Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão. (Parte I)

“Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Com esta célebre frase do Manifesto Comunista (1848), Karl Marx e Friedrich Engels chamavam a atenção dos trabalhadores para a necessidade premente deles se organizarem a fim de lutarem por seus direitos contra a exploração de sua força de trabalho por uma burguesia cada vez mais ávida por acumular riqueza.

Os operários de 1933 - Tarsila do Amaral

Nos 164 anos que nos separam da publicação deste manifesto, tanta coisa já se passou: revoluções (sociais e tecnológicas), o comunismo, guerras mundiais, o nazismo, a guerra fria e, até mesmo, o “Fim da História”. Tudo isso já aconteceu e, ainda assim, mesmo depois de todo este tempo com todas as mudanças que ele trouxe consigo, as ideias de Marx e o seu clamor por união entre os proletários de todo o mundo continuam ainda mais atuais hoje do que talvez jamais estiveram. Afinal de contas, os trabalhadores continuam sendo a base sobre a qual toda a riqueza do mundo é produzida e aumentada ano após ano tal como prevê as regras do capitalismo. Neste sentido, os proletários continuam tendo sua força de trabalho explorada e, pior de tudo, passaram a acreditar, como diria Paul Lafargue, na “Religião do Trabalho”. Passaram a ter tanta fé nesta religião, que aceitam livremente ser explorados e, mais do que isso, como se estivessem movidos por uma estranha loucura, lutam pelo direito de trabalhar, chegando até mesmo a abrir mão de conquistas históricas para manter este estranho direito de servir voluntariamente aos interesses burgueses que os mantém cada vez mais pobres.

Basta folhear qualquer jornal para colhermos exemplos frescos do que estou falando, ainda mais nesses tempos de profunda crise econômica na Europa e nos EUA. No caderno Mundo da Folha de S. Paulo de hoje, por exemplo, vemos a manchete “Credor exige corte de 15% de custos trabalhistas gregos”. Já no caderno Mercado, de 27/03, via-se esta outra: “Sindicalistas discutem setor automotivo com governo”. Nesta última, surpreende o fato de que os representantes de centrais sindicais e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC pretendem, dentre outras coisas, negociar com o governo medidas para aumentar o consumo de veículos automotores (???) e, também, um programa para “modernizar” o seguro-desemprego para que se transforme em um sistema de manutenção de emprego e renda.

Além de manchetes como estas, também é comum acompanharmos, através dos jornais, a movimentação de políticos com propostas de reduções no valor da aposentadoria ou aumento no número de anos de contribuição, propostas de cortes de programas sociais ou, ainda, propostas de isenção de impostos para empresas privadas sob a ameaça destas saírem das cidades onde estão estabelecidas. Enfim, notícias que demonstram cada vez mais o aprofundamento da pobreza dos trabalhadores ao redor do mundo e o enraizamento da crença de que só o trabalho, mesmo que em condições cada vez piores, é capaz de retirá-los desta condição de miséria em que se encontram.

Como explicar esse paradoxo de uma classe que reconhece ser explorada (e que esta é a razão de sua miséria), mas que, apesar disso, ainda exige e luta pelo direito de trabalhar? Nas palavras de Paul Lafargue: “Como explicar que os trabalhadores reivindiquem o trabalho como um direito? Como explicar que aquilo mesmo que os destrói lhes apareça como conquista revolucionária de um bem?”

As respostas para estas questões exigem a compreensão do caminho percorrido pela ideia que as diferentes sociedades da Europa ocidental faziam a respeito do trabalho e que, a partir de um determinado momento específico na história, acabou por se transformar de maldição de Deus contra a humanidade, em uma virtude quase sagrada e sem a qual, hoje em dia, a vida como a conhecemos seria impossível.

