Silas Malafaia contra a laicização do Estado brasileiro

Bertone Sousa, professor do curso de História da Universidade Federal do Tocantins, acaba de escrever um texto bastante interessante em seu blog sobre a entrevista de Silas Malafaia ao programa da Marília Gabriela, neste último domingo (03/02).

Em seu texto, Sousa faz inicialmente uma breve diferenciação entre Malafaia e os principais líderes e televangelistas brasileiros (Edir Macedo, R. R. Soares e Valdemiro Santiago), passa em seguida a falar de onde veio Silas Malafaia e para qual público ele fala, menciona suas alianças e estratégias para se diferenciar de outros líderes evangélicos com perfil semelhante ao seu (Estevam Hernandes e R. R. Soares), toca no assunto vital da necessidade dos holofotes estarem sempre voltados para si e, por isso, seu foco no discurso anti-homosexual como forma de ganhar projeção nacional, para finalmente falar de seu principal objetivo, isto é, “alcançar poder para intervir diretamente nas decisões políticas do país”.

Abaixo segue o texto na íntegra do professor Bertone Sousa:

O QUER QUER SILAS MALAFAIA?
por Bertone Sousa – publicado originalmente em 06/02/2013

Pastor Silas Malafaia concede entrevista ao programa de Marília Gabriela, no último 03/02, no SBT.

Depois da entrevista de Silas Malafaia com Marília Gabriela no último domingo, dia 03, a apresentadora concedeu uma entrevista em que afirma que agora entende porque ele tem tanta audiência entre os evangélicos: é muito enfático, segundo ela. Afirmou ainda que, pela primeira vez, teve de manifestar sua opinião, contrapondo-se a um convidado do programa. O que Marília falou e sentiu é importante porque desvela a estratégia de Malafaia para tornar-se o líder que hoje é.

Dentre os principais televangelistas brasileiros, Silas Malafaia tem alguns diferenciais em relação aos outros. As práticas religiosas de R.R. Soares, Edir Macedo e Valdemiro Santiago nasceram ancoradas na tradição taumatúrgica do pentecostalismo brasileiro. Grosso modo, o que eles acrescentaram aí foi a Teologia da Prosperidade e a exacerbação do discurso maniqueísta da “guerra espiritual”. Ao contrário do pentecostalismo clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã e outras) as neopentecostais focaram como inimigos as religiões de matriz africana, e não apenas o catolicismo (embora o caso do “chute na santa” por um bispo da IURD em 1995 tenha sido um ponto alto na relação tensa entre a Igreja Católica e o emergente protestantismo neopentecostal brasileiro).

Silas Malafaia emergiu nesse contexto como um desconhecido. Sendo pastor de uma das igrejas mais fundamentalistas do Brasil, a Assembleia de Deus, ele não se destacou por práticas de curandeirismo como os outros nem pela disputa contra as religiões africanas. Ele encontrou em seu estilo polemista e em sua retórica belicosa um caminho para se tornar uma das principais lideranças desse segmento. Paralelamente, ele também abraçou a Teologia da Prosperidade, tendo percebido o quanto isso é oportuno num país de economia emergente e de segmentos sociais cada vez mais numerosos que vem ascendendo à condição de classe média no Brasil desde o início da década passada.

O seu público não é o mesmo de outros televangelistas. O público de Edir Macedo e Valdemiro Santiago vêm especialmente dos extratos mais pobres economicamente, são pessoas que, em sua maioria, estão buscando ascensão social. Já o público de Malafaia é mais escolarizado (e ele gosta muito de enfatizar isso), já está na classe média, é mais exigente. Em uma entrevista recente, após a reportagem da Forbes que o incluiu entre os pastores mais ricos do país, ele afirmou que gasta muito mais pra abrir uma igreja do que o Valdemiro Santiago, porque ele sempre abre uma igreja pronta, com climatização, som da melhor qualidade, entre outras coisas. Além disso, ele valoriza salarialmente seus pastores, pagando escola dos filhos, plano de saúde e, às vezes, até faculdade no exterior. Por outro lado, exige deles boa capacidade de argumentação e resultados em termos de números de fiéis.

