Arquivo do mês: setembro 2012

Perderam Playboys!!! [e wannabes]

A revista de fofoca Veja se supera nos absurdos publicados em suas páginas a cada nova edição e, na presente, ao tratar do tema das cotas, trouxe uma reportagem intitulada O drama de estudantes – e famílias – afetados pelas cotas, onde conta os dramas e dificuldades enfrentadas pela classe média para conseguir garantir sua vaguinha nas universidades públicas, agora que o Governo Federal começou a aplicar as cotas sociais e raciais para o ingresso dos estudantes.

Não é de hoje que tenho escrito sobre o assunto das cotas aqui neste blog e, todas as vezes que escrevo sobre o tema, é justamente CONTRA o pensamento que norteia a reportagem da VEJA que estou escrevendo. Não surpreenderá que os argumentos presentes nessa edição da dita revista de fofoca, tal como classificou a britânica The Week, já esteja gravado nos corações e mentes de toda a classe média que defende com unhas e dentes o que acreditavam ser um direito seu por terem pago, e caro, por ele: a vaga na universidade pública. Segundo apuração da revista, “em valores atuais, os doze anos do ensino básico saem por cerca de 250.000 reais por aluno”.

Repleta de posicionamentos como “Apesar do revés imposto pelas cotas (…)”, “Já se sabe o efeito das cotas sobre o ensino superior: colocar alunos da rede pública nas federais.”, ou ainda, “O ensino médio público está falido, é uma fábrica de abandono. É questionável se famílias com condições de pagar por uma escola particular confiariam no sucesso dessa transferência”, a revista mostra muito bem a quem serve e qual lado está defendendo, mesmo que sempre faça questão de incluir no meio de seu discurso palavras como “pobres” e de citar exemplos de famílias da classe média baixa. Sabe como é, temos que convencer esse público de que eles também estão sendo lesados para que se juntem a luta dos ricos, não é mesmo?

Revista Veja mostra o “drama” da família Sá para garantir uma vaga em universidade pública. Nesta foto da reportagem, Bruna posa com livro de História nas mãos, enquanto a mãe, Rosana, apenas observa. (Foto: Ivan Pacheco)

Por falar em exemplos pessoais, além da família Sá, que aparece na foto acima, outro exemplo utilizado na reportagem foi a de um rapaz chamado João Pedro Almeida Henrique. Visando envolver o leitor com um sentimentalismo barato ao narrar a história individual de luta deste rapaz que, dentre outras coisas, deixou a casa de seus pais para viver em outra cidade com uma tia, brigar por uma bolsa de estudos em um colégio caro e renomado da cidade e, finalmente, tentar ingressar no curso de engenharia na UFMG, a revista passa então a explorar o exemplo para fazer um ataque às cotas sociais que, por reservarem vagas a estudantes oriundos de escolas públicas, acabaram por diminuir as possibilidades do sonho deste rapaz se concretizar.

ORAS, se a família desse rapaz, juntamente com tantas outras que fizeram esforço hercúleo como a dele para diferenciá-lo da “patuléia” que estuda na escola pública, se dedicassem com tal empenho para a melhoria do ensino fundamental e médio público, será que ele estaria no nível em que se encontra? Se essas famílias se recusassem a pagar em dobro pela educação de seus rebentos (considerando os impostos e as mensalidades pagas nas particulares), apenas animados pela esperança de que um dia esse investimento será revertido em um assento nas melhores universidades e passassem a reivindicar por uma gestão mais qualificada do dinheiro público no setor da educação, com o mesmo empenho que tem quando buscam uma bolsa de estudo em colégio de padre, será que nossas escolas não estariam melhores????

Mas não, para a revista Veja e para a quantidade imensa de gente que reproduz as ideias envenenadas desse veículo, a coisa deve permanecer como está. Se o ensino público médio está falido, como ela mesmo assevera em sua reportagem, o problema é de quem estuda no ensino público médio. Não venham agora querer mexer nas vagas que estavam reservadas para quem pagou anos e anos por elas. Esse efeito nefasto da lei das cotas sobre o ensino superior: “colocar alunos da rede pública nas federais”, para essas pessoas é totalmente inaceitável.

Enfim, agora não adianta chorar classe média. Não tem mimimi pra vocês. Nada de chororô. É COTAS SIM!!! Pode se sentir traída o quanto quiser, pois toda essa armação de escola particular foi um engodo arquitetado por um grupo que transformou a educação em negócio e ganhou muito justamente às suas custas que, em contrapartida, exigiram apenas que lhes fosse garantido um assento nos bancos universitários. Pois a mensagem do povo, representado pelo governo Lula e Dilma para vocês é muito clara: PERDERAM PLAYBOYS!!!!!

