduzido à condição de mercadoria produtora de mercadorias, não realiza nenhuma capacidade humana do próprio trabalhador, mas sim as exigências impostas pelo mercado capitalista. Por este motivo também, os trabalhadores não se reconhecem nos produtos que produzem, pois estes não exprimem suas necessidades e capacidades.

Além disso tudo, as condições que o mercado de trabalho impõem ao trabalhador são tão competitivas que estes vendem sua força de trabalho por um preço muito inferior ao trabalho que realizam e justamente por isso se empobrecem à medida que vão produzindo riqueza para os outros. Os produtos que produz, de maneira geral, não estão ao seu alcance, seus preços seguem a lei do mercado impostas pelos capitalistas e como o trabalhador precisa de muitos desses produtos para sobreviver (em especial alimentação e vestuário), passam a aceitar as piores condições de trabalho, os piores salários, a pobreza, a miséria, o frio, a doença só para terem o DIREITO AO TRABALHO, com o que terão salário para comprar o mínimo daquilo que eles mesmos produziram. Os trabalhadores são dominados pelo mercado. pois se veem obrigados a aceitar qualquer condição para trabalhar, e são dominados pelos produtos do trabalho, pois precisam adquiri-los a preços exorbitantes no mercado.

Marcelo Masagão, em seu excelente Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (1999), conseguiu exemplificar magnificamente em uma cena de 90 segundos tudo isso que levei três ou quatro parágrafos para descrever sobre a alienação do trabalho e seus efeitos. Veja a cena a que me refiro abaixo:

Trabalho Assalariado

Em O Capital, Karl Marx explica que a especificidade do capitalismo consiste justamente em acumular e reproduzir riqueza social e assegurar os meios para a apropriação privada dessa riqueza. Portanto, a marca que distingue o capitalismo de outras formas econômicas é justamente a de produzir cada vez mais capital.

Há duas maneiras como a riqueza pode ser acumulada: 1) uma classe social poderosa expropria outras classes sociais dos seus meios de produção (terra, instrumentos de trabalho) e se apropria privadamente desses meios com os quais aquelas classes produziam sua subsistência e um excedente para trocar no mercado; 2) os proprietários privados dos meios de produção forçam as classes expropriadas a trabalhar para eles, mediante um salário, para produzir os bens que também serão propriedade privada do empregador. O trabalho se torna assalariado e submetido às leis da propriedade privada capitalista.

O trabalho assalariado é justamente o responsável pela mágica do crescimento do capital, obviamente, não nas mãos dos trabalhadores. Como nos ensina Marilena Chaui, o salário do trabalhador é calculado levando em conta o tempo socialmente necessário para a produção de uma mercadoria e as necessidades do produtor. Se imaginarmos, por exemplo, que para a produção de uma mercadoria qualquer fossem necessárias oito horas de trabalho e que cada hora de trabalho vale R$2,00 (isto é, para alimentar-se bem, vestir-se bem, transportar-se bem, cuidar bem da família, frequentar escolas, ter férias e lazer, ter bons cuidados com a saúde pessoal e da família, etc., o trabalhador deveria receber essa quantia por hora de trabalho). Dessa forma, em nosso exemplo, ele deveria receber R$16,00 pelas oito horas de trabalho. No sistema capitalista, o que acontece é que ele receberá por essas oito horas trabalhadas, na melhor das hipóteses, R$ 8,00 e, na pior, R$ 2,00. Portanto, o tempo socialmente utilizado pela força de trabalho não foi totalmente pago pelo salário. É exatamente esse tempo de salário não pago à força de trabalho – o que o Marx chama de mais-valia – que faz crescer o capital, isto é, o que chamamos de lucro. É um engano, portanto, acreditar que o lucro se dá no momento em que o produto final é comercializado. O lucro se dá, na verdade, no exato momento em que a força de trabalho não foi remunerada pelo salário correspondente.

Desta forma, respondemos como é mágica que faz o capital crescer e se multiplicar: através da exploração da força de trabalho. Exploração essa a que chamamos TRABALHO ASSALARIADO. Que fique muito claro: a riqueza é produzida, mas sua apropriação não é social, mas sim privada, ficando na mão de quem possui os meios de produção (terra, instrumentos de trabalho, etc.).

McLuham

Frase atribuída a McLuhan, retirada do documentário Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (Marcelo Masagão / 1999).

Vale lembrar, como fez o amigo Munhoz nos comentários da primeira parte deste post, que mesmo em países socialistas o trabalho foi cultuado como dogma e imposto de formas degradantes e, até mesmo, criminosa. Como fala Marilena Chaui, ainda hoje os trabalhadores precisam lutar pelo direito à preguiça, especialmente se considerarmos o que se passou na história dos movimentos de esquerda. Não só os partidos socialistas e comunistas ergueram mundo a fora a bandeira do direito ao trabalho, como o stalinismo glorificou a virilidade do trabalhador que se esfalfa até o fim de suas forças para ganhar prêmios de produtividade e construir a sociedade livre do futuro, construção que incluía campos de trabalho forçado para todos os dissidentes, considerados “inimigos internos” do proletariado e de sua revolução. Justamente por isso que, ainda hoje, O Direito à Preguiça, este panfleto de alerta publicado na França em 1880, reforça a minha convicção de que as ideias de Lafargue e Marx estão mais vivas do que nunca.

Uma outra visão de mundo: a vida social dos Tupinambás no “Brasil” e sua visão de trabalho 

Para finalizar o post, gostaríamos novamente de contrapor essa maneira de ver o trabalho, tal como nos foi imposto pelo capitalismo através da divisão social do trabalho e da luta de classes, com uma outra visão de mundo. Recorremos, uma vez mais, à vida social dos Tupinambás e a visão que estes grupos humanos, dispersos em uma larga extensão do território que viria a ser o Brasil, do mundo e do trabalho.

Utilizamos trechos de imagens selecionadas do documentário “O Povo Brasileiro”, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro, nas quais aparecem o jornalista Washington Novaes e o próprio Darcy Ribeiro, relatando, com base em suas pesquisas de campo, como era viver com esses índios em uma sociedade autossuficiente e com um desejo de beleza em tudo o que fazem.

A edição das partes selecionadas fez com que o vídeo ficasse com um pouco mais de 9 minutos. Sugiro que assistam ele todo, pois é bastante rápido e muito emocionante. Confesso que mesmo depois de ter assistido inúmeras vezes, ainda fico com os olhos úmidos ao final da exibição da entrevista do Washington Novaes.

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Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão. (Parte I)

“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Com esta célebre frase do Manifesto Comunista (1848), Karl Marx e Friedrich Engels chamavam a atenção dos trabalhadores para a necessidade premente deles se organizarem a fim de lutarem por seus direitos contra a exploração de sua força de trabalho por uma burguesia cada vez mais ávida por acumular riqueza.

Os operários de 1933 - Tarsila do Amaral

Nos 164 anos que nos separam da publicação deste manifesto, tanta coisa já se passou: revoluções (sociais e tecnológicas), o comunismo, guerras mundiais, o nazismo, a guerra fria e, até mesmo, o “Fim da História”. Tudo isso já aconteceu e, ainda assim, mesmo depois de todo este tempo com todas as mudanças que ele trouxe consigo, as ideias de Marx e o seu clamor por união entre os proletários de todo o mundo continuam ainda mais atuais hoje do que talvez jamais estiveram. Afinal de contas, os trabalhadores continuam sendo a base sobre a qual toda a riqueza do mundo é produzida e aumentada ano após ano tal como prevê as regras do capitalismo. Neste sentido, os proletários continuam tendo sua força de trabalho explorada e, pior de tudo, passaram a acreditar, como diria Paul Lafargue, na “Religião do Trabalho”. Passaram a ter tanta fé nesta religião, que aceitam livremente ser explorados e, mais do que isso, como se estivessem movidos por uma estranha loucura, lutam pelo direito de trabalhar, chegando até mesmo a abrir mão de conquistas históricas para manter este estranho direito de servir voluntariamente aos interesses burgueses que os mantém cada vez mais pobres.

Basta folhear qualquer jornal para colhermos exemplos frescos do que estou falando, ainda mais nesses tempos de profunda crise econômica na Europa e nos EUA. No caderno Mundo da Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, vemos a manchete “Credor exige corte de 15% de custos trabalhistas gregos”. Já no caderno Mercado, de 27/03, via-se esta outra: “Sindicalistas discutem setor automotivo com governo”. Nesta última, surpreende o fato de que os representantes de centrais sindicais e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC pretendem, dentre outras coisas, negociar com o governo medidas para aumentar o consumo de veículos automotores (???) e, também, um programa para “modernizar” o seguro-desemprego para que se transforme em um sistema de manutenção de emprego e renda.

