We don’t need another hero

Neste último domingo, o programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, veiculou uma matéria sobre um jovem jogador de futebol americano que abriu mão de um contrato de US$3,6 milhões para ir lutar na “guerra” do Afeganistão, onde acabou morrendo por “fogo amigo”.

O nome deste jovem era Pat Tillman e, de modo bastante previsível, o governo dos EUA está realizando uma operação para transformá-lo em mais um herói estadunidense para conseguir alavancar o recrutamento de milhares de jovens que se inspirariam em sua história para colocarem suas vidas à disposição do Tio Sam.

Como se sabe, o alistamento militar nos Estados Unidos não é obrigatório e, justamente em função disso, o governo daquele país acaba tendo que realizar estratégias heterodoxas para atrair jovens soldados para o US Army. Quem assistiu ao documentário Fahrenheit 9/11, do cineasta Michael Moore, viu algumas destas estratégias sendo colocadas em prática, tais como a visita de recrutadores a bairros pobres, destroçados pela crise, oferecendo a carreira nas forças armadas como a única oportunidade de emprego para pessoas sem experiência e/ou especialização; ou então, a cooptação de jovens negros e pobres através da oferta de carreiras universitárias nas melhores instituições do país (alistamento como única forma de conseguirem pagar cursos universitários), ou ainda a atração de jovens negros e pobres que sonham com uma carreira atlética/esportiva, isso para não mencionarmos outras estratégias menos nobres, não abordadas pelo filme, como a troca da cidadania americana (green card) para imigrantes ilegais que se alistarem.

Tendo tudo isso em mente, imaginem então a capacidade de atração da história de um ídolo do esporte mais popular dos Estados Unidos da América, que deixou seu contrato de milhões de dólares para se alistar no exército e lutar na Guerra do Afeganistão. Imaginou? Pois então, é justamente a capacidade de atração desta história que está sendo utilizada pelo governo estadunidense como propaganda veiculada até mesmo fora das fronteiras daquele país, como é o caso desta reportagem da Globo.

Infelizmente esta é a história de mais um indivíduo que, iludido por um sentimento patriótico forjado no pós 11 de setembro, tomou uma decisão bastante duvidosa em relação a sua própria vida, trocando-a por uma causa da qual certamente não percebia a visão completa, ocultada que era pelos discursos de que os militares estadunidenses levavam a democracia e a liberdade a países dominados por terroristas.

Como se não fosse suficiente, sua tragédia pessoal agora é utilizada por homens inescrupulosos que, no controle de uma máquina de guerra que nunca para, seguem criando histórias de honra e glória para recrutar outros indivíduos como Pat Tillman. Pessoas dispostas a matar e a morrer por acreditarem em uma ideia envelhecida de pátria, que já parece descabida em um mundo como o de hoje, mas que ainda segue cativando milhares e milhares de pessoas.

Finalizo este post da mesma forma como comecei, isto é, relembrando uma canção dos anos 80, de Tina Turner, cujo título decidi utilizar para nomear este texto, no intuito de lembrar que não precisamos deste tipo de heróis. Pessoas como Pat Tillman e os milhares de recrutas estadunidenses são muito mais necessárias em suas casas, com suas famílias, criando seus filhos, exercendo suas profissões e não morrendo em “guerras” que sequer guerras são. É lamentável que a Globo, ciente destes mecanismos, veicule em seu programa esportivo dominical, visto por milhões de crianças em todo o país, uma mensagem que estimula um patriotismo vazio, que oculta por trás da imagem do auto-sacrifício, aquilo que existe de mais podre na humanidade: o extermínio de milhares de seres humanos em troca de mais poder e dinheiro a um pequeno grupo, ou seja, a guerra.

PS: Deixo abaixo link para a íntegra do documentário Fahrenheit 9/11, de Michael Moore, disponibilizado no YouTube. Quem tiver interesse em acompanhar especificamente a questão do recrutamento militar nos EUA, basta avançar a execução até 1:20:00 e acompanhar o filme por aproximadamente uns dez minutos.

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Arquivado em Esportes, Política

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