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CPI dos incêndios em favela: todos os membros são financiados pelo setor imobiliário

Por Fábio Nassif, da de Carta Maior
em 27 de setembro de 2012

Em notícia publicada originalmente pela Carta Maior e divulgada pela Rede Brasil Atual, Fábio Nassif informa que todos os membros da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) montada na Câmara Municipal de São Paulo para investigar os incêndios em favelas são financiados por empresas ligadas à construção civil e ao setor imobiliário. Juntos, os seis membros da comissão receberam na eleição de 2008, mais de R$ 782 mil, segundo as prestações de contas apresentadas. E na atual briga para a reeleição, suas prestações de contas parciais já contabilizam mais de R$ 338 mil em doações. Os valores totais podem ser muito maiores já que algumas doações estão registradas em nome pessoal ou dos comitês financeiros dos partidos.

A comissão instalada em abril deste ano realizou apenas três sessões e cancelou outras cinco. Na última quarta-feira (27), movimentos sociais e familiares compareceram à Câmara para acompanhar a reunião que estava agendada. Diante dos manifestantes, o presidente da CPI Ricardo Teixeira (PV) justificou o cancelamento, por falta de quórum e compromisso dos demais vereadores. Entre os colegas de Comissão, Teixeira é o campeão de arrecadação de doações por ter recebido mais de R$ 452 mil no pleito de 2008. E ao mesmo tempo que preside a comissão, já acumula mais de R$ 150 mil de contribuição do setor imobiliário para conseguir sua reeleição.

Comissão suspeita

Ushitaro Kamia (PSD), Toninho Paiva (PR), Anibal de Freitas (PSDB), Edir Sales (PSD) além de receberem investimentos de construtoras, empreiteiras e empresas relacionadas, haviam registrado em 2008, junto com Ricardo Teixeira (PV), doações da Associação Imobiliária Brasileira (AIB). A entidade foi investigada por doações irregulares de R$ 6,7 milhões a 50 candidatos e oito comitês de campanha. Por este motivo, em outubro de 2009, o promotor eleitoral Mauricio Antônio Ribeiro Lopes, do Ministério Público, pediu a revisão das contas para a Justiça Eleitoral. Trinta dos 55 vereadores paulistanos poderiam ter seu mandato cassado, incluindo os membros da CPI dos Incêndios em Favelas Ricardo Teixeira e Ushitaro Kamia. A ameaça de cassação também caiu sobre o prefeito Gilberto Kassab (PSD) e sua vice Alda Marco Antonio, em 2010, por captação ilícita de recursos, mas todos eles conseguiram reverter a decisão judicial.

As empreiteiras lideram o ranking de doações para as campanhas eleitorais em todo o país em 2012. As seis maiores da lista (Andrade Gutierrez, OAS, Queiroz Galvão, Carioca Christiani Nielsen, UTC e WTorre) gastaram mais de R$ 69 milhões, entre doações ocultas e não ocultas.

Em texto recente, Guilherme Boulos, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), afirma que “as construtoras Camargo Correa, EIT, OAS e Engeform (que constam entre as maiores do Brasil) doaram juntas para a campanha de Kassab em 2008 cerca de R$ 6 milhões e em troca somaram em contratos junto à prefeitura nos 4 anos seguintes, nada menos que R$ 639 milhões”. O militante ainda destaca que “a prefeitura destinou em 2011 o valor absurdo de R$ 1mil reais para a compra de áreas para a construção de habitação popular”. 

Incêndios criminosos

A CPI surgiu para investigar o aumento de incêndios em favelas e moradias precárias na cidade e as suspeitas de serem criminosos, inclusive por acontecerem em regiões de valorização imobiliária.

Somente este ano, segundo o Corpo de Bombeiros, foram mais 68 incêndios em favelas. Desde 2005, foram mais de 1000 ocorrências de incêndios. Em 2011, foram registrados 181 incêndios na cidade de São Paulo. Em 2010 foram 107; em 2009, 122; em 2008, 130; em 2007, 120; em 2006, 156; e em 2005; 155. Pelos registros da ocorrências que consideram incêndios em barracos e em outras cidades do estado, os números são muito maiores. Planilhas enviadas pelos Bombeiros para a Carta Maior em janeiro mostram por exemplo que, em 2009 foram 427 ocorrências (295 em barracos e 132 em favelas). Em 2010, foram 457 ocorrências (330 em barracos e 198 em favelas). Esses números, no entanto, não coincidem com o de outros órgãos.

Os dados do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil já foram apresentados aos membros da CPI, assim como se tentou ouvir representantes das subprefeituras. A próxima reunião ficou marcada para o dia 17 de outubro, quando, os moradores que buscam explicações, mesmo se saírem sem saber a causa dos incêndios e sem soluções para a falta de moradia, saberão o valor total das doações do setor imobiliário para cada um dos vereadores da comissão.

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A Palestina nos livros escolares israelenses: ideologia e propaganda na educação

Nurit Peled-Elhanan é professora de língua e educação na Universidade Hebraica de Jerusalém e, após a morte de sua filha em um atentado suicida em 1997, se transformou em uma crítica ferrenha da ocupação israelense nos territórios palestinos. Em novembro de 2011 lançou um livro intitulado “Palestine in israeli schoolbooks” (A Palestina nos livros escolares israelenses: a ideologia e a propaganda na educação), no qual argumenta que os livros didáticos utilizados no sistema educacional de Israel marginalizam os palestinos e são idealizados para preparar as crianças israelenses para o serviço militar.

