Arquivo do mês: maio 2012

Santa Evita: realidade ou ficção?

Estava organizando os arquivos do computador e fazendo uma limpeza geral, passando para CDs tudo aquilo que não tenho utilizado com frequência, quando me deparei com um dos trabalhos que desenvolvi no período da graduação para a disciplina de América Independente I, do professor Júlio Pimentel, autor do excelente blog Paisagens da Crítica.

Trata-se de uma resenha crítica do livro Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez e pensei que, em tempos de Cristina Kirchner na Argentina, seria bastante interessante e proveitoso para alguns leitores disponibilizar essa resenha, escrita nos idos de 2007, quando Martínez ainda vivia e era diretor do programa de estudos latino-americanos da Universidade de Rutgers, nos EUA.

Espero que gostem e, até mesmo, que possa ser útil a alguns estudantes que, por intervenção do Santo Google, acabem caindo por estas páginas na busca desesperada por uma solução de última hora para um trabalho do gênero. =)

Resenha crítica de Santa Evita, de Tomás Eloy Martínez
por José Rogério Beier (originalmente escrita em 2007)

A única coisa que se pode fazer com a realidade é inventá-la de novo.

Realidade ou ficção? Eis a questão que intriga todos aqueles que se aventuram a seguir o corpo embalsamado de Evita pelas labirínticas páginas de Santa Evita. Questão da qual o autor não descuida em passagem alguma de todo o romance e que pode ser aqui resumida através de uma provocação que o próprio Martínez nos faz em uma passagem de seu livro:

“Porque a história tem de ser um relato feito por pessoas sensatas e não um desvario de derrotados (…) Se a história é – como parece ser – mais um gênero literário, por que privá-la da imaginação, do desatino, da indelicadeza, do exagero e da derrota que constituem a matéria prima sem a qual não se concebe a literatura? [1]”.  

Lançado em 1995, Santa Evita logo se torna grande sucesso editorial, talvez o maior de seu autor, chegando a ser traduzido em várias línguas. No Brasil, foi editado pela Companhia das Letras, em 1996, ganhando cuidadosa tradução de Sérgio Molina.

Neste romance, Martínez narra simultaneamente quatro histórias que se imbricam sem uma ordem pré-estabelecida. Muitas vezes, uma serve de ponte para o início da outra, amarrando-a de modo que uma narrativa assimétrica e poliédrica forme um conjunto harmonioso no final.

A primeira das quatro histórias a aparecer no romance é o de Evita viva. Martínez prefere narrar a história da vida de Evita em sentido inverso, isto é, iniciando com o momento de sua morte, quando a mostra totalmente debilitada pelo câncer em seus últimos dias de vida, para chegar, nos derradeiros capítulos do livro, à história do seu nascimento, que foi narrada por sua mãe. No decorrer do romance, e sem seguir uma ordem definida, o autor vai revelando aos poucos a trajetória da saída de Evita, ainda jovem, de uma província do interior da Argentina, Junín, até chegar a Buenos Aires, onde passou a viver como atriz de rádios e teatros de segunda categoria, onde acabou por conhecer Juan Domingos Perón em um momento crucial da carreira política deste. Daí em diante, a vida de Evita muda de rumo, vai crescendo até se tornar uma das figuras mais importantes da Argentina e desembocar na sua trágica e prematura morte, aos 33 anos de idade, fato que colaborou enormemente para a formação do mito de Evita.

Assim, vemos que os dados biográficos de Evita são apresentados pelo autor aos poucos, no decorrer do romance e com grande riqueza de detalhes, o que demonstra, como nos diz Mario Vargas LLossa em sua resenha para o jornal La Nación:

“un trabajo de hormiga, una pesquisa llevada a cabo con tenacidad de sabueso y una destreza consumada para disponer el riquísimo material en una estructura novelesca que aproveche hasta sus últimos jugos las posibilidades de la anécdota[2]

A segunda história narrada em Santa Evita é a do destino errático do corpo de Eva Duarte de Perón. Tão logo esta foi dada como morta, Juan Perón, seu amantíssimo esposo, encaminha o corpo a um embalsamador espanhol cujo trabalho seria eternizá-la escondendo a morte presente em cada célula daquele corpo. Mais do que isso, ao narrar as aventuras pelas quais o corpo de Evita passou nos anos em que esteve desaparecido, o autor estava também se referindo à história da própria Argentina. No momento em que o corpo de Evita foi embalsamado, ele deixou de ser apenas um corpo para representar a Argentina. Segundo o Coronel Moori Koenig, um dos personagens do livro, ao embalsamá-la Pedro Ara acaba por confundir o corpo de Evita com a Argentina. Para o Coronel, o que está em jogo “não é mais o cadáver desta mulher, mas o destino da Argentina. Ou as duas coisas, que para tanta gente parecem uma só[3]”. Em uma conversa com o embalsamador ele confirmaria que este “ao embalsamá-lo (…)  tirou a história de lugar. (…) Quem tiver a mulher, terá o país em suas mãos[4]”. E mais adiante, no último capítulo do livro, é o próprio autor quem confirmaria como o corpo embalsamado de Evita foi usado como alegoria para representar a Argentina: “Esse cadáver somos todos nós. É o país[5].

A história de Evita morta, ao contrário da anterior, flui para frente, isto é, foi narrada do momento em que ela morreu em diante, seguindo o fluxo dos acontecimentos, a linha diacrônica. É do entrelaçamento destas duas histórias que surge, em sua maior parte, o romance de Martínez. É ele mesmo quem nos diz que contaria o romance tal como o sonhara um certo dia: “Não contaria Evita como malefício nem como mito. Iria contá-la tal como a sonhara: como uma mariposa que batia para a frente as asas de sua morte, enquanto as de sua vida voavam para trás[6]”. E junto à história de Evita, contaria também “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde[7].

A terceira história narrada neste romance é a de um grupo de militares destacados para, inicialmente, seqüestrar o corpo de Evita do local onde era exibida e, posteriormente, proteger o corpo dos fanáticos peronistas que queriam, a todo custo, resgatá-la. É neste momento, quando o corpo de Evita cai nas mãos dos militares, que ele começa a errar através de dois continentes, vários países e passar pelas aventuras mais patéticas, onde foi copiado, marcado como gado, reverenciado, mutilado, divinizado, acariciado, profanado, confundido com uma boneca, escondido em ambulâncias, cinemas, refúgios militares e porões de barcos até, enfim, ser sepultado no cemitério La Recoleta.