Além de manchetes como estas, também é comum acompanharmos, através dos jornais, a movimentação de políticos com propostas de reduções no valor da aposentadoria ou aumento no número de anos de contribuição, propostas de cortes de programas sociais ou, ainda, propostas de isenção de impostos para empresas privadas sob a ameaça destas saírem das cidades onde estão estabelecidas. Enfim, notícias que demonstram cada vez mais o aprofundamento da pobreza dos trabalhadores ao redor do mundo e o enraizamento da crença de que só o trabalho, mesmo que em condições cada vez piores, é capaz de retirá-los desta condição de miséria em que se encontram.

Como explicar esse paradoxo de uma classe que reconhece ser explorada (e que esta é a razão de sua miséria), mas que, apesar disso, ainda exige e luta pelo direito de trabalhar? Nas palavras de Paul Lafargue: “Como explicar que os trabalhadores reivindiquem o trabalho como um direito? Como explicar que aquilo mesmo que os destrói lhes apareça como conquista revolucionária de um bem?”

As respostas para estas questões exigem a compreensão do caminho percorrido pela ideia que as diferentes sociedades da Europa ocidental faziam a respeito do trabalho e que, a partir de um determinado momento específico na história, acabou por se transformar de maldição de Deus contra a humanidade, em uma virtude quase sagrada e sem a qual, hoje em dia, a vida como a conhecemos seria impossível.

Embora tenhamos mencionado de passagem o tema deste post em um texto anterior (A disseminação do ódio contra os pobres nas redes sociais), o objetivo deste pequeno ensaio é tratar mais detalhadamente este paradoxo. O texto foi preparado tomando como base o capítulo de Introdução feito pela professora Marilena Chauí para o livro Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, sendo que cada uma das partes do texto é pouco mais do que uma breve síntese do exposto por Chaui em sua Introdução. Para adicionar algo novo e não ficar apenas na síntese, trago o diálogo de Jean de Lery com um velho Tupinambá (1578) e, também, trechos que editei de um documentário dirigido por Iza Ferraz, no ano 2000, inspirado na obra de maior sucesso de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro, trazendo as considerações deste antropólogo a respeito da vida em sociedade dos Tupinambás. Acredito que a comparação entre a visão atual que temos sobre trabalho, criticada por Chaui em sua Introdução ao Direito à Preguiça, e a visão que grupos indígenas tinham a respeito da vida em sociedade e do papel do trabalho neste âmbito, são bastante significativos e revelam claramente como ele se converteu em uma louca paixão que transforma a todos humanos em mercadorias descartáveis.

O PRINCÍPIO: O Trabalho como maldição na tradição judaico-cristã

Segundo a visão judaico-cristã, o trabalho aparece na vida do homem quando Adão e Eva são expulsos do Paraíso por terem desobedecido a Deus e cometido o assim chamado “Pecado Original”. Antes de partirem definitivamente do Jardim do Éden, Deus amaldiçoa especificamente cada uma de suas criaturas, dizendo à mulher:

“(…) Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores. Procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido.”

E, em seguida, diz ao homem:

“Porque ouviste as palavras da tua mulher e comeste o fruto da árvore a respeito da qual eu te havia ordenado: ‘Nunca deveis comer o fruto desta árvore’ maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”.

Gênesis. 3:16-19.

Adão e Eva expulsos do Paraíso em Ilustração de Gustave Doré.

O trabalho para gregos e romanos

Se considerarmos outras sociedades antigas, como as gregas e romanas, baseadas no escravismo, o trabalho era visto como pena que cabe aos escravos e desonra que cai sobre homens livres e pobres. Nestas sociedades, poetas e filósofos proclamavam o ócio como um valor indispensável para a vida livre e feliz, para o exercício da nobre atividade da política, para o cultivo do espírito (pelas letras, artes e ciências) e para o cuidado com o vigor e a beleza do corpo (pela ginástica, dança e arte militar).

Como bem lembra Marilena Chaui, são estes últimos que, em Roma, eram conhecidos como os humiliores (humildes ou inferiores) em contraposição aos honestiores (os homens bons porque livres, senhores da terra, da política e da guerra).

A origem de nossa palavra trabalho, aliás, vem do latim “tripalium”, que era um instrumento de tortura utilizado para empalar escravos rebeldes. E o “labour”, da língua inglesa, também tem sua origem no latim, na palavra “labor”, cujo significado é esforço penoso, dobrar-se sob o peso de uma carga, dor, sofrimento, pena e fadiga. Como lembra Chaui, é bastante significativo que línguas modernas latinas tenham recuperado a maldição de Deus contra Eva ao utilizar a expressão “trabalho de parto” para designar as dores que antecedem o nascimento de uma criança.

O trabalho em Weber e sua ética protestante

Essa visão do trabalho como algo socialmente desprezado, vil e mesquinho persiste por séculos nas sociedades europeias ocidentais e, segundo o sociólogo alemão Max Weber, só vai efetivamente passar a se transformar em virtude quando um vínculo entre a moral protestante calvinista (especialmente do puritanismo) e a economia é finalmente estabelecido. Será a partir deste momento que o trabalho se transforma de castigo em virtude e vocação divina. Chaui destaca que para Weber,

“(…) o puritanismo passa a valorizar a vida secular como um dever e, assim, a partir daquele momento ser um cristão virtuoso é seguir um conjunto de normas de conduta nas quais o trabalho surge não apenas como obrigação moral, mas como poderoso racionalizador da atividade econômica geradora de lucro. Aquele que faz seu trabalho render dinheiro e, em lugar de gastá-lo, o investe em mais trabalho para gerar mais dinheiro e mais lucro, vivendo frugalmente e honestamente, é um homem virtuoso. Portanto, trabalhar é ganhar para poupar e investir para que se possa trabalhar mais e investir mais.”

Tal ética que mudou a percepção do trabalho, coincidiu com o advento do capitalismo e acabou dando ao ócio um aspecto muito mais terrível do que ele tivera até então. Como prova disso, Chaui menciona as diversas legislações iniciais do capitalismo que transformaram a mendicância e a preguiça em crimes sujeitos à pena de prisão e, em certos casos, de morte. Portanto, nesta nova ética burguesa do trabalho, o homem honesto, que trabalha, poupa e investe, é a auto-imagem do burguês e não aqueles que trabalham para que o burguês poupe e invista.

Um encontro entre dois mundos muito distintos: o diálogo de Jean de Lery e um velho Tupinambá

Jean de Léry (1534-1611), foi um membro de um grupo formado por catorze calvinistas que vieram da Suíça na tentativa frustrada de fundar uma colônia francesa na Baía da Guanabara: a França Antártica, comandada por Nicolas de Villegagnon.

No capítulo XIII de seu livro, o “Viagem à Terra do Brasil”, publicado em 1578 na França, Léry transcreve um diálogo entre ele e “um velho Tupinambá”, através da qual podemos observar um grande estranhamento e impasse cultural entre o mundo de Jean de Lery e o mundo do velho Tupinambá, especialmente em relação às ideias de trabalho e ócio.

Tendo permanecido na América Portuguesa entre fevereiro de 1557 e janeiro de 1558, este diálogo ajuda a demonstrar a ideia do trabalho com o objetivo de acumulação de riqueza pessoal, tal como descrito por Max Weber, já no século XVI. Como dissemos anteriormente, é esta nova ética em relação ao trabalho, em conjunto com o “espírito do capitalismo”, que vai dar origem à transformação da visão do trabalho de maldição em virtude.

Antes de partirmos à transcrição do diálogo de Lery com o Tupinambá, vale mencionar um pequeno trecho da obra Discurso da Servidão Voluntária, de Etienne de La Boétie (Download PDF), onde este compara e contrapõe o francês servil e tiranizado aos indígenas do Novo Mundo, livres, fortes, saudáveis e felizes que, se tivessem de escolher entre liberdade e servidão, não hesitariam em escolher a primeira e somente pela violência seriam rendidos à segunda. Para La Boétie, é estranho que homens, nascidos livres, vivam em servidão como se esta fosse natural assim como para Lafargue é estranho que o proletário se deixe dominar pelo dogma do trabalho.

Vamos à transcrição do diálogo retirado de LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Biblioteca Histórica Brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1960. p. 153-154. (1ª edição em francês: 1578).

“Os nossos Tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan [Pau Brasil]. Uma vez um velho perguntou-me: por que vindes vós outros, maírs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.
 
Retrucou o velho imediatamente: – e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, – acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: – Mas esse homem tão rico de que me falais não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros.
 
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: – e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta destes, para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade – continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo – agora vejo que vós outros maírs [franceses] sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalham tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados […]
 
A SER CONTINUADO NA PARTE II
 
Para que o post não fique muito extenso, decidi dividi-lo em duas partes. No próximo texto, trataremos de como a visão de trabalho proposto pela ética protestante nos moldes discutidos por Max Weber, transformaram-se, com a distribuição social do trabalho imposta pelo modo de produção capitalista, na forma como enxergamos o trabalho atualmente, isto é, numa estranha paixão que faz com que os trabalhadores lutem pelo direito de ser explorados. Eis o paradoxo do servilismo voluntário conforme apresentamos logo no início deste post.
 
