O uso da Igualdade como instrumento de dominação

Foto: Antonio MilenaLendo uma entrevista de Maria Sylvia de Carvalho Franco, encontrei um trecho bastante interessante que gostaria de compartilhar por aqui. Neste trecho a  autora fala, no contexto do Brasil do século XIX, de como o conceito de igualdade acabou emergindo no processo de dominação sócio-econômica vinculado ao conceito e ao direito de propriedade, cumprindo a função de encobrir e inverter as coisas, isto é, de como o ideário liberal-burguês apareceu no processo de constituição das relações de mercado e foi utilizado como instrumento de dominação para “encobrir e inverter” a realidade.

“As representações igualitárias eram necessárias para sustentar o sistema de dominação e encobrir as disparidades. (…) É necessária a premissa de uma sociedade onde todos são potencialmente iguais, mas desigualmente capacitados para empreender sua conquista, a fim de legitimar os desequilíbrios de condição social e a exploração”. 

Ao ler este trecho, não pude deixar de achar bastante curioso como este mesmo uso do ideário liberal-burguês, que já era bem operado pelos fazendeiros de café no século XIX, ainda hoje continua sendo empregado de modo semelhante em diversas situações. Como publiquei por aqui recentemente, posso utilizar como exemplo a marcha do auto-denominado Exército Anti-Cotas que clamava justamente por igualdade para justificar sua não concordância com a adoção do sistema de cotas nas universidades públicas.

Neste caso específico, é bastante paradigmático ver como um certo grupo social (ou deveria usar classe?) ao ver ameaçado aquilo que os permite dominar outros grupos, apela justamente para o argumento da igualdade para classificar a lei que sanciona as cotas sociais e raciais nas universidades de injustas. Quer dizer, quando a classe média percebe que essa lei coloca em risco justamente aquilo que os torna “desigualmente capacitados” em relação a outros grupos e, justamente por isso, mais aptos para ocuparem as melhores posições na sociedade, começam a gritar e espernear, alegando que tal lei é injusta, pois os trata com desigualdade. Curioso, não???

Impossível não recordar de parte do depoimento de Washington Novaes no filme O Povo Brasileiro, baseado na obra de Darcy Ribeiro, ao falar sobre a matriz Tupi na formação de nosso povo. No video abaixo, que já utilizei em outro post, separei trechos que nos permitem comparar a igualdade do ideário liberal-burguês e a igualdade vivida pelos índios em suas sociedades. Para ver a parte mais diretamente relacionada ao que estamos tratando aqui, basta ver um trecho de 1min15 desse vídeo, AVANÇANDO até os 6:00 minutos e assistindo até os 07:15.

Quando publiquei o trecho do texto da professora Maria Sylvia no meu perfil do facebook, logo em seguida o amigo Arthur Voltolini deixou um comentário bastante pertinente:

“é essa “igualidade” que fundamenta o discurso que afirma que no limite o pobre é culpado pela própria pobreza. E os “causos” de superação pessoal servem pra sedimentar essa idéia.”

Achei bastante importante essa lembrança dos casos de superação pessoal, pois estes servem de propaganda para que se use a exceção como regra e convença as pessoas de que o tal ideário liberal-burguês de igualdade é justo e não falacioso. Quantas vezes não vemos nos telejornais globais (e similares), propaganda dos poucos estudantes de escola pública que às custas de um esforço quase sobrehumano, conseguiram passar em um vestibular de universidade pública à despeito de sua condição social e da consequente oportunidade educacional nas escolas de ensino fundamental e médio de baixa qualidade. Tais programas retiram parte do mérito exclusivamente pessoal desses estudantes e o transferem para o sistema de ensino público, alegando que se aquele indivíduo foi capaz, os demais que não conseguem tal proeza e fracassam miseravelmente simplesmente porque não se esforçaram o suficiente. Como disse Voltolini, “o pobre é o culpado pela sua pobreza”, ou neste caso, o estudante de escola pública é o culpado por não ingressar na universidade pública não pela desigualdade de oportunidade na educação, mas por sua falta de esforço (a velha alcunha de indolente, preguiçoso).