Por fim, a quarta história narrada em Santa Evita, é a do personagem Tomás Eloy Martínez, que se passa por um autor obsessivo e martirizado pelo desejo de desvendar o mistério do corpo de Evita. Um personagem que se intromete na história a todo o momento para nos contar a forma como logrou escrever seu romance, mesmo através de suas fontes duvidosas. Estratégia muito bem utilizada pelo autor Tomás Eloy Martínez que, ao mudar o foco narrativo de terceira pessoa onisciente, para primeira pessoa e voltar novamente a terceira pessoa, de acordo com a história que se está narrando, busca dar mais verossimilhança a sua história, transformando-se em um personagem que vivencia, que está presente, que conhece e entrevista outros personagens do romance embora, na realidade, talvez ele nunca tenha entrevistado todas as pessoas mencionadas no livro. Para Carlos Fuentes, “Tomás Eloy Martínez es el último guardián de la Difunta, el último enamorado de Persona, el último historiador de Esa Mujer[8]. Martínez se vê mais como o taxidermista Pedro Ara, alguém que eternizara Evita através de sua arte: “A arte do embalsamador se parece com a do biógrafo: os dois tentam imobilizar uma vida ou um corpo na pose em que deverá ser lembrado pela eternidade[9]”.

Estas são as quatro histórias que formam o texto labiríntico de Santa Evita. Labiríntico porque em cada capítulo as quatro histórias se entrelaçam e se sucedem aparentemente sem nenhuma ordem pré-estabelecida. Labiríntico porque não se limita às suas próprias páginas, mas também levam o leitor, constantemente, a outras obras, sejam sobre Evita ou não, fazendo referência a autores diversos tais como Appolinaire, Borges, Cortázar, Onetti, Perlongher, Walsh e Wilde e até mesmo a outro romance do próprio autor, A novela de Perón. É o próprio Martínez quem nos diz que entre A Novela de Perón e Santa Evita teve que lançar outros livros e reaprender seu ofício de escritor para que Santa Evita não fosse confundido com o primeiro. Assim, a intertextualidade construída neste romance é, também, mais uma estratégia do autor visando trazer mais verossimilhança ao seu livro. Ao dialogar constantemente com uma série de obras, Martínez busca convencer o leitor da veracidade dos fatos que ele apresenta.

Como podemos ver, de um modo ou outro, a trama toda acaba sempre levando à questão da realidade ou ficção dos dados apresentados no livro. Mário Vargas Llosa acerta quando diz que tudo o que está contado no livro não passa de “uma mentira, uma ficção que foram despojados de sua realidade e transportados à fantasia[10]. É o próprio autor quem diz, várias vezes no decorrer do livro, que o que ali se vai narrar não é a realidade, mas uma reconstrução, uma invenção. Por isso o livro não é uma biografia, mas sim um romance[11]. Um romance que, de fato, acaba sendo biográfico, mas que traz a biografia de uma Evita que é apenas mais uma das que surgiram desde quando a de carne e osso morreu, isto é, uma Evita que “deixou de ser o que disse e o que fez, para ser o que dizem que disse e o que dizem que fez[12].

Portanto, Tomás Eloy Martínez é apenas mais um copista do corpo morto de Evita. Para ele, ao multiplicar-se Evita não morreu, isto é, ressuscitou. “Transfigurada em mito, Evita era milhões[13]. É por isso que Martínez busca reproduzir, no decorrer de todo o romance, os “milhões” de Evita que existiram. Tenta fazer isso ao citar os diversos nomes que ela recebeu: Evita, Eva Duarte, Essa Mulher, Pessoa, Nômade, Ela, A Defunta, A Falecida, O Cadáver, O Corpo, Pupe, ED, EM, Égua, Santa Evita, Evitita, etc.

Outra forma de reforçar a multiplicação de Evita, é através do relato da memória que cada personagem tinha dela e que o autor buscou narrá-lo de modo que Evita, mesmo nessas memórias, aparecesse sempre como várias personagens distintas para cada um deles. Este é o caso do cabeleireiro, que tinha um museu com várias cabeças de vidro representando os diferentes Evitas que ostentavam diferentes penteados, ou então, o caso do mordomo que ao ler as cartas e manuscritos de Evita, reparou que a caligrafia era distinta de modo que cada caligrafia revelava uma Evita diferente da outra, ou ainda, o caso do operador de cinema que havia notado que a “Evita do filme” era diferente da “Evita da platéia”.

Assim, a Evita de Martínez é só mais uma entre milhões, é a invenção de uma realidade criada pela ficção. Mas isso, para ele, não é demérito para seu romance, uma vez que as fontes em que o romance é baseado são de confiança duvidosa apenas no sentido em que também o são a realidade e a linguagem, já que nelas se infiltram lapsos de memória e verdades impuras. Neste sentido, Martínez destaca que para os historiadores e biógrafos as fontes sempre foram uma dor de cabeça. Nunca se bastam a si mesmas e necessitam da confirmação de uma fonte e, esta, por sua vez, de mais outra. Para ele, esta cadeia de fontes confirmando fontes costuma ser infinita e inútil, porque a soma das fontes também pode ser um engano. Assim, não vê problema nenhum em utilizar como fonte Aldo Cifuentes, um personagem que ele mesmo descreve como mentiroso contumaz e fofoqueiro.

Se, como diz Martínez, é no meio do caminho onde se bifurcam as estradas do mito e da história que resiste o reino indestrutível e desafiante da ficção, ele acaba escrevendo sua ficção para salvar a protagonista de seu romance da História, que ele vê como trágica. Apesar disso, paradoxalmente através dessa mesma obra de ficção, o autor conta um pouco da história de seu país ou, como ele mesmo disse, “o que foi sua pátria e aquilo que quis ser, mas não pôde”. Como nos diz Carlos Fuentes:

“Santa Evita es la historia de un país latinoamericano auto engañado, que se imagina europeo, racional, civilizado, y amanece un día sin ilusiones, tan latinoamericano como El Salvador o Venezuela, más enloquecido porque jamás se creyó tan vulnerable, dolido de su amnesia porque debió recordar que también era el país de Facundo, de Rosas y de Arlt, tan brutalmente salvaje como sus militares torturadores, asesinos, destructores de familias, generaciones, profesiones enteras de argentinos[14]”.

