Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão (Parte II)

“As nações pobres são aquelas onde o povo se sente à vontade;  as nações ricas são aquelas onde ele é, normalmente, pobre.”

Destutt de Tracy

No post anterior, começamos a contar o caminho que o trabalho percorreu de maldição divina, quando segundo a tradição judaico-cristã Deus expulsa Adão e Eva do Éden até chegar a essa visão que temos hoje na qual o trabalho se transformou em uma louca paixão na qual

Começamos essa trajetória com a tradição judaico-cristã e a maldição divina; passamos pela visão de sociedades antigas escravistas (Grécia e Roma), até chegarmos ao momento de virada, quando a ética protestante, juntamente com o espírito do capitalismo, transformou a visão do trabalho de algo vil e desprezível, digno apenas dos escravos, na maior das virtudes a ser perseguida pela humanidade.

Terminamos a primeira parte deste post apresentando um contraponto a esta visão de trabalho das sociedades europeias dominadas pela ética protestante (em especial a inglesa e a francesa), no diálogo estabelecido pelo calvinista francês Jean de Lery com um velho Tupinambá que vivia na Baía da Guanabara por volta dos anos 1557-58.

A segunda parte deste post tratará de como aquela visão de trabalho proposto pela ética protestante tal como proposta por Max Weber, transformou-se, com a distribuição social do trabalho imposta pelo modo de produção capitalista, nessa estranha e louca paixão que faz com que os trabalhadores lutem pelo direito de ser explorados.

Lafargue e o Direito à Preguiça

Ao escrever este panfleto revolucionário em 1880, Paul Lafargue chegou a pensar em nomeá-lo como direito ao lazer e, depois, direito ao ócio. Contudo, como explica Marilena Chaui, ao propor como direito um pecado capital para intitular seu panfleto, o autor visava atacar frontalmente o que ele chamava de “religião do trabalho”, o credo da burguesia para dominar as mãos, os corações e as mentes do proletariado, em nome da nova figura assumida por Deus, o Progresso.

Neste sentido, O Direito à Preguiça, surge como uma tentativa de Lafargue em responder justamente como os proletários podem reivindicar o trabalho como um direito. Trata-se, portanto, de um panfleto cujo objetivo é realizar a crítica materialista do trabalho assalariado ou do trabalho alienado.

Trabalho Alienado

Para entendermos o que é trabalho alienado é preciso, em primeiro lugar, entendermos o conceito de alienação a que se refere Lafargue quando escreve sua obra. Tal como nos ensina Marilena Chaui

“as palavras “alienação” e “alienado” são derivados de um pronome da língua latina, alienus, aliena, alienum, que significa “outro, outra”, no sentido de “alheio, alheia”. Quando se diz que um doente mental é um alienado, o que se quer dizer é: 1) ou que ele se tornou um outro para si mesmo, tornou-se alheio a si mesmo, não se reconhece tal como é, mas se imagina como um outro (por exemplo, aquele que imagina que é Cristo, Napoleão ou Hitler); 2) ou que ele imagina a existência de um outro superpoderoso ou uma existência alheia à sua que pode dominá-lo, forçá-lo a fazer o que não quer, matá-lo, etc. A paranóia é um dos casos clínicos da primeira forma da alienação, e a esquizofrenia é um dos casos clínicos da segunda. Não será por acaso que Lafargue se refira à “paixão pelo trabalho” como um caso de loucura. O trabalho de que ele fala é o trabalho alienado.

Outra coisa que é necessário entender antes de seguirmos com a definição de trabalho alienado, é entendermos que para Marx e Lafargue, o trabalho, em si mesmo, é uma das dimensões da vida humana que revela nossa humanidade, pois é por ele que dominamos as forças da natureza e que satisfazemos nossas necessidades vitais básicas e é nele que exteriorizamos nossa capacidade inventiva e criadora. Portanto, segundo esta visão, o trabalho exterioriza numa obra a interioridade do criador, isto é, o sujeito que produziu uma determinada obra se reconhece como produtor daquele objeto.

