A “invasão” dos estacionamentos da USP

O caderno cotidiano da Folha de S.Paulo de hoje, 07 de maio, estampa a seguinte manchete: Usuários do metrô invadem estacionamento da USP.

De cara a manchete já incomoda por utilizar o termo “invadem”, pois de antemão o jornal assume que usuários do metrô não tem direito à utilizar o espaço público da universidade, induzindo o leitor a tomar para si esta mesma posição. Mas vamos adiante e passar a discutir o conteúdo da matéria e o posicionamento de alunos, professores e pesquisadores ouvidos pela reportagem.

BREVE SÍNTESE DA MATÉRIA

A reportagem, assinada por Reinaldo Turollo Jr., informa que tanto alunos como professores da USP reclamam que a inauguração da estação Butantã do metrô, há cerca de um ano, fez com que as ruas do campus virassem uma espécie de “garagem” da estação, onde pessoas largam seus carros para utilizar o metrô, distante um quilômetro dali. Segundo esses indivíduos, a consequência da inauguração da estação Butantã foi o aumento do trânsito e a dificuldade de achar uma vaga em certas unidades do campus universitário. Alguns teriam chegado até mesmo a pedir a proibição da entrada de veículos de fora da universidade.

Ao mencionar o depoimento de um guarda universitário, a reportagem ainda dá conta de que muitos veículos permanecem estacionados durante o dia inteiro. “É a maior cara de pau. Você só vê o pessoal parando o carro e indo correndo para o ponto de ônibus [para ir até a estação]. Tem uns que vêm todo dia no mesmo horário”, teria dito este guarda universitário, que não quis divulgar seu nome (segundo a reportagem).

AS OPINIÕES COLHIDAS PELA REPORTAGEM

O que espanta são as opiniões de um professor e uma pesquisadora colhidas pela reportagem:

“Ser um estacionamento livre a céu aberto é a última das funções da universidade”, diz o professor do departamento de engenharia de energia e automação elétricas, Eduardo Mario Dias.

“Se continuar esse movimento, talvez [exista] a possibilidade de colocar adesivos no vidro [dos carros], como em alguns condomínios”, afirma a pesquisadora do Museu da Educação e do Brinquedo da USP, Fernanda Cristina Pedrinelli, 42.

O professor de engenharia, ao invés de criticar a falta de investimento público em infraestrutura urbanística no entorno da estação do metrô, prefere fazer uma generalização esdrúxula e dizer que a universidade está se transformando em um estacionamento a céu aberto. Já a pesquisadora dá uma demonstração de ignorância vexaminosa e, em uma clara confusão entre espaço público e privado, imagina que o espaço público da universidade, mantido com impostos dos contribuintes (inclusive dos que estacionam lá dentro), se assemelha a um condomínio privado, onde se faz necessário o controle do acesso do espaço com crachás de identificação ou adesivos.

Na direção oposta das opiniões acima, um professor da Faculdade de Educação começou a tocar no assunto que deve ser discutido, embora o jornal não tenha dado espaço para que se aprofundasse melhor a questão.

“O professor aposentado da Faculdade de Educação, João Pedro da Fonseca, 68, não aprova que se tome nenhuma medida restritiva. [Restringindo o acesso] Você não vai à causa do problema, afirma. Colocar cancela eu não concordo. A USP não pode ficar isolada da cidade como um todo. Isso é um problema urbano.”

APROFUNDANDO UM POUCO A QUESTÃO

Fico um tanto irritado ao ver o posicionamento de alunos, professores e demais membros da comunidade uspiana ao lado de quem deseja fechar a universidade para a comunidade externa. Trocando em miúdos, essas pessoas defendem que o uso de um espaço público seja reservado apenas para uma pequena parcela da população. O que irrita mais nessa história é o fato destas pessoas, em especial os estudantes, preferirem lutar para garantir a sua vaga no estacionamento da USP, do que lutar para garantir que Estado/Município melhore a infraestrutura urbana ao redor da estação do metrô. E aqui nem estou falando em melhorar a qualidade do transporte coletivo, mas sim de oferecer uma alternativa barata de estacionamento nas cercanias da estação. Duvido muito que se houvesse alguma opção barata de estacionamento perto do Metrô Butantã, as pessoas iriam deixar seus carros na USP e andar um quilômetro para pegar o trem. Contudo, como é mais fácil e “aceitável” lutar contra a comunidade externa da USP do que com os governos do Estado e do Município, prefere-se aceitar a “catracalização” da universidade.