Em Santa Evita, vemos que Martínez parece querer apontar para o fato de que a Argentina não pode continuar crendo que sua cultura está desconectada da latino-americana. Em um trecho onde o autor destaca como Evita é vista dos Estados Unidos, onde mora, comparando esta visão com a imagem que os próprios argentinos fazem dela, ele começa dizendo que “Na Argentina ela é a Cinderela das telenovelas, a nostalgia de ter sido o que nunca fomos, a mulher justiceira, a mãe celestial. Fora do país, é o poder, a morta jovem, a hiena compassiva declamando nos balcões do além: ‘Não chores por mim, Argentina[15]’”. E arremata concluindo: “Neste condado (…) em Nova Jersey, Evita é uma figura familiar, mas a história que dela se conhece é a da ópera de Tim Rice. Talvez ninguém saiba quem ela foi na realidade; a maioria imagina que Argentina é um subúrbio de Guatemala City[16]. Trecho que revela o quanto a cultura argentina está desconectada das culturas estadunidense e européia e muito mais próxima da latino-americana.

Assim, é possível compreender bem Martínez quando ele diz que “é preciso convencer o meu país de que ele tem um cordão umbilical com o resto do continente. Por isso, todos os meus livros estão dedicados a mostrar o nexo que a realidade argentina tem com a realidade latino-americana[17]”.

Martínez é ainda mais explícito no trecho a seguir, onde aponta claramente que os argentinos faziam questão de esconder suas origens indígenas e negras, além das mazelas de sua sociedade, no intuito de se desvincular de suas raízes latino-americanas para se aproximar mais da cultura européia:

“Os argentinos que se julgavam depositários da civilização viam em Evita uma ressurreição obscena da barbárie. Os índios, os negros candombeiros, os maltrapilhos, os malandros, os cafetões de Roberto Artl, os gaúchos renegados, as putas tísicas contrabandeadas em navios polacos, as andorinhas de província: todos já tinham sido devidamente exterminados ou confinados aos seus porões sombrios. Quando os filósofos europeus chegaram de visita, descobriram um país tão etéreo e espiritual que acreditavam que este houvesse evaporado. A súbita entrada em cena de Eva Duarte vinha desmanchar os prazeres da Argentina culta. Aquela mina barata, aquela copeira bastarda, aquela merdinha – como era chamada nos leilões de terras – era o último peido da barbárie. Enquanto passava, era preciso tapar o nariz”.

Desta forma, Martínez pretende buscar o nexo da realidade Argentina com a latino-americana através dos diferentes personagens que passaram por Santa Evita. Dos mais notórios, como Juan Perón, aos mais discretos e anônimos, como a filha do operador do cinema, o autor faz desfilar pelas páginas de seu livro todo o povo argentino, como num grande mosaico: humildes e poderosos, insignes e medíocres, dementes e equilibrados, afetuosos e carrascos, destemidos e covardes, de todas as classes sociais e de todos os tipos. Por meio destes personagens o autor tenta mostrar o verdadeiro rosto do seu país, que não é aquele que critica acima por esconder suas origens e suas misérias, mas aquele que ele mostra no capítulo Grandezas da Miséria. Neste capítulo os grasitas aparecem com toda a força e sem disfarce nas filas de miseráveis à espera de dentaduras e outras esmolas de Evita. Aparecem na humilhação das vigílias intermináveis e no inventário de padecimentos humanos que um de seus personagens testemunha ao esperar por uma casa prometida por Evita que jamais viria. É ali, na enxurrada de intermináveis desgraças que afligiam o povo, que aparece o verdadeiro rosto do povo argentino. Muito mais próximo da realidade de qualquer outro povo de um país latino-americano do que dos europeus ou estadunidenses.

Outro aspecto da história argentina que aparece como pano de fundo nas páginas de Santa Evita, marcando a personalidade dos argentinos, é a da influência dos militares no poder e, posteriormente, a da ditadura que acabaria por exilar Tomás Eloy Martínez de seu país em meados dos anos 70. Um trecho que exemplifica a passagem marcante dos militares na personalidade dos argentinos após o golpe de 1976 e, em conseqüência, a própria escrita de Martínez, já que fora um exilado político deste governo, é aquele onde o autor conversa com seu amigo Emílio sobre a filha deste, Irene, que vivia exilada: “não era culpada de nada e, no entanto, carregava a culpa do mundo nas costas como todos os argentinos da época[18]. Mais adiante, ao descrever a si mesmo, complementa a descrição dessa personalidade argentina, que em muito deve aos governos militares: “Sou um argentino (…), sou um espaço sem preencher, um lugar sem tempo que não sabe aonde vai[19]”.

Em seu romance, os militares aparecem sempre de maneira negativa. Exemplos disso são o coronel Moori Koenig que se converte em um alcoólatra inveterado, capaz de profanar o corpo de Evita seja urinando sobre ele ou mantendo relações sexuais com o mesmo; o louco Arancibia, que acaba assassinando sua mulher por flagrá-la no sótão onde havia escondido o corpo de Evita, ou ainda o Capitão Galarza, que conversava com a Defunta nos porões do navio que a levava para Milão.

Martínez escreve seu romance após a queda da ditadura na Argentina, assim, tem liberdade não só para dizer o que pensa sobre o assunto, mas também de criar novos personagens grotescos e caricaturais sobre personagens reais, como foi o caso do Coronel Moori Koenig. Para Martínez, “A vantagem da liberdade era poder transformar as mentiras em verdades e contar verdades em que tudo pareciam mentiras[20]. Não é por acaso que o próprio personagem do Coronel aparece pela primeira vez no romance dando uma aula sobre os usos do boato, destacando que estes últimos seriam “a precaução que os fatos tomam antes de se tornarem verdade[21].

E assim, novamente voltamos a questão com a qual iniciamos esta resenha e que perpassa toda a obra: realidade ou ficção? Preferimos dar a palavra final ao próprio autor que fecha seu romance deixando uma dica de como encarar esta questão em sua obra:

“É um romance, nos romances, o que é verdade também é mentira. Os autores constroem à noite os mesmos mitos que destruíram pela manhã[22].