Em seu livro, Peled-Elhanan analisa os livros didáticos israelenses, estudando seu uso de imagens, mapas e linguagem, especialmente nos assuntos voltado a história, geografia e estudos cívicos e o vídeo abaixo é o fruto de uma entrevista que a Alternate Focus fez com a professora Elhanan sobre sua pesquisa.

Durante a entrevista, Nurit Peled-Elhanan expõe em detalhes como os livros didáticos israelenses são elaborados com o objetivo de desumanizar o povo palestino e fomentar nos jovens estudantes israelenses a base de preconceitos que lhes permitirá atuar de forma cruel e insensível com o mesmo durante o serviço militar. Esta, aliás, foi um dos problemas que motivou a pesquisadora e realizar seu trabalho, isto é, entender como as crianças israelenses que são supostamente educados com base em valores muito ilustrados e humanistas, acabam se tornando “monstros horrorosos” no exército.

Segundo a pesquisadora, as construções de mundo feitas a partir dos livros didáticos, por serem as primeiras a se sedimentarem na mente das crianças, são muito difíceis de serem erradicadas. Daí a importância que o establishment israelense dedica à ideologia a ser transmitida nos livros didáticos. Neles, os palestinos nunca são apresentados como seres humanos comuns. Nunca aparecem em condições que possam ser consideradas normais. Para Nurit Peled-Elhanan, não há nesses livros nem sequer uma fotografia de um palestino que mostre seu rosto. Eles são sempre apresentados como constituindo uma ameaça para os judeus.

Há uma parte da entrevista onde a pesquisadora explora a representação da Palestina em mapas sobre o Estado de Israel presentes nos livros escolares israelenses.

Nesta parte da entrevista Nurit Peled-Elhanan deixa claro que a maioria dos livros didáticos israelenses, quando mostram o mapa de Israel, não mostram as fronteiras reais daquele Estado, mas sim o que é chamado de “Grande Terra de Israel”, o que inclui a Palestina dentro dessa concepção de território. Tal concepção confunde os estudantes que, como diz a pesquisadora, a três gerações não sabem direito quais são as fronteiras reais de Israel, uma vez que conhecem apenas a Grande Terra de Israel. Por fim, fala da outra estratégia adotada pelos livros didáticos que é não representar os palestinos de modo algum nos mapas de Israel, deixando um espaço em branco onde deveria aparecer a Palestina, trabalhando com a ideia de que se aquela região está em branco, ela não foi ocupada, isto é, uma região que não possui habitantes e está a espera de ser habitada.

De fato uma pesquisa bastante reveladora das estratégias de Israel para aniquilar qualquer possibilidade de existência de um Estado Palestino. Vale a pena conferir a entrevista inteira e saber mais sobre o assunto a partir de um ponto de vista que normalmente não chega até nós. Deixo aqui minha recomendação.

MAIS VIDEOS DE NURIT PELED-ELHANAN

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PINHEIRINHO – um ano depois: colabore com nosso projeto

A página do projeto de documentário “Pinheirinho – um ano depois” foi lançada nesta última sexta-feira no site do Catarse. Assim, agora já é possível que todas as pessoas possam colaborar com o projeto para que possamos produzir o filme e dar voz à história dos moradores do Pinheirinho desde o momento da reintegração de posse, realizada no dia 22 de janeiro de 2012.

As contribuições podem ser feitas a partir de R$ 10,00 e, como incentivo para conseguir mais colaboradores, pensamos em uma série de recompensas que serão oferecidas a cada colaborador de acordo com o valor de sua contribuição. Desde o nome nas páginas de agradecimento do projeto neste blog e nas redes sociais, passando por ter o nome incluído nos créditos, uma camiseta exclusiva do projeto de documentário, um DVD especial e até mesmo participar da noite de pré-estréia do filme que estamos organizando para ser realizada em São José dos Campos.

PARA SABER MAIS COMO CONTRIBUIR COM O PROJETO, nossos objetivos extras e os valores das colaborações, visite nossa página no site do catarse.

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Justiça social e história pessoal: nada a ver

Recentemente os comentários de diversos dos posts do Hum Historiador tem revelado que, pra muita gente, justiça social e história pessoal estão diretamente relacionados, isto é, a promoção da justiça social não pode, jamais, dar mais facilidades a uma pessoa do que as que cada um desses comentadores teve no decorrer de sua vida. Portanto, se o cidadão é pobre, estudou a vida toda em escolas públicas, teve que começar a trabalhar cedo e, ainda por cima, trabalhava de 12 a 14 horas por dia para conseguir fazer um pré-vestibular e ingressar em uma universidade pública, todos os outros que vierem depois dele terão que passar pelo mesmo funil de sofrimento para atingirem o mesmo ponto onde ele está neste momento.