Além disso, pretendo apresentar uma edição que preparei com trechos do documentário dirigido por Iza Ferraz baseado na obra de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. Assim como o diálogo que apresentamos entre Jean de Lery e o velho Tupinambá, para comparar o mundo daquele francês que entrava em contato com os grupos humanos que habitavam a América no século XVI, o objetivo é mostrar como era o modo de vida em sociedade dos Tupinambás e a maneira como estes enxergavam o trabalho, não como modo de acumulação de riqueza de um determinado grupo, mas sim como instrumento através do qual expressavam a si mesmos, isto é, exteriorizavam sua capacidade inventiva e criadora – o produto do trabalho como algo que represente a interioridade de seu produtor, que se reconhece neste produto.

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USP quer se transformar em uma “Universidade Classe Mundial”

É possível comparar o incomparável? Reformas no regimento da pós-graduação dariam conta de diminuir o enorme abismo financeiro que separa o investimento aluno per capita da USP (R$ 39.473,68) e o da Harvard (R$ 2.742.857,10)? Para a reitoria da USP, por mais absurdo que possa parecer, as respostas a estas questões são afirmativas, uma vez que para transformar a USP no que eles chamam de “Universidade Classe Mundial”, a reitoria está propondo reformas no regimento geral da Pós-Graduação da universidade.

Sobre este assunto, a Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH/USP, Profa. Dra. Rita de Cássia Ariza da Cruz, escreve um texto primoroso, publicado no blog USP em Greve, o qual reproduzimos abaixo por acreditar que o mesmo deve ser do conhecimento do maior número de pessoas que se disponham a refletir seriamente sobre o tema dos rankings universitários e do enquadramento das universidades a um padrão determinado para figurarem no topo destas classificações:

Universidade Classe Mundial: paradoxos de um pensamento ao mesmo tempo neoliberal e neocolonialista

Como é do conhecimento de todos, estamos vivendo um processo de reformulação do Regimento Geral da Pós-Graduação da USP.
Conforme declarações públicas da Pró-Reitoria de Pós-Graduação, as mudanças propostas fazem-se necessárias no sentido de transformar a USP em uma Universidade Classe Mundial.
A principal argumentação utilizada pela Pró-Reitoria de Pós-Graduação, para justificar tais mudanças é a referência a IES estrangeiras, as quais têm modus operandisimilares ou iguais a este que se propõe hoje para o Regimento da Pós-Graduação da USP, ressaltando-se o fato de que tais Instituições são melhores ranqueadas internacionalmente que nós.

Entretanto, entendemos, também, que não há um modelo universal para se produzir uma Universidade Classe Mundial e, se considerarmos as condições em que fizemos ciência no Brasil e na USP, particularmente, desde a sua fundação, podemos afirmar, sem dúvida, que somos muito mais Classe Mundial que diversas universidades melhores colocadas nos diversos ranqueamentos internacionais. Por que podemos afirmar isso? Pensemos em alguns dados/informações.

Como se pode ver na tabela acima, a Universidade de Harvard,  Estados Unidos, desenvolveu sua reconhecida capacidade de produzir conhecimento ao longo de pouco mais de três séculos e com orçamentos, muito provavelmente, bem superior aos nossos. Vale lembrar que se hoje Harvard tem um orçamento anual quase vinte vezes superior ao da USP, com um número total de alunos 60% menor, há poucos anos atrás, o orçamento total da USP – 2005, por exemplo – não chegava aos 2 bilhões de reais. Entre outras coisas, pode-se notar que enquanto a USP investe menos de 40.000 por aluno, em Harvard esta conta chega ao estratosférico valor de quase 3 milhões de reais!!! Dá para comparar?
Oxford, por sua vez, tem, aparentemente, um orçamento igual ao da USP hoje, mas como a comunidade estudantil oxfordiana é 70% menor que a nossa, a universidade inglesa, com  quase mil anos de história, empenha cerca de 150.000 reais por aluno. Certamente, os seus quase dez séculos de história foram importantes na definição de suas políticas acadêmicas e, especialmente, de pesquisa. Estaremos nós querendo ser mais oxfordianos que nossos colegas ingleses? Ou será que queremos mesmo é ser mais realistas que o rei?
Entre as dez melhores do mundo, ainda segundo o ranking “Times Higher Education”, por exemplo, aquela que tem o menor investimento per capita por aluno – Califórnia University at Berkeley – empenha duas vezes e meia os valores investidos pela USP.
Apesar de a USP ter, proporcionalmente às melhores universidades do mundo, orçamentos bem mais modestos, parte da sociedade brasileira, ao contrário do que ocorre nos países que abrigam as “top 10 do mundo”, estimulada por uma visão tupiniquim de uma imprensa irresponsável, nos rotula de “burgueses gastões” .
Outro elemento importante neste debate e que não pode ser negligenciado diz respeito à hegemonia lingüística mundial da língua inglesa, ou seja, pesquisadores/cientistas anglófonos levam reconhecida vantagem em termos da reverberação internacional de seus trabalhos em relação, por exemplo, a pesquisadores/cientistas não-anglófonos.
Em sua competente análise acerca de classificações internacionais de universidades e, especialmente sobre a classificação “Xangai”, Hervé Théry (2010: 192) diz a esse respeito:
Outro fator de distorção é que o inglês tornou-se, na maior parte dos campos científicos, a língua internacional e que os universitários do mundo anglófono são muito mais integrados ao circuito internacional que os seus homólogos dos outros blocos culturais. Consequentemente, essa classificação das universidades favoreceu claramente os países para os quais o inglês é a língua materna.
Outra distorção apontada por Hervé Théry (2010: 191-2) quanto à classificação “Xangai”, diz respeito à subestimação clara das ciências sociais e humanas. Conforme o autor:
O lugar das ciências sociais e humanas é claramente subestimado nessa classificação, os próprios autores o reconhecem, mas eles confessam não ter encontrado, para esses campos científicos, critérios que correspondam às exigências que tinham fixado: medidas universalmente reconhecidas como válidas e livremente acessíveis na internet. Em especial, o fato de não poder dispor de uma classificação dos livros, um dos principais meios de expressão dessas ciências, prejudicou a sua inclusão correta na classificação.
Se, entretanto, insistem alguns em comparar o incomparável, uma das conclusões a que podemos chegar é a de que a USP é muito mais Classe Mundial que as dez melhores universidades do mundo, afinal de contas, conseguimos ser a melhor universidade da América Latina e estar hoje entre as 70 melhores do mundo, com pouco mais de 70 anos de história, utilizando muito menos recursos que a maioria delas e abrigando 3, 4 ou 5 vezes mais alunos que a maior parte dessas instituições.
ISTO POSTO, NÃO DEVERÍAMOS NÓS ENSINAR A ELES OS NOSSOS MÉTODOS E NÃO O CONTRÁRIO?
Entre os rankings internacionais e as avaliações nacionais
Na onda dos ranqueamentos internacionais, outro processo em curso na USP é o de criação de um novo sistema de avaliação da qualidade de sua pós-graduação.
Para que e a quem servem os sistemas de avaliação seja de universidades “classe mundial” ou de programas de pós-graduação?
1. No caso da avaliação da pós-graduação, o sistema Capes tem servido, entre outras coisas, para fomentar a competição entre Programas, em escala nacional. Como? Os Programas melhor classificados são aqueles que recebem mais recursos. Assim, esse sistema trabalha para manter na penumbra aqueles que apresentam maiores dificuldades; enquanto isso, os melhores têm suas receitas fortalecidas.
2. Um sistema de avaliação pautado na competição contribui, efetivamente, para “varrer” do universo da pós-graduação os Programas que não conseguem melhorar suas notas, por razões diversas, entre as quais a dificuldade em vencer os mecanismos vorazes da competição (fatores temporais – programas jovens; fatores geográficos – dificuldade em fixar professores/pesquisadores em lugares distantes dos centros econômicos mais dinâmicos do país, fatores financeiros – escassez de recursos, por exemplo).
3. Coincide, historicamente, com a instalação do sistema de avaliação da Capes uma reconhecida perda de qualidade na formação geral de pós-graduandos no Brasil. Naturalmente, não se pode atribuir única e exclusivamente à avaliação Capes algo que decorre de um sucateamento do ensino em todos os níveis no país, reinante durante décadas. Todavia, alguém quem duvida de que existe relação direta entre avaliação Capes e encurtamento de prazos na pós-graduação stricto sensu? Alguém tem dúvida de que o sistema de avaliação Capes fomentou, de forma incomensurável, o produtivismo no país? Alguém  duvida de que prazos menores e professores e alunos focados na produção-fim (ou seja, a produção por ela mesma) contribuem significativamente para piorar a qualidade da pós-graduação?
Tais inquietações me conduzem a perguntar: como se fazia a avaliação da produção na USP, por exemplo, nos anos 50, 60 e 70?
O reconhecimento nacional e internacional da USP, historicamente construído, subordinou-se, durante décadas, única e exclusivamente  à inserção social de seus formandos, graduados e pós-graduados, bem como à sua produção científica, que revolucionou diversos setores da vida social.
Todavia, na medida em que, pós anos 80, começa a ampliar-se, substancialmente, o universo da pós-graduação brasileira, “a fatia do bolo” para cada um tinha de diminuir!
É nesse contexto que assumimos uma lógica empresarial de avaliação, fundada não somente na produção, mas sobretudo e principalmente na produtividade.Paradoxalmente, enquanto o setor produtivo se flexibiliza, supera o paradigma fordista e incorpora princípios toyotistas, a vida cotidiana na universidade volta-se para a produção em massa além de tornar-se cada dia mais inflexível!
A melhor avaliação da USP foi e continua sendo feita pela sociedade brasileira, de modo geral, e paulistana, especificamente. A inserção de nossos egressos, tanto da graduação como da pós-graduação em todos os setores do mercado de trabalho, incluindo-se postos de liderança em escolas de ensino fundamental e médio, universidades, empresas de todos os ramos e governos em todas as escalas expressa a verdadeira reverberação do investimento público onde ele deve reverberar.
Por fim concluo acreditando que temos empenhado muito tempo e energia na construção de parâmetros, indicadores e relatórios de avaliação, os quais alimentam uma verdadeira esquizofrenia avaliativa nacional. Enquanto isso, nossos alunos clamam, simplesmente, por uma boa aula, por um pouco de atenção, por uma boa conversa, enfim, atividades elementares,  cada vez mais difíceis de serem desenvolvidas em um cotidiano acadêmico regido pela competição. Quanto ao tempo para a pesquisa, passou a ser um sonho de todos nós. Algo me parece estar errado.
Sem mais, despeço-me, cordialmente,
 