PERFIL BIOGRÁFICO DO AUTOR

Tomás Eloy Martínez foi jornalista, professor de literatura e escritor. Nasceu na província de Tucumán, Argentina, em 1934, onde completou seus estudos até graduar-se em literatura espanhola e latino-americana pela Universidade de Tucumán. Mais adiante, complementaria sua graduação com o título de mestre em literatura que obteria pela Universidade de Paris VII em 1970.

Durante os anos 60, trabalha em Buenos Aires como jornalista em diferentes periódicos como La Nación, onde era crítico de cinema e Primera Plana, onde exerceu a função de chefe de redação. Já na primeira metade da década de 70, é correspondente do editorial Abril, na Europa e também dirige o seminário Panorama (1970-1972) e o suplemento cultural do diário La Opinión (1972-1975). A partir de 1975, passa a viver como exilado político em Caracas, Venezuela, onde segue sua carreira de jornalista até 1983, quando finda a ditadura na Argentina e também seu exílio. Na área do jornalismo, segue trabalhando até os dias correntes, colaborando com diários como La Nación, da Argentina, e The New York Times Syndicate, dentre outros.

Além de sua carreira de jornalista, Martínez também desenvolveu uma carreira acadêmica muito extensa, deu conferências e cursos em diferentes universidades da Europa, Estados Unidos e América do Sul. Faleceu aos 31 de janeiro de 2010 como professor na Universidade de Rutgers, em New Jersey, onde era diretor do Programa de Estudos Latino-Americanos.


[1]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Santa Evita. São Paulo: Companhia das Letras, 1996, pp. 126.

[2]  LLOSA, Mário Vargas. Los placeres de la necrofilia. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[3]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 31.

[4]  Ibid.

[5]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 331.

[6]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 67.

[7]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 56.

[8]  FUENTES, Carlos. Santa Evita. In: La Nación (México), feb. 1996. Suplemento Cultura. Disponível em <http://sololiteratura.com/var/losplaceres.html&gt;. Acesso em 04 de dezembbro de 2007.

[9]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 136.

[10]  LLOSA. Op. Cit.

[11]  Não deixa de ser curioso e significativo o fato de, na página de rosto da edição brasileira, logo abaixo do título, aparecer a palavra “Romance” para designar o gênero literário a que pertence o livro. Fato este que não é corriqueiro nos demais romances lançados pela mesma editora ou, até mesmo, por outras editoras no Brasil.

[12]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 20.

[13]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 57.

[14]  FUENTES, Carlos. Op. Cit.

[15]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 176.

[16]  Ibid.

[17]  MARTÍNEZ, Tomás Eloy. Evita soy yo. Entrevista concedida a Albor Rodríguez. Disponível em <http://www.el-nacional.com/archivedata/1996/06/09/215.htm&gt;. Acesso em: 27 de novembro de 2007.

[18]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp 209.

[19]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 308.

[20]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 309.

[21]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 16.

[22]  MARTÍNEZ. Op. Cit., pp. 333.

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Aniversário de 6 meses do blog: mais de 20 mil acessos

Sei que pode não ser muito legal e que pode parecer meio pedante, mas gostaria de comemorar os seis meses do blog contando um pouco dos surpreendentes números que ele obteve desde que decidi criá-lo, em dezembro/2011.

Neste curto espaço de tempo passamos a marca dos 20 mil acessos, sendo que a quantidade de visitas vem crescendo expressivamente nos últimos meses. Abaixo segue um gráfico que mostra a evolução das visitas.

Com exceção de janeiro, quando publiquei a notícia sobre o “trucidamento” da família Kubitzky e as origens nebulosas da propriedade de Naji Nahas do terreno do Pinheirinho, vemos um aumento constante no número de visitas a cada mês. Se em Dezembro, que foi nosso mês de estréia, fechamos a conta com 594 visitantes, no mês de fevereiro pulamos para 1388, em março foram 2220, abril teve 3000 visitantes e, maio ainda nem acabou, e estamos prestes a atingir a marca de 4000 visitas por mês, isto é, quase sete vezes mais do que os acessos do primeiro mês.

Outra coisa me deixa bastante feliz, é a quantidade de visitantes de outro países que o blog tem recebido. Por ser uma página escrita totalmente em língua portuguesa, fico bastante surpreso com o fato de que boa parte dos acessos do blog venham de 40 países diferentes. Destes, apenas 3, com exceção do Brasil, falam a língua portuguesa.

Abaixo um mapa destacando os países que acessaram o blog desde 25 de fevereiro de 2012 até hoje.

Como podemos ver, o blog já foi visitado por países de todos os continentes do globo. Temos acessos de toda América do Norte, praticamente toda América do Sul, boa parte da Europa, alguns países africanos e também da Oceania. Ainda nesta linha, se sacarmos o Brasil fora da conta, os cinco países que mais acessaram o blog foram respectivamente Portugal, Estados Unidos, Alemanha, Espanha e França.

Quanto aos posts, como já havia dito, o mais visitado em todo este tempo foi o que tratava do “trucidamento” da família Kubitzky e as origens da propriedade do terreno do Pinheirinho. Foi incrível que, logo no primeiro dia em que foi publicado, o post teve sucesso imediato e teve mais de 4 mil acessos em um único dia. Será difícil que um novo post bata este recorde.

Desde o lançamento do blog, os dez posts mais visitados foram:

  1. “Trucidamento da família Kubitzky”, grilagem e especulação imobiliária (7.943 acessos)
  2. Lilia Moritz Schwarcz rebate bobagens de Demétrio Magnoli no Programa do Jô (584 acessos)
  3. Cotas Raciais: um direito legítimo (542 acessos)
  4. Lista dos 233 torturadores (541 acessos)
  5. O ENEM, o Mackenzie e o peso da tradição (422 acessos)
  6. Higienização pode estar em andamento na comunidade São Remo (362 acessos)
  7. Paixão por mapas antigos (332 acessos)
  8. A disseminação do ódio contra os pobres nas redes sociais (312 acessos)
  9. O emblemático suicídio de Dimitris Christoulas na Grécia (296 acessos)
  10. A tragédia dos campos de São José: um depoimento emocionado (192 acessos)

Destes, talvez o que seja mais surpreendente para mim é a 7a. posição do post “Paixão por mapas antigos”, uma vez que se trata de um post bastante pessoal e que tem sido acessado quase que diariamente por quem quer notícias a respeito de mapas antigos e acesso à Biblioteca Digital de Cartografia Histórica, um dos meus objetos de trabalho no momento.