Sem citar nomes, vou dar um exemplo de comentário que seguem essa linha de pensamento (há vários que vão pelo mesmo caminho). Em um dos posts que tratei o assunto das cotas raciais para as universidades públicas, um leitor do blog fez o seguinte comentário:

“Sou sociólogo e só me formei porque à época não havia a tal política de cotas, pois esta certamente tiraria da universidade um filho de mãe solteira, empregada doméstica, e morador de cortiço.”

Comentários como este revelam que, para estas pessoas, o problema é o fato de alguns indivíduos poderem chegar à mesma posição que outros sem terem passado pelo mesmo caminho de “sofrimento”. Neste caso, tais pessoas são consideradas menos dignas de ocuparem tal posição, pois receberam uma “ajudinha” do governo, que consideram “assistencialista”.

Pensando com meus botões, não consigo estabelecer esta mesma relação, pois independentemente de minha história pessoal,  entendo que É PAPEL do Estado minimizar as dificuldades impostas por uma sociedade classista e racista e garantir que pobres e negros tenham acesso ao ensino superior público e de qualidade.

No post “O uso da igualdade como instrumento de dominação”, falei um pouco sobre esse assunto ao lembrar como o exemplo do “self made man” é repetido por muitos de maneira nauseante para justificar que políticas de promoção de justiça social orientadas a grupos específicos da sociedade são desnecessárias. Tais pessoas, preferem encarar a exceção como regra e, dessa maneira, culpar o próprio estudante da escola pública por este não ingressar em uma universidade pública, quando na realidade é todo o sistema educacional público de base que está mal das pernas e não garante uma oportunidade igual para seus estudantes em comparação a alunos de escolas privadas.

Não podemos utilizar nossas histórias pessoais como critérios representativos do conjunto da sociedade e, muito menos, para validar ou não políticas de promoção de justiça social, seja em que área for: educação, saúde, moradia, etc. Quem incorre neste erro, de modo bastante arrogante, ainda que muitas vezes inconsciente, acaba entendendo que ele e sua história são as medidas suficientes para se medir o mundo ao seu redor. Obviamente não são! Por pior e mais dura que tenha sido a história de cada um e por mais brilhante que tenha sido sua “redenção” através do esforço pessoal, que acabou levando tal indivíduo a “vencer” na vida, essa história só explicita justamente aquilo que se pretende esconder: como a sociedade é injusta e desigual, impondo barreiras quase intransponíveis a quem procede de uma determinada origem.

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A “farsa” do Mensalão, por Bob Fernandes para o Jornal da Gazeta

O comentarista de política do Jornal da Gazeta, Bob Fernandes (@Bob_Fernandes) faz comentário certeiro sobre o que se está chamando de “a farsa do mensalão” ou “o maior julgamento da história”. Acompanhem o comentário de Bob Fernandes em texto ou em vídeo.


Há quem diga ser uma farsa o julgamento do chamado “mensalão”. Não, não é uma farsa. É fruto de fatos. Ou era mesada, o tal “mensalão”, ou era caixa dois. Mas não há como dizer que há uma farsa. E quem fez, que pague o que fez. A farsa existe, mas não está nestes fatos.

Farsa é, 14 anos depois, admitir a compra de votos para aprovar a reeleição em 98 -Fernando Henrique-, mas dizer que não sabe quem comprou. Isso enquanto aponta o dedo e o verbo para as compras agora em julgamento. A compra de votos existiu em 97. Mas não deu em CPI, não deu em nada.

Farsa é fazer de conta que em 98 não existiram as fitas e os fatos da privatização da Telebras. É fazer de conta que a cúpula do governo não foi gravada em tramóias escandalosas num negócio de R$ 22 bilhões. Aquilo derrubou um pedaço do governo tucano. Mas não deu em CPI. Ninguém foi preso. Não deu em nada.

Farsa é esquecer que nos anos PC Farias se falava em corrupção na casa do bilhão. Isso no governo Collor; eleito com decisivo apoio da mídia. À época, a polícia federal indiciou 400 empresas e 110 grandes empresários. A justiça e a mídia esqueceram o inquérito de 100 mil páginas, com os corruptos e os corruptores. Tudo prescreveu. Fora o PC Farias, ninguém pagou. Isso foi uma farsa.

Farsa foi, é o silêncio estrondoso diante do livro “A Privataria Tucana”. Livro que, em 115 páginas de documentos de uma CPI e investigação em paraísos fiscais, expõe bastidores da privatização da telefonia. Farsa é buscar desqualificar o autor e fazer de conta que os documentos não existem ou “são velhos”. Como se novas fossem as denúncias agora repisadas nas manchetes na busca de condenações a qualquer custo.

Farsa é continuar se investigando os investigadores e se esquecer dos fatos que levaram à operação Satiagraha. Operação desmontada a partir da farsa de uma fita que não existiu. Fita fantasma que numa ponta tinha Demóstenes Torres e a turma do Cachoeira. E que, na outra ponta da conversa que ninguém ouviu, teve o ministro Gilmar Mendes.