A amiga Juliana Reis lembrou de um post recente do Blog do Sakamoto sobre este assunto, intitulado Tenho medo das histórias de superação individual. Como a do Joãozinho. Abaixo apenas um trecho do primeiro parágrafo:

“Em um post sobre que educação queremos e como chegaremos lá, escrevi que estava farto daquele papinho do self-made man de que professores e alunos podem conseguir vencer, com esforço individual, apesar de toda adversidade, “ser alguém na vida”. Nessas horas, para embasar o argumento, surge sempre histórias do tipo “Joãozinho comia biscoitos de lama com insetos, tomava banho em rios fétidos e vendia ossos de zebu para sobreviver. Mas não ficou esperando o Estado, nem seus professores lhe ajudarem e, por conta, própria, lutou, lutou, lutou (às vezes, contando com a ajuda de um mecenas da iniciativa privada), andando 73,5 quilômetros todos os dias para pegar o ônibus da escola e usando folhas de bananeira como caderno. Hoje é presidente de uma multinacional”. Rola até lágrima ao ouvir uma história assim.”

Recomendo a leitura do post na íntegra e que, ao fim da leitura desse post, procurem refletir nesse ideário falacioso de que somos realmente tratados com igualdade e, talvez, ir mais além e pensar na “santa de pau-oco”, a tal da democracia. Sei que é desanimador e, até mesmo, paralizante pensar em tais ideários como instrumentos para garantir a dominação de classe sobre classe, mas é só tomando consciência dessa utilização que podemos nos posicionar criticamente numa sociedade que, o tempo todo, nos oprime e explora.


TEXTO FONTE: As Ideias Estão no Lugar
AUTORA: Maria Sylvia de Carvalho Franco


PS: Como lembrou a colega Tereza nos comentários desse post, a professora Maria Sylvia de Carvalho Franco foi signatária de um manifesto antirracialista e contrário as cotas enviado ao STF em abril de 2008. A relação entre as representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação, presentes no texto da professora, com o clamor de igualdade dos grupos anti-cotas ao criticar a decisão do STF em considerar constitucional a adoção do sistema de cotas, é de minha responsabilidade.

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12 Comentários

Arquivado em Cultura, Política, Universidade

12 Respostas para “O uso da Igualdade como instrumento de dominação

  1. Tereza

    Interessante você citar “As ideias estão no lugar” da Maria Sylvia de Carvalho Franco. Nesse artigo Maria defende que os ideais liberais do Brasil-Impeŕio não eram estranhos ao liberalismo europeu, por causa do sistema escravista praticado aqui, diferente do que defendia Roberto Schwarz em seu artigo as “As ideias fora do lugar”. Isso dentro do contexto econômico.

    Apesar da incoerência entre liberalismo e escravidão, elites políticas e intelectuais brasileiros incorporaram ideais liberais. Uma justificativa de como isso é possível explica-se pela parte do artigo que você citou.

    Porém, veja o que ela fala nessa entrevista sobre a escravidão e suas consequências*:
    “(…)não se podem atribuir à escravidão as mazelas que afligem as populações pobres brasileiras. A miséria, a tecnologia rudimentar, a falta de instrução mínima para o exercício da cidadania, a desigualdade gritante, as deficiências alimentares e de saúde atingem a todos, amplamente, homens livres ou descendentes de escravos. Não é a escravidão que deixou “sobrevivências” culturais, mas o sistema que a reeditou nos tempos modernos é que gerou formas de dominação econômica e social totalmente impiedosas.”

    Interessante a conclusão dela. Contradiz a tese de que as cotas raciais são ações afirmativas para mudança da desigualdade social provocada pela escravidão. Mas qual é o sistema que reeditou nos tempos modernos formas de dominação econômica e social?

    Na mesma entrevista ela explica esse sistema: o enlace entre favor, dinheiro e violência e correlaciona com o governo Lula. Em outras palavras clientelismo, assistencialismo e paternalismo. É nesse ambiente que está inserido a aprovação das cotas raciais e sociais.

