Michael Löwy, a Rio+20 e a tal da economia verde

Às vésperas da Rio+20, cúpula mundial do meio ambiente a ser realizada em Junho, o sociólogo e filósofo marxista Michael Löwy concedeu uma entrevista a revista Caros Amigos (número 180), onde expressa suas opiniões sobre a eficácia desta reunião de cúpula em relação a diminuição das agressões ao meio ambiente, fala sobre o ecossocialismo como resposta radical às crises financeiras e ecológicas e apresenta duras crítica a chamada “Economia Verde”, expondo as limitações das propostas apresentadas por quem editou o Rascunho Zero da reunião.

Antes de partirmos direto para o trecho da entrevista que foi disponibilizado no site da revista, cabe fazer uma apresentação geral de sua biografia.

Michael Löwy é um sociólogo e filósofo marxista brasileiro, pesquisador e autor de ampla bibliografia cujos temas passam por Karl Marx, Che Guevara, Teologia da Libertação, Lukács e Benjamin, dentre outros. Nascido em São Paulo, filho de imigrantes Judeus, formou-se na Universidade de São Paulo, obtendo seu título de sociólogo em 1960.

Pouco depois de se formar na USP, Löwy foi para Israel e se tornou professor de filosofia política na Universidade de Tel Aviv, mas sua visão política acabou criando-lhe problemas e a Universidade se recusou a renovar seu contrato em 1968. Dali foi convidado a lecionar na Universidade de Manchester, onde se tornou assistente do sociólogo e fundador da New Left, Peter Worsley (1968–1969).

Em 1969 Löwy retorna a Paris e passa a lecionar sociologia na Universidade de Paris VIII até 1978, ano em que foi admitido como pesquisador no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Em 1981 Löwy se tornou professor da École des Hautes Éstudes en Sciences Sociales em Paris, sendo também convidado para lecionar nas Universidades de Stanford, Califórina (Berkeley), Michigan, Columbia e Harvard.

A ENTREVISTA

Eis o trecho de entrevista de Michael Löwy que foi disponibilizado no site da Revista Caros Amigos.

Caros Amigos – O que você espera da Rio+20, tanto do ponto de vista das discussões quanto da eficácia de possíveis decisões tomadas?

Michael Löwy – Nada! Ou, para ser caridoso, muito pouco, pouquíssimo… As discussões já estão formatadas pelo tal “Draft Zero”, que como bem diz (involuntariamente) seu nome, é uma nulidade, um zero à esquerda. E a eficácia, nenhuma, já que não haverá nada de concreto como obrigação internacional. Como nas conferências internacionais sobre o câmbio climático em Copenhagen, Cancun e Durban, o mais provável é que a montanha vai parir um rato: vagas promessas, discursos, e, sobretudo, bons negócios ‘verdes”. Como dizia Ban-Ki-Moon, o secretário das Nações Unidas – que não tem nada de revolucionário – em setembro 2009, “estamos com o pé colado no acelerador e nos precipitamos ao abismo”. Discussões e iniciativas interessantes existirão sobretudo nos fóruns Alternativos, na Contra-Conferência organizada pelo Fórum Social Mundial e pelos movimentos sociais e ecológicos.

CA – Desde a Eco 92, houve mudanças na maneira como os estados lidam com temas como mudanças climáticas, preservação das florestas, água e ar, fontes energéticas alternativas, etc.? Se sim, o quão profundas foram essas mudanças?

ML – Mudanças muito superficiais! Enquanto a crise ecológica se agrava, os governos – para começar o dos Estados Unidos e dos demais países industrializados do Norte, principais responsáveis do desastre ambiental – “lidaram com o tema”, desenvolveram, em pequena escala, fontes energéticas alternativas, e introduziram “mecanismos de mercado” perfeitamente ineficazes para controlar as emissões de CO2. No fundo, continua o famoso “buzines as usual”, que, segundo cálculo dos cientistas, nos levara a temperaturas de 4° ou mais graus nas próximas décadas.

CA – Em comparação a 1992, a sociedade está muito mais ciente da necessidade de proteção do meio ambiente. Esse fato poderá influir positivamente nas discussões da Rio+20?