Embora tenhamos mencionado de passagem o tema deste post em um texto anterior (A disseminação do ódio contra os pobres nas redes sociais), o objetivo deste pequeno ensaio é tratar mais detalhadamente este paradoxo. O texto foi preparado tomando como base o capítulo de Introdução feito pela professora Marilena Chauí para o livro Direito à Preguiça, de Paul Lafargue, sendo que cada uma das partes do texto é pouco mais do que uma breve síntese do exposto por Chaui em sua Introdução. Para adicionar algo novo e não ficar apenas na síntese, trago o diálogo de Jean de Lery com um velho Tupinambá (1578) e, também, trechos que editei de um documentário dirigido por Iza Ferraz, no ano 2000, inspirado na obra de maior sucesso de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro, trazendo as considerações deste antropólogo a respeito da vida em sociedade dos Tupinambás. Acredito que a comparação entre a visão atual que temos sobre trabalho, criticada por Chaui em sua Introdução ao Direito à Preguiça, e a visão que grupos indígenas tinham a respeito da vida em sociedade e do papel do trabalho neste âmbito, são bastante significativos e revelam claramente como ele se converteu em uma louca paixão que transforma a todos humanos em mercadorias descartáveis.

O PRINCÍPIO: O Trabalho como maldição na tradição judaico-cristã

Segundo a visão judaico-cristã, o trabalho aparece na vida do homem quando Adão e Eva são expulsos do Paraíso por terem desobedecido a Deus e cometido o assim chamado “Pecado Original”. Antes de partirem definitivamente do Jardim do Éden, Deus amaldiçoa especificamente cada uma de suas criaturas, dizendo à mulher:

“(…) Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos hão-de nascer entre dores. Procurarás com paixão a quem serás sujeita, o teu marido.”

E, em seguida, diz ao homem:

“Porque ouviste as palavras da tua mulher e comeste o fruto da árvore a respeito da qual eu te havia ordenado: ‘Nunca deveis comer o fruto desta árvore’ maldita seja a terra por tua causa. E dela só arrancarás alimento à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida. Produzir-te-á espinhos e abrolhos, e comerás a erva dos campos. Comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar”.

Gênesis. 3:16-19.

Adão e Eva expulsos do Paraíso em Ilustração de Gustave Doré.

O trabalho para gregos e romanos

Se considerarmos outras sociedades antigas, como as gregas e romanas, baseadas no escravismo, o trabalho era visto como pena que cabe aos escravos e desonra que cai sobre homens livres e pobres. Nestas sociedades, poetas e filósofos proclamavam o ócio como um valor indispensável para a vida livre e feliz, para o exercício da nobre atividade da política, para o cultivo do espírito (pelas letras, artes e ciências) e para o cuidado com o vigor e a beleza do corpo (pela ginástica, dança e arte militar).

Como bem lembra Marilena Chaui, são estes últimos que, em Roma, eram conhecidos como os humiliores (humildes ou inferiores) em contraposição aos honestiores (os homens bons porque livres, senhores da terra, da política e da guerra).

A origem de nossa palavra trabalho, aliás, vem do latim “tripalium”, que era um instrumento de tortura utilizado para empalar escravos rebeldes. E o “labour”, da língua inglesa, também tem sua origem no latim, na palavra “labor”, cujo significado é esforço penoso, dobrar-se sob o peso de uma carga, dor, sofrimento, pena e fadiga. Como lembra Chaui, é bastante significativo que línguas modernas latinas tenham recuperado a maldição de Deus contra Eva ao utilizar a expressão “trabalho de parto” para designar as dores que antecedem o nascimento de uma criança.

O trabalho em Weber e sua ética protestante

Essa visão do trabalho como algo socialmente desprezado, vil e mesquinho persiste por séculos nas sociedades europeias ocidentais e, segundo o sociólogo alemão Max Weber, só vai efetivamente passar a se transformar em virtude quando um vínculo entre a moral protestante calvinista (especialmente do puritanismo) e a economia é finalmente estabelecido. Será a partir deste momento que o trabalho se transforma de castigo em virtude e vocação divina. Chaui destaca que para Weber,

“(…) o puritanismo passa a valorizar a vida secular como um dever e, assim, a partir daquele momento ser um cristão virtuoso é seguir um conjunto de normas de conduta nas quais o trabalho surge não apenas como obrigação moral, mas como poderoso racionalizador da atividade econômica geradora de lucro. Aquele que faz seu trabalho render dinheiro e, em lugar de gastá-lo, o investe em mais trabalho para gerar mais dinheiro e mais lucro, vivendo frugalmente e honestamente, é um homem virtuoso. Portanto, trabalhar é ganhar para poupar e investir para que se possa trabalhar mais e investir mais.”