Farsa é, anos depois de enterrada a Satiagraha, o silêncio em relação a US$ 550 milhões de dólares. Sim, por não terem origem comprovada, US$ 550 milhões continuam retidos pelo governo dos EUA e da Inglaterra. E o que se ouve, se lê ou se investiga? Nada. Tudo segue enterrado. Em silêncio.

O julgamento do chamado “mensalão” não é uma farsa. Farsa é isolá-lo desses outros fatos todos e torná-lo único. Farsa é politizá-lo ainda mais. Farsesco é magnificá-lo, chamá-lo de “maior julgamento da história do Brasil”.

Farsa não porque esse não seja o maior julgamento. Farsa porque se esquecem de dizer que esse é o “maior” porque não existiram outros julgamentos. Por isso, esse é o “maior”. Existiram, isso sempre, alianças ideológicas, empresariais, na luta pelo Poder. Farsa porque ao final prevaleceu, sempre, o estrondoso silêncio cúmplice.

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Carta Aberta dos Moradores do Moinho

Ontem, novamente, a cidade de São Paulo acordou em meio à fumaça de mais um incêndio em favela. Desta feita, a vítima da vez foi a favela do Moinho. Na verdade, esta é a segunda vez que a mesma favela arde em chamas, já que em dezembro de 2011 ela também foi vitimada por um incêndio que destruiu mais de 400 moradias.

Somente em 2012, São Paulo registra 68 incêndios desta natureza e mais de 500 desde 2005, quando José Serra extinguiu o programa de prevenção a incêndios, como noticiou a Rede Brasil Atual. A área onde está a favela do Moinho é alvo de disputas judiciais entre a prefeitura e moradores, uma vez que a prefeitura pretende destinar a área para a construção de uma nova estação da CPTM, que colocará fim às operações na estação Júlio Prestes, conforme noticiou O Estado de S. Paulo ontem. Segundo a reportagem de Caio do Valle: “Nos projetos da gestão Gilberto Kassab (PSD), passarão ali uma avenida e um parque, e as linhas de trem serão enterradas. O presidente da CPTM disse que a estação será construída prevendo a mudança. O mezanino ficará sob a parada e, depois, atenderá às linhas subterrâneas.”

O programa de prevenção de incêndios poderia tornar mais ágil o combate ao fogo, mas, segundo o morador, nada foi feito (Foto: Caio Kenji. Folhapress)

Como forma de demonstrar meu total apoio aos moradores da favela do Moinho, o Hum Historiador abre espaço para repercutir e divulgar a CARTA ABERTA preparada pelos moradores do Moinho no intuito de levar a voz dessas pessoas a um público cada vez maior, especialmente aos amigos que me visitam e tem pouco tempo para buscar informações em fontes que dão voz aos representantes de movimentos sociais.


CARTA ABERTA DOS MORADORES DO MOINHO
IDENTIDADES DESTRUÍDAS

Desde 2006 os moradores da Comunidade do Moinho, no Centro de São Paulo, lutam constantemente para garantir seu direito à moradia. Ao longo destes 6 anos diversas situações delicadas colocaram os moradores em posições desgastantes, POREM, NÓS NUNCA DESISTIMOS DA LUTA PELA MORADIA.

Em dezembro de 2011 a comunidade foi atingida por um incêndio de grandes proporções, que destruiu mais de 400 moradias. Na época, foi pactuado um atendimento emergencial correspondente ao pagamento de aluguel até a conclusão das unidades habitacionais para atendimento definitivo, conforme o “Termo de Compromisso de Atendimento Habitacional” assinado pela SEHAB, Defensoria Pública, Ministério Público e Escritório Modelo.

Passados nove meses desse incêndio, mais uma vez o fogo consumiu inúmeras moradias da comunidade do Moinho, e também uma vida. Com isso, mais 80 famílias que moravam embaixo do viaduto Orlando Gurgel vão engrossar o número de desalojadas do Moinho, vivendo em situação provisória, aguardando uma solução e a garantia do seu direito à moradia. Mais 80 famílias que vão ter de brigar para ter um compromisso de atendimento, que sequer vem sendo cumprido adequadamente: os pagamentos de aluguel são irregulares, nunca pagos em data certa; famílias ficaram sem cadastro e, portanto, sem atendimento habitacional; os projetos das unidades definitivas se é que andam, andam a passos lentíssimos.

Curioso notar que os moradores vitimados são os mesmos que há 15 dias tinham relatado a ocorrência de forte pressão psicológica por parte da Municipalidade, que exigia que esses moradores deixassem o local até outubro…. Outra dúvida que cerca esse novo episódio se refere aos três focos iniciais de incêndio, pondo em dúvida a versão apresentada de briga de moradores viciados em drogas.

Nesse episódio, ocorreram inúmeras falhas no sistema de prevenção de incêndios: há um mês foi instalado um hidrante na comunidade, porém sem as mangueiras e sem a chave para acionamento da água, situação que obrigou os moradores a arrancarem as mangueiras que abasteciam suas próprias moradias para conter o incêndio (aliás, as famílias do Moinho estão sem água e sem luz!). Também não foram entregues roupas de segurança nem colocados extintores, tal como combinado.