O público de Malafaia é o mesmo de Estevam Hernandes e R.R. Soares. Mas para concorrer com eles, aliou-se a outros nomes da Teologia da Prosperidade: Mike Murdok, Morris Cerullo, Renê Terra Nova. Com os dois primeiros, aprendeu a investir na própria imagem, usando estratégias de marketing para projetar a si mesmo e à sua igreja no mercado religioso brasileiro – não uso mercado aqui no sentido pejorativo, mas no sentido sociológico de que há uma pluralidade de tendências religiosas em nossa sociedade e que cada uma delas lança mão de várias estratégias para aglutinar seguidores. No caso do neopentecostalismo, essa concorrência é ainda mais acirrada, pela quantidade de igrejas que surgem anualmente nas várias regiões do país. Além disso, aprendeu com eles a investir em livros e discursos de auto-ajuda e a fazer campanhas financeiras desafiando a fé das pessoas e estimulando-as a doar. Malafaia também fundou uma editora e comprou horários na TV aberta, o elemento mais indispensável para concorrer com outras lideranças religiosas carismáticas que já estão lá.

Para ele, estar na mídia é uma questão de sobrevivência no ramo. Por isso ele precisava de algo que fizesse os holofotes estarem constantemente voltados para ele. E encontrou isso no discurso anti-homossexual. Comprando uma briga com o movimento LGBT (outro segmento que também ascendeu junto com os neopentecostais), Malafaia pretendia não apenas estar na mídia, mas fazer algo que nenhum outro líder protestante ainda conseguiu: unir os evangélicos em torno de um líder. E você apenas pode unir segmentos tão heterogêneos criando um inimigo, uma ameaça comum. Não importa que o inimigo seja imaginário, o importante é que as pessoas comprem a ideia. Nesse sentido, ele segue o exemplo de Pat Robertson nos Estados Unidos que, na década de 1960, criou a Maioria Moral (Moral Majority) para combater o feminismo, o divórcio, o aborto, o homossexualismo, a cultura secular.

Malafaia usa o discurso contra o homossexualismo como plataforma para conseguir essa projeção em nível nacional entre os evangélicos. O objetivo vai além: alcançar poder para intervir diretamente nas decisões políticas do país, criando um grupo forte e coeso para fazer lobby junto ao Congresso, ao Senado e à própria presidência da República. A Igreja Católica sempre fez isso, mas nunca deram muita atenção. Suas idas a Basília para discursar na Câmara ou na Esplanada dos Ministérios tem por objetivo criar essa ponte entre o público evangélico e o poder. Por isso ele tem criticado outros líderes religiosos por não o apoiarem em sua cruzada contra a legalização do casamento homossexual.

Embora tenha conseguido avançar bastante em seus objetivos, Malafaia tem esbarrado na resistência dos evangélicos brasileiros de se unirem em torno de um líder. Por outro lado, à medida que ele e outros líderes protestantes avançam, ocupando vagas na Câmara junto à bancada evangélica e legislando em torno de princípios religiosos, a democracia e a laicidade do Estado tendem a perder com isso. A nova classe média brasileira é predominantemente desescolarizada e conservadora e tem sido interpelada por esses discursos a tornar-se militante de causas antisseculares. Após as eleições de 2010, esses líderes têm percebido a força de sua atuação junto a esses segmentos. A médio e longo prazo, as consequências sociais da ação de Malafaia e de outros líderes pentecostais no Brasil podem ser devastadoras. A junção de religião e política historicamente sempre foi uma ameaça às liberdades individuais e na jovem democracia brasileira é um fantasma que está sempre por perto.

Além do texto de Bertone, gostaria também de repercutir o vídeo-resposta elaborado por Eli Vieira, biólogo, mestre em genética e doutorando nessa mesma matéria pela Universidade de Cambridge, no qual ele contesta as afirmações de Silas Malafaia de que não existem estudos no campo da genética que neguem a homossexualidade como comportamento. Em seu vídeo, dentre outras coisas, Vieira deixa claro não só que existem sim esses estudos, mas afirma, com base nos mesmos, de que existe sim uma contribuição genética na manifestação da orientação sexual.

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3 Comentários

Arquivado em Blogs, Comportamento, Entrevistas, Religião, TV, Videos

3 Respostas para “Silas Malafaia contra a laicização do Estado brasileiro

  1. Rogério,

    o interessante é que o Malafaia contestou o vídeo do Eli argumentando contra o fato de ele não ser (ainda) doutor. E mencionou um livro que ele usa pra falar sobre genética, como se a pesquisa científica se restringisse a um resultado. A visão de ciência dele é fechada e novecentista e não admite debate.

  2. Pingback: Marcha para Jesus na praça Heróis da FEB e a pulga que continua atrás da orelha | Hum Historiador

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