O Dilema do Onívoro ou como o processo Haber-Bosch mudou o mundo

“Ao fertilizar o mundo, alteramos a composição das espécies do planeta e fazemos encolher a sua biodiversidade”.
Michael Pollan em O dilema do onívoro.
Rio de Janeiro, Intrínseca, 2007, p. 57

Com a proximidade cada vez maior da Rio+20, cabe cada vez mais produzirmos e compartilharmos textos que visam contribuir com os debates e discussões à respeito desta ideia (que me parece um tanto quanto fabulosa, diga-se de passagem) do desenvolvimento sustentável.

Abaixo um texto que produzi por volta de 2008 quando, para a realização de um seminário da disciplina História da Cultura II, com o professor Henrique Carneiro, fizemos a leitura da obra de Michael Pollan (1955- ), jornalista, ativista e professor de jornalismo da Universidade de Berkeley, especializado em alimentação, cultura e indústria alimentar.

Espero que gostem e que de alguma maneira, o texto que produzi sobre a leitura da obra de Pollan, possa estimular novas reflexões, não apenas sobre a maneira nada sustentável como passamos a produzir nossos alimentos a partir da II Guerra Mundial, mas também sobre como, invariavelmente, o desenvolvimento tecnológico associado a sociedade de consumo, sob a aparência de oferecer a solução de um problema, acaba criando outro muito maior e que, se não coloca a própria existência da humanidade em cheque, a deixa totalmente dependente da manutenção do modo de vida capitalista.

O DILEMA DO ONÍVORO

O título do livro, O Dilema do Onívoro, vem da constatação de seu autor de como o sentimento de ansiedade e receio que um onívoro sente ao ter que se decidir por qual alimento tomar como refeição quando se depara com uma ampla variedade de opções. Sentimento que não teríamos se fôssemos um Panda, ou um Coala, que se alimentam apenas de bambu ou eucalipto, respectivamente. Tal ansiedade diante da alimentação acaba se transformando em receio, sobretudo, em função de sabermos, de antemão, que algumas dessas opções podem nos fazer adoecer ou, até mesmo, nos matar.

O termo não foi cunhado por ele, mas sim por um psicólogo e pesquisador da Universidade da Pensilvânia chamado Paul Rozin. Pollan diz que pegou o termo emprestado, pois entende que o mesmo explica muito bem a atual situação do estadunidense em relação à comida. Assim, Pollan sugere que uma das maneiras de se compreender a atual desordem alimentar que existe nos Estados Unidos é encarando-a como um retorno ao dilema do onívoro, isto é, a superabundância de comida existente nos supermercados estadunidenses teria os levado a uma situação onde é natural que se tema a possibilidade de que um dos produtos ali vendidos possa matá-los. A falta de uma cultura alimentar estável, como a que existe em outros países, os deixam vulneráveis às “adulações dos cientistas ou do marqueteiro especializado em comida”, para quem a perplexidade do consumidor diante do supermercado é nada mais do que uma oportunidade.

Portanto, Michael Pollan parte da constatação de uma “Desordem Alimentar Nacional” nos Estados Unidos e, para compreendê-la, decide percorrer três das principais cadeias alimentares que atualmente abastecem a humanidade, dentre as quais destacamos a industrial, pois em sua análise, considera ser aquela que mais nos toca e preocupa de perto. Desta forma, centra seu foco em apenas um produto desta cadeia: o milho.

Observa que a cadeia do milho tem como marca registrada a monocultura e, depois de décadas, acabou se tornando a pedra fundamental da cadeia alimentar industrial e da dieta moderna nos Estados Unidos. Por conta dessa constatação, decidiu acompanhar o caminho de um alqueire de milho desde os campos do Iowa, onde é produzido, até uma auto-estrada na Califórnia, onde é consumido em uma refeição fast-food dentro de um carro em movimento.

Dos produtos disponíveis nas prateleiras de supermercados estadunidenses, Pollan percebeu que, invariavelmente, ao refazer a trajetória do produto desde o mercado até a produção, chegava a uma fazenda localizada no cinturão do milho no Meio-Oeste estadunidense, constatando que a grande variedade de opções oferecidas pelo mercado é, biologicamente, restrito a um pequeno grupo de plantas dominadas pelo milho. Dos 45 mil itens de um supermercado médio estadunidense, mais de 25% (ou aproximadamente 17 mil itens), contém milho.

Passa a contar como o milho se tornou, através do tempo, “uma das maiores histórias de sucesso do mundo das plantas”. No primeiro capítulo, dá grande destaque ao processo de ascensão do milho, da chegada de Colombo aos dias atuais e, no segundo capítulo, afirma que exagerou um pouco ao destacar o caminho do sucesso percorrido pelo milho, trazendo à tona a informação de que, para esse enorme sucesso, a planta precisou de uma ajudinha dos humanos na forma de dois subsídios: biológico, através dos fertilizantes nitrogenados e também econômicos, na forma de políticas públicas de fomento a produção. É no primeiro dos subsídios que entra o tal do processo Haber-Bosch.

