BRASIL: uma nação podólatra

Garrincha em partida amistosa da seleção brasileira contra o País de Gales, 1958.

Inspiradas pela experiência republicana francesa, as inúmeras bandeiras municipais confeccionadas no Brasil após a proclamação da República, traziam barretes frígios para representar a liberdade recém conquistada pelos cidadãos. No Brasil de 1889, apenas um ano após a abolição da escravatura, certamente  sapatos seriam ícones muito mais apropriados para representar a ideia de liberdade do que os tais barretes frígios importados da França.

Rogério Beier

ESCLARECIMENTOS INICIAIS

Esse texto nasceu imediatamente após uma provocação muito sadia feita pelo professor Nicolau Sevcenko durante uma de suas aulas de História Contemporânea na FFLCH-USP. Durante sua exposição, o professor pedia a seus alunos que parassem alguns instantes para refletir como os pés e seus produtos culturais são relegados, em nossa sociedade, a uma posição de inferioridade absoluta quando comparados ao cérebro, as mãos e os respectivos produtos atribuídos a estes órgãos. Mais do que isso, o professor nos lembrou que os pés são, invariavelmente, associados a ideias negativas como as de inferioridade, insuficiência, azar, morte ou, até mesmo, pejorativas, como revelam as expressões pé-rapado, pé-de-barro, pé-duro, pé-rachado e muitas outras.

O objetivo deste texto não é outro senão o de responder à provocação do professor de uma maneira bastante simples e despretensiosa. O método adotado para a produção deste pequeno ensaio foi o registro puro e simples das considerações e reflexões estimuladas durante a própria aula expositiva e que, posteriormente, foram melhor elaboradas em forma dissertativa durante a semana que separou a primeira da segunda aula. Portanto, pela própria característica que originou este texto e pela ausência de pretensão acadêmica, o mesmo segue livre de notas de rodapé e referências bibliográficas, já que o material consultado para produzir o texto, foi apenas de referência enciclopédica.

A ORIGEM DO FUTEBOL NA INGLATERRA

Apesar de não haver consenso entre os historiadores de quando e onde surgiu o futebol, muito significativo para este texto é uma das alegadas origens que, segundo alguns, teria se dado na Inglaterra. De acordo com algumas enciclopédias esportivas, historiadores apontam o documento Descriptio Nobilissimae Civitatis Londinae, escrito em 1175 por William Fitzstephen, como o mais antigo relacionado ao esporte. Este documento descreve um jogo que se disputava durante uma festa medieval, a Shrovetide (uma espécie de terça-feira de carnaval), quando ingleses chutavam pelas ruas da cidade uma bola feita de couro a fim de comemorar a expulsão dos dinamarqueses no período de dominação anglo-saxônica. Acredita-se que essa bola que era chutada pelas ruas simbolizava a cabeça de um oficial do exército invasor.

Muitos séculos depois, o costume de se chutar bolas de couro pelas ruas continuava a ser praticado no Reino Unido e, o que era um esporte violento durante a Idade Média, com o passar dos séculos, foi se tornando cada vez mais tranqüilo, até que escolas, clubes e universidades passaram a adotá-lo como prática desportiva no século XIX.

Um grande problema a se resolver nesta época era que cada escola, clube ou universidade utilizava uma regra diferente da adotada por outra. Em umas o uso das mãos era permitido, enquanto em outras, não. Tal indefinição provocava reações até mesmo de praticantes de outro esporte, o rugby, que pediam por uma definição urgente das regras do futebol que, até aquele momento, era muito semelhante ao que se praticava no rugby. Assim, em 1863, uma reunião entre dirigentes de escolas, universidades e clubes praticantes do football foi realizada para estabelecer e unificar as regras do jogo e, em dezembro daquele mesmo ano, fundou-se na Inglaterra a primeira associação de futebol (Football Assossiation) que teria a responsabilidade de definir as regras do esporte que, no século seguinte, acabaria se tornando o mais popular do planeta.

