A crise, a direita, o futebol e o racismo

O Hum Historiador abre espaço para a colaboração de mais um amigo que gentilmente enviou seu texto para ser publicado no blog. Desta vez é o historiador, músico e compositor Daniel Eduardo Mafra, parceiro dos tempos da graduação desde 2006.

No texto a seguir, após ser provocado por uma entrevista concedida pelo professor Osvaldo Coggiola a revista Carta Capital, Mafra faz uma análise sobre o “retorno” da extrema direita no cenário mundial percebido, de maneira geral, através dos inúmeros casos explícitos de racismo e xenofobia que diariamente são noticiados pelo mundo e já não são mais capazes de causar espanto ou reação em cada um de nós. De maneira mais específica, Mafra se concentra nos ataques racistas feito contra jogadores de futebol durante a Eurocopa 2012, nomeadamente, ao jogador italiano Mario Balottelli.

Mais do que simplesmente fazer uma breve análise do caso mais recente, Mafra aponta para nossa culpa, enquanto cidadãos, do atual estado que o racismo atingiu em nossas sociedades e da posição e poder que essa direita ultraconservadora passou ter em muitos países ocidentais.

Divirtam-se!


A crise, a direita, o futebol e o racismo
por Daniel Eduardo Mafra

Se a História se repete, sendo a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa, aproximamo-nos, pois, de um destes pontos de inflexão do eflúvio histórico: a volta da extrema direita (cabe aqui o pleonasmo “A volta dos que não foram”) aos holofotes do cenário político mundial, através dos apelos racistas das classes mais abastadas da sociedade europeia – esta sempre tida como a vanguarda do pensamento ocidental – das políticas xenófobas de certos partidos políticos ascendentes no cenário europeu, e que ecoam pelo mundo afora, como vemos nas políticas higienistas do Governo do Estado de São Paulo, árvore mais que enraizada no solo da Revolução Burguesa no Brasil, por exemplo.

E pelo discurso daqueles que interpretam o atual momento político-social de nosso mundo do avesso, nada mais sugestivo que ressuscitar o bom e velho Marx pra dizer que a História parece se repetir agora como farsa. Ou uma piada de mau gosto, para ainda permanecermos polidos. Ainda…

Todos os historiadores (inclusive eu) bradam em alto e bom som que a História não se repete, que os anacronismos são demasiado significantes para analogias quanto aos acontecimentos de outrora para com o presente ou o porvir histórico. Não obstante, o que passamos a identificar cada vez mais e, sobretudo, desde que a atual crise europeia colocou em xeque os alicerces da falácia da Comunidade Europeia e da Social Democracia, é uma volta ao reacionarismo, ao racismo, à xenofobia.

Tal qual o processo histórico que se desenvolveu no início do século passado, quando o laissez faire escancarou as portas da primeira crise capitalista global, afundando as economias liberais, e acelerando a ascensão de grupos de extrema direita ao poder, sendo o nazismo e o fascismo somente dois dos tantos que se espalharam pelo globo, semelhante processo se nos apresenta agora. Tal qual uma piada de mau gosto, basta uma crise, cousa tão evidente e previsível dentro da estrutura sócio metabólica do capital, para que os grupelhos de extrema direita, xenófobos e racistas, ganhem força nos ecos dos discursos do passado, em defesa da família, dos bons costumes, da nação, de Deus, e do Diabo, se for preciso.

E há aqui um importante fato a ser considerado: a direita não mais precisa estar no poder, basta fazer-se presente sob a égide do mal para fazer o bem (conforme suas vicissitudes, naturalmente), ou vice-versa, não importa. Seu discurso ultranacionalista encontra morada na ineficiência das propostas frente à crise. É palha na fogueira.

E eis que este fogaréu, que de nada tem a ver com o nosso São João, deu as caras no evento mais pomposo do futebol internacional: a Eurocopa, que ocorre na Polônia e Ucrânia, países do leste europeu “onde há movimentos neonazistas de grande envergadura”, conforme disse Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da USP, em entrevista à Carta Maior.