    Você diz que aqueles que são contras as cotas apelam para o argumento da igualdade perante a lei (potencialmente iguais), porém aqueles que são a favor apelam para o argumento da desigualdade de condições (desigualmente capacitados). Una as duas correntes e você tem a premissa citada no texto da Maria Sylvia de Carvalho Franco. Os defensores das cotas também estão na premissa da legitimação da exploração. Interessante, não?

    A pergunta que fica é: Quem utiliza representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação? Aqueles que se utilizam do clientelismo, assistencialismo e paternalismo. Aplicação de cotas NÃO PRODUZ JUSTIÇA SOCIAL. Cotas raciais e sociais também são armas de exploração.

    Para terminar, Maria Sylvia de Carvalho Franco foi signatária de um manifesto antirracialista e contrário as cotas enviado ao STF em abril de 2008.

    *http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=6458&cod_canal=41

  2. Cara Tereza,

    Devo esclarecer que não conhecia a entrevista que você deixou o link no fim de seu comentário. Como havia mencionado, meu post utilizou como fonte o texto “As ideias estão no lugar”, publicado no Caderno de Debates, n.1, publicado pela editora Brasiliense, em 1976 (e portanto, sem referência alguma a governo Lula). Entendo que a confusão possa ter se dado, pois o texto “As ideias estão no lugar” foi publicado no formato pergunta-resposta, de modo a parecer uma entrevista e, justamente por esta razão, tratei o texto como se fosse entrevista ao mencionar logo no primeiro parágrafo do meu post.

    Isso posto, vamos as questões que você me colocou. Discordo frontalmente da posição da professora Maria Sylvia no que se refere a escravidão e as mazelas que afligem as populações pobres brasileiras. Como mencionei anteriormente, desconhecia a entrevista na qual ela fez tais declarações, uma vez que utilizei apenas um trecho do texto “As ideias estão no lugar”. Com relação a esta questão, estou em linha com a posição do historiador Luiz Felipe de Alencastro que pode ser vista no depoimento que este historiador deu na audiência pública sobre cotas raciais (http://www.youtube.com/watch?v=T8Cvi4BeVfI).

    Vale lembrar que utilizei um trecho do texto dessa professora que tratava sobre o ideário liberal-burguês de igualdade para controle e dominação socio-econômica, como deixei claro no meu post. Nesse sentido, embora tenha mencionado este trecho para desenvolver a minha argumentação, fica bastante claro que eu e a professora Maria Sylvia não concordamos quanto a questão das cotas raciais, o que é perfeitamente normal. Se para ela as cotas raciais não são ações afirmativas para mudança da desigualdade social provocada pela escravidão, eu, por meu lado, tenho me posicionado claramente do lado oposto, ainda que fazendo uso de trecho de um texto dela para criticar quem usa o argumento de que o sistema de cotas é injusto porque trata desigualmente os cidadãos.

    Quanto ao Lula, volto a dizer que houve um equívoco, uma vez que no texto que utilizei, em nenhum momento, ela fala do governo Lula e nem poderia, já que foi escrito em 1976. De qualquer modo, achei curioso a rapidez com que você associa programas sociais do governo brasileiro (muitas vezes criados ou inspirados em governos anteriores ao do Lula) com “assistencialismo, clientelismo e paternalismo” (para usar as mesmas palavras que você mencionou em seu comentário). Imagino que se você for a países como Inglaterra, Suécia, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Canadá ou França, por exemplo, vai continuar tendo as mesmas opiniões ao se deparar com o sistema de bem estar social criado por esses Estados no decorrer das últimas seis décadas e meia. Também não devo negar que me peguei pensando se você tem a mesma opinião em relação a programas semelhantes que beneficiaram famílias brasileiras durante as gestões anteriores a Lula, marcadamente, a do FHC. Não consegui identificar direito se você é mesmo contra as cotas sociais/raciais ou se não gosta do PT e de seu ícone máximo. Enfim, independentemente disso, quero dizer que não sou petista ou lulista e meu post não faz nenhuma defesa aos dois. Se não me equivoquei, de algum modo parece que você me associou ao PT ou ao Lula por defender o sistema de cotas.