Bom, não preciso dizer como é gratificante saber que os textos que produzo são lidos, compartilhados e considerados interessantes por um número grande de pessoas. Não esperava conseguir este resultado e, o mais legal de tudo, é que a prática de manter este blog tem me ajudado em muitos aspectos, sendo o principal deles, o desenvolvimento da habilidade de escrever.

Agradeço uma vez mais a todos os leitores do blog e, em especial, aos visitantes mais assíduos e aqueles que me deram todo o apoio desde o princípio, ajudando a divulgá-lo através das redes sociais ou recomendando-o a amigos e outras pessoas. Vocês são os responsáveis por manter meu ânimo para continuar escrevendo por aqui e me surpreender, a cada dia, como um blog sobre História pode atrair uma média de 3.360 acessos por mês ou mais de 112 acessos diários.

MUITO OBRIGADO A TODOS!!!!

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Atlas do trabalho escravo no Brasil e a PEC 438/01 do Senado

O Jornal da Ciência (JC), órgão da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em sua edição eletrônica número 4504, de 24 de maio de 2012, traz a notícia sobre o “Atlas do trabalho escravo no Brasil”, um trabalho coletivo de geógrafos que busca caracterizar pela primeira vez a distribuição, os fluxos, as modalidades e os usos do trabalho escravo no País, nas escalas municipal, estadual e regional.

Os autores desta importante obra são Hervé ThéryNeli Aparecida de Mello e Julio Hatoda Universidade de São Paulo (USP) Eduardo Paulon Girardi, professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp), de Presidente Prudente.

A reportagem do JC destaca que, segundo o Atlas, o perfil típico do escravo brasileiro do século XXI é um migrante maranhense, do Norte do Tocantins ou do Oeste do Piauí. Também é típico que seja do sexo masculino e analfabeto funcional. Em geral esses trabalhadores são levados para as fronteiras móveis da Amazônia, em municípios de criação recente, onde são utilizados principalmente em atividades vinculadas ao desmatamento.

Atlas do Trabalho EscravoA matéria ainda aponta que, além do diagnóstico do trabalho escravo, o Atlas traz grandes inovações ao oferecer dois outros produtos da pesquisa destes geógrafos: o Índice de Probabilidade de Trabalho Escravo e o Índice de Vulnerabilidade ao Aliciamento. De acordo com o professor Eduardo Paulon Girardi, um dos autores da obra, “essas são ferramentas inovadoras e essenciais para gestores de políticas públicas e que podem contribuir expressivamente para o planejamento governamental no combate a essa prática criminosa que ainda é adotada no Brasil”. Girardi ainda destaca que, com esses dados, financiadores e empresas podem evitar associações com empresários ligados ao trabalho escravo.

A boa notícia é que o livro está disponível para download em versão digital e pode ser baixado através do seguinte endereço: ATLAS DO TRABALHO ESCRAVO NO BRASIL. É sempre bom lembrar que o Atlas foi lançado pela organização Amigos da Terra – Amazônia Brasileira e que também contou com o apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT)

A PEC DO TRABALHO ESCRAVO (438/01)

Como bem recorda a matéria do JC, nesta semana a Câmara dos Deputados aprovou em Plenário a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 438/01, do Senado, que permite a expropriação de imóveis rurais e urbanos onde a fiscalização encontrar exploração de trabalho escravo. Esses imóveis serão destinados à reforma agrária ou a programas de habitação popular.

O Código Penal brasileiro, através do Decreto-Lei 2.848/40),  prevê reclusão de dois a oito anos e multa, além da pena correspondente à violência praticada aos que exploram trabalho escravo. Esta pena é aumentada da metade se o crime é cometido contra criança ou adolescente ou por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

De acordo com o presidente da Câmara, o deputado Marco Maia (PT-RS), nos próximos dias será criada uma comissão mista de cinco senadores e cinco deputados para discutir a elaboração de um projeto de lei que regulamente a PEC. Para Marco Maia, é preciso fazer uma diferenciação entre o que é trabalho escravo e o que é desrespeito à legislação trabalhista.

A definição de trabalho escravo segundo o Código Penal é:

“Reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto” (artigo 149).

A aprovação da PEC causou uma reação dos deputados da chamada Bancada Ruralista, que elaboraram um vídeo contendo vários depoimentos contra a proposta, como destaca a excelente reportagem da TVT que reproduzo abaixo. Os deputados da bancada ruralista, defendem a alteração do texto da PEC no Senado e pedem uma “nova definição do que é trabalho escravo”.

Como vimos na reportagem de Uélson Kalinovsky, os deputados da bancada ruralista estão se mobilizando para aprovar uma nova lei de autoria do DEPUTADO MOREIRA MENDES (PSD/RO). O Projeto de Lei 3842/12 não aceita os termos “jornada exaustiva” e “condições degradantes de trabalho” como análogos a escravidão e exige que se inclua ameaça, coação e violência como características do trabalho escravo.

De minha parte, me posiciono ao lado do deputado PAULO PAIM (PT/RS), que diz categoricamente que esta PEC não pode ser alterada no Senado e que é contra a aceitação do termo na área urbana, já que o trabalho escravo também existe nas cidades (estão aí os bolivianos sendo escravizados às vistas de todos, em São Paulo). Quanto a possibilidade de regulamentação do trabalho escravo, não podia se posicionar de modo mais brilhante :

“O TRABALHO ESCRAVO VOCÊ NÃO REGULAMENTA! O TRABALHO ESCRAVO VOCÊ PROÍBE!!!”

Deputado Paulo Paim (PT/RS)

Para concluir o post, vou compartilhar abaixo a imagem que está circulando pelas redes sociais contendo os nomes dos deputados que votaram contra a PEC do trabalho escravo. É bastante importante que você veja quem, em seu estado, está defendendo os interesses daqueles que estão por trás da Bancada Ruralista.

Aos paulistas, fiquem de olho nos deputados: BETO MANSUR (PP/SP), GUILHERME DE CAMPOS (PSD/SP) e NELSON MARQUEZELLI (PTB/SP).

Clique sobre a imagem para ampliá-la.

LEIA TAMBÉM:

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Instituto Moreira Salles lança site com obras de Charles Landseer

O caderno Ilustríssima da Folha de S. Paulo de hoje destaca que o Instituto Moreira Salles (IMS), dona de parte do acervo do desenhista inglês Charles Landseer (1799-1879), acaba de lançar um site com os trabalhos do artista.