O PROCESSO HABER-BOSCH: a síntese de amônia transforma o mundo

Foi em 1908 que Fritz Haber, segundo paper publicado por Jan Willem Erisman e colegas na revista Nature Geoscience em outubro/2008,  publicou artigo sugerindo a possibilidade de sintetizar amônia à partir de nitrogênio e hidrogênio atmosféricos (Prêmio Nobel em 1918). Em 1910, a Basf comprou a patente de Fritz Haber e um engenheiro metalúrgico desta companhia, chamado Carl Bosch, transformou a possibilidade prevista por Haber em realidade prática (Prêmio Nobel em 1931).

De modo resumido, o processo produz nitrato de amônio separando átomos de nitrogênio e ligando-os a átomos de hidrogênio em ambiente sob enorme pressão e calor, na presença de um catalisador.

  • Calor e Pressão são supridos por enormes quantidades de eletricidade
  • Hidrogênio é suprido por petróleo, carvão ou gás natural.
  • Catalisador é uma superfície de ferro.

Com a invenção deste processo químico, Pollan começa a descrever como tudo muda e que, se quiséssemos, poderíamos dividir a história recente em antes do processo Haber-Bosch e depois:

  • O milho é produzido em maiores quantidades e, consequentemente, as fazendas começam a diminuir o número de animais e de outras culturas para dar lugar a esta plantação;
  • O sistema de produção de alimentos passa a ser predominantemente o de monocultura;
  • Os alimentos passam, cada vez mais, a levar milho em sua composição;
  • Praticamente todas as refeições dos estadunidenses passam a ter ao menos um ingrediente a base de milho, além disso, o tempo e a qualidade da refeição diminui, sem mencionar no local onde elas são consumidas;
  • Por fim, a própria maneira como a vida se desenvolve na terra (número de habitantes, hábitos alimentares, paisagens, etc.).

COMO FAZÍAMOS SEM OS FERTILIZANTES SINTÉTICOS

Para sustentar sua afirmação acima, ao destacar como o milho foi o maior beneficiário da produção de fertilizantes sintéticos (ávido por fertilizante), passa a mostrar como a humanidade produzia alimentos antes da invenção dos fertilizantes químicos. Assim, destaca que sem estes insumos sintéticos, nem mesmo um acre do solo mais fértil do Iowa,  nos Estados Unidos, suportaria o cultivo de 30 mil pés de milho sem esgotar sua fertilidade, tal como é feito atualmente. Antes do fertilizante sintético quem determinava a quantidade de milho que um acre de solo podia produzir era a capacidade deste mesmo solo de fixar nitrogênio a partir das raízes de leguminosas, esterco de animais e raios elétricos.

Observa que não foi apenas o milho que se beneficiou dos fertilizantes sintéticos e que a própria quantidade de vida que a Terra podia sustentar era limitada pela quantidade de nitrogênio que bactérias e/ou raios podiam fixar no solo. Assim,  Pollan destaca como, em 1900, alguns cientistas diziam que o crescimento da população humana logo se veria diante de um limite se não fosse encontrado uma forma de potencializar o nitrogênio produzido naturalmente no solo. Neste sentido, Vaclav Smil, em seu trabalho Enriching the Earth, afirma que 2/5 da humanidade não estariam vivos, isto é, sequer teriam nascido se não houvéssemos descoberto uma maneira de fixar nitrogênio no solo e, assim, fertilizar a terra. Por isso chega a afirmar que o processo Haber-Bosch teria sido a descoberta científica mais importante do século XX.

O PACTO DE FAUSTO: os paradoxos da ciência

Acontece que, durante a II Guerra Mundial, a tecnologia desenvolvida por Fritz Haber permitiu que Alemanha fabricasse bombas à partir de nitrato sintetizado através de seu processo. Além de bombas, também se produziu gases venenosos como o amoníaco e cloro, que foram largamente utilizados na Primeira Guerra, e o Zyclon B, utilizado em milhões de judeus durante a Segunda Guerra (o próprio Haber era judeu). Neste ponto, Pollan aponta o caráter paradoxal da ciência que, ao mesmo tempo em que permite a descoberta de uma nova e vital fonte de fertilidade do solo, também permite a construção de novas e medonhas armas de destruição.

Tão logo termina a II Guerra, 1947 marcaria não só uma virada na história moderna do milho, mas o momento decisivo na industrialização dos alimentos. É neste momento da história que Pollan observa como uma fábrica de munição no Alabama é adaptada para produzir fertilizante químico a partir do excedente de Nitrato de Amônio, que era usado para fabricar bombas. O Nitrato de Amônio é uma excelente fonte de nitrogênio para as plantas e, a partir de então, passou a ser utilizado como matéria-prima nas indústrias de fertilizantes químicos, pesticidas, mas também, outros gases venenosos. Nesse sentido, uma observação bastante curiosa foi feita pela ambientalista indiana Vandana Shiva, que corretamente aponta como, desde então “ainda estamos comendo as sobras da Segunda Guerra Mundial”.