FUTEBOL: PRODUTO CULTURAL DA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?

No mesmo local do globo e período da história a que nos referimos anteriormente, a Inglaterra estava passando por um estágio avançado de sua Revolução Industrial. Por volta de 1870, Londres contava com aproximadamente cinco milhões de habitantes e suas manufaturas produziam bens de consumo a todo vapor, utilizando-se da mão-de-obra de operários que cumpriam, àquela época, uma jornada de dez a doze horas diárias.

Como fizemos questão de destacar acima, as próprias expressões utilizadas para se referir às fábricas e aos trabalhadores não escondem quais partes do corpo eram privilegiadas nesses novos locais de trabalho que se espalharam por todo o Reino Unido. Assim, como não poderia deixar de ser, praticamente todo o trabalho realizado em uma manufatura era feito pelas hábeis mãos dos operários. Além disso, outra característica marcante do trabalho realizado nas manufaturas, era a fixação do operário em um único lugar durante as doze horas de sua jornada. Tal característica apresenta um diferencial com as formas anteriores de trabalho, uma vez que, durante o período feudal, além do trabalhador se deslocar pela terra em que produzia, ele ainda tinha contato com a terra e com a natureza. O trabalho nas fábricas não só é marcado pela fixação do trabalhador a um espaço ainda mais reduzido, mas também por ser afastado dos campos, da terra e do contato com a natureza. Desta forma, não é estranho ouvir que as associações de trabalhadores da época, com o passar dos anos, reivindicavam mais tempo livre para que os trabalhadores desfrutassem de momentos em contato com a natureza, seja nas florestas ou nas montanhas.

Também não nos causa estranheza alguma o fato de que a criação deste esporte, isto é, a organização de suas regras e seu controle através de um órgão associativo, tenha se dado justamente como produto cultural deste local específico do globo e deste período de tempo. Afinal, mesmo que sua criação tenha partido das elites, e não do povo, acreditamos não ser bastante equivocado imaginar o futebol como contrapartida dessa nova vida levada nas cidades. Talvez resida justamente aí a razão da imensa e rápida popularidade deste esporte que, com a implantação da regra onde se proibia o uso das mãos, transformava o jogo justamente em uma oposição ao modo de vida nas fábricas, não apenas por se privilegiar o uso dos pés em detrimento das mãos, mas também por conferir maior dinamicidade à vida de seu praticante.

Outra regra também bastante significativa neste sentido foi a determinação de um campo aberto como local de disputa dos jogos. De uma maneira ou de outra, ela também se contrapõe à nova maneira de viver das grandes cidades justamente por ser um momento onde o praticante teria um contato maior com a terra onde passaria a desempenhar uma atividade extremamente dinâmica, bem longe daquilo que representavam as fábricas e bem perto daquele anseio, que havíamos destacado anteriormente, pelo qual algumas associações de trabalhadores já lutavam.

GOLEIROS: OS INIMIGOS A SEREM BATIDOS

Goleiro, figura tão maldita que onde pisa, não nasce grama.

Frase atribuída a Neném Prancha, botafoguense.

Antes de passarmos ao tema deste texto, isto é, o Brasil e suas relações com os pés, não poderíamos deixar de destacar um jogador específico neste esporte que é o símbolo de tudo o que viemos destacando até o momento: o goleiro.

De acordo com as regras do futebol, os goleiros são os únicos permitidos a tocarem a bola com as mãos durante o jogo. Chama atenção o fato de o objetivo final deste jogador ser justamente evitar aquele que é o objetivo do jogo, isto é, o gol. Assim, o goleiro se torna, na verdade, o grande adversário a ser batido durante jogo. Os demais jogadores são meros obstáculos, há mesmo é que se bater o goleiro, o estraga-prazeres.