    Volto a dizer que considero uma grande injustiça tratar com igualdade os desiguais, isto é, considero que as leis não devam tratar de modo igual aqueles que não possuem oportunidades iguais, cabendo ao Estado encontrar uma solução possível para que o poder econômico não inviabilize educação de qualidade a seus cidadãos menos favorecidos. Entendo que as cotas são, sim, uma solução possível que pode ser oferecida pelo Estado. Aqui, uma vez mais sua ânsia em entender a atuação do Estado em favor dos menos favorecidos como “clientelismo, paternalismo e assistencialismo” a faz considerar que quem defende as cotas “utiliza o sistema de representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação”. Jamais posso considerar tal premissa verdadeira, pois acredito que o contrato social que todos assinamos foi estabelecido com o Estado, e não com o livre-mercado. Nós, o povo, pagamos impostos para que o Estado garanta uma vida digna e compatível com a todos os direitos fundamentais do homem a todos seus cidadãos, mesmo o mais pobre dentre os pobres. Quem ganha mais, paga mais para garantir que o mais pobre tenha seus mínimos direitos garantidos. Este é o acordo. Uma pena que pessoas que criticam a atuação do Estado no âmbito social, não combatam com tanta veemência ou veja como assistencialista, paternalista ou clientelista a atuação desse mesmo Estado para salvar bancos da falência através de transferências pornográficas de dinheiro público. Tais fatos se deram no Brasil, em diferentes momentos, nos Estados Unidos e Europa, durante a mais recente crise dos mercados financeiros. É o conhecido sistema de privatização dos lucros e estatização dos prejuízos que os amantes do neoliberalismo tanto gostam.

    Por fim, fiquei bastante triste com a notícia que você me deu de que a professora Maria Sylvia assinou o tal manifesto antirracialista. Quanto a isso, o máximo que posso fazer é lamentar a posição dela, uma vez que discordo da mesma.

  3. Faltou a segunda parte do depoimento do Luiz Felipe Alencastro: http://www.youtube.com/watch?v=V1TQBo_r6rg

  4. Quanto a questão da herança escravista, um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento concluiu que o Brasil ainda não superou herança escravista. Segundo este relatório, negros continuam a amargar os piores indicadores sociais, como observou Carlos Lopes, editor-chefe do relatório do PNUD sobre racismo: http://www.pnud.org.br/Noticia.aspx?id=630

    Por outro lado, temos Florestan Fernandes e sua entrevista no programa Roda Viva em 1994. Nesse primeiro vídeo, um trecho curto em que Florestan Fernandes fala das barreiras e formas de resistência da participação da cidadania através do sistema escolar: http://www.youtube.com/watch?v=DbtAC2DltAw

    Neste segundo vídeo, deixo a entrevista na íntegra do professor Florestan Fernandes: http://www.youtube.com/watch?v=6pjiw0jrZbw

  5. Tereza

    Olá Rogério.

    Eu não relacionei em nenhum momento o artigo “As ideias estão no lugar” com o governo Lula. A entrevista a qual me refiro é a dada pela Maria Sylvia ao IHU Online (Instituto Humanitas Unisinos) apresentada naquele link no final do post. Você fez uma certa confusão aqui.

    Quanto a rapidez na associação em programas sociais do governo brasileiro com assistencialismo, clientelismo e paternalismo não sou eu quem faço é a própria Maria Sylvia quem faz. E eu concordo com ela. Leia novamente as declarações dela na entrevista ao IHU On-Line. Sou contra o sistema de cotas sociais/raciais em qualquer governo, mas no governo Lula ela é particularmente importante. Ela é parte de algo maior que é o Estatuto da Igualdade Racial.

    Você fala de Estado e contrato social ou contrato político e esquece quem atualmente representa o Estado. Você acredita que clientelismo, assistencialismo e paternalismo não coexiste com o favorecimento do sistema financeiro? É justamente essa uma das críticas ao que denominam lulopetismo. É um Capitalismo de Estado. A dissolução da fronteira entre a elite política e a elite econômica. Diferente do capitalismo de mercado. Isso gera uma nova elite política e um processo de concentração de poder. É nesse cenário que se discute as cotas, por exemplo, e isso não é levado em conta. Nesse ambiente o que você coloca como “a atuação do Estado em favor dos menos favorecidos” é, sim, assitencialismo e paternalismo.