 Profa. Dra. Rita de Cássia Ariza da Cruz
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH/USP

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O Lítio na América do Sul e o eixo da geopolítica energética mundial

Em junho de 2010, a edição 45 da Piauí trazia a matéria Sonhos de Lítio.

Não é de hoje que os veículos de comunicação, especialmente os especializados em política e economia, estão publicando notícias sobre as excelentes oportunidades de negócio oferecidas pela exploração do lítio na América Latina. Os destaques que aparecem nessas manchetes frequentemente tratam sobre a demanda cada vez maior do mercado mundial por este recurso e a atuação dos governos sul americanos (detentores das maiores reservas mundiais do metal) em suas relações com as grandes companhias estrangeiras de mineração.

Para quem não está muito a par do assunto e sequer tem ideia do que seja o lítio, quais suas principais aplicações e por que cargas d’água ele passou a ser tão importante a ponto de ser figura cada vez mais constante nos principais jornais e revistas ao redor do mundo, o Hum Historiador vai dedicar alguns parágrafos a este metal que poderá mudar o eixo da geopolítica energética mundial colocando a América do Sul, uma vez mais, no centro das atenções.

UM POUCO MAIS SOBRE O LÍTIO

Começando pelo começo, como sempre é recomendado, o lítio é um elemento químico cujo símbolo na tabela periódica é Li. Segundo diferentes enciclopédias, em sua forma pura, é um metal macio, de coloração branco-prateada, que se oxida rapidamente no ar ou na água. Quanto a suas aplicações, o lítio é utilizado na obtenção de ligas metálicas condutoras de calor (alumínio), no feitio de cerâmicas e lentes (telescópios), na produção de pilhas e baterias elétricas (celulares e notebooks) e até mesmo na medicina, onde seus sais são utilizados em medicamentos para o tratamento de depressão e do transtorno bipolar.

A edição eletrônica da Enciclopédia Britannica informa que trata-se de um metal escasso, encontrado-se disperso em certas rochas, em sais naturais, águas salgadas e águas minerais. Justamente por esta razão, suas principais reservas encontram-se em regiões de salares, isto é, regiões que há dezenas de milhares de anos eram cobertas por oceanos e, com a formação geológica dos continentes, acabaram por secar e formar grandes desertos de sal. O lítio se encontra dissolvido abaixo da grossa crosta, em uma camada de solução impregnada de sal.

Foto do Salar de Uyuni, Bolívia.

A IMPORTÂNCIA GEOPOLÍTICA ENERGÉTICA DO LÍTIO

Depois de ter passado muitos anos “amargando” com baixa demanda mundial, a situação do lítio mudou completamente quando cientistas descobriram sua enorme capacidade de armazenar energia elétrica. Logo passou a ser utilizado como matéria prima na produção de baterias de longa duração em aparelhos eletrônicos como celulares e notebooks e, posteriormente, verificou-se que sua capacidade de armazenamento era tão grande que o lítio acabou transformando os automóveis movidos à baterias elétricas na grande opção ecológica e sustentável em substituição aos veículos movidos à base de petróleo. Assim, o mundo todo espera que, a partir da terceira ou quarta década deste século, o lítio assuma o papel de substituto do petróleo como provedor de energia para mover o mundo.

Baterias de Lítio utilizadas em carros elétricos

Neste sentido, é bastante significativo que General Motors, Toyota, Volkwagen e Honda já entraram no mercado estadunidense com carros híbridos, ou totalmente elétricos, munidos de grandes baterias de compostos salinos, polímeros ou ligas contendo lítio. A Toyota anunciou o lançamento de um Prius com bateria de íons de lítio. A Nissan e a Mitsubishi também divulgaram planos de fabricar carros a bateria, assim como a Mercedes-Benz, a BMW e a Hyundai. A Ford planeja vender uma versão totalmente elétrica do Focus e a China afirmou que, em meados de 2011, já tinha a capacidade de construir meio milhão de carros híbridos e elétricos ao ano.

Assim, se o lítio se confirmar no papel de substituto do petróleo como fonte de energética conforme esperado, a América do Sul poderá assumir um papel de protagonismo no cenário geopolítico mundial, tal como tem ocorrido com o Oriente Médio nos últimos 50 ou 60 anos. Some-se a isso a importância estratégica das super abundantes fontes de água doce localizadas em nosso continente, e passaremos a compreender melhor a razão pela qual os olhos do mundo cada vez mais vão se voltando para a exploração de ambos recursos em nosso continente.

FONTES DE LÍTIO E A EXPLORAÇÃO DE RECURSOS NATURAIS NA AMÉRICA LATINA

O fato do lítio ser um mineral que se concentra em região de salares, faz com que países como Bolívia (Uyuni), Chile (Atacama) e Argentina (Hombre Muerto) estejam situados entre os maiores detentores mundiais de reservas deste recurso. Se considerarmos somente a Bolívia, onde está localizado o Salar de Uyuni, veremos que aproximadamente 29% de toda a reserva mundial de lítio está concentrado nesta região, segundo tabela da United States Geological Survey. Saindo da escala nacional para olhar os números continentais, as reservas sul americanas são mais expressivas e atingem um montante de 20,6 milhões de toneladas, ou 62,6% do total.

Historicamente, em raríssimas ocasiões a exploração de recursos naturais na América Latina por potências estrangeiras beneficiou as populações locais de onde tais recursos eram extraídos. Foi assim durante os mais de três séculos em que a região foi colonizada por portugueses e espanhóis, que inundaram a Europa com o ouro e a prata extraído de suas colônias americanas. Nesse sentido, em matéria publicada na Piaui 45, o escritor Lawrence Wright trouxe o precioso exemplo de Potosí (atualmente na Bolívia),  que em 1611 era uma das maiores cidades do mundo, com 180 mil habitantes, de onde se extraíam enormes riquezas.

“No sul da Bolívia, há uma montanha chamada Cerro Rico. É uma rocha pálida e calva, riscada por caminhos de terra que se entrecruzam encosta acima como cadarços de sapato. Mais de 4 mil túneis de mina escavaram a tal ponto o interior da montanha que ela corre o risco de desabar. A base é rodeada de casebres que se espalham até a velha cidade de Potosí, um Patrimônio da Humanidade. Evo Morales, o presidente da Bolívia, disse-me há pouco tempo que, para ele e seus compatriotas, Potosí é “um símbolo de pilhagem, de exploração, de humilhação. […] De meados do século xvi a meados do xvii, metade da prata extraída no Novo Mundo vinha de Cerro Rico. Carlos Mesa, o historiador que ocupou a presidência da Bolívia de 2003 a 2005, contou-me que, “por todo o império espanhol dizia-se ‘Isto vale uma Potosí’, quando se falava de sorte ou riqueza”. Hoje Potosí é um dos lugares mais pobres daquele que é há muito tempo um dos países mais pobres da América do Sul.