A Prefeitura ofereceu aos moradores colchão, cobertor e cesta básica, mas a orientação sobre o alojamento provisório era buscar casas de parentes ou amigos ou se dirigir a um albergue. Mais uma vez a Prefeitura demonstra seu despreparo no atendimento de situações emergenciais, pois, da mesma forma que há nove meses atrás, não oferece abrigo que permita que as famílias permaneçam unidas, principal reclamação dos moradores por ocasião do primeiro incêndio.

ASSIM COMO TANTAS OUTRAS COMUNIDADES DE SÃO PAULO QUE SOFRERAM COM INCÊNDIOS (34 SÓ NESTE ANO!) O MOINHO, MAIS UMA VEZ, SOFRE COM O DESPREPARO DA PREFEITURA DE SÃO PAULO!

Vamos pressionar os vereadores de São Paulo a averiguar essa série de incêndios comparecendo na próxima reunião da CPI dos incêndios que ocorrerá no dia 26/09/12 às 12h, na Câmara Municipal (Viaduto Jacareí, nº 100, 8º andar – Sala Tiradentes).

Vamos exigir o atendimento adequado que as famílias merecem e ampliar a luta pela moradia!!!Vamos romper contra essa política que não consegue garantir moradia adequada de forma definitiva e não enfrenta essa forma excludente de construção da cidade!!!

ASSOCIAÇÃO DE MORADORES DO MOINHO

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Pinheirinho, um ano depois: vídeo para captação de fundos

Acaba de sair do forno o vídeo que a equipe de produção do projeto de documentário PINHEIRINHO, UM ANO DEPOIS vai disponibilizar no Catarse para pedir a colaboração dos amigos a fim de arrecadar o fundo necessário para conseguirmos produzi-lo.

Imagem: Juliana A. Reis

Foi difícil editar todo o material que colhemos em um vídeo de cinco minutos, mas acho que conseguimos um excelente resultado. Neste vídeo contamos com os depoimentos de ex-moradores da comunidade do Pinheirinho, como a Carmen Benedita de Jesus e a Marinalva, além do líder comunitário, Valdir Martins, o Marrom e os depoimentos do Senador da República, Eduardo Supplicy e da relatora especial da ONU para moradia adequada, a professora Raquel Rolnik. Há outros depoimentos colhidos, mas como disse, planejávamos fazer um vídeo de 3:30 e, no final, o vídeo que vamos subir está com 5:00 de duração.

Agora o projeto entra na fase de captação de recursos, que é a fase mais complicada. Optamos pelo sistema de Crowd Funding, que no Brasil ganhou corpo através do site do Catarse. O vídeo ainda não foi disponibilizado no site, mas em breve já estaremos com nossa página registrada e você poderá colaborar. Por enquanto, você já pode ver o vídeo abaixo para ter uma ideia do documentário que pretendemos fazer.

Após a captação dos recursos, a ideia é viajar algumas vezes a São José dos Campos e acompanhar o dia-a-dia da vida dos ex-moradores do Pinheirinho em suas casas. Além disso, também continuaremos a entrevistar alguns especialistas sobre o assunto, políticos e demais envolvidos no caso do Pinheirinho. Tentaremos acompanhar o leilão da área que foi desocupada e, também, falar com Prefeito de São José dos Campos, Juíza que deu a ordem da desocupação de posse, comandantes da Polícia Militar e demais envolvidos com a ação  de reintegração de posse.

Por enauqnto, em nome da equipe de produção, gostaria de agradecer aos entrevistados, a todos que participaram das gravações e aos amigos que colaboraram ajudando a conseguir as entrevistas ou produzindo materiais. Aqui segue o nome de alguns a quem gostaríamos de agradecer:

Entrevistados:

  • Carmen Benedita de Jesus
  • Marinalva Ferreira da Silva
  • Juarez Silva
  • Valdir Martins
  • Eduardo Supplicy
  • Raquel Rolnik

Equipe de Apoio:

  • Juliana Amoasei Reis
  • Sandra José Paulino

Equipe de Produção:

  • Diva Nassar
  • Felipe Leite Gil
  • Jean Gold
  • José Rogério Beier
  • Juliana M. Lima
  • Lucas Lespier
  • Patrícia Brandão
  • Vitor Vasconcelos

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São Paulo e o conservadorismo que ainda louva os Bandeirantes

Vou contar um caso que acaba de acontecer comigo neste exato momento e que demonstra o nível do conservadorismo aqui no Tucanistão, cidade também conhecida pelo nome de São Paulo.

Placa que marca o túmulo de Fernão Dias Paes Leme, no Mosteiro de São Bento. Fonte: http://www.piratininga.org

Em pleno ano de 2012, indivíduo que mantém uma página chamada Sampa Histórica, posta foto do túmulo do Fernão Dias Paes Leme no Facebook, com um texto de elogios ao Bandeirante. Quando confrontei o mesmo perguntando sobre a razão de ele não postar as fotos de túmulos dos índios trucidados durante as Bandeiras, a resposta foi:

“Se você souber onde é, posso ir tirar… Os portugueses também mataram tantos índios quanto os bandeirantes, e porque não vejo críticas aos colonizadores?”.

