O emblemático suicídio de Dimitris Christoulas na Grécia

O governo de Tsolakoglou acabou com a possibilidade de eu poder sobreviver com uma pensão digna, que paguei sozinho durante 35 anos sem nenhuma ajuda do Estado. E, sendo que a minha idade avançada não me permite reagir de forma dinâmica (embora se um colega grego pegasse uma Kalashnikov, eu estaria bem atrás dele), não vejo outra solução senão pôr, de forma digna, fim à minha vida, para que eu não me veja obrigado a revirar o lixo para assegurar o meu sustento (…)”.

Corpo de Dimitris Christoulas na praça Syntagma, na Grécia, pouco antes de ser removido pelas autoridades.

O texto reproduzido acima é a nota de suicídio de Dimitris Christoulas, um farmacêutico grego aposentado, de 77 anos de idade, que pôs fim à própria vida ontem na praça Syntagma, sob uma árvore nas proximidades do parlamento grego. Segundo informaram algumas testemunhas, Christoulas ainda teria berrado “não quero deixar dívidas aos meus filhos” antes de desferir um tiro contra sua própria cabeça.

Vale dizer que o Tsolakoglou, a quem se refere em sua nota suicida, foi o primeiro ministro grego que, em 1941, permitiu a entrada das forças nazistas na Grécia. Para Christoulas, o atual governo grego se assemelha ao de Tsolakoglou, já que sob forte pressão da Alemanha de Angela Merkel, acabou aceitando os termos impostos pela troika (credores internacionais da Grécia), para receber ajuda financeira de bilhões de dólares vindas do FMI.

Como todos sabem, há alguns anos a Grécia vem atravessando uma grave crise que, dentre outros efeitos, causou um enorme desemprego atingindo uma em cada cinco pessoas naquele país. Para tentar resolver a crise financeira, o governo cedeu às pressões germânicas e optou por pegar bilhões de dólares emprestados junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e, em contrapartida, adotar as medidas de austeridade impostas pela troika: cortes de 25% dos valores das pensões e de serviços sociais, reduções de salários, aumento de impostos e demissões de funcionários públicos, dentre outros. Tais medidas, evidentemente, atingem em cheio não só os trabalhadores, que perdem seus empregos, mas também os desempregados e aposentados de todo o país, como era o caso de Dimitris Christoulas.

Ontem, dia 04/04/2012, milhares de pessoas se reuniram na praça Syntagma, local do suicídio, para protestar contra o governo. Segundo informa o portal esquerda.net, a ação convocada através das redes sociais, teve como slogan principal “Isto não é um suicídio. Isto é um crime”.

Já a reportagem publicada na Folha de S.Paulo de hoje (05/04), destaca que Evangelos Venizelos, líder socialista do país, classificou o episódio de tão monstruoso que tornava “irrelevante e vão qualquer comentário político”. A matéria traz dados bastante esclarecedores sobre os índices mais recentes de suicídios na Grécia, dando conta de que estes aumentaram 18% desde 2010. Apenas em Atenas, a alta foi de 25%, de acordo com o jornal. O detalhe nefasto destes números é que, segundo o “New York Times”, antes da enorme crise financeira que vive o continente europeu, a Grécia tinha a taxa mais baixa de suicídios da Europa: 2,8 a cada 100 mil habitantes, ou pouco mais de 300 ao ano.

A morte de Dimitris Christoulas é emblemática, pois revela a preferência dos governos em resolver a crise financeira adotando medidas favoráveis aos credores (em geral instituições financeiras estrangeiras) através da opressão da classe trabalhadora local, impondo cortes salariais, cortes do funcionalismo, cortes de benefícios sociais e pensões, além de aumentos de impostos. Tais medidas só fazem aumentar ainda mais a pobreza da população mais vulnerável que, desesperada, acaba recorrendo ao único fim digno que encontram para resolver sua miséria: o suicídio.