Conhecendo as [más] intenções da reitoria e dos governantes emplumados que dominam este Estado há 20 anos, uma vez “justificada” a necessidade de controle do espaço da universidade, será apenas um pulo para tentarem privatizar o espaço público e instalar estacionamentos pagos para quem não for aluno ou professor da universidade. Pior que isso, com esse escândalo todo de falta de ética no jornalismo (Veja & Cachoeira), não duvido que  a própria reportagem tenha sido “pautada” seja pela reitoria da universidade, pelo governo estadual e/ou demais interessados na privatização daquele espaço público, para já ir colocando a questão em pauta e tentar justificar, perante a opinião pública, a necessidade de se proibir o acesso livre e “gratuito” do espaço do campus universitário.

Para não ser injusto, na sequência da reportagem vem um texto assinado por José Almeida Sobrinho (presidente do conselho deliberativo do Instituto Brasileiro de Ciências do Trânsito), propondo-se a analisar a questão levantada pela reportagem. Texto muito curto, para quem se propõe a analisar o tema, e fala apenas o óbvio [criar locais junto às estações de metrô onde os usuários do transporte individual podem estacionar seus veículos a preço acessível e, a partir dali, seguir usando a malha metroviária], sem criticar quem deveria ser criticado pela falta de infraestrutura para atender a demanda de uso do metrô, isto é, governo estadual e municipal. Enfim, para Almeida Sobrinho, a responsabilidade de solucionar o problema é do Metrô:

“O Metrô deve analisar e corrigir equívocos cometidos no passado, pois a proposta é imprescindível para a migração do transporte individual para o coletivo.”

Em outra matéria sobre o assunto, vemos a informação de que “o Metrô de São Paulo disse que realiza um estudo para saber se há demanda para implantar estacionamento ao lado da estação Butantã”. Oras, realizar um estudo para saber se há demanda para implantar estacionamento é a pior das desculpas que o Metrô poderia dar. Qualquer um que tenha entrado sequer uma vez na estação Butantã sabe muito bem que há demanda para a implantação de estacionamentos na região. A concessionária que explora a Linha 4 – Amarela teve quase 6 anos para fazer este estudo e por isso me pergunto: será que a tal concessionária deixou para fazer o tal estudo de demanda apenas um ano depois que a estação foi inaugurada porque subestimou a demanda ou haverá outro interesse por trás disso?

ÚLTIMAS PALAVRAS

É paradigmático aquele depoimento dado pelo Guarda Universitário da USP à reportagem da Folha no qual ele considerava ser “a maior cara de pau (…) o pessoal parando o carro e indo correndo para o ponto de ônibus [para ir até a estação]. Tem uns que vêm todo dia no mesmo horário”. Há muitos estudantes e professores repetindo isso e demonstrando toda sua ignorância em relação a utilização de espaços públicos. Por que seria “cara de pau” se quem estaciona também é um contribuinte e tem o mesmo direito a utilizar aquele espaço do que o estudante ou professor? Então ter as portas abertas para a comunidade deixou de ser uma das funções de uma universidade pública? Vamos continuar restringindo cada vez mais o acesso do campus somente ao grupo acadêmico e lotear o espaço público a certos grupos que vão se enriquecer explorando-o? É esta a nova função da universidade: enriquecer certos grupos?

Chegamos a um ponto em que, muito em breve, será exigido que uma pessoa passe no vestibular da FUVEST para poder acessar uma vaga de estacionamento no campus Butantã. Tal como fizeram com o Bilhete Único da USP [sistema que busca limitar a circulação de pessoas de fora da universidade dentro do campus através do pagamento de tarifa de R$3,00 para utilização dos circulares], em breve teremos que mostrar o nosso cartão/adesivo VALE ESTACIONAMENTO para poder entrar com carros na universidade.

É inaceitável que sequer se discutam projetos desta natureza. Se o nosso magnífico [f]eitor empurrar uma decisão como esta goela abaixo da comunidade acadêmica, teremos que reagir com prontidão, dureza e determinação. JAMAIS PODERÃO PASSAR!!!

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