Ou seja, justifica o assassinato dos índios pelos bandeirantes, pois portugueses também mataram índios e pouca gente critica…. Lógica “perfeita” (não para os índios, claro).

Para complementar o que já estava péssimo, outro indivíduo acessa a foto, vê a discussão e deixa o seguinte comentário:

“Mas como todos sabem, a nossa História é uma História de minorias… Há o túmulo de um índio na Praça da Sé também, na Catedral da Sé, do Cacique Tibiriçá, o ancestral de muitos paulistas. Se ficarmos remoendo o sangue do passado, nunca seremos patriotas, a nossa pátria sempre será “menorizada” diante das outras pátrias. Todos os países tiveram histórias violentas…”.

O uso de termos como “PATRIOTAS” e “PÁTRIA” para se referir a São Paulo, além da conclusão “todos os países tiveram histórias violentas”, me deixaram tão enfurecido que imediatamente retirei o comentário que havia feito na dita postagem.

Como é que se pode compreender um indivíduo que justifica o assassinato de um grupo com o argumento de que outros também assassinavam aquele mesmo grupo e ninguém disse nada??? Ou então, como dialogar com o outro indivíduo que acredita que São Paulo é uma pátria e argumenta que temos que valorizar e nos orgulhar da história violenta de nossa cidade, pois caso contrário jamais seremos patriotas e “nossa pátria” será inferiorizada por outras??? Esse não é o argumento que os israelenses usam para massacrar os palestinos???

Então é isso mesmo??? Vamos dar loas à violência, ao assassinato e ao extermínio étnico porque somos patriotas??? Este é mesmo o pensamento dos paulistanos??? QUE VERGONHA DE TER NASCIDO NESSA TERRA!!!!! Jamais quero ver MINHA HISTÓRIA e MEU NOME misturado com esse tipo de pensamento só por que nasci aqui. Esse é o tipo de pensamento e comportamento que está por trás daqueles que desejam criar e explorar essas identidades regionais para outros fins. O que torna especial um gaúcho, um paulista e um mineiro? A história desses lugares ou o seu caráter???

Pátria Que Pariu, pelo cartunista Tonho em  http://6vqcoisa.blogspot.com.br/2011/03/patria-que-pariu.html

Que fique claro a quem não é paulista ou paulistano: por favor, não me confundam com essas pessoas. Eu só nasci aqui, mas não penso como elas, muito pelo contrário, faço tudo o que posso para divulgar ideias completamente opostas a essas em tudo o escrevo. Podem até me acusar de que não sou patriota. Que me acusem!!! Não sou mesmo e sinto prazer em não sê-lo. Como dizia a música Lugar Nenhum, dos Titãs: “nenhuma pátria me pariu!” São Paulo não é pátria de ninguém, é só mais um lugar triste nesse mundo medonho que construímos e na qual, a cada dia que passa, tenho menos vontade de viver.


PS: Depois que publiquei este post em meu blog, o administrador da página ficou ofendido porque decidi fazer meus comentários neste fórum. Por conta disso, criou uma nova postagem na página dele, onde os apoiadores sentiram-se à vontade para fazerem comentários sobre minha pessoa: incompetente, invejoso, incapaz e muito chato são alguns dos elogios que estou recebendo.

Lembrei de um poema do matogrossense Manoel de Barros, a quem gostaria de dedicar aos colegas do Sampa Histórica. Mal sabem que tal como o poeta, sou fraco pra elogios.

POEMA
por Manoel de Barros

A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.
Meu fado é de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

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Rankings universitários e sua manipulação para fins propagandísticos

Na última segunda-feira (3/9) a Folha de S. Paulo lançou um caderno especial onde divulgou um “troço” chamado Ranking Universitário da Folha (RUF), o qual define como “o primeiro ranking sistemático de universidades brasileiras”. Segundo a divulgação feita pelo jornal, tal ranking traz a classificação de 232 instituições de ensino superior brasileiras com foco em pesquisa e autonomia de ensino.

Em texto intitulado “Sobre universidades, campeonatos e reportagem”, veiculado no Observatório da Imprensa, a jornalista e professora da Universidade Federal Fluminense, Sylvia Debossan Moretzsohn, considera que a pesquisa idealizada pelo próprio jornal e realizada ao longo de oito meses, “traz tantas inconsistências que nem deveria ter sido publicada”. Um pouco mais adiante em seu texto, ao tratar do porquê de se criar um ranking universitário, a professora traz trecho de texto do articulista da Folha, Hélio Schwartsman, que embora reconhecendo os problemas metodológicos do RUF, ainda tentava justificar sua criação:

“A ciência e o ensino estão se globalizando. É cada vez mais comum ver jovens estudando no estrangeiro. E, se já é difícil escolher uma universidade no país de origem, muito pior é fazê-lo em lugares a respeito dos quais não se tem muita informação. Os rankings, ao traduzir toneladas de dados num número, ajudam esse estudante. Embora a internacionalização seja ainda incipiente no Brasil, devido a mudanças como o Enem, está aumentando a mobilidade interna dos alunos, para os quais o RUF pode ser de grande auxílio. (…) No mais, uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida.”