Além disso, ela também é emblemática porque é um chamado a luta. Mesmo morto, Christoulas permanecerá como símbolo de todos aqueles que perderam suas vidas nessa crise que está assolando a Grécia desde 2008. Há quem diga que o suicídio de Christoulas já esteja sendo visto na Europa como o início de uma primavera grega, isto é, o velho continente agora também já teria o seu Mohammed Bouazizi, cujo suicídio deu início as revoltas da Tunísia e que se espalharam como um rastilho de pólvora por vários países árabes. Particularmente, entendo que será bastante difícil que o mesmo aconteça na Europa, pois a situação grega é bastante distinta dos países árabes e seu governo tem o apoio das principais potências europeias e mundiais por estar seguindo a cartilha do sacro-santo mercado. Aliás, o atual primeiro-ministro grego, Lucas Papademos, foi colocado no poder pelo mercado tal como ocorreu na Itália, com a ascensão de Mário Monti e em Portugal, com a queda de Sócrates.

Para Maria Margaronis, colunista do periódico britânico The Guardian, “uma primavera grega real teria que ser tanto europeia quanto grega: um movimento internacional para tomar a democracia de volta das mãos dos bancos, trabalhando lado a lado com uma democracia local por transparência e justiça”. Ainda segundo Margaronis, “se algo de bom pode vir da morte horrível de Christoulas, será algo menos barulhento que ocorre dentro do coração e mente das pessoas e não nas ruas de Atenas: um reconhecimento do custo humano real da austeridade, uma determinação absoluta de não permitir que isso ocorra novamente”.

Por fim, de maneira bastante profética, Dimitris Christoulas  termina sua nota de suicídio com a seguinte frase onde:

“(…) Eu acredito que os jovens sem futuro um dia vão pegar em armas e pendurar os traidores deste país na praça Syntagma, assim como os italianos fizeram com Mussolini em 1945“.

Embora não creia em profecias, desejo sinceramente que esta seja cumprida integralmente.

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15 Comentários

Arquivado em Política

15 Respostas para “O emblemático suicídio de Dimitris Christoulas na Grécia

  1. A Grécia está como um barril de pólvora pronta para explodir. Oxalá que as tropas da “democracia ocidental” não invadam militarmente ou apliquem um golpe de estado ditatorial para conter as manifestações que não vão terminar cedo. É em urgência que os movimentos sociais precisam agir nesse momento para instaurar o “novo”. Chega de falar em “democracia” que tanto apaixona os liberais, ligados à instância política mais direta ou aos intelectuais “românticos” ou conservadores. Tratam a democracia como um modelo pronto que é só aplicar, como uma calça com a perna mais curta e que agora é só consertar para dar certo. Sem mais roupas para bailes de gala, por favor! É a criação (nova) que pede vez nesse instante.

    Rogerio, achei suas considerações bastante precisas e elegantes no post da “servidão voluntária”. Já conhecia o Reclus, mas confesso que li muito pouco dele. Aparentemente ele segue a linha dos outros anarquistas comunistas Kropotkin, Malatesta e Guillaume.

    Abs!

  2. Caro Munhoz,

    Uma vez mais, obrigado por seus comentários por aqui, e pelas gentis palavras. Por falar em Reclus e anarquistas, estou preparando uma espécie de resenha para o livro que li nesta semana. Pretendo utilizar trechos do seu post sobre a polissemia do anarquismo, se você não vir nenhum problema (claro que vou citá-lo e deixar link para o texto no blog).

    Devo publicar a resenha por aqui lá pela segunda-feira, tão logo retorne da viagem do feriado.

    Grande Abraço,

    Roger

  3. renata azevedo requião

    sob o impacto da notícia do suicídio, que atinge a todos, escrevi um longo poema, intitulado “Balada triste para violoncelo e câmara escura”. hoje achei tua página. se te interessar, gostaria que publicasses.

    copio aqui primeiros versos:

    no futuro imaginado / previsto
    ao pé de uma árvore
    na Praça Syntagma
    [o nome grego Πλατεία Συντάγματος
    significa Praça da Constituição]
    na zona do euro
    no centro de Atenas
    [em frente ao Parlamento Helênico
    grego parlatório contemporâneo
    origem de nossa civilização
    – lugar de nossa constituição],
    aos olhos de quem passa,
    jaz ainda o corpo de um homem.

