2002-2012: uma década perdida pra quem?

Historiador e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, Marco Antonio Villa publicou texto no Estado de S. Paulo, em 31 de dezembro de 2012, considerando que a década decorrida entre 2002 e 2012 foi uma década perdida.

O portal do jornal digital Brasil 247, considerou o texto de Villa, a piada da década, uma vez que foi neste período em que o Brasil reduziu pela metade seu desemprego, emergiu como ator global e consolidou sua democracia. Para o referido portal, Marco Antonio Villa é um dos porta-vozes da oposição no País, chegando a denominá-lo como “historiador-militante”.

Logo de início, o texto apresenta uma marca anti-lulista bem clara, tendo seu autor comparado a eleição de Lula a um conto de fadas e destacado que, até mesmo como operário, Lula poderia ser considerado uma fraude, já que seu tempo de serviço nas fábricas durou apenas dez anos e, depois deste período, ele teria virado um burocrata social travestido de operário e trabalhador sofrido.

Deixando Lula de lado, Villa parte para o ataque ao PT, destacando que parte da própria posse de Lula teria sido paga com recursos do esquema pré-mensalão (utilizando Marcos Valério como fonte). Mais adiante, alega que “O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais” e que, se o partido havia sido considerado a novidade em algum momento de sua história, esta novidade teria dado “vida nova às oligarquias”, afirmando ser “muito difícil encontrar nos últimos 50 anos um período tão longo de poder em que os velhos oligarcas tiveram tanto poder como agora.” Para Villa, o maior obstáculo ao crescimento econômico e ao enfrentamento dos problemas sociais conhecidos dos brasileiros, é o que denominou de “congelamento da política”, promovido pelo PT. 

Sobre os programas sociais promovidos pelo Governo Federal durante a última década, Villa considerou que se tratam de “programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta”.

Em poucas palavras, é de se lamentar que o historiador Marco Antonio Villa tenha optado em fazer uma análise crítica da última década vivida no Brasil a partir da crítica pessoal a Lula e ao seu partido o PT, em sua maior parte. Independente do conteúdo da crítica, para um historiador experiente cujo ofício, no caso em questão, seria o de reconstruir aspectos da vida social do país a partir de um conjunto de fontes confiáveis e levando em conta todos os agentes sociais no período recortado, desconsiderar os avanços sociais e o relevante crescimento econômico das classes mais desfavorecidas do país, especialmente durante a meia década em que Europa e Estados Unidos estiveram afundados em uma crise profunda, parece um erro bastante básico que encontraria uma justificação plausível na crítica que destacamos previamente feita pelo portal Brasil 247, isto é, Marco Antonio Villa escreve atendendo a uma agenda política específica.

Em sua defesa, Villa poderia alegar que “toda história é escolha”, conforme texto famoso de Lucien Febvre. Contudo, não se deve confundir seleção de fontes com seleção daquelas que corroboram com nossa hipótese. Mesmo não historiadores devem saber que, ao selecionar suas fontes, um historiador não deve eleger apenas aquelas que corroboram com sua hipótese levantada a priori, ao contrário, deve fazer a crítica de todas as fontes levantadas e, a partir de sua interpretação delas, chegar a uma conclusão que pode ser favorável ou desfavorável a ideia que se fazia antes de partir para a pesquisa. No caso de as fontes não corroborarem com a hipótese inicial, um intelectual honesto jamais desconsideraria tais fontes em sua pesquisa, para dar preferência apenas àquelas que corroboram sua hipótese inicial, no caso de Villa, a tal década perdida. Embora no método que adotou, Villa tenha optado por desconsiderar qualquer tipo de contextualização e por não fazer menção às fontes dos números que ilustram seu artigo, ele acaba mencionando algumas fontes que embasariam suas conclusões: o empresário Marcos Valério, o ex-ministro José Dirceu e o ministro do STF Celso de Mello. Não se vê, por exemplo, menção ao fato de que na década em questão, 35 milhões de pessoas entraram na classe média e que a perspectiva é de que no fim de 2012, 53% da população (mais de 100 milhões de brasileiros) faça parte dessa classe, em contraste com os 38% da população em 2002, tal como informa o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. ou ainda, menção a um estudo como o BRICS: desigualdades sociais em países emergentes, realizado pelo Observatório das Desigualdades, onde há uma série de indicadores mostrando o avanço no combate as desigualdades sociais não apenas na área da pobreza e do desenvolvimento econômico (que parece ser apenas o que importa a Villa), mas também educação e oportunidades, vida saúde e morte e mulheres e desigualdade.

Para finalizar, deixo abaixo a íntegra do texto de Marco Antonio Villa, conforme publicado no Estado de S. Paulo e no próprio blog do historiador, para a consideração dos leitores do Hum Historiador.

A DÉCADA PERDIDA por Marco Antônio Villa
publicado originalmente em O Estado de S. Paulo – 31/12/2012

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002 foi recebida como um conto de fadas. O país estaria pagando uma dívida social. E o recebedor era um operário.

Operário que tinha somente uma década de trabalho fabril, pois aos 28 anos de idade deu adeus, para sempre, à fábrica. Virou um burocrata sindical. Mesmo assim, de 1972 a 2002 ─ entre a entrada na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e a eleição presidencial ─, portanto, durante 30 anos, usou e abusou do figurino do operário, trabalhador, sofrido. E pior, encontrou respaldo e legitimação por parte da intelectualidade tupiniquim, sempre com um sentimento de culpa não resolvido.