Aqui percebemos claramente a presença de uma disputa entre pés e mãos. Uma tensão que precisa ser resolvida e que foi criada em função da introdução, dentro do próprio jogo, de um elemento com valores opostos e objetivos distintos aos de todos os demais e ao do próprio jogo em si. A presença desse jogador transforma-o, é claro, no vilão do jogo, no inimigo a ser batido.

Analisando outros esportes coletivos, vemos que em poucos há a presença de um elemento causador de tamanha tensão inseridos no próprio jogo. No basquete, por exemplo, o objetivo é atirar a bola ao cesto e, ao fim, disputar, uns contra os outros, quem converte mais cestas. Não há a presença de um jogador postado frente às cestas com o objetivo de evitar, com os pés, a conversão dos arremessos. Podemos dizer o mesmo do voleibol, do beisebol ou do futebol americano, por exemplo.

Assim, acreditamos que essa tensão gerada pela presença do goleiro, traz para o jogo a mesma tensão vivida na própria sociedade que criou o esporte. Como viemos expondo até o momento, no futebol os pés ganham sentido de liberdade, mobilidade e contato com a terra, enquanto as mãos representam as fábricas, a rigidez e a vida urbana, caótica e sem perspectiva das grandes cidades. Talvez a grande popularidade conquistada muito rapidamente por esse esporte se justifique exatamente por isso, por dar a seu praticante este sentido de liberdade, mesmo que temporária, de uma sociedade que o cativa, que o impede de se expressar. Ao menos ali, durante o jogo, ele poderá bater o goleiro. Ao menos ali, ele poderá se vingar, aos pontapés, das mãos que o aprisiona.

Não poderíamos deixar de mencionar aqui o fato de, atualmente, alguns goleiros estarem ganhando extrema popularidade e respeito por demonstrarem também possuir habilidades com os pés. No Brasil, grande popularidade ganhou o goleiro do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, por ser um jogador que apesar de atuar como goleiro, apresenta enorme facilidade em jogar com os pés fazendo, inclusive, inúmeros gols em cobranças de faltas e penalidades máximas.

BRASIL: CARNAVAL, FUTEBOL E SAMBA

Quem não gosta de samba bom sujeito não é.
É ruim da cabeça ou doente do pé.

Dorival Caymmi em Samba da minha terra.

Ao nos provocar durante a aula, o professor alerta para o fato de que talvez não tivéssemos nos dado conta da mencionada posição de desprezo e submissão dos pés em relação às mãos e ao cérebro e que, até mesmo, nos horrorizaríamos ao constatá-la aqui no Brasil, produto da grande influência cultural e dos valores europeus brutalmente impingidos à nossa sociedade.

De fato, como bem salientou o professor, é inegável que também em nossa sociedade os pés e seus produtos culturais estejam submetidos àquela posição de inferioridade e cheguem, até mesmo, a simbolizar pobreza, miséria ou azar, como já destacamos. Contudo, não podemos deixar de destacar que, diferentemente de outros lugares do globo, o Brasil talvez seja o único país que se identifique e seja identificado intimamente com produtos culturais oriundos dos pés. Afinal de contas, quem nunca ouviu um estrangeiro, ao comentar sobre o Brasil, associá-lo ao carnaval, futebol e samba?

Assim, acreditamos que em nossa sociedade há ainda alguns espaços que resistem a esta imposição cultural das mãos proveniente da Europa. Espaços estes, não por acaso, conquistados pelas camadas mais populares da sociedade, que expressam os produtos desta cultura, de maneira geral, em grupos ou comunidades e nas ruas.

O samba, por exemplo, ganha sua expressão máxima nas ruas. É nas ruas que ele se populariza rapidamente e conquista todo o país, não nos salões e nem nas cortes, como ocorria geralmente com as músicas européias. Através do samba a população deixa a vida particular de lado, suas atribulações cotidianas com o trabalho e sai às ruas para dançar e sociabilizar. Em um dos seus momentos máximos, uma grandiosa festa é organizada e milhões de pessoas em todo o país vão às ruas para dançar o samba, gozar a vida e celebrar intensamente o simples fato de se estar vivo. Eis aí o grande objetivo dessa “ofegante epidemia” que se chama carnaval.