Tal ética que mudou a percepção do trabalho, coincidiu com o advento do capitalismo e acabou dando ao ócio um aspecto muito mais terrível do que ele tivera até então. Como prova disso, Chaui menciona as diversas legislações iniciais do capitalismo que transformaram a mendicância e a preguiça em crimes sujeitos à pena de prisão e, em certos casos, de morte. Portanto, nesta nova ética burguesa do trabalho, o homem honesto, que trabalha, poupa e investe, é a auto-imagem do burguês e não aqueles que trabalham para que o burguês poupe e invista.

Um encontro entre dois mundos muito distintos: o diálogo de Jean de Lery e um velho Tupinambá

Jean de Léry (1534-1611), foi um membro de um grupo formado por catorze calvinistas que vieram da Suíça na tentativa frustrada de fundar uma colônia francesa na Baía da Guanabara: a França Antártica, comandada por Nicolas de Villegagnon.

No capítulo XIII de seu livro, o “Viagem à Terra do Brasil”, publicado em 1578 na França, Léry transcreve um diálogo entre ele e “um velho Tupinambá”, através da qual podemos observar um grande estranhamento e impasse cultural entre o mundo de Jean de Lery e o mundo do velho Tupinambá, especialmente em relação às ideias de trabalho e ócio.

Tendo permanecido na América Portuguesa entre fevereiro de 1557 e janeiro de 1558, este diálogo ajuda a demonstrar a ideia do trabalho com o objetivo de acumulação de riqueza pessoal, tal como descrito por Max Weber, já no século XVI. Como dissemos anteriormente, é esta nova ética em relação ao trabalho, em conjunto com o “espírito do capitalismo”, que vai dar origem à transformação da visão do trabalho de maldição em virtude.

Antes de partirmos à transcrição do diálogo de Lery com o Tupinambá, vale mencionar um pequeno trecho da obra Discurso da Servidão Voluntária, de Etienne de La Boétie (Download PDF), onde este compara e contrapõe o francês servil e tiranizado aos indígenas do Novo Mundo, livres, fortes, saudáveis e felizes que, se tivessem de escolher entre liberdade e servidão, não hesitariam em escolher a primeira e somente pela violência seriam rendidos à segunda. Para La Boétie, é estranho que homens, nascidos livres, vivam em servidão como se esta fosse natural assim como para Lafargue é estranho que o proletário se deixe dominar pelo dogma do trabalho.

Vamos à transcrição do diálogo retirado de LÉRY, Jean de. Viagem à terra do Brasil. Biblioteca Histórica Brasileira. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1960. p. 153-154. (1ª edição em francês: 1578).

“Os nossos Tupinambás muito se admiram dos franceses e outros estrangeiros se darem ao trabalho de ir buscar o seu arabutan [Pau Brasil]. Uma vez um velho perguntou-me: por que vindes vós outros, maírs e perós (franceses e portugueses), buscar lenha de tão longe para vos aquecer? Não tendes madeira em vossa terra? Respondi que tínhamos muita, mas não daquela qualidade, e que não a queimávamos, como ele o supunha, mas dela extraíamos tinta para tingir, tal qual o faziam eles com os seus cordões de algodão e suas plumas.
 
Retrucou o velho imediatamente: – e porventura precisais de muito? – Sim, respondi-lhe, pois no nosso país existem negociantes que possuem mais panos, facas, tesouras, espelhos e outras mercadorias do que podeis imaginar e um só deles compra todo o pau-brasil com que muitos navios voltam carregados. – Ah! retrucou o selvagem, tu me contas maravilhas, – acrescentando depois de bem compreender o que eu lhe dissera: – Mas esse homem tão rico de que me falais não morre? – Sim, disse eu, morre como os outros.
 