  4. Milton Quadros

    Ótimo artigo Rogério.
    A Grécia não tem outros ativos senão seu próprio povo, então não será invadida militarmente, pois “não pega bem” nos dias de hoje um bando de escravos gregos trabalhando para pagar uma dívida cruel “tocados” por soldados de outros países. Os soldados gregos já estão fazendo isto. 😦

    • Muito obrigado pelo comentário e elogio, Milton. Daqui do Brasil o que podemos fazer é acompanhar as notícias e esperar que o suicídio de Dimitris Christoulas não seja em vão. Que o povo possa sair cada vez mais às ruas e tomar o controle da situação.

      Um abraço,

      Roger

  5. Lear

    A Grécia encontra-se em recessão desde 2008. Sucessivos pacotes de ‘ajuste ortodoxo’ exigidos pelos credores, em troca de empréstimos para pagar os próprios bancos e fundos especulativos, fizeram explodir a pobreza e o desemprego que atinge quase 50% entre os jovens; o índice de suicídios cresceu 40% nos primeiros cinco meses de 2011. O último ‘acordo’ de ajuste assinado entre Atenas e a troika do euro, em fevereiro deste ano, passará à história como o mais draconiano e humilhante exemplo da rendição de um país aos mercados em tempos modernos.

    O que se deliberou é pior até que os termos devastadores do Tratado de Versalhes, de 1919, que colocou a derrotada Alemanha da Primeira Guerra de joelhos, impondo-lhe reparações equivalentes a 3% do PIB por longos anos.

    O ‘socorro’ acordado por Atenas (130 bi de euros) terá como contrapartida 150 mil demissões na esfera pública; cortes de salários e aposentadorias, privatizações em massa, a supressão de serviços essenciais e até de medicamentos na rede de saúde. Depositado em conta bloqueada e supervisionada por interventores do euro, o recurso será destinado prioritariamente ao pagamento de juros aos credores. Entre o final de abril e começo de maio, a Grécia vai às urnas eleger um novo parlamento; mais de um centurião do euro já sugeriu adiar o pleito, para o ‘bem do ajuste acordado”.

    Para o bem dos interesses rentistas seria preciso colocar sob regime de exceção toda uma Europa incinerada pelo incêndio neoliberal que excreta recessão, desemprego e desespero da Grécia à Espanha, de Portugal à Irlanda. Em meio às labaredas as urnas ainda respiram: dia 22 de abril, antes do escrutínio grego, a França elege um novo presidente; na Espanha triturada por cem dias de governo direitista, acontecem eleições regionais. A evocação rebelde do farmaceutico Dimitris Christoulas convoca a consciência europeia a empunhar o voto com a determinação de quem maneja um lendário fuzil Kaláshnikov.

    Postado por Saul Leblon às 18:46

  6. Sylvio

    A Grécia quebrou…agora uma pergunta – o que o pais produz? Além do turismo, um pouco de azeite, azeitonas, vinhos. Mal comparando seria como um Piauí no Brasil. A Grécia é um Piauí na Europa. Não serve pra nada…não produz e apesar disso dava aos gregos todas as mordomias que o a seus países provêm aos alemães, italianos, suecos, suíços…que trabalham sério e seus produtos são de alta qualidade. Portugal e Espanha estão na mesma fila. Em meu ver a União Europeia foi um êrro.

  7. Rodion

    Calma lá né… A Grécia não é inútil. È verdade, a Grécia tem como maior fonte de renda o turismo, e foi, sem dúvida um erro enorme a adoção do Euro, deviam ter continuado com sua moeda de baixo valor cambial, o dracma, o que não iria acabar com a principal fonte de renda.
    A União Européia seria uma boa idéia, se fosse mais seletiva e contasse com uma política econômica mais efetiva, mas hoje só serve para uma única coisa, oficializar a “merkelização” da Europa, a Alemanha conseguiu por vias diplomático-econômicas o que não pode com duas guerras mundiais. Boa previsão do Reino (Des)Unido, que manteve (parcialmente) sua autonomia em relação aos alemães.
    Por falar em Reino Unido, logo eles também vão ter problemas, e graves, se a Escócia realmente se tornar independente a Inglaterra vai perder sua fonte de petróleo (vindo internamente), o que vai ser um belo econômico.

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