Discordâncias à parte, não há como não refletir sobre o processo de transformação do “progresso cultural da sociedade burguesa em regressão cultural”, visto que boa parte dos integrantes destes novos partidos de extrema-direita é formada por pessoas com alto grau de instrução. E que futebol e política tem a ver um com o outro? Tudo, visto que “tudo se mistura com política, e… por que tudo se faz para que ela se misture. Por exemplo: a execução dos hinos nacionais antes dos jogos”.

Dentro desta arena transcendental e de movimento pendular, ora no esporte, ora na política, os holofotes deste espetáculo da barbárie apontam para os jogadores negros das diversas seleções, alvo da intolerância e da gratuita estupidez humana, tendo como pano de fundo a conivência das autoridades, ora políticas, ora esportivas, e seus slogans superficiais e politicamente corretos. Faz-se com que capitães das respectivas seleções leiam um texto raso sobre o papel do esporte quanto à união dos povos, o ‘diga não ao racismo’ e mais uma meia dúzia de blábláblás e pronto! Papel cumprido! O juiz apita e tem-se início a partida. Minutos depois, a mágica da tolerância se desfaz pela contemplação do voo solo de uma banana em direção a um jogador negro… Nada se faz, pois o papel da autoridade era tal qual o de perfumar estrume diante da gravidade dos acontecimentos. Há um abismo de distância entre um discurso político e um ato de represália aos ofensores. É uma forma de se institucionalizar, mesmo que de forma latente, o racismo no futebol.

Reprodução de charge do jornal Gazzetta dello Sport que compara Balottelli, jogador da seleção italiana, ao King Kong.

Aliás, cabe aqui importante reflexão: recentemente um importante estudo, publicado na Associated Press no último dia 24/06, revelou que o foco dos cientistas que estudam comportamento e, sobretudo, pensamento animal, está em QUÊ eles pensam e não SE eles pensam. “Babuínos podem distinguir entre palavras escritas e meros rabiscos. Macacos parecem ser capazes de multiplicar e podem compreender instantaneamente uma gratificação, muito mais do que uma criança humana pode. Planejam. Fazem guerra e paz. Mostram empatia. Compartilham“. Ou seja, é bastante provável que se um macaco estivesse entre os torcedores que arremessaram a dita banana ao atleta em campo, ele a comeria, ao invés de desperdiçá-la com um ato tão intragável. É bastante provável que um babuíno seja tão inteligente (ou mais) do que aquele sujeito supostamente superior, em seu ato impensado (ou pensado), mecânico, boçal.

Diferentemente de Coggiola, que atribui tais atos exclusivamente ao conflito de classes, ou a derivações do conflito de classes, penso que o racismo é causa e consequência, ao mesmo tempo. Não há como negar o conflito de classes e a exclusão das populações negras, no Brasil, por exemplo. É um racismo consequente da luta de classes. Mas há ainda algo mais. A ortodoxia marxista esbarra nas causas ideológicas e eugênicas do século XIX que persistem no imaginário coletivo das elites dominantes, detentoras do monopólio da informação, produtoras daquilo que se convencionou chamar ‘opinião pública’ (como se o termo presumisse a indelével afirmação de que tal opinião emana do povo).

Especificamente, direcionando a pauta para a realidade brasileira, faz-se evidente que o racismo é institucionalizado de forma velada. Seja pelo monopólio da violência exercido pelo estado contra as populações negras, seja pelas burlescas anedotas, supostamente despretensiosas, proferidas num botequim qualquer. Ainda em tempo, as medidas pontuais tomadas pelo governo federal, desde a ascensão do PT ao poder, é uma correção para a distorção do curso histórico de nosso país. Ainda assim, tal fato trouxe à tona uma série de ‘pensadores‘ contrários à medida e ao recente parecer do STF quanto à matéria.

Mais do que tudo, o racismo está presente no silêncio de cada um de nós, ao não nos chocarmos com os fatos escancarados, que nos esbofeteiam com os chicotes dos açoites de outrora. Ao não nos posicionarmos contra, necessariamente estamos nos posicionando a favor. Não há meio termo. Não há como ficar em cima do muro. Não vejo outra forma de terminar este devaneio senão citando o Cássio, no Júlio César, de Shakespeare: “Há momentos em que os homens são donos de seu fado. Não é dos astros, caro Brutus, a culpa, mas de nós mesmos, se nos rebaixamos ao papel de instrumentos“.

