O Senhor das Moscas e o mal inato do ser humano

Fim de semana chuvoso, com direito a feriado prolongado, então a ideia hoje é pegar leve por aqui no blog. Assim, achei melhor deixar apenas a recomendação de um bom livro para os amigos que ficarão de castigo em casa nesse feriadão de quatro dias.

Trata-se de O Senhor das Moscas (também adaptado para o cinema), escrito em 1954 por William Golding (1911-1993),  vencedor do Nobel de literatura, em 1983. Nas próximas linhas, pretendo fazer apenas algumas observações com o objetivo de instigar o leitor a buscar este livro para ter um fim de semana agradável. Portanto, este post é muito mais uma sinopse do que uma resenha propriamente dita do romance indicado.

Muito bem escrito e envolvente, O Senhor das Moscas tem um enredo brilhante, com um ritmo que faz seu leitor sentir-se como mais um dos personagens que se perdem numa ilha e terão que sobreviver duramente, se organizando em grupos para realizar as tarefas diárias até serem resgatados. Certamente inspirou muitos outros escritores e cineastas, havendo até quem diga que o programa Survivor (No Limite) e a série Lost tenham sido inspiradas nesta obra que, apesar do fracasso inicial, acabou por se tornar um clássico da literatura inglesa.

Escrito no pós-guerra, novo período de desencantamento com a humanidade, o livro faz uma série de analogias, a começar pelo título, que se refere a Belzebu (Baal-Zeboub), deus filisteu transformado em príncipe dos demônios por hebreus e cristãos, cujo significado etimológico do nome é justamente Senhor das Moscas.

Em termos gerais, para não estragar a surpresa, o livro trata da descoberta do mal que existe no coração do homem que, independente da idade e do meio onde este vive, surge como algo natural. Neste sentido, o autor pretende mostrar como crianças (entre 6 e 12 anos), se organizaram socialmente após terem sobrevivido a um acidente aéreo em uma ilha perdida sem a presença de adultos (autoridade). Qualquer semelhança com O Leviatã (1651), de Thomas Hobbes (1588-1679), não é mera coincidência. Resumindo de maneira bastante simplista, para Hobbes, sem a presença do Estado (autoridade), os homens não conseguem organizar a vida social e viveriam na mais profunda barbárie, daí a necessidade do Contrato Social.

A trama vai se desenvolvendo no intuito de contar como essas crianças vão criando, aos poucos, uma vida social baseada na violência e na força, atingindo altos requintes de crueldade. Um dos pontos chaves para o desenrolar do enredo deste romance, é a descoberta da presença de porcos na ilha que, inicialmente, servem como fonte de alimentos ao grupo, mas que mais adiante no livro, será utilizado pelo autor como a já referida metáfora do Senhor das Moscas, em alusão a Belzebú.

Um dos aspectos que me pareceu bastante interessante ao ler esta narrativa de Golding, foi perceber como estes garotos, apesar de terem recebido “fina educação inglesa” (portanto, não estamos lidando com “selvagens” africanos, asiáticos ou latino americanos), quando sozinhos acabam por estabelecer uma sociedade bastante “primitiva”, criando ritos e sacrifícios, desrespeitando as “leis” por eles mesmos estabelecidas, chegando até mesmo a matarem uns aos outros. Aqui, o medo do desconhecido desempenha um papel importante e, mais do que isso, a maneira como os líderes do grupo exploram este medo do mundo externo para fazer com que o restante do grupo os obedeçam.

Outra analogia que gostaria de apontar, sem me aprofundar muito, é que se percebermos bem, veremos que é possível relacionar alguns personagens chave com determinados valores e embates bastante em voga na época em que o livro foi escrito. Por exemplo, Ralph, um dos líderes do grupo, representa a democracia; Jack é a força tirânica e ditatorial; e Porquinho, a inteligência que apóia a democracia. Se considerarmos o contexto da Guerra Fria que, na década de 1950, vivia seus momentos mais quentes, podemos enxergar um embate bastante claro proposto pelo autor entre Democracia x Ditadura (ou, se preferirem, países ocidentais x URSS).

Contudo, o que vale mesmo a leitura e a recomendação desta breve sinopse, é justamente as reflexões que o livro levanta em relação a perda da inocência da humanidade (se é que isso existiu) e,  nesse sentido, o romance de Golding faz a caricatura perfeita do surgimento do mal no coração do homem.

Espero que aproveitem o fim de semana e o feriado prolongado, se possível, com uma boa leitura.

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2 Comentários

Arquivado em Arte, Cultura, Filmes, Livros

2 Respostas para “O Senhor das Moscas e o mal inato do ser humano

  1. Ótima indicação de literatura, Rogério. Sobre o Hobbes, sempre me pego questionando se o Estado moderno em vez de neutralizar as “paixões inatas pelo conflito” não acabam potencializando-as. E mais, como numa fase em “guerra de todos contra todos”, os indivíduos resolveram dialogar e fundar um “contrato social”? Então, quer dizer que antes depois da guerra e antes do Estado houve diálogo e consenso?rs…No fim, acabo concordando com os anarquistas clássicos: o Estado não foi acordado, foi imposto a força e violência. Pode ser só mais uma viagem dedutiva de filósofos, mas pelo menos me parece mais plausível. Que te parece?

    Abração,
    Munhoz.

  2. Olá Munhoz, concordo contigo. O Estado Moderno potencializa e muito as paixões inatas do ser humano. Está aí a Polícia, que defende apenas o interesse deste Estado, que não me deixa mentir.sozinho. Também concordo com os Anarquistas clássicos que afirmam que o Estado foi imposto e isso começa com o fim da chamada Idade Média e a centralização do poder na mão do monarca. Hobbes está, justamente, comendo na mão de um monarca ainda no início do processo da construção do Estado Nacional.

    Abraços,

    Roger

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