Rankings universitários e sua manipulação para fins propagandísticos

Na última segunda-feira (3/9) a Folha de S. Paulo lançou um caderno especial onde divulgou um “troço” chamado Ranking Universitário da Folha (RUF), o qual define como “o primeiro ranking sistemático de universidades brasileiras”. Segundo a divulgação feita pelo jornal, tal ranking traz a classificação de 232 instituições de ensino superior brasileiras com foco em pesquisa e autonomia de ensino.

Em texto intitulado “Sobre universidades, campeonatos e reportagem”, veiculado no Observatório da Imprensa, a jornalista e professora da Universidade Federal Fluminense, Sylvia Debossan Moretzsohn, considera que a pesquisa idealizada pelo próprio jornal e realizada ao longo de oito meses, “traz tantas inconsistências que nem deveria ter sido publicada”. Um pouco mais adiante em seu texto, ao tratar do porquê de se criar um ranking universitário, a professora traz trecho de texto do articulista da Folha, Hélio Schwartsman, que embora reconhecendo os problemas metodológicos do RUF, ainda tentava justificar sua criação:

“A ciência e o ensino estão se globalizando. É cada vez mais comum ver jovens estudando no estrangeiro. E, se já é difícil escolher uma universidade no país de origem, muito pior é fazê-lo em lugares a respeito dos quais não se tem muita informação. Os rankings, ao traduzir toneladas de dados num número, ajudam esse estudante. Embora a internacionalização seja ainda incipiente no Brasil, devido a mudanças como o Enem, está aumentando a mobilidade interna dos alunos, para os quais o RUF pode ser de grande auxílio. (…) No mais, uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida.”

Logo de princípio, poderíamos rebater essa “lógica heterônoma” de Schwartsman, na qual “uma medida da produção universitária, mesmo que imperfeita, é preferível a nenhuma medida”, lembrando o que diz o professor de Sociologia no Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dmitri Cerboncini Fernandes: “Ora, posso propor, por exemplo, um novo sistema de mensuração de massa corpórea em que um morcego seja considerado mais leve do que uma formiga, se para tanto eu ignorar o sistema vigente e adotar outro em que a capacidade ou altura de voo representar o parâmetro central”. Segue o professor em sua argumentação: “poderia ainda ignorar as divisões assentadas da biologia, entre mamíferos, aves e insetos, e localizar o morcego em uma nova rubrica, junto aos pássaros e demais insetos capazes de voar”.

Mas é a professora Sylvia Moretzsohn quem rebate a argumentação estapafúrdia de Schwartsman, lembrando o que realmente está em jogo com a criação do tal Ranking Universitário da Folha:

Não: números ruins não servem para nada, a não ser para mistificar. Ou – o que dá no mesmo – para serem manipulados para fins de propaganda, como, previsivelmente, ocorreu já no dia seguinte à divulgação do ranking: na terça-feira (4/9), uma instituição ocupava a barra inferior da capa do jornal e uma página interna inteira no primeiro caderno para se anunciar como “a melhor universidade privada do estado de São Paulo”. Na quinta (6), uma concorrente faria o mesmo, e repetiria a dose na segunda-feira (10), dizendo-se “top no mercado de trabalho” de acordo com “os que contratam”, valendo-se do RUF como comprovação.

Se ainda não ficou claro, ou acha exagero, dê uma olhada no uso que a Universidade Paulista (Unip), está fazendo do RUF em sua página da Internet, em jornais, revistas e anúncios na TV.

Imagem promocional da Unip, divulgada no site da instituição, menciona RUF para convencer clientes a se matricularem naquela universidade.

Como bem lembra a professora Moretzsohn, o caderno especial foi complementado por um editorial que, dentre outros absurdos, conclui que “seria útil para o país (…) admitir que prosperem diferentes tipos de universidades”. Útil para o país ou útil para os empresários desse negócio lucrativo que é o ensino superior privado no país? Oras, não devemos esquecer que o Grupo Folha também lucra, e muito com as receitas de propagandas que universidades privadas veiculam nas páginas de seus diários, seja em papel, seja na Internet. Isso para não mencionar o conteúdo que “produz” para este mercado através de empresas como a Publifolha e as articulações do Grupo com os pré-vestibulares.

Charge publicada no Observatório da Imprensa ironizando o Ranking Universitário da Folha, publicado no último dia 03 de setembro.

O professor Cerboncini também levanta em seu texto as questões discutidas acima, isto é, “a que ou a quem serve a classificação proposta pela Folha?”, chegando a conclusão de que, com seu caderno especial, a “Folha de S.Paulo revela seu grandioso propósito de, simplesmente, nortear a política educacional superior do país por meio dos critérios que ela própria, dentro da lógica jornalística, e não científica, estabeleceu”. Posto isto, Cerboncini questiona: “tem-se aqui algo no mínimo temerário: quem outorgou tamanho poder de decisão a um grupo capitalista privado, cujos propósitos, como os de qualquer outro grupo capitalista, são os de lucrar com a venda de mercadorias – no caso, de notícias e de rankings?”.  Como propõe a charge também publicada no Observatório da Imprensa e reproduzida ao lado, cabe à imprensa estipular os critérios que irão mensurar o ensino superior no Brasil?

Concluímos o post tal como a professora Sylvia Moretzsohn também fechou brilhantemente o seu texto, isto é, explicitando a quem a Folha serve ao criar tal ranking ao lembrar que se o jornal optasse por investir em reportagem sobre a situação do ensino superior no país, “verificaria, por exemplo, como funcionam as instituições privadas na sua disputa alucinada por mais clientes – perdão: alunos –, como essas instituições tratam seu corpo docente, como promovem demissões em massa para a contratação de funcionários mais baratos”. Não é a Folha, ou seus interesses em lucrar com propagandas de universidades privadas, quem deve estabelecer os critérios de avaliação do ensino superior. Como bem lembra a professora, ao invés disso, a Folha poderia

“(…) dedicar-se a estudar e estimular o debate sobre os critérios já existentes estabelecidos pelo governo. Mas para isso teria de abandonar o pressuposto de que a academia – isto é, a universidade pública – é refratária a avaliações. Pois não é disso que se trata: as inúmeras críticas feitas ao longo das últimas décadas aos critérios de avaliação pretendem demonstrar a enorme dificuldade da adoção de instrumentos adequados para medir a relevância do trabalho intelectual. E, mais ainda, que esses instrumentos não podem ser julgados isoladamente, dissociados do contexto político em que são produzidos: no caso, o modelo de universidade que se quer eleger.”

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