O futebol, por sua vez, ganha no Brasil, e também na África, imensa popularidade. Nessas localidades valoriza-se muito a forma como se joga em contraposição ao objetivo do jogo, ou seja, a vitória. Muitos expectadores destas regiões preferem muito mais assistir a um jogo tecnicamente bem jogado por seus times, do que vê-los vitoriosos jogando um futebol de péssima qualidade. Maior exemplo não pode haver do que os muitos torcedores brasileiros que dizem valorizar mais a seleção brasileira derrotada na Copa do Mundo de 1982 do que a campeã mundial de 1994. Outro exemplo que demonstra essa valorização da técnica é aquele que ouvimos de comentaristas esportivos que insistem em qualificar as seleções africanas de ingênuas, tal como faziam com Garrincha, por estas sobrevalorizarem jogadas bem executadas tecnicamente e com grande efeito plástico em detrimento do gol. Não por acaso Garrincha é reconhecido o ícone máximo do futebol brasileiro. Pelé é “o Rei”, isto é, aquele que praticou o esporte com soberania. Garrincha é, contudo, a “alegria do povo”. Aquele a quem todos gostam de ver jogar. Aquele a quem até mesmo os adversários aplaudem ao vê-lo desferir um drible contra um zagueiro incauto. Sábio é o povo que alcunha seus maiores ídolos distinguindo-os precisamente como o “Rei” e a “alegria do povo”.

Neste sentido, também não deixa de ser curioso e representativo o fato de que, atualmente, a demonstração de extrema habilidade técnica com os pés por parte de um jogador, passe a ser interpretada por seus adversários como um ato de desrespeito e pretensa humilhação destes diante do público em geral. Tal inversão de valores pode demonstrar, mesmo dentro do futebol, como os pés ainda são mal vistos por alguns membros da sociedade, que reprimem a qualidade técnica com violência. Também podemos ver tal fato como uma forma que os menos habilidosos com os pés conseguiram de reverter, através de discursos e práticas, violentas ou não (valorização de jogada aérea), aquilo que inicialmente era valorizado e visto como máxima demonstração de habilidade técnica por parte de um jogador, atuando, desta forma,  como agentes de uma reação da cultura manual dentro do futebol.

No samba, esta reação também pode ser vista com a tentativa de transformação do carnaval em um espetáculo comercial – com local de exibição próprio onde, inclusive, se paga ingresso para participar – que acabaria por restringir a espontaneidade e a liberdade dessa que é, junto com o futebol, uma das expressões mais características de nossa sociedade e que, apesar de não terem sido criados aqui, foram logo acolhidos e ganharam uma expressividade que insiste em resistir bravamente aos influxos culturais cerceadores da liberdade provindos de um velho mundo cada vez mais preso aos grilhões de um sistema individualista e alienante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Portanto, gostaríamos de concluir este pequeno ensaio dizendo que concordamos, em parte, com a afirmação de que os pés e seus produtos culturais estão, nas sociedades ocidentais, submetidos a uma condição de inferioridade quando comparados aos produtos culturais das mãos e do cérebro. Dizemos em parte porque, como viemos destacando acima, no Brasil é possível verificar um forte espaço de resistência por parte de produtos culturais característicos dos pés que, apesar de não terem sido criados aqui, ganharam grande popularidade chegando até mesmo a se alçarem como produtos identitários de toda uma nacionalidade. Ainda hoje, apesar de uma reação esboçada por esta sociedade controlada por mãos e cérebro no intuito de modificar a expressão tipicamente popular do Carnaval, Futebol e Samba, estes continuam sendo sinônimos, não só de Brasil e dos brasileiros, mas também da não submissão à um sistema que tolhe as liberdades em busca, cada vez mais, da anulação da humanidade em seu sentido mais profundo.

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