Mas os selvagens são grandes discursadores e costumam ir em qualquer assunto até o fim, por isso perguntou-me de novo: – e quando morrem para quem fica o que deixam? – Para seus filhos, se os têm, respondi; na falta destes, para os irmãos ou parentes mais próximos. – Na verdade – continuou o velho, que, como vereis, não era nenhum tolo – agora vejo que vós outros maírs [franceses] sois grandes loucos, pois atravessais o mar e sofreis grandes incômodos, como dizeis quando aqui chegais, e trabalham tanto para amontoar riquezas para vossos filhos ou para aqueles que vos sobrevivem! Não será a terra que vos nutriu suficiente para alimentá-los também? Temos pais, mães e filhos a quem amamos; mas estamos certos de que depois de nossa morte a terra que nos nutriu também os nutrirá, por isso descansamos sem maiores cuidados […]
 
A SER CONTINUADO NA PARTE II
 
Para que o post não fique muito extenso, decidi dividi-lo em duas partes. No próximo texto, trataremos de como a visão de trabalho proposto pela ética protestante nos moldes discutidos por Max Weber, transformaram-se, com a distribuição social do trabalho imposta pelo modo de produção capitalista, na forma como enxergamos o trabalho atualmente, isto é, numa estranha paixão que faz com que os trabalhadores lutem pelo direito de ser explorados. Eis o paradoxo do servilismo voluntário conforme apresentamos logo no início deste post.
 
Além disso, pretendo apresentar uma edição que preparei com trechos do documentário dirigido por Iza Ferraz baseado na obra de Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro. Assim como o diálogo que apresentamos entre Jean de Lery e o velho Tupinambá, para comparar o mundo daquele francês que entrava em contato com os grupos humanos que habitavam a América no século XVI, o objetivo é mostrar como era o modo de vida em sociedade dos Tupinambás e a maneira como estes enxergavam o trabalho, não como modo de acumulação de riqueza de um determinado grupo, mas sim como instrumento através do qual expressavam a si mesmos, isto é, exteriorizavam sua capacidade inventiva e criadora – o produto do trabalho como algo que represente a interioridade de seu produtor, que se reconhece neste produto.
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3 Comentários

Arquivado em Cultura, Ensaio, Política

3 Respostas para “Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão. (Parte I)

  1. Rogério, excelente discussão. Mas só um ponto a considerar: o sogro de Marx, Lafargue, geralmente é escamoteado nos círculos marxistas porque digamos que seu livro não pegou muito bem dentro da tradição marxista. Sobretudo, porque para Marx o indivíduo se realiza através do trabalho e o acesso aos bens de consumo e o reconhecimento do seu valor numa sociedade comunista é através do trabalho. Analisando sob esta perspectiva, o francês Rosanvallon advertiu que Marx não rompeu totalmente com a tradição filosófica liberal (inegavelmente o hegelianismo).

    Abraço!

    • Caro Munhoz,

      Não sabia que Lafargue era “escamoteado” nos círculos marxistas. Obrigado pela contribuição.

      Entendo que, para Marx, o indivíduo se realiza através do trabalho, mas não deste imposto pelos modos de produção capitalista através da divisão social do trabalho, isto é, o trabalho alienado ou assalariado, que passa a ser exigido como direito e, justamente por isso, é duramente criticado no panfleto revolucionário de Lafargue.

      Este é justamente o tema sobre o qual vou tratar na parte II deste texto. Se você quiser se adiantar um pouquinho e dar uma olhada no video que editei para a segunda parte (http://www.youtube.com/watch?v=iddBiM75F5Y&feature=share), vou trabalhar a ideia de que é perfeitamente possível a existência de trabalho sem que este seja alienado, tal como ocorre em sociedades indígenas (exemplo Tupinambá).

      Talvez fosse este o exemplo de trabalho no qual o indivíduo estabelece uma identificação intrínseca como seu produtor. Uma ligação afetiva por não ter sido obrigado a produzi-lo a outra pessoa que o explora e o reduz à miséria. Enfim… eu não consigo ainda observar uma ruptura muito grande no texto de Lafargue com os escritos marxistas que tive a oportunidade de ler.

      Mesmo assim, obrigado novamente por sua contribuição, vou reler trechos do Capital com isso em mente agora. =)

      Grande Abraço,

      Roger

      PS: Adicionei seu blog na lista dos recomendados aqui ao lado.

  2. PC, O PC

    Somos todos masoquistas… inegável…

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