Justiça social e história pessoal: nada a ver

Recentemente os comentários de diversos dos posts do Hum Historiador tem revelado que, pra muita gente, justiça social e história pessoal estão diretamente relacionados, isto é, a promoção da justiça social não pode, jamais, dar mais facilidades a uma pessoa do que as que cada um desses comentadores teve no decorrer de sua vida. Portanto, se o cidadão é pobre, estudou a vida toda em escolas públicas, teve que começar a trabalhar cedo e, ainda por cima, trabalhava de 12 a 14 horas por dia para conseguir fazer um pré-vestibular e ingressar em uma universidade pública, todos os outros que vierem depois dele terão que passar pelo mesmo funil de sofrimento para atingirem o mesmo ponto onde ele está neste momento.

Sem citar nomes, vou dar um exemplo de comentário que seguem essa linha de pensamento (há vários que vão pelo mesmo caminho). Em um dos posts que tratei o assunto das cotas raciais para as universidades públicas, um leitor do blog fez o seguinte comentário:

“Sou sociólogo e só me formei porque à época não havia a tal política de cotas, pois esta certamente tiraria da universidade um filho de mãe solteira, empregada doméstica, e morador de cortiço.”

Comentários como este revelam que, para estas pessoas, o problema é o fato de alguns indivíduos poderem chegar à mesma posição que outros sem terem passado pelo mesmo caminho de “sofrimento”. Neste caso, tais pessoas são consideradas menos dignas de ocuparem tal posição, pois receberam uma “ajudinha” do governo, que consideram “assistencialista”.

Pensando com meus botões, não consigo estabelecer esta mesma relação, pois independentemente de minha história pessoal,  entendo que É PAPEL do Estado minimizar as dificuldades impostas por uma sociedade classista e racista e garantir que pobres e negros tenham acesso ao ensino superior público e de qualidade.

No post “O uso da igualdade como instrumento de dominação”, falei um pouco sobre esse assunto ao lembrar como o exemplo do “self made man” é repetido por muitos de maneira nauseante para justificar que políticas de promoção de justiça social orientadas a grupos específicos da sociedade são desnecessárias. Tais pessoas, preferem encarar a exceção como regra e, dessa maneira, culpar o próprio estudante da escola pública por este não ingressar em uma universidade pública, quando na realidade é todo o sistema educacional público de base que está mal das pernas e não garante uma oportunidade igual para seus estudantes em comparação a alunos de escolas privadas.

Não podemos utilizar nossas histórias pessoais como critérios representativos do conjunto da sociedade e, muito menos, para validar ou não políticas de promoção de justiça social, seja em que área for: educação, saúde, moradia, etc. Quem incorre neste erro, de modo bastante arrogante, ainda que muitas vezes inconsciente, acaba entendendo que ele e sua história são as medidas suficientes para se medir o mundo ao seu redor. Obviamente não são! Por pior e mais dura que tenha sido a história de cada um e por mais brilhante que tenha sido sua “redenção” através do esforço pessoal, que acabou levando tal indivíduo a “vencer” na vida, essa história só explicita justamente aquilo que se pretende esconder: como a sociedade é injusta e desigual, impondo barreiras quase intransponíveis a quem procede de uma determinada origem.

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2 Comentários

Arquivado em Política, Universidade

2 Respostas para “Justiça social e história pessoal: nada a ver

  1. Paulo César

    “É PAPEL do Estado minimizar as dificuldades impostas por uma sociedade classista e racista e garantir que pobres e negros tenham acesso ao ensino superior público e de qualidade.”

    A criação das cotas tem como objetivo, nas suas palavras, garantir que pobres e negros tenham acesso ao ensino superior público e de qualidade.

    “…quando na realidade é todo o sistema educacional público de base que está mal das pernas e não garante uma oportunidade igual para seus estudantes em comparação a alunos de escolas privadas.”

    É PAPEL do Estado oferecer um sistema educacional público de qualidade, porém não oferece, o que reforça as desigualdade de uma sociedade classista e racista e impede que pobres e negros tenham acesso ao ensino superior público.

    Parece que esse Estado, o qual você se refere, sofre de algum tipo de transtorno dissociativo de identidade.

  2. fabio nogueira

    “Quem brincava de princesa acostumou na fantasia”_ Chico Buarque.

    O trecho dessa música de Chico Buarque,reflete bem o texto do Blog.

    As pessoas são egoista por pensarem que pelo fato de ter vencido na vida, as história ou exemplos devem ser o mesmo. Infelizmente,existe esse tipo de pessoas quando atinge um topo na vida social,reperte o mesmo discurso das classes dominates somente para ficar em paz com a sua mente,mas, esquece ou finge que todos segue outros rumos na vida,igual ou diferente.

    Tenho um sobrinho que optou pelas cotas pelo fato de estudar o porque das cotas. Não ficou preso ao senso comum parecido com esse sociologo. Eu, sou fruto de UMA Ação Afirmativa e de um pre-vestibular comunitário,que ensinou-me a ter está consciencia que tenho hoje. Se hoje existe as cotas e prouni,ambas são frutos de lutas de pessoas negras,barncas,indigenas,ricos e pobres que não se conformam em viver numa sociedade injusta,onde as minorias são execçoes,e, eu não gosto de execçoes quero pluralidade dentro e fora das universidades.

    Infelizmente o sociologo não está fazendo jus a sua graduação,somente teve a preocupação de retirar o diploma e esqueceu a cidadania que falta em grande parte dos nossos chamados formadores de opinioes.

    O grande esforçado,parece que foi contagiado pelos vírus das elites dominates.

    Seria bom que esse sociologo lesse o texto feito por mim e depois acompanhasse a palestra da professora Marilena Chauí.

    http://www.fazendomedia.com/a-classe-media-chora-e-o-povo-mal-informado-acompanha/

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