O cenário pouco se alterou nos quase dois séculos que se passaram desde o processo de independência que acabou dando origem às muitas nações soberanas da América do Sul. Neste período pós-independência um bom exemplo de como a exploração de recursos naturais na América Latina por potências estrangeiras não só não beneficiou as populações locais, mas ainda por cima levou à morte milhares de pessoas e causou enormes prejuízos aos países envolvidos, foi a Guerra do Pacífico (1879-1883), também conhecida como Guerra do Salitre.

De modo bastante resumido, a origem do conflito está na disputa territorial entre Chile e Bolívia por uma região riquíssima em depósito de nitratos (guano e salitre), naquela época muito valorizados no mercado mundial para a produção de fertilizantes e explosivos (já enxergam a semelhança com as reservas de lítio?). Embora a área em disputa fosse uma região desértica, localizada no famoso Atacama, os depósitos de nitrato existentes no que então era a costa boliviana do Oceano Pacífico já estavam sendo explorados por empresas chilenas de capitais britânicos, tal como a Antofagasta Nitrate & Railway Company. O governo boliviano decidiu sobretaxar as empresas chilenas, que por sua vez não aceitavam pagar os impostos. A tensão diplomática entre os países foi aumentando cada vez mais, até que em 1879 duzentos soldados chilenos invadiram a cidade portuária de Antofagasta e, em 1 de abril daquele ano, a Bolívia declararia guerra ao Chile. O Peru tinha seus próprios interesses na região e acaba se aliando à Bolívia sob a alegação de um Tratado de Defesa que havia sido celebrado anos antes, em 1873.

Mapa da região em conflito antes da Guerra do Pacífico. Fonte: Wikimedia Commons

A guerra acaba se desenrolando por alguns anos e, ao final, o Chile sai como grande vencedor do conflito. Em consequencia dessa guerra, o Peru perdeu uma porção de território que se estende até a cidade de Arica; e a Bolívia, junto com o porto de Antofagasta, perdeu o acesso soberano ao Oceano Pacífico. O Chile, por sua vez, além dos depósitos de nitrato que deram origem à guerra, acabou se beneficiando de descobertas posteriores de grandes jazidas de cobre localizadas justamente nessa região conquistada pelo Chile e, mais recentemente, de suas grandes reservas de Lítio.

NACIONALIZAÇÕES DE COMPANHIAS ESTRANGEIRAS

O histórico de exploração dos recursos naturais na América do Sul por empresas estrangeiras continuou sem produzir grandes benefícios às comunidades locais ao longo de praticamente todo o século XX. Na Bolívia, por exemplo, Lawrence Wright informa, na já citada matéria da Revista Piauí, que no ano de 1990, “o então presidente da Bolívia, Jaime Paz Zamora, concordou a princípio com um contrato plurianual com a Lithium Corporation of America (hoje fmc Corporation). O contrato permitiria à empresa extrair todo o lítio que pudesse, destinando à Bolívia apenas 8% dos lucros”. O contrato só não foi adiante, como conta Wright, porque muitos bolivianos se indignaram com o negócio e os camponeses iniciaram uma campanha contra o acordo, fazendo com que a Lithium Corporation desistisse do negócio na Bolívia e transferisse suas operações para a Argentina.

Contudo, na primeira década do século XXI, algumas nações começaram a rever os antigos contratos de exploração de recursos naturais com companhias estrangeiras instaladas em seus territórios. Na Venezuela, por exemplo, após a ascensão de Hugo Chávez à presidência (1999), os contratos das grandes companhias de petróleo instaladas naquele país foram revistos em 2005, a partir de uma nova legislação de hidrocarbonetos que havia sido adotada em 2001.

Presidente da Bolívia, Evo MoralesNa Bolívia, após a eleição de Evo Morales à presidência, o governo promoveu a nacionalização da extração de recursos minerais em todo o país. Assim, para que empresas estrangeiras possam extrair lítio de reservas bolivianas, a nova legislação estabelece que o Estado seja sócio majoritário das companhias interessadas, de modo que este não tenha que abrir mão de sua soberania nacional e, ainda, através da cobrança de royalties e de imposto sobre os lucros, que se possa fomentar o desenvolvimento local das comunidades de onde o lítio será extraído.

Se, a longo prazo, a nova legislação boliviana poderia trazer prosperidade e desenvolvimento à sua população, o que acabou ocorrendo foi que, em uma repetição do que se passou na década de 1990, ela acabou afugentando o capital estrangeiro que, uma vez mais, preferiu as melhores oportunidades de exploração oferecidas pelas grandes reservas de lítio localizadas nos vizinhos Chile e Argentina, onde a legislação é mais favorável às empresas estrangeiras, impondo menos exigências quanto ao destino dos lucros obtidos com a exploração do lítio para a população local.

Nessa guerra da concorrência pela exploração do lítio há um outro fator importante, que é o não alinhamento político da Bolívia com os interesses das grandes potências do ocidente, nomeadamente os Estados Unidos. Muito embora a tabela apresentada pela United States Geological Survey informe que as reservas de lítio da Bolívia estejam por volta de nove milhões e meio de toneladas, a Direção Nacional de Recursos Evaporíticos da Bolívia, por sua vez, estimou em janeiro deste ano que o total dessas reservas localizadas no Salar de Uyuni estão estimadas, quando pouco, em dezoito milhões de toneladas. Como destaca Joel S. Padrón em seu artigo:

“Washington e outros centros de poder e propaganda mundial têm promovido ao Chile como o grande provedor de Lítio para o mundo, destacando sua legislação neoliberal mineira e o rígido alinhamento dos sucessivos governos do sul com os interesses estadunidenses na região”. A estratégia adotada por Washington é a de exaltar o Chile para desqualificar os esforços da Bolívia para tentar explorar sua riqueza litífera, processando-a em seu próprio território e beneficiando sua população. O objetivo é diminuir a importância dos depósitos bolivianos para debilitar sua capacidade de negociação frente às empresas e países com os quais o governo de Evo Morales negocia a industrialização do Lítio em seu próprio país”.

Do outro lado desta disputa, na Argentina, vemos pela reportagem de César Felício, veiculada no jornal Valor Econômico, que os detentores da quarta maior produção mundial de lítio também está desenvolvendo um programa para industrializar o metal dentro do próprio país e que a tendência é de crescimento da extração graças ao investimento das montadoras japonesas que não se entusiasmaram com o modelo de sociedade proposto pelo governo boliviano de Evo Morales. Assim, na Argentina, a Toyota se associou à australiana Orocobre para extrair lítio da área de Cachauri, entre as Províncias de Jujuy e Salta e a Mitsubishi atua com a canadense Lithium Americas na área de Olaroz, em Jujuy.

O governo argentino, interessado no investimento das empresas estrangeiras no país, tem promovido o avanço cada vez maior dos capitais de mineradoras estrangeiras para explorar suas enormes reservas de lítio. Apesar disso, tal como já havia ocorrido na Bolívia na década de 1990, é a população diretamente afetada pela ação dessas mineradoras no interior do país que impõem as maiores resistências ao projeto. Segundo a reportagem de Felício, 32 comunidades indígenas organizadas pedem pelo fim dos projetos e chegaram até mesmo, no ano passado, a bloquear as estradas para Salta e Jujuy. O centro da questão é o uso dos recursos hídricos utilizados para a purificação do minério em uma região árida, já que ambas Províncias argentinas estão muito próximas ao deserto de Atacama.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Indubitavelmente, as próximas décadas reservam a América do Sul o protagonismo no cenário geopolítico energético mundial. Seja com as novas tecnologias à base de lítio (Bolívia, Chile e Argentina), ou com as tradicionais tecnologias como o petróleo (Venezuela e Brasil) e os minerais nucleares (Brasil e Argentina). A questão que norteou a construção desse post foi: a América do Sul irá, uma vez mais, tendo em seu solo a fonte dos recursos que moverá o mundo, seguir com sua tradição secular de ser pilhada para servir de base para a riqueza de nações em outros continentes? Qual a melhor forma de explorar estes recursos para garantir a riqueza e bem estar da população e não apenas de quem explora estes recursos? O que queremos ser no futuro?

Não encontrei melhor forma de responder estas perguntas, do que através de um diálogo do presidente boliviano Evo Morales com o escritor Lawrence Wright:

“Quando o projeto-piloto do Salar começou [projeto de exploração de lítio levado adiante pelo próprio governo boliviano], muitas empresas manifestaram interesse em extrair o metal das planícies salgadas. Autoridades bolivianas tiveram conversas preliminares com representantes da LG, o conglomerado coreano que está construindo a bateria do Volt para a GM. Em 2006, Evo Morales visitou a França, onde o industrial Vincent Bolloré o levou para dar um passeio num BlueCar – um pequeno carro elétrico, em forma de bolha, que o bilionário planeja produzir em parceria com a estatal francesa de energia. Segundo Morales, Bolloré teria dito: “O senhor é quem controla a matéria-prima chave para os séculos xxi e xxii. A Bolívia é a Arábia Saudita.” Mas Morales não quer que seu país se torne a Arábia Saudita. Ele quer que a Bolívia se transforme na França, numa potência industrial.