Além das 130 obras de Landseer, o site traz informações biográficas e um texto do historiador inglês Leslie Bethell, do qual extraímos o trecho abaixo.

“Charles Landseer nasceu em Londres, Inglaterra, no ano de 1799 e morreu na mesma cidade, em 1879. (…) Inicia seus estudos de desenho com o pai, John Landseer, e posteriormente passa a tomar lições de pintura com Benjamin Robert Haydon (1786-1846), pintor histórico e escritor. Em 1816, Charles é admitido nas escolas da Royal Academy de Londres, e entre 1822 e 1824 faz suas primeiras participações em exposições. (…) Pensando em uma oportunidade para aprimorar suas habilidades artísticas, Charles Landseer vem ao Brasil como artista oficial da missão diplomática chefiada por Sir Charles Stuart, a qual tinha por intuito articular a devida legitimação da independência do Brasil entre as coroas de Portugal e Inglaterra. (…) Embarcado no HMS Wellesley entre março-julho de 1825, Charles Landseer aporta primeiramente em Portugal (percorrendo Lisboa, Ilha da Madeira e Tenerife) seguindo posteriormente para o Brasil. A comitiva retorna à Inglaterra, via Lisboa e Açores, no HMS Diamond no período compreendido entre maio e outubro de 1826. Entre os caminhos de ida e volta, Landseer passa três meses em Portugal, dois na viagem de ida (março-maio de 1825) e um na volta (julho-agosto de 1826), e dez meses (julho de 1825-maio de 1826) no Brasil, onde destinou a maior parte de sua estada brasileira ao Rio de Janeiro, também visitando as cidades de Pernambuco, Bahia, Santa Catarina, Santos, São Paulo e Espírito Santo (…)”. Acima, retrato de Charles Landseer realizado por Burchell.

Para quem estiver interessado em ver o portfolio, desenhos e aquarelas deste artista do século XIX, segue endereço do site dedicado a Charles Landseer no IMS.

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Blade Runner e a questão da morte

Durante uma breve conversa via Facebook com a amiga e historiadora Célia Regina, estava dizendo que tinha que cumprir uma leitura para uma pesquisa que estou conduzindo, mas que lá pelo fim da noite provavelmente iria pegar um livrinho de ficção científica para dar uma relaxada. A colega, em uma empreitada mais nobre, disse que estava em vias de concluir a leitura da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Falava com ela sobre minha paixão, desde menino, pelo gênero da ficção científica. Gosto muito, pois acho que os autores deste gênero conseguem abordar temas muitas vezes complexos com uma simplicidade que só vejo semelhança nos autores de histórias em quadrinhos. Sabemos de muitos professores que dão aulas de filosofia e ensinam Sócrates, Descartes e até mesmo Jean Baudrillard utilizando filmes como Matrix.

Seguindo essa linha, um autor de ficção que foi adaptado inúmeras vezes para cinema é Philip K. Dick (1928-1982). São baseados em suas obras filmes como Blade Runner, Total Recall (Vingador do Futuro), Minority Report e muitos outros. É justamente sobre o primeiro destes filmes que eu gostaria de tratar aqui, só para dar um singelo exemplo do que eu estava conversando com a Célia hoje, isto é, a simplicidade com que esses autores conseguem abordar temas que, muitos outros tornam extremamente complexos e árduos de ler.

Embora tenha sido lançado originalmente como livro, Blade Runner, o caçador de andróides ficou mais conhecido por sua versão cinematográfica lançada em 1982. Quem já assistiu ao filme, sabe que o tema principal da obra é a questão da finitude do ser humano, isto é, a morte. Nós, humanos, sempre fomos inconformados com o fato de termos uma data de validade que, seja por qual razão for, desconhecemos. Justamente por isso, vivemos nossos dias sempre a tentar postergar aquele que será o nosso encontro final com a morte. Está aí todo o progresso da medicina que não me deixa mentir sozinho.

O filme dirigido por Ridley Scott é uma adaptação baseada no livro Do Androids Dream of Electric Sheep (1968) do já citado Philip K. Dick.

Fiz este pequeno preâmbulo, pois gostaria de propor um jogo imaginativo ao leitor deste blog, baseado em uma passagem do filme, para que possamos captar a maneira simples e direta como a ficção retrata este inconformismo que os humanos sentem frente a sua própria finitude. Vamos lá?

Pois bem, imagine então que você saiba o dia exato de sua morte e que, antes disso ocorrer,  tenha a oportunidade única de conhecer o seu criador, sem que para isso, obviamente, fosse necessário morrer…….

Imaginou?

Muito bem! Agora pense que mais além do que meramente vê-lo, você poderá falar com ele, isto é, você poderia trocar umas palavrinhas com aquele ser que te criou e, até mesmo, fazer pedidos e discutir as possibilidades da criação….pegou a ideia?

Pois bem, nessas condições, se essa oportunidade fosse realmente dada a você, o que você falaria ao criador? Quais seriam suas palavras a ele? Consegue pensar nesse diálogo hipotético?

Para Roy Batty, personagem vivido por Rutger Hauer no filme Blade Runner, não foi tão difícil assim. Ao encontrar Tyrell, seu criador e também dono da Tyrell Corporation, a produtora dos replicantes Nexus 6, mandou uma frase que ficaria clássica entre os admiradores de Blade Runner:

“I want more life, fucker!”

“Eu quero mais vida, seu escroto!”.

Simples e contundente! Demonstra perfeitamente o drama vivido pelos humanos diante da possibilidade da própria morte.

Certamente, se muitos de nós tivéssemos a mesma oportunidade, pediríamos a nosso criador uma extensão de nossa data de validade. Não sei se a maioria das pessoas teria a coragem de chegar diante do mesmo e chamá-lo carinhosamente de Fucker, mas certamente pediriam uma prorrogaçãozinha no seu tempo de vida e, se ele não concordasse, também ficaríamos muito chateados.


PS: Outro filme que trata do mesmo tema de forma simples e muito bonita é o excelente Peixe Grande (2003), dirigido por Tim Burton, com Ewan McGregor, Albert Finney, Billy Crudup e Jessica Lange.

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Temos o direito de escolher quando e como morrer?