Assim sendo, para que o trabalho se torne alienado, isto é, para que oculte, em vez de revelar, a essência dos seres humanos e para que o trabalhador não se reconheça como produtor das obras, é preciso que a divisão social do trabalho, imposta historicamente pelo capitalismo, desconsidere as aptidões e capacidades dos indivíduos, suas necessidades fundamentais e suas aspirações criadoras e os force a trabalhar para outros como se estivessem trabalhando para a sociedade e para si mesmos. Resumindo de maneira bem esquemática tal como proposto por Chaui: “sob os efeitos da divisão social do trabalho e da luta de classes, o trabalhador individual pertence a uma classe social – a classe dos trabalhadores -, que, para sobreviver, se vê obrigada a trabalhar para uma outra classe social – a burguesia -, vendendo sua força de trabalho no mercado”. Ao proceder desta forma, o trabalhador aliena para um outro sua força de trabalho que, ao ser vendida e comprada, se torna uma mercadoria destinada a produzir mercadorias. É justamente por este motivo que o trabalho, reduzido à condição de mercadoria produtora de mercadorias, não realiza nenhuma capacidade humana do próprio trabalhador, mas sim as exigências impostas pelo mercado capitalista. Por este motivo também, os trabalhadores não se reconhecem nos produtos que produzem, pois estes não exprimem suas necessidades e capacidades.

Além disso tudo, as condições que o mercado de trabalho impõem ao trabalhador são tão competitivas que estes vendem sua força de trabalho por um preço muito inferior ao trabalho que realizam e justamente por isso se empobrecem à medida que vão produzindo riqueza para os outros. Os produtos que produz, de maneira geral, não estão ao seu alcance, seus preços seguem a lei do mercado impostas pelos capitalistas e como o trabalhador precisa de muitos desses produtos para sobreviver (em especial alimentação e vestuário), passam a aceitar as piores condições de trabalho, os piores salários, a pobreza, a miséria, o frio, a doença só para terem o DIREITO AO TRABALHO, com o que terão salário para comprar o mínimo daquilo que eles mesmos produziram. Os trabalhadores são dominados pelo mercado. pois se veem obrigados a aceitar qualquer condição para trabalhar, e são dominados pelos produtos do trabalho, pois precisam adquiri-los a preços exorbitantes no mercado.

Marcelo Masagão, em seu excelente Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (1999), conseguiu exemplificar magnificamente em uma cena de 90 segundos tudo isso que levei três ou quatro parágrafos para descrever sobre a alienação do trabalho e seus efeitos. Veja a cena a que me refiro abaixo:

Trabalho Assalariado

Em O Capital, Karl Marx explica que a especificidade do capitalismo consiste justamente em acumular e reproduzir riqueza social e assegurar os meios para a apropriação privada dessa riqueza. Portanto, a marca que distingue o capitalismo de outras formas econômicas é justamente a de produzir cada vez mais capital.

Há duas maneiras como a riqueza pode ser acumulada: 1) uma classe social poderosa expropria outras classes sociais dos seus meios de produção (terra, instrumentos de trabalho) e se apropria privadamente desses meios com os quais aquelas classes produziam sua subsistência e um excedente para trocar no mercado; 2) os proprietários privados dos meios de produção forçam as classes expropriadas a trabalhar para eles, mediante um salário, para produzir os bens que também serão propriedade privada do empregador. O trabalho se torna assalariado e submetido às leis da propriedade privada capitalista.

O trabalho assalariado é justamente o responsável pela mágica do crescimento do capital, obviamente, não nas mãos dos trabalhadores. Como nos ensina Marilena Chaui, o salário do trabalhador é calculado levando em conta o tempo socialmente necessário para a produção de uma mercadoria e as necessidades do produtor. Se imaginarmos, por exemplo, que para a produção de uma mercadoria qualquer fossem necessárias oito horas de trabalho e que cada hora de trabalho vale R$2,00 (isto é, para alimentar-se bem, vestir-se bem, transportar-se bem, cuidar bem da família, frequentar escolas, ter férias e lazer, ter bons cuidados com a saúde pessoal e da família, etc., o trabalhador deveria receber essa quantia por hora de trabalho). Dessa forma, em nosso exemplo, ele deveria receber R$16,00 pelas oito horas de trabalho. No sistema capitalista, o que acontece é que ele receberá por essas oito horas trabalhadas, na melhor das hipóteses, R$ 8,00 e, na pior, R$ 2,00. Portanto, o tempo socialmente utilizado pela força de trabalho não foi totalmente pago pelo salário. É exatamente esse tempo de salário não pago à força de trabalho – o que o Marx chama de mais-valia – que faz crescer o capital, isto é, o que chamamos de lucro. É um engano, portanto, acreditar que o lucro se dá no momento em que o produto final é comercializado. O lucro se dá, na verdade, no exato momento em que a força de trabalho não foi remunerada pelo salário correspondente.

Desta forma, respondemos como é mágica que faz o capital crescer e se multiplicar: através da exploração da força de trabalho. Exploração essa a que chamamos TRABALHO ASSALARIADO. Que fique muito claro: a riqueza é produzida, mas sua apropriação não é social, mas sim privada, ficando na mão de quem possui os meios de produção (terra, instrumentos de trabalho, etc.).