Logo de princípio, poderíamos rebater essa “lógica heterônoma” de Schwartsman, na qual “uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida”, lembrando o que diz o professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dmitri Cerboncini Fernandes: “Ora, posso propor, por exemplo, um novo sistema de mensuração de massa corpórea em que um morcego seja considerado mais leve do que uma formiga, se para tanto eu ignorar o sistema vigente e adotar outro em que a capacidade ou altura de voo representar o parâmetro central”. Segue o professor em sua argumentação: “poderia ainda ignorar as divisões assentadas da biologia, entre mamíferos, aves e insetos, e localizar o morcego em uma nova rubrica, junto aos pássaros e demais insetos capazes de voar”.

Mas é a professora Sylvia Moretzsohn quem rebate a argumentação estapafúrdia de Schwartsman, lembrando o que realmente está em jogo com a criação do tal Ranking Universitário da Folha:

Não: números ruins não servem para nada, a não ser para mistificar. Ou – o que dá no mesmo – para serem manipulados para fins de propaganda, como, previsivelmente, ocorreu já no dia seguinte à divulgação do ranking: na terça-feira (4/9), uma instituição ocupava a barra inferior da capa do jornal e uma página interna inteira no primeiro caderno para se anunciar como “a melhor universidade privada do estado de São Paulo”. Na quinta (6), uma concorrente faria o mesmo, e repetiria a dose na segunda-feira (10), dizendo-se “top no mercado de trabalho” de acordo com “os que contratam”, valendo-se do RUF como comprovação.

Se ainda não ficou claro, ou acha exagero, dê uma olhada no uso que a Universidade Paulista (Unip), está fazendo do RUF em sua página da Internet, em jornais, revistas e anúncios na TV.

Imagem promocional da Unip, divulgada no site da instituição, menciona RUF para convencer clientes a se matricularem naquela universidade.

Como bem lembra a professora Moretzsohn, o caderno especial foi complementado por um editorial que, dentre outros absurdos, conclui que “seria útil para o país (…) admitir que prosperem diferentes tipos de universidades”. Útil para o país ou útil para os empresários desse negócio lucrativo que é o ensino superior privado no país? Oras, não devemos esquecer que o Grupo Folha também lucra, e muito com as receitas de propagandas que universidades privadas veiculam nas páginas de seus diários, seja em papel, seja na Internet. Isso para não mencionar o conteúdo que “produz” para este mercado através de empresas como a Publifolha e as articulações do Grupo com os pré-vestibulares.

Charge publicada no Observatório da Imprensa ironizando o Ranking Universitário da Folha, publicado no último dia 03 de setembro.

O professor Cerboncini também levanta em seu texto as questões discutidas acima, isto é, “a que ou a quem serve a classificação proposta pela Folha?”, chegando a conclusão de que, com seu caderno especial, a “Folha de S.Paulo revela seu grandioso propósito de, simplesmente, nortear a política educacional superior do país por meio dos critérios que ela própria, dentro da lógica jornalística, e não científica, estabeleceu”. Posto isto, Cerboncini questiona: “tem-se aqui algo no mínimo temerário: quem outorgou tamanho poder de decisão a um grupo capitalista privado, cujos propósitos, como os de qualquer outro grupo capitalista, são os de lucrar com a venda de mercadorias – no caso, de notícias e de rankings?”.  Como propõe a charge também publicada no Observatório da Imprensa e reproduzida ao lado, cabe à imprensa estipular os critérios que irão mensurar o ensino superior no Brasil?

Concluímos o post tal como a professora Sylvia Moretzsohn também fechou brilhantemente o seu texto, isto é, explicitando a quem a Folha serve ao criar tal ranking ao lembrar que se o jornal optasse por investir em reportagem sobre a situação do ensino superior no país, “verificaria, por exemplo, como funcionam as instituições privadas na sua disputa alucinada por mais clientes – perdão: alunos –, como essas instituições tratam seu corpo docente, como promovem demissões em massa para a contratação de funcionários mais baratos”. Não é a Folha, ou seus interesses em lucrar com propagandas de universidades privadas, quem deve estabelecer os critérios de avaliação do ensino superior. Como bem lembra a professora, ao invés disso, a Folha poderia

“(…) dedicar-se a estudar e estimular o debate sobre os critérios já existentes estabelecidos pelo governo. Mas para isso teria de abandonar o pressuposto de que a academia – isto é, a universidade pública – é refratária a avaliações. Pois não é disso que se trata: as inúmeras críticas feitas ao longo das últimas décadas aos critérios de avaliação pretendem demonstrar a enorme dificuldade da adoção de instrumentos adequados para medir a relevância do trabalho intelectual. E, mais ainda, que esses instrumentos não podem ser julgados isoladamente, dissociados do contexto político em que são produzidos: no caso, o modelo de universidade que se quer eleger.”

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