Perguntei ao presidente de que maneira, dado o estado miserável da infraestrutura boliviana, tal transformação poderia ocorrer. “Organizamos uma comissão científica no Ministério das Minas para dirigir as pesquisas”, respondeu. A comissão reunirá “estrangeiros e bolivianos” para determinar a melhor maneira de extrair os recursos naturais e começar a industrialização. Morales disse que esperava ver a Bolívia fabricando baterias de íons de lítio até o final deste ano [2010]. A produção de automóveis, acrescentou em tom confidencial, ainda precisa esperar “mais cinco ou seis anos.”

Não há dúvidas que Evo Morales se mostra um tanto utópico ao revelar o sonho de ver a Bolívia produzindo, em um intervalo de poucos anos, não só as baterias de lítio que moverão os carros do futuro, mas os próprios carros em si. Contudo, o lugar da Bolívia no cenário da exploração do mineral que poderá mover o mundo nos próximos anos está bem claro em sua cabeça e, neste cenário, é a Bolívia e não a Europa ou os Estados Unidos quem está no centro dos beneficiários dos recursos disponíveis em seu próprio solo.

Infelizmente para ele, as nações vizinhas não compartilham com sua ideia e acabam minando as oportunidades de desenvolvimento sustentável da Bolívia na região, ao oferecer grandes quantidades de lítio às mineradoras estrangeiras a um custo bem mais baixo do que o boliviano, uma vez que a base do modelo de exploração do mineral que vigora no Chile e na Argentina, segue os velhos padrões já bastante conhecidos do capitalismo, no qual os lucros se acumulam nas mãos dos detentores do capital do outro lado do oceano, enquanto a região explorada é degradada, não se desenvolve e seus trabalhadores vivem na miséria absoluta.

REPORTAGENS MENCIONADAS NO POST

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A disseminação do ódio contra os pobres nas redes sociais

Recentemente, através das redes sociais, alguns amigos compartilharam comigo uma imagem com mensagem extremamente preconceituosa e, para ser bem honesto, bastante estúpida. Confesso que tenho dificuldade de entender como pessoas que passaram por vários anos de educação formal tiveram a coragem de se expor publicamente ao ridículo compartilhando uma imagem como esta que publico abaixo.

Mensagem contra benefícios e programas sociais do governo que está sendo amplamente divulgada pelas redes sociais.

Em um esforço para tentar compreender como, em sã consciência, estes amigos puderam levar adiante essa vergonhosa crítica aos programas sociais mencionados na imagem, cheguei a algumas reflexões que entendo valer à pena compartilhar com os leitores do meu blog. Espero que possam perdoar-me pela extensão do post, que acabou ficando um pouco maior do que eu esperava.

CAMISINHA E PÍLULA DO DIA SEGUINTE

A distribuição de camisinhas e pílulas do dia seguinte é uma questão de saúde pública. Mesmo se pensarmos economicamente, se o governo não distribuir camisinhas e pílulas do dia seguinte, é certo que o gasto público anual com saúde vai aumentar. Como alguém pode criticar que o governo distribua camisinha e pílulas do dia seguinte?

A explicação que acredito ser a mais plausível para que esta crítica encontre apoio de boa parte da população, está ligada ao poder de influência de grupos religiosos, em especial católicos e protestantes, no pensamento crítico de seus fiéis e familiares.  Influência que também pode atingir os não fiéis, já que as ideias de tais grupos são amplamente repercutidas em função do grande poder político e econômico que detém. Estou falando aqui das “bancadas evangélicas” na Câmara dos Deputados e no Senado, dificultando a aprovação de leis que fariam do Brasil um Estado laico de fato; estou falando dos inúmeros veículos de comunicação (Rede Record, Rede Globo, Rede Vida, Bandeirantes, etc. etc.), estou falando de redes de universidades (PUC, Mackenzie, Metodistas, Anhanguera, UniSA, etc) e escolas (católicas, adventistas ou evangélicas) que garantem desde o ensino fundamental a educação de valores religiosos nas crianças que, na vida adulta, serão difíceis de abandonar. São dessas influências que estou falando.

Nem mesmo propostas como a do planejamento familiar, adotada há décadas pela classe média conservadora, preocupada apenas com suas economias e posição social, conseguiram quebrar alguns valores religiosos bastante retrógrados incutidos na cabeça do cidadão brasileiro. Sendo mais explícito, para quem faz parte da classe média o planejamento familiar não é mais uma questão a ser discutida, mas para os pobres que não tem recursos para comprar métodos contraceptivos, o uso da camisinha e da pílula do dia seguinte não deve ser estimulado por programas governamentais. Já me acusam por aqui de promover o debate da luta de classes em pleno século XXI, mas digam-me como não encarar a situação que acabei de colocar como um instrumento de exploração de uma classe por outra?

BOLSA FAMÍLIA

Aqui a conversa já é outra. O ódio dos criadores da mensagem é voltado contra os pobres, tanto como as outras, mas nesse caso a um pobre em específico, que teve a audácia de se tornar presidente da República Federativa do Brasil (e não Estados Unidos do Brasil, viu Serra?). Estamos falando de Luís Inácio Lula da Silva que ampliou o acesso do Bolsa Família, transformando-o no maior programa de distribuição de renda da história, tirando milhões de brasileiros da miséria absoluta.

Segundo o site do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, responsável pelo programa:

“O Bolsa Família é um programa de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza. O Programa integra o Fome Zero que tem como objetivo assegurar o direito humano à alimentação adequada, promovendo a segurança alimentar e nutricional e contribuindo para a conquista da cidadania pela população mais vulnerável à fome.

O Bolsa Família atende mais de 13 milhões de famílias em todo território nacional. A depender da renda familiar por pessoa (limitada a R$ 140), do número e da idade dos filhos, o valor do benefício recebido pela família pode variar entre R$ 32 a R$ 306″.

Portanto, conforme descrito pelas regras do Bolsa Família, um grupo famíliar pode receber NO MÁXIMO R$ 306,00. Como sabemos, valor insuficiente até mesmo para garantir o proposto pelo próprio programa que, não custa relembrar, é a segurança alimentar e nutricional para a conquista da cidadania pela população mais vulnerável à fome. Tal informação revela o quão mentirosa e maldosa é a frase: “Teve filho? O governo dá o bolsa família”.

Quanto ao valor máximo de R$ 306,00 do bolsa família, apenas para podermos ter uma ideia do poder de compra deste benefício, há três dias foi anunciado que o valor da cesta básica em São Paulo passou a R$ 334,11 e, portanto, maior do que o valor máximo que uma família pode receber pelo tão falado programa de transferência de renda. A pesquisa da Cesta Básica Nacional, também conhecida como Ração Essencial Mínima, é realizada pelo Dieese, de onde retirei a tabela abaixo com as provisões mínimas para o cálculo do valor da Cesta Básica.  

O curioso é que, de maneira geral, todas as pessoas se dizem favoráveis ao direito humano à alimentação adequada e, portanto, à vida. Contudo, como diz o George Carlin aí abaixo, o direito à vida parece mesmo ser defendido apenas enquanto você ainda está na “barriga” da mamãe, pois depois que você nasce, as mesmas pessoas que fazem esse discurso hipócrita pró-vida se recusam a distribuir renda para quem não tem o suficiente para garantir sua própria subsistência. Estes são os primeiros a te acusarem de vagabundo e, aos que criaram o programa, de populistas.

Direito à vida aos não nascidos

AUXÍLIO RECLUSÃO

Aqui a questão é de pura má fé dos criadores da mensagem e de ignorância de quem a compartilha. O auxílio reclusão é um benefício previdenciário concedido aos dependentes do segurado de baixa renda que tenha sido preso e não receba nem auxílio-doença, nem outra aposentadoria, nem alguma remuneração da empresa na qual trabalhava. Para quem quiser discutir o assunto, por favor, não deixem de ler as informações prestadas no site do Ministério da Previdência Social (isso é o mínimo).

A Previdência Social é um SEGURO pago por cada TRABALHADOR DE CARTEIRA ASSINADA para o caso de ocorrer algum dos FATOS PREVISTOS NA LEI (alcançar idade avançada, restar incapaz para o trabalho, falecer ou mesmo, ser condenado e preso). Ou seja, trabalhadores que contribuem com a Previdência Social, tem o direito de receber o benefício quando um dos fatores previstos na lei ocorrer. Assim, o dependente do preso que recebe o “auxílio-reclusão” está  recebendo, na verdade, valor referente ao que já foi contribuído pelo beneficiário enquanto trabalhador. Não se trata de generosidade do governo, mas sim o pagamento de um contrato previamente estabelecido entre as partes e devidamente previsto na legislação.

Além da má fé ao ocultar a questão do seguro a que nos referimos acima, a mensagem contém uma mentira nojenta que é a de que o valor que o segurado recebe varia de acordo com o número de filhos que ele possui. O valor a ser pago obedece às regras da previdência social e, assim como no caso das aposentadorias por tempo de serviço, viuvez ou invalidez, NÃO VARIA DE ACORDO COM A QUANTIDADE DE FILHOS DO SEGURADO!!!!