    No link abaixo mais dois artigos, um da própria Maria Sylvia, que detalha esse processo:
    http://diplomatizzando.blogspot.com.br/2010/09/duas-criticas-ao-lulismo-maria-sylvia.html

    A respeito das representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação em “As ideias estão no lugar” e a correlação que você faz com aqueles são contrário as cotas raciais, você não entendeu o que eu quis dizer. Igualdade perante a lei E desigualdade de condições é a premissa para a legitimação da exploração. Resumindo, Eu quis dizer que cotas sociais e raciais também são armas de exploração. E é dessa forma que eu entendo no atual sistema político, pelas questões que eu descrevi acima.

    Quanto a dita “herança escravista” as declarações do historiador Luiz Felipe de Alencastro não contrariam o estudo da Maria Sylvia. Veja o que ela escreve sobre o sistema capitalista: “Escravo e proletário, na época moderna, constituíram-se, contraditória e articuladamente, à distância”. A palavra chave aqui é distância. Alencasto discorre sobre a escravidão, sua manutenção ainda que ilegal, e, por fim, ele diz: “(…)Esta prática punitiva, a tortura policial, estendeu-se as camadas desfavorecidas, aos negros em particular e aos pobres em geral. De novo fica claro que não são só os negros brasileiros que pagaram e pagam o preço da herança escravista. (…)”. Com o fim do processo da escravidão e suas tentativas de manutenção, essa distância entre o negro liberto e os pobres em geral tende a desaparecer. O sistema que antes explorava o negro escravo e o homem livre pobre não faz mais essa distinção. Mas o sistema de dominação e exploração está presente gerando desigualdade. Só que tudo isso é colocado na balança da herança escravista.

    Sobre a entrevista do Florestan Fernandes e o sistema escolar, o problema é que se admite que o ensino fundamental e médio público são ruins. Mas o mesmo não acontece com o ensino superior que também deixa a desejar. Não se discute o atual modelo das universidades públicas. Mas essa é outra discussão.

    Por fim, não associei você ao PT e ao Lula, você não faz referências diretas a eles nos seus textos. E nem todo mundo que é contra as cotas é racista, de direita (seja lá o que queira dizer) ou quer manter o staus quo.

  6. Olá Tereza,

    Eu entendi o que você quis dizer a respeito das representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação em “As ideias estão no lugar”. Eu até coloquei no meu post que a igualdade perante a lei e a desigualdade de condições foi a premissa apontada pela professora Maria Sylvia para a legitimação da exploração. Só não considero equivalentes o uso das cotas sociais/raciais como arma de exploração e a maneira como a igualdade é utilizada como instrumento de dominação para manter a desigualdade e legitimar os desequilíbrios de condição social, como diz a professora Maria Sylvia. Entendo que, no limite, qualquer atuação do Estado, independente de quem esteja no poder no atual sistema político internacional, é passível de ser utilizado como arma de exploração com o fim de se manter no poder, uma vez que as políticas são feitas com o fim de angariar votos nas próximas eleições (justamente por isso, existe os “marqueteiros” e a propaganda política). A diferença é que, a adoção do sistema de cotas, ao oferecer educação de qualidade a grupos antes excluídos, tem um componente claro na busca da diminuição da desigualdade social quando um de seus efeitos é a promoção de negros, índios e pobres a melhores condições econômicas, isto é, para mim é muito difícil não ver o sistema de cotas como uma política com o fim de promover justiça social, ainda que seus resultados possam ser explorados em campanhas eleitorais.

    O que quero dizer é que a adoção do sistema de cotas como instrumento de exploração é incomparável com a manutenção da desigualdade através das representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação, uma vez que estes últimos não visam promover de modo algum os grupos menos favorecidos a uma condição menos desigual, aliás, muito pelo contrário.