A posse ─ parte dos gastos paga pelo esquema do pré-mensalão, de acordo com depoimento de Marcos Valério ao Ministério Público ─ foi uma consagração. Logo a fantasia cedeu lugar à realidade. A mediocridade da gestão era visível. Como a proposta de governo ─ chamar de projeto seria um exagero ─ era inexequível, resolveram manter a economia no mesmo rumo, o que foi reforçado no momento da alta internacional no preço das commodities.

Quando veio a crise internacional, no final de 2008, sem capacidade gerencial e criatividade econômica, abriram o baú da História, procurando encontrar soluções do século 20 para questões do século 21. O velho Estado reapareceu e distribuiu prebendas aos seus favoritos, a sempre voraz burguesia de rapina, tão brasileira como a jabuticaba. Evidentemente que só poderia dar errado. Errado se pensarmos no futuro do país. Quando se esgotou o ciclo de crescimento mundial ─ como em tantas outras vezes nos últimos três séculos ─, o governo ficou, como está até hoje, buscando desesperadamente algum caminho. Sem perder de vista, claro, a eleição de 2014, pois tudo gira em torno da permanência no poder por mais um longo tempo, como profetizou recentemente o sentenciado José Dirceu.

Os bancos e as empresas estatais foram usados como instrumentos de política partidária, em correias de transmissão, para o que chamou o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, de “projeto criminoso de poder”, quando do julgamento do mensalão. Os cargos de direção foram loteados entre as diferentes tendências do Partido dos Trabalhadores (PT) e o restante foi entregue à saciedade dos partidos da base aliada no Congresso Nacional. O PT transformou o patrimônio nacional, construído durante décadas, em moeda para obter recursos partidários e pessoais, como ficou demonstrado em vários escândalos durante a década.

O PT era considerado uma novidade na política brasileira. A “novidade” deu vida nova às oligarquias. É muito difícil encontrar nos últimos 50 anos um período tão longo de poder em que os velhos oligarcas tiveram tanto poder como agora. Usaram e abusaram dos recursos públicos e transformaram seus Estados em domínios familiares perpétuos. Esse congelamento da política é o maior obstáculo ao crescimento econômico e ao enfrentamento dos problemas sociais tão conhecidos de todos.

Não será tarefa fácil retirar o PT do poder. Foi criado um sólido bloco de sustentação que ─ enquanto a economia permitir  ─ satisfaz o topo e a base da pirâmide. Na base, com os programas assistenciais que petrificam a miséria, mas garantem apoio político e algum tipo de satisfação econômica aos que vivem na pobreza absoluta. No topo, atendendo ao grande capital com uma política de cofres abertos, em que tudo pode, basta ser amigo do rei ─ a rainha é secundária.

A incapacidade da oposição de cumprir o seu papel facilitou em muito o domínio petista. Deu até um grau de eficiência política que o PT nunca teve. E o ano de 2005 foi o ponto de inflexão, quando a oposição, em meio ao escândalo do mensalão, e com a popularidade de Lula atingindo seu nível mais baixo, se omitiu, temendo perturbar a “paz social”. Seu principal líder, Fernando Henrique Cardoso, disse que Lula já estava derrotado e bastaria levá-lo nas cordas até o ano seguinte para vencê-lo facilmente nas urnas. Como de hábito, a análise estava absolutamente equivocada. E a tragédia que vivemos é, em grande parte, devida a esse grave erro de 2005. Mas, apesar da oposição digna de uma ópera-bufa, os eleitores nunca deram ao PT, nas eleições presidenciais, uma vitória no primeiro turno.

O PT não esconde o que deseja. Sua direção partidária já ordenou aos milicianos que devem concentrar os seus ataques na imprensa e no Poder Judiciário. São os únicos obstáculos que ainda encontram pelo caminho. E até com ameaças diretas, como a feita na mensagem natalina ─ natalina, leitores! ─ de Gilberto Carvalho (ex-seminarista, registre-se) de que “o bicho vai pegar”. A tarefa para 2013 é impor na agenda política o controle social da mídia e do Judiciário.

Sabem que não será tarefa fácil, porém a simples ameaça pode-se transformar em instrumento de coação. O PT tem ódio das liberdades democráticas. Sabe que elas são o único obstáculo para o seu “projeto histórico”. E eles não vão perdoar jamais que a direção petista de 2002 esteja hoje condenada à cadeia.

A década petista terminou. E nada melhor para ilustrar o fracasso do que o crescimento do produto interno bruto (PIB) de 1%. Foi uma década perdida. Não para os petistas e seus acólitos, claro. Estes enriqueceram, buscaram algum refinamento material e até ficaram “chiques”, como a Rosemary Nóvoa de Noronha, sua melhor tradução. Mas o Brasil perdeu.

Poderíamos ter avançado melhorando a gestão pública e enfrentado com eficiência os nossos velhos problemas sociais, aqueles que os marqueteiros exploram a cada dois anos nos períodos eleitorais. Quase nada foi feito ─ basta citar a tragédia do saneamento básico ou os milhões de analfabetos.

Mas se estagnamos, outros países avançaram. E o Brasil continua a ser, como dizia Monteiro Lobato, “essa coisa inerme e enorme”.

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