Discussões sobre a profissão de historiador

Fernando Rodrigues, repórter em Brasília pela Folha de S. Paulo, publicou coluna neste último dia 10/11 sobre o projeto de lei que regulamenta a profissão de historiador. Posicionando-se frontalmente contrário à decisão do Senado, que aprovou o projeto na quarta-feira, 07 de novembro, Fernando Rodrigues qualifica projeto de lei como “estapafúrdio” e de um“maniqueísmo atroz”, dizendo aindaque a regulamentação da profissão trata-se de uma “marcha da insensatez” e, por fim, argumenta que sua posição visa  evitar que “o país se transforme, de lambança em lambança, em uma pátria de corporações”.

Abaixo a íntegra do texto de Fernando Rodrigues.

HISTORIADOR? SÓ COM DIPLOMA

Poucos notaram, mas o Senado aprovou um projeto de lei estapafúrdio na última quarta-feira. Eis o essencial: “O exercício da profissão de historiador, em todo o território nacional, é privativo dos portadores de diploma de curso superior em história, expedido por instituição regular de ensino”.

Em resumo, se vier a ser aprovada pela Câmara e depois sancionada pela presidente da República, a nova lei impedirá que pessoas sem diploma de história possam dar aulas dessa disciplina.

A proposta é de um maniqueísmo atroz. Ignora que médicos, sociólogos, economistas, engenheiros, juristas, jornalistas ou cidadãos sem diploma possam acumular conhecimentos históricos sobre suas áreas de atuação. Terão todos de guardar para si o que aprenderem.

Há sempre a esperança de alguém levantar a mão e interromper essa marcha da insensatez na Câmara. Mas mesmo que seja abortado, o episódio não perderá a sua gravidade. Trata-se de um alerta sobre a obsolescência e a falta de lógica do processo legislativo brasileiro.

A ideia nasceu em 2009. Era um projeto do senador Paulo Paim, do PT gaúcho. Em três meses, o senador Cristovam Buarque, do PDT de Brasília, deu um parecer favorável. Ouviu um chiste de José Sarney: “Você quer me impedir de escrever sobre a história do Maranhão”.

Cristovam parece arrependido do seu protagonismo. Indica ter deixado tudo para assessores, sem supervisioná-los como deveria. Erros acontecem. Só que o senador defensor da educação não quis reconhecer o equívoco na quarta-feira. Preferiu se ausentar do plenário.

O Senado tem 81 integrantes. Só dois votaram contra o diploma obrigatório para historiadores: Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Pedro Taques (PDT-MT). É muito pouco para impedir que o país se transforme, de lambança em lambança, numa pátria das corporações.

Em resposta ao colunista da Folha, a Associação Nacional de História (ANPUH), através de seu presidente, Benito Bisso Schmidt, divulgou um texto deixando bastante claro qual o papel do historiador profissional de acordo com o projeto de lei recém-aprovado, esclarecendo que o mesmo projeto não veda que pessoas com outras formações (ou mesmo sem formação alguma), “escrevam sobre o passado ou elaborem narrativas históricas” e revelando de modo bastante cristalino como o repórter de Brasília sequer se deu ao trabalho de ler o referido projeto de lei para escrever sua coluna opiniosa.

Abaixo a íntegra da resposta da ANPUH.

PROFISSÃO DE HISTORIADOR: MARCHA DA INSENSATEZ OU DO DESCONHECIMENTO?

Nós, historiadores profissionais, sabemos que uma das regras básicas do nosso ofício é a elaboração de um discurso de prova, assentado na pesquisa e na crítica dos vestígios do passado, os documentos. Fernando Rodrigues, por não ter essa formação, talvez desconheça essa regra tão elementar e, por isso, não se deu ao trabalho de ler com atenção o documento que deveria balizar a sua análise (sic) publicada no jornal Folha de São Paulo de 10 de novembro de 2012: o Projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador, aprovado no Senado Federal na última quarta-feira.

Em nenhum momento este projeto veda que pessoas com outras formações, ou sem formação alguma, escrevam sobre o passado e elaborem narrativas históricas. Apenas estabelece que as instituições onde se realiza o ensino e a pesquisa de História contem com historiadores profissionais em seus quadros, por considerar que, ao longo de sua formação, eles desenvolvem habilidades específicas como a crítica documental e historiográfica e a aquisição de conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos imprescindíveis à investigação científica do passado. Da mesma maneira, a regulamentação pode evitar que continuem a se verificar, nos estabelecimentos de diversos níveis de ensino, situações como a de o professor de História ser obrigado a lecionar Geografia, Sociologia, Educação Artística, entre outras disciplinas, sem ter formação específica para isso (e vice-versa).

Temos certeza que o Senador Cristovam Buarque, tão sensível aos problemas da educação brasileira, apóia esta idéia, pois ela possibilita um ensino mais qualificado.

Temos certeza também que o Senador José Sarney, conhecedor do teor do projeto, está tranqüilo, pois sabe que não vai ser impedido, como nenhum cidadão brasileiro, de escrever sobre a história de seu estado, ou de qualquer período, indivíduo, localidade ou processo. Isso atentaria contra as liberdades democráticas, das quais os historiadores profissionais são grandes defensores.

Fique tranqüilo senhor Fernando Rodrigues, o senhor também poderá escrever sobre história. Só sugerimos que leia os documentos necessários antes de o fazer.

Benito Bisso Schmidt

Presidente da Associação Nacional de História – ANPUH-Brasil

De minha parte, tal como o presidente da ANPUH apontou, o jornalista revelou-se um achista, dando-se o direito a ter uma opinião com raízes no ar. Através de sua posição, apenas demonstrou o nível de muitos dos jornalistas do veículo para o qual trabalha. Lamentável que articulista de um periódico tão influente como a Folha de S. Paulo, sequer tenha se dado o trabalho de ler o projeto de lei o qual critica.

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Arquivado em Cultura, Educação, Ensino, Política

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