Prólogo

Ainda em tempo, e para meu deleite, na tarde de ontem a seleção da Itália venceu a seleção alemã por 2×1. Não que eu esteja torcendo por uma ou outra, mas o destaque da partida foi o italiano Mario Barwuah Balotelli, de origem ganesa. Um dos alvos frequentes de torcedores racistas, Balotelli rompeu as fronteiras do futebol. Arrancou intrépido com a bola e, em direção ao gol, chutou-a forte, tal qual um Zumbi contemporâneo-metafórico-esportivo, balançando as redes da opressão. Parou e tirou a camisa, num ato colérico e contido, paradoxalmente. Depois, cerrou o punho e elevou-o até o alto, e trouxe a nós, por efêmero momento, uma carta de alforria.


Daniel Mafra é músico, compositor, falso poeta e proto-escritor. Graduado em História pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

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10 Comentários

Arquivado em Cultura, Política

10 Respostas para “A crise, a direita, o futebol e o racismo

  1. O racismo, a xenofobia nunca vão embora. É assim mesmo. E não se manifestam nas crises ou nos grandes eventos. Nos grandes eventos tem mais cobertura e a mídia vê mais de perto e publica. Como eu sempre digo: “Não sou racista até minha filha casar com um negão” hahahahah . Mas o Balotelli pode! hahahahah

  2. Texto excelente, Daniel. O Roger sempre trazendo coisas boas aqui! Mas ao contrário do comentário acima não acredito que o racismo seja inerente a nossa existência social, pelo contrário, assim como ele foi culturalmente construído pode por isso ser desconstruído. Afinal, ninguém nasce nazista, racista e homofóbico, mas se torna ao longo da vida experimentando as relações sociais; que em grande medida seguem uma lógica de dominação cultural “eurocentrica”. Se isso ainda é visto como algo natural e imutável para muitos, é hora de mostrarmos que esse pensamento é um engano muito mal-intencionado e disseminado.

    Abraços!

  3. atento

    mas o sr. vive num desses lugares privados ? o seu filho nunca foi roubado na escola ? nunca lhe perguntou porque não havia mais iguais a ele (branco) na escola na terra de sempre da sua familia ? acorde senhor!

  4. Julia

    Tire o seu racismo do caminho, que eu quero passar com a minha cor. ( do livro Desaforismos de Georges Najjar Jr )

  5. O que esperar de um indivíduo que não tem coragem de se identificar? Nada além do que a porcaria que foi postada….

  6. atento

    o senhor pode por deixar aqui links de blogs de negros que apelem ao não racismo contra brancos ? o senhor pode-me dizer algum caso que o sos racismo se tenha metido em defesa de brancos e contra negros ?
    o senhor conhece brancos que adotaram negros ? e ao contrario quantos conhece ? já alguma vez foi chamado de branquela ? palido ? pula ? o senhor vive no brazil que é uma terra de brancos e negros e se habituaram a conviver o que é diferente da Europa , o senhor já ficou sem emprego por ele ser ocupado por um estrangeiro negro ? já ouviu falar de algum peditorio em angola para portugal ? já teve de juntar tampas de plastico para comprar uma cadeira de rodas para o seu filho ? no entanto o meu país vai a cabo-verde buscar doentes para os tratar aqui , sabe que por aqui algumas camaras proporcionam ginastica , natação , aprendizagem de violino a pessoas vindas de africa , pois saiba que o meu filho também gostaria de ter os mesmos direitos , ele apenas vê os outros pois que eu não lhe posso dar isso , no entanto a camara leva-me dinheiro para além da renda da casa que comprei , mas ao contrario simplesmente a dá e ainda paga subsidio , acha que é facil andar numa camioneta com sua mulher e filhos e apenas haver mais um branco ? isto numa camioneta apinhada de gente e ter de ouvir que aqui é rua de angola ali rua são tomé e etc . a escola onde andei, hoje é quase cem por cento alunos negros , isto em 15 a 20 anos , uma coisa é aceitar o outro , tudo bem ,outra é ser substituido . Mas diga já alguma fez teve de esconder ou retirar um crucifixo estando no seu país ? já sentiu medo ? já deixou de ir passear ao jardim com o seu filho ?o senhor não faz ideia simplesmente , o senhor não se importa com os brancos ? não estarei aqui já a ser alvo de racismos só por ser branco ? se fosse negro tudo mudava não é ? sou racista porquê ? por me queixar ? não os ofendi , as pessoas continuam a ver o mundo como se as coisas não se tivessem invertido , nós brancos da europa é que estamos a ser alvo de racismo anti-branco pelos negros e por outros brancos que usam a cantiga do racismo para serem eles racistas connosco , claro que não é tudo igual mas diga lá isso a esta menina , podia ser a sua filha
    http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/nacional/portugal/humilhada-por-quatro-violadores