Após conversar com familiares de um vizinho do condomínio onde moro (após um grave acidente automobilístico há mais de um ano, meu vizinho entrou em estado de coma do qual jamais retornou), lembrei de um texto que escrevi há algum tempo e no qual fazia algumas considerações sobre a eutanásia no Brasil. Decidi republicá-lo aqui, pois foi impossível não pensar nisso após ver o sofrimento da família deste antigo vizinho com toda esta situação vivida no último ano e a desesperança total em ver seu ente querido voltar dessa longa viagem em que entrou desde que saiu de casa para ir trabalhar, em 2011, e não mais retornou.

Temos o direito de escolher quando e como morrer?
por Rogério Beier – publicado originalmente em duplipensar.net em 28/out/2006

Para falarmos um pouco mais sobre eutanásia é importante entendermos melhor, de maneira geral, o que é considerado a eutanásia.

Eutanásia é uma palavra grega cujo significado em português é “boa morte”. Pode-se entender a eutanásia como sendo a morte provocada pelo médico, com o consentimento do paciente, ou família, quando o sofrimento físico ou psíquico é incurável e insuportável.

De acordo com a legislação brasileira, a eutanásia é proibida e, caso algum médico seja pego praticando o “homicídio piedoso”, poderá pegar de quatro a dezessete anos de prisão, além de sofrer processo e a provável cassação do CRM, sendo proibido de exercer a medicina em território nacional. Apesar disso, é sabido que a eutanásia é praticada nos hospitais brasileiros. Não de maneira deliberada, mas de forma velada, muitas vezes apenas como a opção de não aplicar técnicas de ressuscitação em pacientes que sofrem uma parada cárdio-respiratória, por exemplo. Então, a pergunta que se faz é: Em que medida a eutanásia é praticada no Brasil? Infelizmente, não é possível obtermos uma resposta precisa a esta questão. Sabemos apenas que ela ocorre com bastante freqüência em nosso país. Para confirmar essa afirmação, basta perguntar a qualquer médico, enfermeira ou auxiliar de enfermagem de um hospital público ou privado no Brasil à sua escolha.

Na Holanda, onde a eutanásia foi legalizada há alguns anos, sabe-se que 3,5% das mortes anuais são apressadas por um médico. Em 1995, uma enorme pesquisa revelou que das 140 mil mortes anuais, 3600 tinham ocorrido por meio da eutanásia autorizada, 400 por suicídio assistido e 900 por eutanásia não consentida (sem a concordância do paciente por estar em estado de coma irreversível).

A morte, na maioria dos casos, é um evento traumático e excessivamente doloroso para muitas pessoas. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos e Europa têm revelado que cerca de 40% dos óbitos ocorridos nesses países foram descritos como sendo extremamente dolorosos ou com grande sofrimento. Por isso que é importante discutir a eutanásia de maneira ampla e irrestrita em nossa sociedade. Será que não há uma forma de morrer na qual não haja tanto sofrimento desnecessário ao ser humano?

Para responder essa pergunta, é necessário enfrentar um grande tabu, que é justamente a discussão aberta da eutanásia sem que se escandalizem com as posições de ambas as partes. Ainda hoje, nos corredores hospitalares brasileiros, evita-se a discussão aberta, pois a eutanásia toca diretamente em um tema puramente econômico. Morrer, em qualquer hospital do mundo, custa muito dinheiro.

Em reportagem da revista Super Interessante (Maio de 2001), “definhar em um leito de hospital custa 2 mil reais ao dia, seis vezes mais se for em uma UTI”. Nos últimos meses de vida, um paciente terminal de câncer gastará mais dinheiro com medicamentos e tratamento do que em toda sua vida. Nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pela CNN/Time revelou que cerca de 1/3 dos estadunidenses levam sua família à falência ao morrer. Há quem se questione sobre os reais motivos pelos quais os médicos tentam fazer de tudo para salvar um paciente, mesmo sabendo que o tratamento não trará resultado algum. Seria pura dedicação profissional ou uma política cruel visando apenas aumentar os lucros do hospital? Eis uma dúvida difícil de responder, pois certamente, ambas as possibilidades podem estar ocorrendo.

Na Inglaterra, onde a Eutanásia ainda não é legalizada, o governo decidiu deixar de pagar hemodiálise para as pessoas com idade acima de 65 anos, e investir o dinheiro em campanhas antitabagistas, cujas doenças associadas podem ser evitadas e os custos governamentais com saúde reduzidos. Praticamente, uma sentença de morte aos idosos com problemas renais.

Apesar da questão financeira desempenhar papel importante na transformação da eutanásia em tabu, ele ainda não está nem perto de ser o problema central da questão. Discutir a eutanásia é muito difícil pois toca fundo na religiosidade das pessoas, fazendo com que muitos se calem, ou até mesmo, ignorem totalmente a questão, para não entrarem em contradição com suas convicções religiosas.

A discussão ganha uma nova dimensão ao entrar no mérito de quem decide como e quando a morte deve acontecer. Todas as grandes religiões, com exceção do budismo, discordam da possibilidade do ser humano decidir o fim de sua própria vida. Para eles, essa decisão cabe exclusivamente a Deus.

Além da religião, há outros argumentos utilizados contra a legalização da eutanásia. Celso Ferenczi, em entrevista à  Super Interessante, afirma que a legalização da eutanásia no Brasil é inconstitucional.

“O que se chama de morte piedosa, vai contra a declaração dos direitos humanos da ONU. A declaração estabelece o direito fundamental à vida. Esse tipo de direito é inalienável, isto é, não se pode abrir mão dele. Como os direitos humanos são cláusula pétrea de nossa Constituição, não podem ser modificados nem se todos os deputados votarem a favor – só uma nova assembléia constituinte teria poder para aboli-los”.

O ex-senador Gilvam Borges, PMDB-AP, não só discorda como, em 1996, propôs um projeto de lei para legalizar a eutanásia no Brasil. De acordo com o projeto, só seria autorizada eutanásia depois que uma junta de cinco médicos atestassem a inutilidade do sofrimento físico ou psíquico do doente. O texto ainda prevê que o próprio paciente requisite a eutanásia ou, caso esteja inconsciente, sua família tome a decisão pró morte. Este projeto jamais foi colocado em votação no senado federal e caducou. Gilvam acredita que seu projeto não tenha mobilizado os parlamentares porque ele traz “prejuízos eleitorais”.

