Um herói jamaicano: Marcus Mosiah Garvey

Não, não é um corredor olímpico jamaicano e nem um cantor de Reggae a quem vamos dedicar este post. Estamos falando de outro tipo de heroísmo. Um tipo que, no mundo contemporâneo, talvez não seja mais tão valorizado, já que neste mundo atual tudo é muito rápido e a cada minuto queremos tornar as coisas ainda mais instantâneas. Nesse ritmo alucinante, até os heróis de nosso século são criados e destruídos em questão de dias.

No passado, grandes guerreiros, reis e santos eram os heróis do povo. Heróis que viraram lenda e cujos feitos, lutas e exemplos chegam até nós, ainda hoje, das mais variadas formas, seja através da tradição oral (Zumbi), da literatura clássica (Ulysses), ou, em alguns casos, suas biografias viram peças de Hollywood e alcançam a grande população. Assim foi com William Wallace, herói escocês, São Francisco de Assis, herói italiano e de Joana D’Arc, heroína e guerreira francesa, para citarmos apenas três. Heróis que lutaram por ideais de liberdade, fraternidade e igualdade entre os homens.

Em contrapartida, no século XX, o capitalismo se estabelece e, com sua chegada, fomos testemunhando a mudança de perfil que os heróis foram sofrendo. Ao invés de homens lutando por grandes ideais, hoje temos heróis que foram nada mais do que esportistas de destaque em sua modalidade, cantores ou escritores que, apesar de terem sido muito bons e admiráveis, quase nada contribuíram para a humanidade, para o seu país ou sequer para a sua comunidade. Homens cujos feitos mais marcantes foram ganhar algumas copas do mundo, conquistar títulos mundiais de automobilismo, cantar algumas músicas com “ié, ié, ié” ou escrever alguns romances e poemas profundos.

Enquanto isso, outros heróis vão sendo esquecidos ou seguem solenemente ignorados pela grande massa, muitas vezes, por campanhas intencionais de silêncio sobre suas vidas e obras. Homens que derramaram seu sangue e deram suas vidas pelos mesmos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade que os heróis de antigamente, mas cujas figuras e lutas acabam não inspirando tanto os produtores de Holywood, o que acaba relegando a esses homens que sejam recordados apenas durante as aulas de História, quando muito, e com grande desinteresse dos alunos.

É justamente sobre um desses homens que quero falar neste post. Seu nome é Marcus Mosiah Garvey que, apesar da imensa luta pela liberdade e igualdade do negro , segue ainda como um verdadeiro desconhecido em todo o mundo. Homem sobre o qual muito pouco, ou quase nada, ouvimos falar em nossos meios de comunicação, mas cujo o trabalho foi forte e influente o bastante para fazer com que Malcom X e Martin Luther King se inspirassem em sua luta e movimentassem os Estados Unidos inteiro. Homem que chacoalhou o mundo de tal forma o fato dele sequer ser mencionado nos meios de comunicação, impressiona, embora já fosse de se imaginar.

O HOMEM

Marcus Mosiah Garvey nasceu em 17 de agosto de 1887 na Baía de Santa Ana, Jamaica. Logo aos 14 anos de idade, largou a escola e foi trabalhar com seu padrinho que complementou sua educação e lhe deu emprego como aprendiz da gráfica. Nessa mesma gráfica teve contato com as diversas pessoas que por lá discutiam política e as questões da comunidade com seu padrinho.Garvey tinha grande paixão por livros, gosto que herdou do pai, um culto maçom e seu padrinho, dono de uma biblioteca particular da qual Garvey fez muito uso durante sua educação. Participou das primeiras organizações nacionalistas da Jamaica, e, em 1908, fez parte de uma greve promovida pelo sindicato tipográfico, seu primeiro movimento sindical. Como resultado da greve, perdeu seu emprego e foi colocado em uma lista negra dos empregadores privados da Jamaica. Contudo, conseguiu emprego na imprensa do governo.

Após algum tempo na Jamaica, decidiu viajar pela América Central e do Sul onde tomou contato com a situação deplorável e calamitosa dos negros nessas localidades. Viajou em 1910 para a Costa Rica, tendo trabalhado como fiscal em uma plantação de bananas onde, dentre outras coisas, pôde observar de perto a situação dos negros nesse país. Decidiu que iria mudar a condição de vida dessas pessoas. Continuou suas viagens trabalhando e observando a situação do negro por regiões como o Canal do Panamá e em países como Equador, Honduras, Nicarágua, Guatemala, Colômbia, Chile e Peru. Em todos esses países, viu os negros sofrendo com o desemprego e passando fome e miséria, além, é claro, de sofrerem sobremaneira com o preconceito racial. Após suas viagens, voltou à Jamaica e apelou ao governo colonial jamaicano que fizesse algo pela situação dos trabalhadores nesses países, mas nada conseguiu do seu governo.