McLuham

Frase atribuída a McLuhan, retirada do documentário Nós Que Aqui Estamos Por Vós Esperamos (Marcelo Masagão / 1999).

Vale lembrar, como fez o amigo Munhoz nos comentários da primeira parte deste post, que mesmo em países socialistas o trabalho foi cultuado como dogma e imposto de formas degradantes e, até mesmo, criminosa. Como fala Marilena Chaui, ainda hoje os trabalhadores precisam lutar pelo direito à preguiça, especialmente se considerarmos o que se passou na história dos movimentos de esquerda. Não só os partidos socialistas e comunistas ergueram mundo a fora a bandeira do direito ao trabalho, como o stalinismo glorificou a virilidade do trabalhador que se esfalfa até o fim de suas forças para ganhar prêmios de produtividade e construir a sociedade livre do futuro, construção que incluía campos de trabalho forçado para todos os dissidentes, considerados “inimigos internos” do proletariado e de sua revolução. Justamente por isso que, ainda hoje, O Direito à Preguiça, este panfleto de alerta publicado na França em 1880, reforça a minha convicção de que as ideias de Lafargue e Marx estão mais vivas do que nunca.

Uma outra visão de mundo: a vida social dos Tupinambás no “Brasil” e sua visão de trabalho 

Para finalizar o post, gostaríamos novamente de contrapor essa maneira de ver o trabalho, tal como nos foi imposto pelo capitalismo através da divisão social do trabalho e da luta de classes, com uma outra visão de mundo. Recorremos, uma vez mais, à vida social dos Tupinambás e a visão que estes grupos humanos, dispersos em uma larga extensão do território que viria a ser o Brasil, do mundo e do trabalho.

Utilizamos trechos de imagens selecionadas do documentário “O Povo Brasileiro”, baseado na obra homônima de Darcy Ribeiro, nas quais aparecem o jornalista Washington Novaes e o próprio Darcy Ribeiro, relatando, com base em suas pesquisas de campo, como era viver com esses índios em uma sociedade autossuficiente e com um desejo de beleza em tudo o que fazem.

A edição das partes selecionadas fez com que o vídeo ficasse com um pouco mais de 9 minutos. Sugiro que assistam ele todo, pois é bastante rápido e muito emocionante. Confesso que mesmo depois de ter assistido inúmeras vezes, ainda fico com os olhos úmidos ao final da exibição da entrevista do Washington Novaes.

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2 Comentários

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2 Respostas para “Reflexões sobre o trabalho: de maldição divina a uma louca paixão (Parte II)

  1. Rogerio, muito bacana a continuidade da discussão! Quanto ao vídeo do Marsagão, me parece que ele aborda a mais-valia relativa (aumenta a velocidade com a tecnologia) muito comum ao fordismo. Muito interessante o vídeo dos Tupinambás, sobretudo o trecho que diz que o índio não difere a arte do trabalho, já que atualmente diferimos a vida do trabalho. Provocação! O índio se entendia como natureza, não havia a divisão entre os seres e as coisas como na cultura ocidental – que posso me situar. De todo modo, apesar de gostar muito do Darcy Ribeiro, me parece que os antropólogos em geral tem uma visão muito romântica do indígena ao dizer que eles viviam em completa harmonia com a natureza. Existem pelo menos dois problemas nesta constatação: primeiro de enxergar o outro – o diferente – sempre como aquilo que idealizamos para nós mesmos, de tentar encontrar respostas neles para nossas questões. Segundo ao dizer “os índios” e “a natureza” separadamente, levamos em consideração nossa noção cultural de homem diferente da natureza, não vejo que os índios entendiam-se assim, por isso é complicado emitir um valor (moral) a respeito se eles destruiam ou não a natureza, afinal eles me parecem uma coisa só. O homem como ser finito (sujeito e objeto) é uma invenção bastante recente, segundo Foucault e outra dezenas de autores.

    Mas quero te fazer duas perguntas provocativas: você já pensou sobre a impossibilidade de coadunar a noção de trabalho em Marx, Lafargue e os Tupinambás? Ou seja, para Marx existe uma diferença tremenda de trabalho no capitalismo e no socialismo, porque o homem se reconhece no produto final, mas de certa maneira ele é “escravo” do trabalho (mesmo no comunismo) enquanto trabalho produtivo e não como arte. Para Lafargue não muito longe, acho que o exercício do ócio, como insubmissão, é uma estratégia de luta política em vez do “trabalhismo”. Já os Tupinambás estão longe demais da noção de progresso da cultura ocidental, seja marxista, capitalista, anarquista – essa não evidência do progresso talvez seja uma das causas para a utilização da natureza exaurí-la.