Por fim, ainda que fosse um programa de distribuição de renda concedido pelo governo, e não um seguro, entendo que seria legítimo a concessão de um salário a cônjuge/filhos menores de presidiários que, sem a presença do pai/mãe, tem o sustento e garantia de sua vida bastante comprometidos. Basta olhar o que apontam as estatísticas de crianças que crescem em lares desestruturados pela prisão do pai/mãe e pela falta de recursos. De uma perspectiva puramente econômica pergunto: será que o dinheiro gasto pelo governo com os problemas decorrentes da desestruturação de famílias pela prisão de um de seus provedores não é maior do que o que seria gasto em um auxílio-reclusão? Se colocarmos esta mesma questão sob uma perspectiva um pouco mais humanista, será que se o governo fosse eficaz em garantir condições de qualidade de educação, saúde e subsistência digna das famílias dos encarcerados isso não traria resultados positivos para a sociedade como um todo? A resposta parece bastante óbvia!!!

LÓGICA PRECONCEITUOSA POR TRÁS DA MENSAGEM

Percebam que há uma sequência lógica bastante preconceituosa por trás dessa mensagem. Não sei se quem a compartilha chegou a perceber, mas a intenção dos criadores era associar a ideia de que, para pessoas pobres atendidas por programas sociais do governo:

Sexo = Filho = Vadiagem = Prisão

Querem incutir na cabeça da população a ideia de que todos os que se beneficiam de programas sociais são vagabundos, oportunistas e vivem da exploração daqueles que seguem as leis e trabalham honestamente pagando seus impostos. Pior! Para as crianças que nascem nas famílias dos beneficiários de programas sociais, quase não há escapatória: serão presos e, ainda assim, vão explorar a sociedade recebendo o benefício do auxílio reclusão. Quanta mentira e quanta perversidade!!!!

O que parece incomodar as pessoas que compartilham nas redes sociais este tipo de mensagem  [e é justamente o que explora quem criou a mesma] é a possibilidade de que pobres possam viver de benefícios sociais enquanto eles tem que trabalhar e pagar os impostos que sustentariam estes indivíduos. Oras, tal pensamento revela um desconhecimento enorme de como os impostos são arrecadados no Brasil. O ICMS, para ficarmos em apenas um exemplo, é um imposto do qual não há como escapar por taxar justamente o consumo e seus efeitos são muito mais perversos para os pobres que, com poucos recursos, acabam tendo uma porcentagem muito maior de seu dinheiro consumida por este imposto.

Além disso, acreditar que alguém opte voluntariamente por viver na linha da miséria apenas para explorar os benefícios sociais concedidos pelo governo é algo tão fora da realidade que chega a ser doentio. Pessoas que acreditam nisso verdadeiramente, sequer podem imaginar como é viver com baixíssimos recursos, sem nenhum conforto e com muitos filhos para alimentar. NÃO! A MAIORIA DAS PESSOAS que vivem com benefícios sociais, como o Bolsa Família, não são bandidos. São aposentados, inválidos ou pessoas cuja atividade profissional não chegam a um salário mínimo. Trabalhadores rurais, empregadas domésticas e uma série de outras profissões desvalorizadas e tão necessárias no nosso dia-a-dia (os professores no RS estão quase lá). Ao contrário do que pensam os que divulgam essas mensagens, boa parte dos beneficiários passam a maior parte do dia trabalhando e, ainda assim, para o seu desespero, não conseguem recursos para garantir a subsistência de suas famílias. Sem o auxílio dos benefícios sociais, a vida de muitos integrantes dessas famílias estaria totalmente comprometida.

SOBRE TRABALHO E VADIAGEM: TRÊS RECOMENDAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS

Como o post já está enorme, não vou escrever muito mais por aqui. Queria apenas lembrar que há alguns trabalhos importantes para quem possa se interessar pelo tema, como os livros Bandidos, de Eric J. Hobsbawm, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, de Max Weber  e O Direito à Preguiça, de Paul Lafargue.

Deste último livro que mencionei, gostaria de destacar como foi marcante para mim quando li as primeiras páginas da Introdução, escrita por Marilena Chaui. Aqui, transcrevo apenas as três primeiras páginas (9-11) para despertar o interesse da leitura:

“A preguiça, todos sabem, é um dos sete pecados capitais.

Ao perder o Paraíso Terrestre, Eva e Adão ouvem do Senhor as terríveis palavras que selarão seus destinos. À primeira mulher, Deus disse: ‘Multiplicarei as dores de tua gravidez, na dor darás à luz filhos. Teu desejo te leverá ao homem e ele te dominará’ (Gn, 3:16). Ao primeiro homem, disse Jeová: ‘Maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida […]. Com o suor de teu rosto comerás teu pão, até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó retornarás’ (Gn,3:17-19).

Ao ócio feliz do Paraíso segue-se o sofrimento do trabalho como pena imposta pela justiça divina e por isso os filhos de Adão e Eva, isto é, a humanidade inteira, pecarão novamente se não se submeterem à obrigação de trabalhar. Porque a pena foi imposta diretamente pela vontade de Deus, não cumpri-la é crime de lesa-divindade e por essa razão a preguiça é pecado capital, um gozo cujo direito os humanos perderam para sempre.

O laço que ata preguiça e pecado é um nó invisível que prende imagens sociais de escárnio, condenação e medo. É assim que aparecem para os brasileiros brancos as figuras do índio preguiçoso e do negro indolente, construídas no final do século XIX, quando o capitalismo exigiu a abolição da escravatura e substituiu a mão-de-obra escrava pela do imigrante europeu, chamado trabalhador livre (curiosa expressão numa sociedade cristã que não desconhece a Bíblia nem ignora que o trabalho foi imposto aos humanos como servidão!). É ainda a mesma imagem que apare na construção, feita por Monteiro Lobato no início deste século, do Jeca Tatu, o caipira ocioso devorado pelos vermes enquanto a plantação é devorada pelas saúvas. Nesse imaginário, ‘a preguiça é a mãe de todos os vícios’ e nele vêm inscrever-se, hoje, o nordestino preguiçoso, a criança de rua vadia (vadiagem sendo, aliás, o termo empregado para referir-se às prostitutas), o mendigo – ‘jovem, forte, saudável, que devia estar trabalhando em vez de vadiar’. É ela, enfim, que força o trabalhador desempregado a sentir-se humilhado, culpado e um pária social.

Não é curioso, porém, que o desprezo pela preguiça e a EXTREMA VALORIZAÇÃO DO TRABALHO possam existir numa sociedade que não desconhece a maldição que recai sobre o trabalho, visto que TRABALHAR É CASTIGO DIVINO E NÃO VIRTUDE DO LIVRE-ARBÍTRIO HUMANO? Aliás, a ideia do trabalho como desonra e degradação não é exclusiva da tradição judaico-cristã. Essa ideia aparece em quase todos os mitos que narram a origem das sociedades humanas como efeito de um crime cuja punição será a necessidade de trabalhar para viver. Ela também aparece nas sociedades escravistas antigas, como a grega e a romana. […], vendo o trabalho como pena que cabe aos escravos e desonra que cai sobre homens livres pobres: [os humiliores (humildes)]”.

A partir da página 12, Marilena Chaui dedica-se a responder as questões propostas por suas reflexões, isto é, como e quando o horror pelo trabalho transformou-se no seu contrário? Quando e por que se passou ao elogio do trabalho como virtude e se viu no elogio do ócio o convite ao vício, impondo-se negá-lo pelo neg-ócio?

Para responder as questões acima, Marilena Chaui parte de uma breve análise da obra mais conhecida do sociólogo Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, que trata da relação entre o capitalismo e a posição do trabalho como virtude, para concluir com a contribuição que Paul Lafargue deu, com seu Direito à Preguiça, para complementar a lacuna da obra de Weber, que “por ignorar deliberadamente a formação histórica do capitalismo e a luta de classes, não indaga se a ética burguesa é racional para os produtores de capital, isto é, a classe trabalhadora, tampouco indaga como essa ética conseguiu tornar-se ética proletária. É disso que trata O Direito à Preguiça”, conclui Chaui.

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O ENEM, o Mackenzie e o peso da tradição

A manhã desta quarta-feira foi marcada por um protesto dos estudantes do Mackenzie, tradicional universidade de São Paulo, contra mudanças no processo seletivo da instituição. O protesto era contra a decisão da administração da universidade em adotar somente a nota do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) no vestibular do meio do ano. Para os candidatos que não fizeram o Exame Nacional, a universidade se posicionou informando que estes terão oportunidade de fazer a prova tradicional em outra etapa do processo seletivo.