OS IDEAIS E A LUTA

Em 1912, partiu para a Inglaterra onde, em Londres, aprendeu muito sobre cultura africana. Teve especial interesse pela situação do negro nos Estados Unidos da América. Freqüentou a Casa dos Comuns (parlamento inglês) e entrou em contato com africanos provindos de outras colônias britânicas que iam estudar em Londres. Dessa convivência, percebeu que a situação do Negro no mundo todo era muito parecida. Em Londres, Garvey entrou em contato com os líderes do movimento Pan-Africano.

UNIA

Ao retornar para a Jamaica em 1914, Marcus Garvey fundou a UNIA (Associação para o Progresso Negro Universal) que tinha o lema “Um Deus, Um Objetivo, Um Destino”. Garvey era presidente da associação que pretendia unir “todas as pessoas de ascendência africana do mundo em uma grande massa estabelecida em um país e governo absolutamente autõnomos”.

Inicialmente a UNIA foi ridicularizada na Jamaica pelos próprios negros. Como resposta, ele disse que aqueles que o ridicularizavam eram os negros “que não queriam ser reconhecidos como negros, mas como brancos.”

Em 1916, Garvey partiu para os Estados Unidos onde virou ativista ensinando os negros daquele país a buscarem seus direitos. Viajou praticamente todo os Estados Unidos até 1927, trabalhando arduamente para consolidar a UNIA em uma organização verdadeiramente internacional.

Seus esforços foram bem sucedidos, em 1920 a UNIA contava com mais de 1 milhão de afiliados em 1100 filiais, espalhados em mais de 40 países. A maioria das filiais estavam localizadas nos Estados Unidos, mas também havia uma grande filial em Cuba e outras em países como Panamá, Costa Rica, Equador, Venezuela, Gana, Serra Leoa, Libéria, Namíbia e África do Sul.

Em uma tentativa de atingir seu objetivo de criar uma nação autônoma e independente na África, Garvey lançou em 1919 uma companhia de navegação a vapor chamada Black Star Line Steamship Corporation. Entre os anos de 1919 e 1925. A Black Star Line e sua sucessora, a Black Cross Navigation and Trading Company, operaram com quatro navios que carregaram passageiros e carga entre os EUA, Cuba, Haiti, Jamaica, Costa Rica e Panama.

Ainda em 1920, a primeira convenção da UNIA, realizada em sua sede, no Harlem, alterou significativamente o curso da associação. Um programa baseado na Declaração dos Direitos dos Povos Negros do Mundo foi adotado, marcando a evolução do movimento que passa a ser um movimento nacionalista negro, buscando enaltecer a raça negra, encorajando a autoconfiança e o patriotismo africano.

A declaração detalhava as injustiças cometidas contra os negros, especialmente nos Estados Unidos, e condenava a discriminação e privação dos direitos que incidiam sobre todas as pessoas. Estes direitos foram organizados em uma série de 54 artigos. As cores oficiais da associação também foram escolhidas nessa convenção: vermelho, negro e verde.

Convencido de que os negros deveriam ter um lar permanente na África, o movimento de Garvey tentou realizar sua idéia colonizando (Levando negros da Associação) e auxiliando o desenvolvimento da Liberia. De acordo com as palavras de Garvey “nosso sucesso educacional, industrial e político é baseado sob a proteção de uma nação fundada por nós mesmos. E essa nação não pode ser em nenhum outro lugar do que na África”.

O projeto da Libéria, lançado em 1920, tencionava construir colégios, universidades, fábricas industriais e ferrovias entre outras coisas, mas o projeto teve de ser abandonado no meio dos anos 20 depois de muita oposição dos poderes Europeus com interesses diversos na Libéria.

Garvey foi eleito presidente provisório da África durante a convenção organizada pela UNIA em 18 de agosto de 1920. Era primariamente uma posição cerimonial, por várias razões; os países da África eram colônias de países europeus, na sua maioria, e Garvey não tinha visto para entrar em qualquer lugar da África, nem mesmo nas colônias britânicas (Garvey era cidadão inglês pois a Jamaica também era colônia).