A AMBIVALÊNCIA DO BENEFÍCIO: a agricultura industrial teria sido o lado bom dessa descoberta?

Uma das principais consequências do uso de fertilizantes sintéticos na produção de alimentos é que a fertilidade do solo deixa de depender da energia solar e renovável e passa a depender da energia produzida por combustíveis fósseis, não renováveis, isto é, petróleo. Outra consequência importante é que esses novos produtos deram a autonomia ao fazendeiro de plantar milho todos os anos e no espaço que queira de sua propriedade, sem a necessidade do sistema de rodízio e de adubar a terra com esterco, como era feito antes. Sem as restrições biológicas, uma fazenda passa a ser administrada da mesma forma como uma indústria, onde o fertilizante é a matéria-prima e o milho o produto final. Desta forma, abre-se o caminho para a monocultura que, na visão do autor, é a introdução da economia de escala na natureza.

“A fixação do nitrogênio permitiu que a cadeia alimentar se afastasse da lógica da biologia para adotar a lógica da indústria. Em vez de comer exclusivamente das mãos do Sol, a humanidade agora começava a provar do petróleo.”

Michael Pollan – O dilema do onívoro, p. 54.

Alguns números interessantes nos permitem identificar a existência de um subsídio biológico à cultura do milho nos Estados Unidos. Pollan mostra como mais da metade de todo o nitrogênio sintético produzido atualmente (2007) é destinado ao milho. Mais do que isso, demonstra como:

  • Cada alqueire de milho industrial requer ¼ ou 1/3 de galão de petróleo;
  • 50 galões de petróleo para cada acre de milho;
  • Mais de uma caloria de combustível é gasta para produzir uma caloria de combustível;
  • Sendo que, antes do advento dos fertilizantes sintéticos, produziam-se mais de duas calorias de comida para cada caloria de combustível investida.

Neste sentido, suas conclusões apontam para o fato de que, enquanto a energia em forma de combustível fóssil for abundante e barata, continuará sendo economicamente viável produzir milho desta maneira.

ALIMENTAÇÃO INDUSTRIAL E POLUIÇÃO: tudo a ver

Ainda como conclusão dos números apresentados acima, Pollan demonstra que uma das consequências da alimentação industrial é, inevitavelmente, a poluição do meio-ambiente. Ao observar que os agricultores utilizam até o dobro de fertilizante sintético do que o recomendado por acre de terra (90 Kg), passa então a descrever o que ocorre com os 45Kg restantes e que não absorvidos pela terra.

  • Evapora no ar acidificando a chuva e contribuindo no aquecimento global;
  • Infiltra no lençol freático contaminando fontes de água potável da população;
  • Na água, os nitratos ligam-se às hemoglobinas e comprometem a capacidade do sangue de transportar oxigênio para o cérebro.
  • Lavado pelas chuvas que o carregam para os rios que acabam por desaguar nos oceanos, portanto, contaminação de mananciais de água potável (rios) e também dos oceanos
  • Proliferação de algas causando o fenômeno conhecido por Maré Vermelha, que mata peixes por asfixia.
  • Existe uma zona hipóxica hoje no Golfo do México tão extensa quanto o estado de New Jersey.

BOAS NOTICIAS?

Em 2004, pesquisadores da Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, descobrirma um novo processo para a produção de amônia. Este processo sintetiza amônia a partir do Zircônio Metálico sem a necessidade de altas temperaturas ou altas pressões, sendo que a completa conversão da amônia foi realizada a apenas 85ºC. O problema é que eles precisam agora transformar o processo de laboratório, que age molécula a molécula, em um processo de larga escala. O líder do projeto, Dr. Chirik, afirma que dificilmente o novo processo substituirá o Haber-Bosch por causa da escala em que se consegue produzir amônia com a nova maneira. A limitação encontra-se no fato dos cientistas não haverem encontrado um catalisador para o novo processo e, portanto, a busca desse catalisador passa a ser o foco das pesquisas do grupo do Dr. Chirik.

REFERÊNCIAS:

  • ERISMAN, Jan Willem; Et. al. How a century of ammonia synthesis changed the world. In: Nature Geoscience. V. 1, n. 10, p. 636-639, oct. 2008.
  • POLLAN, Michael. O Dilema do Onívoro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007.
  • _____. Em defesa da comida. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
  • Cientistas descobrem novo processo para produção de amônia. Inovação Tecnológica. São Paulo, SP, 04 março 2004. Disponível em: http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=010160040304. Acesso em: 24 novembro 2008.

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