Ao ler os jornais, o que mais me incomodou na manifestação destes alunos, foram as razões que os levaram ao protesto e os gritos de ordem dos estudantes que, desavergonhadamente, evocavam a uma tradição em detrimento ao que viria com a adoção do ENEM. Segundo reportagem da Folha, os estudantes seriam contra o uso da prova federal, pois acreditam que “o Enem está desmoralizado por casos de fraude e vai comprometer o nome da faculdade.” Já na reportagem do Estado de S. Paulo, lemos que durante o protesto desta manhã os alunos “gritavam hinos da universidade, como o “Louco, isso é Mackenzie”, (…) e emendavam: “Enem, não, Mackenzie é tradição”.

Alunos do Mackenzie protestam contra mudanças no processo seletivo da universidade. Foto: Marcelo Justo/Folhapress

Como se sabe, o processo seletivo de universidades privadas que não aderiram ao ENEM, é organizado pela própria universidade, que pode terceirizar o serviço ou realizar ela mesmo todo o processo. De cara, uma barreira que inibe estudantes de baixa renda que acabaram de sair do ensino médio a realizar este tipo de vestibular, é o valor da taxa de inscrição para a realização da prova. Além disso, muitos sequer se inscrevem para o vestibular, inibidos que são pelos altos preços das mensalidades das diferentes disciplinas de universidades mais tradicionais, como PUC e Mackenzie. Acontece que isso tudo começou a mudar quando o governo federal, a partir de Luís Inácio Lula da Silva, criou o ENEM e, logo em seguida, o Programa Universidade para Todos (ProUni).

A proposta do Ministério da Educação (MEC) de unificar o acesso às universidades públicas e particulares através do ENEM, amplia e democratiza a entrada dos estudantes no ensino superior. É claro que por si só, o Exame Nacional não democratiza o acesso a universidade, mas ele é um passo que, em conjunto com o ProUni, avançou e muito nessa direção, especialmente porque o MEC vinculou a garantia às bolsas integrais ou parciais do ProUni ao bom desempenho no ENEM. Assim, se um estudante pobre, que estudou toda sua vida em escolas públicas, tiver uma boa avaliação na prova nacional e cumprir os pré-requisitos do programa, ele não precisará se preocupar com a questão financeira para poder estudar nas melhores universidades privadas que adotaram o ENEM. E é exatamente isto o que pode ocorrer com o Mackenzie, que anunciou sua adesão ao Exame Nacional.

Desta forma, o real motivo por trás do protesto dos estudantes do Mackenzie é bastante evidente. Seus gritos de ordem serviram apenas para acabar com quaisquer dúvidas que poderiam restar, já que ao evocarem o “peso” da tradição de uma elite rica (incapaz de ingressar na universidade pública) que frequentou os bancos daquela universidade em uma época onde os pobres não tinham nenhuma oportunidade de acesso àquele espaço, apenas se colocam lado a lado com os desejos e anseios daquele grupo e da forma como viviam.

O protesto de hoje é simbólico, pois revela todo o preconceito de uma parcela da sociedade contra os pobres. Preconceito que esta parcela tenta desesperadamente esconder por trás de discursos vazios e politicamente corretos, como o da igualdade de oportunidades independente da origem social.

Se pararmos para fazer uma conta rápida, quantas vezes não ouvimos colegas fazendo esses discursos no qual o pobre é considerado o próprio culpado de sua miséria por não ter aproveitado as oportunidades que lhe foram dadas no decorrer de sua vida? Quantas vezes não ouvimos pessoas, como um desses 800 estudantes que se manifestaram hoje, dizendo que “esses favelados preferiram vagabundear a vida toda e agora estão por aí, cometendo crimes, invadindo propriedades privadas, pedindo cotas para a universidade pública ou benefícios sociais”? Por fim, quantas vezes não ouvimos essa mesma gente reclamar que seus impostos estavam sendo desperdiçados ao financiar programas que beneficiam estes pobres, que só querem mesmo é a “vida boa”? Será que vamos conseguir chegar a um número com menos de dois dígitos?

Em contrapartida, a que número chegaríamos se tentássemos contar quantas vezes esses mesmos indivíduos foram capazes de considerar e mencionar em seus discursos imbecis quais foram mesmo as reais oportunidades oferecidas a estas pessoas que, tão estupidamente não aproveitaram? Será que chegaríamos a contar cinco reais oportunidade de mudança na vida desses pobres? Para não sermos tão rigorosos, será que conseguiriam apontar ao menos três? E mesmo que fossem capazes, quando finalmente alguma oportunidade real de ascensão social através de uma educação de qualidade é oferecida aos menos favorecidos, eles não deveriam aplaudir essa iniciativa, que só ajudaria a corroborar a tese deles?

Contudo, ao contrário do que o raciocínio nos faria pensar se acreditássemos nos discursos vazios dessa parcela da sociedade, são justamente estes indivíduos que tanto falam na igualdade de oportunidades os primeiros a se levantarem para protestar contra o acesso dos pobres à “suas universidades”, fazendo questão de evocar uma tradição na qual o acesso a estes indivíduos era simplesmente vedado.

Infelizmente, não surpreende mais ver este tipo de manifestação nas ruas de São Paulo. Especialmente de uns tempos pra cá, onde favelas são criminosamente incendiadas e uma diretora da secretaria municipal de habitação sai à público para dizer que São Paulo é para poucos e não é lugar para pobres, que estes devem voltar para o buraco de onde vieram. O conservadorismo está cada vez mais explícito nesta cidade e, como se pode ver, não é apenas “coisa de velhos”. É triste demais ver estudantes, símbolos universais de mudança e renovação, invocando o peso da tradição para limitar o acesso de pobres a educação de qualidade.

Acabrunhado, concluo este post preocupado demais com o que posso esperar da cidade onde vivo para os próximos anos. Não consigo imaginar como positivos os frutos que poderão vir de uma juventude que acha legítimo se associar a uma tradição que tinha como valores todos os tipos de preconceito. Sei muito bem que esta é apenas uma parcela dos jovens de São Paulo, isto é, eles não representam sua totalidade e há forças contrárias a eles. Contudo, não posso deixar de pensar que, pelo andar da carruagem, estes jovens ganharão cada vez mais espaço e, certamente, em alguns anos poderão estar em posição de ditar os rumos políticos e econômicos desta cidade. Espero estar equivocado em me preocupar com isto, mas cada dia que vivo nesta cidade, meu assombro só tem crescido…

REPORTAGENS SOBRE O ASSUNTO:

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Let’s Rock Expo

Durante os meses de abril e maio de 2012, São Paulo será palco da maior exposição sobre rock já realizada na América Latina: a Let’s Rock Expo. Quem receberá o evento será a Oca, do Parque do Ibirapuera, e os ingressos já estão sendo vendidos desde o dia 16 de março, com preços variando de R$10,00 (meia entrada e idosos) a R$20,00.

Segundo a divulgação que já está circulando pela Internet, serão pocket shows, workshops, filmes e palestras, começando dia 4 de abril e seguindo até 27 de maio. Além disso, a exposição contará com fotos, capas de revistas, posters e acessórios marcantes do gênero musical ao longo dos anos.

O conteúdo a ser exposto foi conseguido através de parcerias com alguns museus, como o Hall da Fama do Rock and Roll. Todo o material cedido ficará com a seção audiovisual do evento, que mostrará um pouco de ídolos como Led Zeppelin, The Doors, Beatles e Jimi Hendrix, entre outros.

O Rock nasceu com os negros, nos Estados Unidos, e tem influência direta do blues de Mississipi. Já em 1949, Chuck Berry e Little Richards  eram responsáveis por incendiar as platéias estadunidenses com seus solos de guitarras em canções como Johnny Be Goode, Tutti Frutti e Long Tall Sally.

Embora esses artistas chegassem a atrair um bom público, os Estados Unidos no começo da década de 1950 era uma sociedade bastante conservadora e ainda contava com leis de segregação racial, especialmente no sul do país. Assim, o rock estava relegado aos guetos negros e era tido por muita gente como a música do capeta. Para ser aceita entre os brancos, foi necessário o aparecimento de um jovem de voz potente, dança sensual e, claro, branco. Desta forma, cantando as músicas compostas pelos negros, este jovem rapaz contribuiu para popularizar o Rock não só pelos Estados Unidos, mas por todo o planeta. O nome dele era Elvis Presley, também conhecido como “o rei do Rock” e é a continuação detalhada desta história, desde sua origem até os dias atuais, que você poderá ver, ouvir e sentir na Let’s Rock Expo.

Em tempos de redes sociais, a boa notícia é que antes mesmo de conferir a exposição já é possível acompanhar, em primeira mão, o que está por vir, já que a organização do evento mantém um perfil no Twitter e uma página no Facebook. Através deles os visitantes e interessados poderão obter maiores informações sobre as datas, horários, preços, notícias, além de toda a programação do evento. O site oficial da exposição entra em funcionamento a partir de 18/03/2012 e trará maiores informações a respeito da exposição. Não deixem de visitar!!!!

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