A MORTE

Garvey é considerado por muitos a liderança negra mais influente dos anos 1920, mas sua importância foi colocada em questão por conta do que se considerou mau uso de recursos para fundar a companhia de navios à vapor, o que acabou resultando a Garvey uma condenação por fraude nos Estados Unidos. Garvey foi preso em 1925 e, dois anos depois, deportado para a Jamaica, que ainda era colônia do Reino Unido (independência se daria apenas em 1962).

Em junho de 1940, Marcus Garvey morre em decorrência de dois derrames sendo seu corpo enterrado no cemitério Kendal Green em Londres. Em 1964, seus restos mortais foram transladados para a Jamaica e enterrados no National Heroes Park, sendo Garvey proclamado o primeiro herói nacional jamaicano.

Estrela negra e escultura em memória a vida e luta de Marcus Garvey. National Heroes Park, Kingston, Jamaica.

Marcus Garvey foi um guerreiro internacional em defesa do nacionalismo negro. Ele despertou a consciência do povo negro clamando por orgulho racial e dignidade entre todos os negros ao redor do mundo. Em um singelo tributo a ele, alguém disse: “Marcus Garvey foi a maior esperança negra de encontrar dignidade”. (retirado do site do UNIA).

O MOVIMENTO RASTAFARI

A filosofia Rastafari se expandiu muito na década de 30 sob forte influência dos discursos inflamados de Marcus Garvey. As idéias de Garvey encontraram eco entre os líderes religiosos da Jamaica e ele ganhou fama de profeta. Sua pregação combinou-se a uma interpretação livre da Bíblia, especialmente do Velho Testamento. Garvey e seus seguidores identificavam-se com a história das tribos perdidas de Israel, vendidas aos senhores de escravos da Babilônia. Essa metáfora inicial gerou uma série de imagens simbólicas que se tornaram constantes na tradição oral dos rastas: “Babilônia”, “Zion”, entre outras.

Numa das profecias atribuídas a Marcus Garvey, previa-se que um Rei Negro seria coroado na África e que esse rei seria o líder que conduziria os negros do mundo inteiro `a redenção. Quando, em 1930, Ras Tafari Tafari Makonnen foi proclamado rei da Etiópia, adotando o pomposo título de “Rei dos Reis, Senhor dos Senhores, Sua Majestade Imperial, Leão Conquistador da Tribo de Judá, Eleito de Deus”, os líderes religiosos e seguidores de Garvey na Jamaica reconheceram nele o Rei Negro de que o profeta havia falado. Ras Tafari, que adotou o nome de Haile Selassie I, proclamava-se legítimo herdeiro da antiga linhagem do Rei Salomão (que teve um filho com a rainha do reino etíope de Sabá) e seria o messias que libertaria os negros do mundo inteiro e os levaria de volta à terra de seus pais. Mais do que isso, ele passou a ser considerado por esses pregadores a própria encarnação de Deus, que, segundo sua interpretação da Bíblia, haveria de ser negro. Um trecho do Apocalipse de São João foi invocado como confirmação do destino do novo Rei da Etiópia: “Não chores! Eis aqui o Leão da Tribo de Judá, a raiz de David, que pela sua vitória alcançou o poder de abrir o livro e desatar os seus sete selos” (5:5).

Quando se fala de Jamaica e de Rastafari, impossível não mencionar Bob Marley e sua música,  que foi completamente influenciada completamente pelo movimento Rastafari e, consequentemente, por Marcus Garvey. Abaixo disponibilizamos uma apresentação de Bob Marley de sua canção AFRICA UNITE (com legendas traduzidas), onde podemos perceber claramente ambas influências: o conteúdo pan-africanista (Garvey) e da filosofia Rastafari.

Vale dizer que que Haile Selassie I nunca foi muito favorável ao Rastafarianismo, solicitando a hierarquia da Igreja Ortodoxa da Etiópia que mandasse missionários para a Jamaica para que se oporem ao movimento. O fundador Marcus Garvey, considerado profeta pelos Rastafaris, posteriormente também negou associação com o movimento.

A POESIA ENGAJADA DE MARCUS GARVEY

Marcus Garvey, além de ativista e excelente orador, era poeta. Em sua vida produziu vários poemas sempre com a mesma temática, a libertação, o respeito e o orgulho negro. Em poema intitulado Say! Africa for the Africans, conclama os negros de todo mundo a formar uma nação autônoma e independente na África, exigindo a cooperação das nações que seqüestraram e forçaram-nos a trabalhar como escravos e construir a riqueza da América e da Europa.