    Enfim, ao ler seu comentário, fiquei com a nítida sensação de que já dissemos tudo o que tínhamos que dizer e não creio que vamos avançar mais por aqui. Digo isso porque percebi que você transformou o depoimento sobre a herança escravista do professor Luiz Felipe de Alencastro, que é claramente favorável ao sistema de cotas (aliás proferido na audiência pública que versava sobre esse assunto), em argumento que não invalide uma posição anticota, na verdade. Oras, o fato de a herança escravista não atingir somente os negros, de modo algum impede a adoção do sistema de cotas, ao contrário, ele permite com que essa política afirmativa se estenda a outros grupos também. A diferença aqui é que eu não acredito que a distância entre o negro liberto e os pobres em geral tende a desaparecer com o tempo, haja vista que desde a abolição até hoje já se passaram mais de 120 anos e a condição do negro no país, segundo o relatório do PNUD, segue dentre aqueles de piores indicadores sociais. Tais dados apenas confirmam a ideia de que o sistema que antes explorava o negro escravo e o homem livre pobre AINDA faz essa distinção, e não o contrário como você afirmou.

    Quando você fala sobre a entrevista do professor Florestan Fernandes. não entendo por que desviou o foco da discussão do ensino fundamental e médio público para o ensino superior e para a discussão do modelo das universidades públicas. O professor Florestan Fernandes tem livros clássicos sobre o assunto, como “A Integração do Negro na Sociedade de Classes” que, se relacionarmos às informações do relatório do PNUD, fica claro como os negros ainda estão entre os brasileiros mais pobres e seguem ocupando os piores indicadores sociais, mesmo depois de mais de 120 anos da abolição da escravatura. Como disse anteriormente, o tempo não tem sido suficiente para mudar a condição do negro e não creio que devemos ficar esperando isso acontecer sem adoção de políticas que minimizem esse estado de coisas. Aliás, que fique claro que sou favorável a adoção de cotas raciais e sociais.

    Quanto a inclusão do PT e do Lula no debate, você os destacou em seu primeiro comentário ao trazer a opinião da professora Maria Sylvia com o intuito de associar a adoção do sistema de cotas a um governo clientelista, paternalista e assistencialista, coisa que você reforçou neste último comentário. Como disse, políticas de reparações a índios e negros, bem como políticas públicas sociais para atender os mais pobres não nasceram com o governo Lula e não são exclusividade do Brasil. Entender a adoção do sistema de cotas e de programas sociais como Bolsa Família (dentre outros) como medidas meramente assistencialistas e paternalistas me parece carecer de profundidade, já que não aponta as outras questões que envolvem tais políticas e programas. Nessa chave, há mesmo quem utilize o termo “populista/populismo” a Lula e ao seu governo, o que me parece um grande equívoco, além de má intenção contra essa personalidade.

    Enfim, creio que já falamos muito a esse respeito e não creio que posso acrescentar muito mais além do que já disse. Creio que já estamos andando em círculos neste tópico.

    Atenciosamente,

    Rogério

  7. Tereza

    O foco não foi desviado. É que esse não é o melhor ambiente para se aprofundar nessa discussão. Sempre há distorções e más interpretações.

    Eu achei interessante o conteúdo do seu post original, porque, na minha opinião, aquele trecho sobre representações igualitárias da Maria Sylvia de Carvalho Franco no artigo “As ideais estão no lugar”, representa exatamente o que está acontecendo atualmente.

    Representação igualitária para sustentar o sistema de dominação não é a defesa da IGUALDADE PERANTE A LEI, ainda que de forma bastante superficial por um grupo de estudantes de escolas particulares.

    Representação igualitária para sustentar o sistema de dominação é o típico slogan BRASIL: UM PAÍS DE TODOS, usado por uma elite política em que a linha divisória entre público e privado se faz mais tênue.

    Para terminar, gostaria de comentar essa parte do seu texto:

    “O que quero dizer é que a adoção do sistema de cotas como instrumento de exploração é incomparável com a manutenção da desigualdade através das representações igualitárias para sustentar o sistema de dominação, uma vez que estes últimos não visam promover de modo algum os grupos menos favorecidos a uma condição menos desigual, aliás, muito pelo contrário.”

    Veja os vídeos:

    Não vou me alongar mais nessa discussão.

  8. D.

    73,5 km/dia? Nem no Caminho de Santiago. Francamente….

  9. Pingback: Justiça social e história pessoal: nada a ver | Hum Historiador

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