Contudo, ao contrário do que acontece no Brasil, mesmo em lugares onde a eutanásia é proibida, como nos Estados Unidos, a sociedade se organiza em associações que se mobilizam de acordo com suas opiniões para defender ou atacar a eutanásia. São os grupos pró-escolha ou pró-vida, respectivamente.

Os militantes do grupo pró-vida alertam para o fato de que a legalização da eutanásia poderia abrir um precedente enorme que acabaria justificando a eutanásia não consentida. Eles temem que ocorra a execução sumária de deficientes e, pior, um novo holocausto. Há quem diga que são temores histéricos e injustificados, porém, convém lembrarmos que em 1939, a Alemanha nazista instituiu um plano de eutanásia chamado Aktion 4 para matar quem tivesse “uma vida que não merecia ser vivida”. A partir desse ano, crianças deficientes físicas e mentais passaram a ser mortas. Pouco tempo depois, em 1940, o plano de eutanásia não-voluntária se estendeu aos adultos deficientes e depois para negros, judeus, ciganos e homossexuais, que foram executados aos milhares, na chamada Solução Final, nos campos de concentração nazistas.

Já o grupo pró-escolha, defende a liberdade de cada um decidir a forma e o momento de morrer. Não entendem a necessidade de prolongar o sofrimento de um ser humano que não tem mais meios de voltar à vida como a conhecemos. O escritor inglês Derek Humphry, ativista pró-escolha, escreveu em 1991 o livro Solução Final. Nessa obra ele vai muito além de defender a eutanásia, ensina as diversas formas como um indivíduo pode se matar, dando inclusive as doses certas de cada medicamento e até sugere que o paciente faça uso de um saco plástico na cabeça, para que a asfixia diminua as chances de um suicídio mal sucedido. Obviamente Humphry desperta a ira dos militantes pró-vida, mas isso prova, ainda mais, o quanto o tema necessita ser discutido amplamente.

Um tema recente que vêm dando mais argumentos aos grupos pró-vida, são os novos medicamentos para auxiliar no tratamento da dor. José Oswaldo de Oliveira Júnior, neurologista do Hospital do Câncer, também em entrevista à mesma edição da Super Interessante, de maio 2001, diz que

“é possível controlar a dor em 96% dos pacientes, usando drogas novas e antigas. Nosso trabalho não é dar mais dias à vida – é dar mais vida aos dias (…) Morrer não é uma opção terapêutica. Quando o paciente diz ‘me mata’, ele quer socorro, não quer morrer”.

Outro avanço que está auxiliando no tratamento de doentes terminais é o conhecimento cada vez maior do cérebro humano. Pessoas que desejam a própria morte normalmente estão depressivas e a depressão é uma doença que pode se tratar com remédios que, cada vez mais, têm mostrado sua eficiência. A psiquiatra Maria Tereza da Cruz, na mesma entrevista, afirma categoricamente: “Jamais tive um paciente que quisesse morrer de forma tão firme que sua convicção resistisse a uma longa conversa ou a remédios apropriados”.

Particularmente, no caso do vizinho que mencionei logo no início deste post, não consigo pensar outra solução, uma vez que os médicos já afirmaram que o estado dele é irreversível. Claro que, longe de viver uma situação parecida com a dos meus vizinhos, minha posição é favorável à prática da eutanásia, mas confesso que não sei como reagiria se o mesmo estivesse ocorrendo em minha família ou com amigos muito próximos.

Para concluir este post, deixo um clássico do Rock que trata dessa temática e que sempre me impactou muito, desde que o vi pela primeira vez lá por volta de 1990.

(…)
Darkness imprisoning me
All that I see
Absolute horror
I cannot live
I cannot die
Trapped in myself
Body my holding cell
(…)

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Estado de S. Paulo coloca íntegra de seu acervo na Internet

Neste último sábado o jornal o Estado de S. Paulo anunciou que vai disponibilizar todo o seu acervo na Internet. Segundo o anúncio, páginas publicadas desde 1875, quando o jornal ainda se chamava A Província de S. Paulo, poderão ser vistas no portal que será lançado na próxima quarta-feira.

Ainda de acordo com a reportagem, a digitalização dará destaque à censura sofrida pelo Estado em vários períodos, especialmente após a edição do Ato Institucional n.º 5 (AI-5), em dezembro de 1968, quando o presidente Costa e Silva decretou o fechamento do Congresso.

O jornal recusou-se a mudar seu editorial “Instituições em Frangalhos” e teve sua edição apreendida. Mais de mil páginas foram mutiladas pelos censores no período do regime militar. Como o espaço das reportagens vetadas não podia ficar em branco, por ordem dos censores, os jornalistas publicavam versos de Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, para desafiar a ditadura e expor a censura sofrida. No portal digital será possível pesquisar as páginas censuradas e comparar como foram planejadas e como saíram publicadas.

Segundo o historiador Marcos Guterman, por estar em circulação desde 1875, quando o Brasil ainda era uma monarquia, O Estado de S. Paulo é “o único jornal em circulação que pode ser visto como uma das mais completas fontes documentais para aqueles que se dedicam a estudar as transformações pelas quais o País passou nesses mais de cem anos. Ao tornar disponível para consulta a totalidade de seu acervo, o Estado presta um serviço aos historiadores ainda difícil de mensurar.”

Já Sírio Possenti, professor de linguística da Unicamp e especialista em análise de discurso, quando perguntado sobre a importância do texto jornalístico para a pesquisa histórica, disse que “Os jornais são fontes tanto mais relevantes quanto maior for o número de jornais disponíveis. É comparando as muitas narrativas que se pode chegar perto de alguma verdade, ou mostrar que, em cada época, parecia haver diversas”.

O site permitirá ao visitante fazer consultas ao acervo por palavras ou por datas e, além disso, contará com um dicionário de grafia antiga para localizar matérias com palavras como farmácia, para incluir textos onde a palavra aparece grafada com “ph”, e também com uma calculadora, para que se possa converter valores dos produtos que aparecem em textos ou anúncios antigos para que possamos ter uma ideia do valor desses produtos atualizado em reais.

Trata-se de uma excelente notícia não só para os historiadores, mas para todos aqueles que tem algum interesse em acompanhar como este periódico paulistano tratou dos acontecimentos do Brasil e do mundo. Já estou aguardando ansiosamente para ver como este portal irá funcionar e, portanto, não custa lembrar que o lançamento será nesta próxima quarta-feira, dia 23/05/2012.

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