    Segunda pergunta: a Marilena Chauí organizou um livro chamado “Discurso da Servidão Voluntária” (salvo engano), onde tem um texto do antropólogo Claude Lefort e de Ettiene de La Boitié que é autor dessa expressão. A linha de raciocínio da obra passa pela ideia de submissão persuasiva-assentida num engendramento pelo campo do político. Você já procurou entender como o indivíduo moderno permite se subjetivar por essa louca e estranha paixão?

    Minhas considerações ficaram maiores que seu post, rs, mas é que a discussão além de boa é muito polêmica. Gostaria que você fizesse suas observações e críticas a minha intervenção quando tiver disponibilidade.

    Abraços!

  2. Caro Munhoz, desculpe a demora em responder.

    Concordo com quase toda a primeira parte que você postou. Acho as obras do Darcy Ribeiro e dos antropólogos, de maneira geral, bastante importantes, mas que podem ser questionadas em alguns pontos, um dos quais, você levantou em seu comentário, que é a idealização da alteridade indígena. Por outro lado, quanto ao segundo ponto que você menciona, entendo que os antropólogos tem muito claro para eles que os índios não possuem uma visão da qual eles são seres “diferentes” da natureza. Pelo contrário, eles se veem como parte integrante da natureza e é justamente isso que os antropólogos valorizam na visão de mundo dos indígenas. Essa visão é de nossa sociedade. Quanto a emitir um valor sobre se os índios destruíram ou não a natureza, posso dizer que é inegável que qualquer atividade humana sobre a terra traga um ônus à natureza. Agricultura, pecuária, construções, vida em sociedade, etc. Há notícias de civilizações americanas que simplesmente acabaram no seu auge, como grandes cidades Maias, por terem provocado um grande desequilíbrio ecológico ao crescerem desmedidamente. Contudo, entendo que mesmo a visão que estas sociedades que se extinguiram tinham do trabalho e de sua relação com a natureza, em comparação com a visão das sociedades atuais, era muito mais harmoniosa com a natureza, quanto mais a dos Tupinambás, que jamais chegaram próximos de um colapso ambiental quanto os maias ou os nativos da Ilha de Páscoa.

    Vamos as perguntas provocativas. Quando mostrei exemplos da maneira como vivem os Tupinambás no Brasil, não era tentando coadunar a visão marxista e de Lafargue a estas sociedades, mas sim tentando ilustrar que há possibilidade de haver sociedades onde a visão de trabalho seja completamente diferente da nossa e onde o trabalho seja visto, não como arte, mas como parte de si mesmo. O índio não enxerga seu trabalho como arte, isso é a visão e o valor que outras sociedades deram para a sua produção. Meu objetivo com os videos sobre os índios era contrapor os conceitos marxistas que o Lafargue usa em seu livro para descrever a doença de nossa sociedade com o extremo oposto dessa visão, que são as sociedades Tupinambás tal como foram observadas pelos cronistas de época e antropólogos. Não tenho dúvidas de que nenhuma sociedade socialista conseguiu se aproximar dessa visão de mundo, pelo contrário, ficaram muito e muito distante tal como observado na União Soviética e em todo o leste europeu socialista.

    Quanto ao texto citado por Marilene Chaui, “Discurso da Servidão Voluntária”, eu fiz referência a ele no post e até coloquei um link para o download do PDF. hehehe. A ideia de trazer o texto para o blog foi justamente a de tentar compreender as razões que nos levam a submeter voluntariamente nossa força de trabalho aos donos dos meios de produção. É claro que há um componente ideológico muito forte sendo reproduzido, em primeiro lugar, pela educação que recebemos tanto dentro de casa, pelos pais, quanto pela educação formal, nos bancos das escolas. Isso sem falar no bombardeio incessante de valorização da ética burguesa em todos os veículos de comunicação de massa e da grande maioria dos produtos culturais de nossa sociedade. Afinal, quantos filmes, novelas ou literaturas podemos contar que não pregam a educação para o trabalho e o próprio trabalho como forma de enobrecer o homem através do acúmulo de riquezas?

    Ufa! Esse é um tema que sempre produz textos longos. hehehe Obrigado por promover a discussão e por acompanhar o blog querendo ajudar na proposição de discutir as ideias propostas por aqui.

    Grande Abraço,

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