ML – Esta sim é uma mudança positiva! A opinião pública, a “sociedade civil”, amplos setores da população, tanto no Norte como no Sul, está cada vez mais consciente de necessidade de proteger o meio ambiente – não para “salvar a Terra” – nosso planeta não está em perigo – mas para salvar a vida humana (e a de muitas outras espécies) nesta Terra. Infelizmente, os governos, empresas e instituições financeiras internacionais representados no Rio+20 são pouco sensíveis à inquietude da população, que buscam tranquilizar com discursos sobre a pretensa “economia verde”. Entre as poucas exceções, o governo boliviano de Evo Morales.

CA – Como a destruição do meio-ambiente relaciona-se com a desigualdade social?

ML – As primeiras vítimas dos desastres ecológicos são as camadas sociais exploradas e oprimidas, os povos do Sul e em particular as comunidades indígenas e camponesas que vêem suas terras, suas florestas e seus rios poluídos,
envenenados e devastados pelas multinacionais do petróleo e das minas, ou pelo agronegócio da soja, do óleo de palma e do gado. Há alguns anos, Lawrence Summers, economista americano, num informe interno para o Banco Mundial, explicava que era lógico, do ponto de vista de uma economia racional, enviar as produções tóxicas e poluidoras para os países pobres, onde a vida humana tem um preço bem inferior: simples questão de cálculo de perdas e lucros.

Por outro lado, o mesmo sistema econômico e social – temos que chamá-lo por seu nome e apelido: o capitalismo – que destrói o meio-ambiente é responsável pelas brutais desigualdades sociais entre a oligarquia financeira dominante e a massa do “pobretariado”. São os dois lados da mesma moeda, expressão de um sistema que não pode existir sem expansão ao infinito, sem acumulação ilimitada – e portanto sem devastar a natureza – e sem produzir e reproduzir a desigualdade entre explorados e exploradores.

CA – Estamos em meio a uma crise do capital. Quais as suas consequências ambientais e qual o papel do ecossocialismo nesse contexto?

ML – A crise financeira internacional tem servido de pretexto aos vários governos ao serviço do sistema de empurrar para “mais tarde” as medidas urgentes necessárias para limitar as emissões de gases com efeito de serra. A urgência do momento – um momento que já dura há alguns anos – é salvar os bancos, pagar a dívida externa (aos mesmos bancos), “restabelecer os equilíbrio contábeis”, “reduzir as despesas públicas”. Não há dinheiro disponível para investir nas energias alternativas ou para desenvolver os transportes coletivos.

O ecossocialismo é uma resposta radical tanto à crise financeira, quanto à crise ecológica. Ambas são a expressão de um processo mais profundo: a crise do paradigma da civilização capitalista industrial moderna. A alternativa ecossocialista significa que os grandes meios de produção e de crédito são expropriados e colocados a serviço da população. As decisões sobre a produção e o consumo não serão mais tomadas por banqueiros, managers de multinacionais, donos de poços de petróleo e gerentes de supermercados, mas pela própria população, depois de um debate democrático, em função de dois critérios fundamentais: a produção de valores de uso para satisfazer as necessidades sociais e a preservação do meio ambiente.

CA – O “rascunho zero” da Rio+20 cita diversas vezes o termo “economia verde”, mas não traz uma definição para essa expressão. Na sua opinião, o que esse termo pode significar? Seria esse conceito suficiente para deter a destruição do planeta e as mudanças climáticas?

ML – Não é por acaso que os redatores do tal “rascunho” preferem deixar o termo sem definição, bastante vago. A verdade é que não existe “economia” em geral: ou se trata de uma economia capitalista, ou de uma economia não-capitalista. No caso, a “economia verde” do rascunho não é outra coisa do que uma economia capitalista de mercado que busca traduzir em termos de lucro e rentabilidade algumas propostas técnicas “verdes” bastante limitadas. Claro, tanto melhor se alguma empresa trata de desenvolver a energia eólica ou fotovoltaica, mas isto não trará modificações substanciais se não for amplamente subvencionado pelos estados, desviando fundos que agora servem à indústria nuclear, e se não for acompanhado de drásticas reduções no consumo das energias fósseis. Mas nada disto é possível sem romper com a lógica de competição mercantil e rentabilidade do capital. Outras propostas “técnicas” são bem piores: por exemplo, os famigerados “biocombustíveis”, que como bem o diz Frei Betto, deveriam ser chamados “necrocombustiveis”, pois tratam de utilizar os solos férteis para produzir uma pseudo-gasolina “verde”, para encher os tanques dos carros – em vez de comida para encher o estômago dos famintos da terra.