  7. atento

    mais uma coisa quando se anda na net nunca somos anonimos ok?mas isso é outra conversa

    • Muito prazer, Sr. Atento. Meu nome é Rogério Beier, sou historiador, tenho 35 anos de idade e vivo em São Paulo, Brasil. Por enquanto, o único que sei a seu respeito é que se trata de um senhor provavelmente português, que se auto-determina branco (o que é bastante engraçado, vindo de um português, se de fato for português) e que tem forte tendência ao racismo e a xenofobia, pelo que escreveu aqui.

      Fora dos computadores, não costumo conversar com pessoas mascaradas que, por conta de suas opiniões vergonhosas e da reação que elas causam em pessoas sadias, costumam ter medo de se identificarem. Trago este hábito para o mundo dos computadores e, por isso, não costumo dar muita bola para indivíduos que se escondem por trás de pseudônimos enviando opiniões que discriminam e visam justificar uma pretensa superioridade de raça. Portanto, enquanto estiver se escondendo por trás deste pseudônimo/máscara que preferiu utilizar, não vou respondê-lo como merecia.

      Talvez o amigo Daniel Mafra tenha mais paciência e responda algo. Mas eu estou fora. Aliás, estou pensando seriamente em moderá-lo. Só não o fiz até o momento, para fins didáticos aqui no blog.

      Passar bem…

    • Daniel Eduardo Mafra

      Prezado, Atento.

      Tuas palavras odiosas somente corroboram com o meu texto e com as explanações sobre as motivações para um discurso racista e xenófobo. A crise que assola os países europeus (e que certamente chegará aos trópicos, não te preocupes) é motor propulsor para o discurso ultranacionalista, tradicionalista e conservador. Tudo que é alheio, estrangeiro, torna-se uma ameaça, seja ela real ou não. E mais: através de um meio propagandístico eficiente e pontual, transforma-se tudo o que se bem entender numa Quimera violenta, fruto da sagacidade de quem manipula o pensamento médio da população, conforme suas conveniências.

      Pensar que um negro, ou estrangeiro, é o mal causador dos crescentes índices de desemprego na Europa é, no mínimo, pueril (para não dizer ardil). Se atentarmos para os fatos, com olhos mais criteriosos e que não estejam maculados pela cegueira do momento, veremos que o movimento histórico explica razoavelmente (cousa que te faltou, seja por ignorância quanto à matéria, seja por interesses particulares em detrimento aos interesses coletivos) tanto os fatores que motivam a xenofobia e o racismo, como também as recorrentes crises orgânicas inerentes ao modelo capitalista.

      Faz-se imprescindível apontar que, não fosse a história secular de espoliação das riquezas do Continente Africano por parte das Metrópoles Europeias (inclusive Portugal, ora pois!), hoje mui possivelmente não apontaríamos o dedo para o estrangeiro com a mesma postura ignominiosa que o fazes descaradamente nos dias atuais. Aliás, seguramente o posicionamento governamental de muitos destes países usurpadores de outrora é o de prover “bem” (aspas gigantescas aqui, por favor) as populações “estrangeiras” (o mesmo se aplica a estas aspas) também como uma correção das distorções históricas que ficaram no passado. Mesmo porque, com tal postura, conseguem inibir que futuramente se sugira uma indenização pelos séculos de furtos a todas as riquezas de um continente, o que financiou e propiciou à Europa e à América modernas serem o que são hoje. Tudo isso às custas da mão-de-obra escrava africana, estrangeira. Imagine só, para pagar tal dívida, a Europa se auto-hipotecaria por no mínimo o dobro do tempo que ela levou para enriquecer às custas daqueles que a ajudaram a construir.

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