VINÍCIUS: um filme singular de um homem plural

Escrevi este texto logo após ter visto a cinebiografia do Vinícius de Moraes no cinema, em 2006. Recentemente revi o filme em casa e fiquei procurando estas humildes linhas para publicá-las por aqui, pois sei que muitas pessoas ainda não viram o filme e que tantas outras sequer sabem da existência do mesmo.

Enfim, o objetivo aqui é aconselhar a quem ainda não viu ou não conhece o filme para NÃO DEIXAREM DE ASSISTIR. Aos que já viram ASSISTAM NOVAMENTE é sempre bom e uma alegria ver a cultura brasileira no auge do seu esplendor.


Como descrever a emoção de um filme que fala sobre a vida e obra de Vinícius de Moraes se não com a poesia do próprio Vinícius?

“Quem pagará o enterro
e as flores
se eu me morrer de amores?”

Ou então:

“De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo”

E da mesma forma como comecei este texto, começa o filme de Miguel Faria Jr., que conseguiu nada menos do que fazer com que uma cinebiografia transbordasse emoção em cada milímetro de sua película. Aquele que prestar atenção à platéia, poderá constatar o que digo ao vê-la chorar, com a bela interpretação do Soneto de Fidelidade por uma emocionada Camila Morgado, ou rir às gargalhadas das fantásticas histórias contadas no filme por Chico Buarque ou Tom Jobim, ou simplesmente o Tom do Vinícius.

Um filme simples, sem efeitos especiais, tiroteios ou cenas de sexo explícito, que atrai e deixa o público atento e com as emoções à flor da pele. São daqueles filmes que deixam o espectador louco de vontade de pegar a fila novamente, comprar novo ingresso para assisti-lo novamente, só pra prestar atenção nos detalhes perdidos. É como um gol de placa! Conseguir isso nos dias de hoje, sem apelar pro trinômio sexo, violência e efeitos especiais, não é nada fácil.

Vinícius não é apenas uma cinebiografia, transcende a simples narração da vida e obra de um poeta, como aquelas biografias chatas das TV’s fechadas. Também é muito mais do que um documentário. Vinícius vai muito além disso tudo. Miguel Faria Jr. conseguiu transpor para sua película a mesma emoção que uma pessoa sente ao ler um poema de Vinícius e é justamente por isso que não podemos limitá-lo a um desses formatos cinematográficos. No fundo, ele transita entre todos esses formatos, sendo apresentado através de maneira bastante simples e já bem conhecida, uma vez que sua beleza não está na forma como é apresentado, mas muito mais em seu conteúdo.

Tal como Vinícius em sua poesia, Miguel partiu em busca da simplicidade e a encontrou através dos depoimentos de amigos, parentes e parceiros do poeta; através de convidados especiais que cantavam, muitas vezes emocionados, as músicas de Vinícius e, sobretudo, através das excelentes interpretações de Camila Morgado e Ricardo Blat que, simulando um show de Vinícius em um cabaré, recitam seus poemas e conduzem o filme magnificamente fazendo uma perfeita ligação entre depoimentos, imagens do Rio de Janeiro e do Brasil nas diferentes épocas da vida de Vinícius e das participações especiais.

Em uma pessoa plural, como Vinícius, a seleção do que colocar no filme e o que ia ficar de fora deve ter sido um desafio enorme, que foi muito bem enfrentado por Miguel Faria Jr. que pinçou o conteúdo do filme com maestria, selecionando pérolas da vasta obra literária e musical de Vinícius. Também é de se destacar a maneira como ele relacionou a obra do autor, com o espaço e o tempo em que o poeta vivia. Justamente aí está o mérito de Miguel Faria, que soube como poucos captar os momentos cruciais da vida de Vinícius num Brasil que, durante este tempo, passou da Belle Époque da década de 10, quando nasceu o poetinha, passando pelo grande milagre desenvolvimentista de JK, da Tropicália e da Bossa Nova nas décadas de ouro de 50 e 60 e culminando no Brasil que tomou outra direção após o golpe militar de 64 e do AI 5. Direção da qual Vinícius jamais voltaria a ver sua pátria retornar.

Voltar àquele Brasil da cultura efervescente, onde o povo abria as portas de suas casas para se reunir e fazer música, onde Ipanema era o modelo de um Brasil viável, multicolorido e que tinha um futuro promissor diante de si, mas que acabou por mergulhar no abismo da ditadura militar e seguir com muito mais do mesmo de sempre empurrado por essas elites monocromáticas. Eis o que o filme proporciona e nos faz pensar nas razões do êxito cultural vivido pelo Brasil no período pré-ditadura, seja na música, no cinema, nas artes ou, até mesmo, nas academias, mesmo quando nossa economia não vicejava como hoje.


FICHA TÉCNICA:

VINÍCIUS DE MORAES
Direção:
Miguel Faria Jr
Roteiro: Miguel Faria Jr e Diana Vasconcellos
Com colaboração de: Eucanaã Ferraz
Texto Final: Eric Nepomuceno
Fotografia: Lauro Escorel (A.B.C.).
Direção Musical: Luiz Claudio Ramos
Direção de Arte: Marcos Flaksman (A.B.C.).
Figurinista: Marília Carneiro
Montagem: Diana Vasconcellos (A. B. C).
Som Direto: Bruno Fernandes
Edição de Som Miriam Bidderman (A.B.C.).
Produção: Miguel Faria Jr. e Susana Moraes.
Pós-produção: Marcelo Pedrazzi
Produção Executiva: Tereza Gonzalez
Apresentação: Camila Morgado e Ricardo Blat


Para mais informações sobre filme, visite a página do diretor Miguel Faria Jr. Abaixo deixo o trailler:

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