CA – Quem seriam os principais agentes na luta por uma sociedade mais verde, o governo, a iniciativa privada, ONGs, movimentos sociais, enfim?

ML – Salvo pouquíssimas exceções, não há muito a esperar dos governos e da iniciativa privada: nos últimos 20 anos, desde a Rio-92, demonstraram amplamente sua incapacidade de enfrentar os desafios da crise ecológica. Não se trata só de má-vontade, cupidez, corrupção, ignorância e cegueira: tudo isto existe, mas o problema é mais profundo: é o próprio sistema que é incompatível com as radicais e urgentes transformações necessárias.

A única esperança então são os movimentos socais e aquelas ONGs que são ligadas a estes movimentos (outras são simples “conselheiros verdes” do capital). O movimento camponês – Via Campesina -, os movimentos indígenas e os movimentos de mulheres estão na primeira linha deste combate; mas também participam, em muitos países, os sindicatos, as redes ecológicas, a juventude escolar, os intelectuais, várias correntes da esquerda. O Fórum Social Mundial é uma das manifestações desta convergência na luta por um “outro mundo possível”, onde o ar, a água, a vida, deixarão de ser mercadorias.

CA – Como você analisa a maneira como a questão ambiental vem sendo tratada pela mídia?

ML – Geralmente de maneira superficial, mas existe um número considerável de jornalistas com sensibilidade ecológica, tanto na mídia dominante como nos meios de comunicação alternativos. Infelizmente uma parte importante da mídia ignora os combates sócio-ecológicos e toda crítica radical ao sistema.

CA – Você acredita que, atualmente, em prol da preservação do meio ambiente é deixada apenas para o cidadão a responsabilidade pela destruição do planeta e não para as empresas? Em São Paulo, por exemplo, temos que comprar sacolinhas plásticas biodegradáveis, enquanto as empresas se utilizam do fato de serem supostamente “verdes” como ferramenta de marketing.

ML – Concordo com esta crítica. Os responsáveis do desastre ambiental tratam de culpabilizar os cidadãos e criam a ilusão de que bastaria que os indivíduos tivessem comportamentos mais ecológicos para resolver o problema. Com isso tratam de evitar que as pessoas coloquem em questão o sistema capitalista, principal responsável da crise ecológica. Claro, é importante que cada indivíduo aja de forma a reduzir a poluição, por exemplo, preferindo os transportes coletivos ao carro individual. Mas sem transformações macro-econômicas, ao nível do aparelho de produção, não será possível brecar a corrida ao abismo.

CA – Quais as diferenças nas propostas que querem, do ponto de vista ambiental, realizar apenas reformas no capitalismo e as que propõem mudanças estruturais ou mesmo a adoção de medidas mais “verdes” dentro de outro sistema econômico?

ML – O reformismo “verde” aceita as regras da “economia de mercado”, isto é, do capitalismo; busca soluções que seja aceitáveis, ou compatíveis, com os interesses de rentabilidade, lucro rápido, competitividade no mercado e “crescimento” ilimitado das oligarquias capitalistas. Isto não quer dizer que os partidários de uma alternativa radical, como o ecossocialismo, não lutam por reformas que permitam limitar o estrago: proibição dos transgênicos, abandono da energia nuclear, desenvolvimento das energias alternativas, defesa de uma floresta tropical contra multinacionais do petróleo (Parque Yasuni!), expansão e gratuidade dos transportes coletivos, transferência do transporte de mercadorias do caminhão para o trem, etc. O objetivo do ecossocialismo é o de uma transformação radical, a transição para um novo modelo de civilização, baseado em valores de solidariedade, democracia participativa, preservação do meio ambiente. Mas a luta pelo ecossocialismo começa aqui e agora, em todas as lutas sócio-ecológicas concretas que se enfrentam, de uma forma ou de outra, com o sistema.