Não poderia haver melhor maneira do que finalizar este post com a poesia de Garvey, que infelizmente, não pude encontrar tradução. De qualquer modo, para quem não tem muita proximidade com a língua inglesa, fica um incentivo a mais para traduzi-lo e buscar compreender sua mensagem.


Say! Africa for the Africans
By Marcus Garvey

Say! Africa for the Africans,
Like America for the Americans:
This the rallying cry for a nation,
Be it in peace or revolution.

Blacks are men, no longer cringing fools;
They demand a place, not like weak tools;
But among the world of nations great
They demand a free self-governing state.

Hurrah! Hurrah! Great Africa wakes;
She is calling her sons, and none forsakes,
But to colors of the nation runs,
Even though assailed by enemy guns.

Cry it loud, and shout it Ion’ hurrah!
Time has changed, so hail! New Africa!
We are now awakened, rights to see:
We shall fight for dearest liberty.

Mighty kingdoms have been truly reared
On the bones of blackmen, facts declared;
History tells this awful, pungent truth,
Africa awakes to her rights forsooth.

Europe cries to Europeans, ho!
Asiatics claim Asia, so
Australia for Australians,
And Africa for the Africans.

Blackmen’s hands have joined now together,
They will fight and brave all death’s weather,
Motherland to save, and make her free,
Spreading joy for all to live and see.

None shall turn us back, in freedom’s name,
We go marching like to men of fame
Who have given laws and codes to kings,
Sending evil flying on crippled wings.

Blackmen shall in groups reassemble,
Rich and poor and the great and humble:
Justice shall be their rallying cry,
When millions of soldiers pass us by.

Look for that day, coming, surely soon,
When the sons of Ham will show no coon
Could the mighty deeds of valor do
Which shall bring giants for peace to sue

Hurrah! Hurrah! Better times are near;
Let us front the conflict and prepare;
Greet the world as soldiers, bravely true:
“Sunder not,” Africa shouts to you.

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8 Comentários

Arquivado em Cultura, Política

8 Respostas para “Um herói jamaicano: Marcus Mosiah Garvey

  1. Fantastico resgate histórico, parabéns!

  2. Susie Derkins

    Estava esmiuçando a letra de Redemption Song e achei seu artigo… Muito interessante a história completa e complexa…. Quase todos os movimentos revolucionários, por mas que se desvirtuem, têm uma mesma raiz..
    Ótimo texto…

    • Muito obrigado pela visita e pelos elogios, Susie. Espero que goste dos outros posts do blog também.

      Um abraço,

      RB

      • Gostei do post tbm Rogerio Beier, porém não concordo que Selassie I não gostava do movimento rastafari, porque o próprio Selassie I forneceu terras aos rastas, cidade que se chama Sashamane na Etiópia e presenteou todos os líderes rastas que existia naquela época com medalhas de honra da Etiópia. Vários rastas fizeram parte da igreja ortodoxa nos anos 70, inclusive tem na jamaica uma comunidade rasta chamada de “os ortodoxos” , porque a maioria dos membros eram batizados na igreja ortodoxa da etiópia, instituída na jamaica pelo Selassie I como vc falou no post. Um rasta famoso que era batizado pela igreja ortodoxa era o Bob Marley, por isso discordo que a igreja ortodoxa era para mudar a opinião dos rastas, até porque os rastas sempre foram minoria na jamaica. A igreja etiope foi instituída na jamaica para mostrar ao negro jamaicano que ele tem a sua propria igreja africana e pode contar a sua propria história na biblia.
        Outra história que falam de Marcus Garvey (não nesse post) é que ele não gostava de Selassie I, outra mentira que falam, pois o próprio Garvey publicou uma reportagem no dia da coroação de Selassie I em seu jornal The Black Man, dizendo “para todos os negros do mundo a apoiar Selassie I”.
        Obrigado pelo post, JAH GUIA !

  3. Nanda

    Que emocionante! Conheci Marcus Garvey através de RasTafari e nunca tinha lido um texto tão bom sobre esse grande homem. Parabéns!

  4. Republicou isso em Mamapresse comentado:
    OS IDEAIS E A LUTA

    Em 1912, partiu para a Inglaterra onde, em Londres, aprendeu muito sobre cultura africana. Teve especial interesse pela situação do negro nos Estados Unidos da América. Freqüentou a Casa dos Comuns (parlamento inglês) e entrou em contato com africanos provindos de outras colônias britânicas que iam estudar em Londres. Dessa convivência, percebeu que a situação do Negro no mundo todo era muito parecida. Em Londres, Garvey entrou em contato com os líderes do movimento Pan-Africano.

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