DISCURSO X REALIDADE

Sempre me surpreendi ao ver na televisão esses comerciais bonitinhos de empresas PREDADORAS DO MEIO AMBIENTE, como mineradoras, falando de responsabilidade social e do como elas são legais por proteger o meio ambiente. Um bom exemplo do que estou falando é a Vale. Vejam o comercial que ela veiculou na TV brasileira há alguns anos.

DISCURSO DOS MINERADORES

A mineração é, talvez, a atividade de extração mais prejudicial ao meio ambiente. Como uma empresa de mineração tem a cara-de-pau de veicular na televisão um comercial como este??? Para ficarmos em um único exemplo, Carajás (jazida de minério de ferro explorada pela Vale) fica localizada a quinhentos quilômetros ao sul de Belém-PA, em plena selva amazônica. Deem uma olhada na foto abaixo e vejam no quê décadas de exploração transformaram o local. Depois comparem a imagem da foto abaixo com a divulgação da “responsabilidade ambiental” da Vale no comercial bonitinho com música do Lenine acima.

REALIDADE DA MINERAÇÃO

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após ler essa entrevista, não pude deixar de relacioná-la com bem conhecido documentário The Corporation (2003), produzido e dirigido pelos canadenses Mark Achbar e Jennifer Abott.

Abaixo deixo dois trechos curtos do filme para que possam, após terem lido a entrevista de Michael Löwy, refletir sobre as reais possibilidades de “economia verde” ou “empresas sustentáveis” e toda essa baboseira a qual somos expostos diariamente através das campanhas de marketing das corporações (especialmente na TV, Internet e mídia impressa).

No primeiro trecho que selecionei, o documentário fala da “mentalidade” das corporações, isto é, o conjunto de atitudes que demonstram como seus acionistas pensam e as consequências desta mentalidade para a natureza. Prestem atenção logo na primeira entrevistada, a Dra. Vandana Shiva. Para mim esta é a fala que resume absolutamente tudo o que é impossível conseguir quando se contrapõe o sistema no qual vivem as corporações, ou seja, o capitalismo (cujo fim é o lucro) à essa fábula de “economia verde” e “empresas sustentáveis”. Como pensar em empresas sustentáveis, quando corporações como a Monsanto fabricam sementes que servem para apenas uma plantação (para maximizar seus lucros evitando que o produtor reutilize a semente)?

PARA LEGENDAS EM PORTUGUÊS, APÓS COMEÇAR O VÍDEO CLIQUE NO BOTÃO CC, NA PARTE INFERIOR.

Neste segundo trecho que selecionei, o documentário explora as diferentes epidemias de câncer provocadas pelas diversas formas lucrativas de se explorar e maximizar a produção de alimentos, como o uso de agrotóxicos ou de hormônios para aumentar produção de leite, por exemplo. Também demonstra como as corporações tem contaminado fontes de água e despejando toneladas de poluentes no meio ambiente para aumentar o lucro obtido pelos investidores que compram, na bolsa de valores, suas opções em ações daquela corporação.

Tais trechos demonstram, de fato, como as corporações são o grande vilão que vem transformando para pior a maneira como vivemos na Terra. Mas como Löwy aponta na entrevista, elas não são as verdadeiras culpadas, mas sim reflexo de um sistema social e econômico de exploração, O CAPITALISMO. Este sim o verdadeiro culpado pela breve extinção dos humanos na Terra, se tudo continuar como está.

É inquestionável que reuniões FANFARRONAS como essa Rio+20, não possuem eficácia nenhuma, como aponta Michael Löwy. Não haverá nenhuma obrigação estatal, nada de concreto, nenhum compromisso. Portanto, a esquerda precisa se reunir para protestar, estar presente e fazer discussões pertinentes nos fóruns paralelos organizado pelo Fórum Social Mundial.

Aos fanfarrões da Rio+20, àqueles que escreverão o Rascunho Zero (Draft Zero) e aos tolos que acreditam em economia verde e empresas sustentáveis, deixamos as palavras da excelente entrevista de Michael Löwy:

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2 Comentários

Arquivado em Entrevistas, Política, Revistas

2 Respostas para “Michael Löwy, a Rio+20 e a tal da economia verde

  1. Pingback: O caminho da sustentabilidade com Washington Novaes | Hum Historiador

  2. Pessimismo de mais não leva a nada!!! Vai plantar uma árvore Lowy!!!

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