Cotas Raciais e Sociais: pesquisa do INEP revela que é pequena a distância entre a pior nota do cotista admitido e maior nota do candidato barrado

O jornalista Elio Gaspari publicou ontem [27/02], em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo, uma notícia que joga água no chopp de muitos críticos da política de cotas raciais e sociais adotada pelo governo brasileiro. Segundo o jornalista, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que revela que somente no último ano, as cotas beneficiaram 36 mil estudantes e em 95% dos casos, a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do candidato barrado está em torno de 100 pontos. Mais ainda. A notícia dá conta de que em 32 cursos de medicina, essa distância foi de apenas 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).

Como conclui o próprio Gaspari em sua coluna, se antes da implementação da política de cotas a distância girava em torno de 100 pontos, “os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol”. Para o jornalista, é bastante possível que a discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que sequer prestavam o vestibular porque acreditavam que universidade pública não era coisa para eles. Fato que mudou completamente com a implementação da política das cotas raciais e sociais.

Vejam abaixo a íntegra da coluna de Elio Gaspari.

A POLÍTICA DE COTAS GANHOU MAIS UMA
por Elio Gaspari para a Folha de S. Paulo – Publicado originalmente em 27/02/2013

Na essência da política de cotas há um aspecto que exaspera seus adversários: um estudante que vai para o vestibular sem qualquer incentivo de ações afirmativas tira uma nota maior que o cotista e perde a vaga na universidade pública. Quem combate esse conceito em termos absolutos é contra a existência das cotas, cuja legalidade foi atestada pela unanimidade do Supremo Tribunal Federal e aprovada pelo Congresso Nacional (com um só discurso contra, no Senado). É direito de cada um ficar na sua posição, minoritária também nas pesquisas de opinião.

Uma coisa é defender as cotas quando a distância é pequena, bem outra seria admitir que um estudante que faz 700 pontos na prova deve perder a vaga para outro que conseguiu apenas 400. O que é diferença pequena? Sabe-se lá, mas 300 pontos seria um absurdo.

Os adversários das cotas previam o fim do mundo se elas entrassem em vigor. Os cotistas não acompanhariam os cursos, degradariam os currículos e fugiriam das universidades. Puro catastrofismo teórico. Passaram-se dez anos, e Ícaro Luís Vidal, o primeiro cotista negro da Faculdade de Medicina da Federal da Bahia, formou-se no ano passado e nada disso aconteceu. Havia ainda também as almas apocalípticas: as cotas estimulariam o ódio racial. Esse estava só na cabeça de alguns críticos, herdeiros de um pensamento que, no século 19, temia o caos social como consequência da Abolição.

Mesmo assim, restava a distância entre o beneficiado e o barrado. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais divulgou uma pesquisa que foi buscar esses números no banco de dados do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Neste ano, as cotas beneficiaram 36 mil estudantes. Pode-se estimar que em 95% dos casos a distância entre a pior nota do cotista admitido e a maior nota do barrado está em torno de 100 pontos. Em 32 cursos de medicina (repetindo, medicina) a distância foi de 25,9 pontos (787,56 contra 761,67 dos cotistas).

O Inep listou as vinte faculdades onde ocorreram as maiores distancias. Num caso extremo deu-se uma variação de 272 pontos e beneficiou uns poucos cotistas indígenas no curso de história da Federal do Maranhão. O segundo colocado foi o curso de engenharia elétrica da Federal do Paraná, com 181 pontos de diferença. A distância diminui, até que, no 20º caso, do curso de ciências agrícolas de Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Federal do Rio Grande do Sul, ela ficou em 128 pontos.

Pesquisas futuras explicarão como funcionava esse gargalo, pois se a distância girava em torno de 100 pontos, os candidatos negros e pobres chegavam à pequena área, mas não conseguiam marcar o gol. É possível que a simples discussão das ações afirmativas tenha elevado a autoestima de jovens que não entravam no jogo porque achavam que universidade pública não era coisa para eles. Neste ano, 864.830 candidatos (44,35%) buscaram o amparo das cotas.

A política de cotas ocupou 12,5% das vagas. Num chute, pode-se supor que estejam em torno de mil os cotistas que conseguiram entrar para a universidade com mais de cem pontos abaixo do barrado, o que vem a ser um resultado surpreendente e razoável. O fim do mundo era coisa para inglês ver.

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3 Comentários

Arquivado em Educação, Jornais, Política

3 Respostas para “Cotas Raciais e Sociais: pesquisa do INEP revela que é pequena a distância entre a pior nota do cotista admitido e maior nota do candidato barrado

  1. As cotas abriram ocaminho de muitos alunos que se quer pensavam um dia entra numa universidade. Infelizmente os opositores as cotas não souberam digerir o debate de formar correta,pelo contário,optaram fazer o “teatro”dos horrores. Previam e muito mal um conflito armado conforme afirmava o sabe tudo Demente Magnoli e seus seguidores.

    O STF foi soberano em sua decisão. Afirmou que não pode tratar o desigual da mesma maneira que um igual.Tem que haver mecanismo para o desigual lute em pé de igualdade.

    É PRECISO DESTRUIR A OBRA DA ESCRAVIDÃO…
    Senhores, a propriedade não tem somente direitos, tem também deveres e o estado de pobreza entre nós, a indiferença com que todos olham para condição do povo, não faz honra à propriedade, como não faz honra aos poderes do Estado. Eu Joaquim Nabuco, não separarei mais as duas questões – a da emancipação dos escravos e a democratização do solo. Uma vez é o complemento da outra. Acabar com a escravidão não basta; é preciso destruir a obra da escravidão.

    Rui Barbosa,estava certo em afirmar está frese tão contudente e atual. Temos agora de destruir a obra da escravidão que persiste em nossa cabeças e coraçoes

  2. PQNAB Partido Quilombo dos Negros Afrodescendentes e Brasileiros
    PQNAB! É lançado o pré-manifesto e estatutos do PQNAB Partido Quilombo dos Negros Afrodescendentes e Brasileiros em 17 estados da ONNQ unidos a inúmeros movimentos e Entidades Negra ativistas e simpatizantes do Brasil que tem um pensamento em comum, o de assumir a responsabilidade e deveres para nossa comunidade e autonomia e conquistas nossos direitos resgatando e redimensionando o poder de nossos valores em favor de nossa comunidade e da nação. Brasil.Viva Zumbi! Brasil. Para maiores informações e adesões do PQNAB Partido Quilombo dos Negros Afrodescendentes e Brasileiros. pelos e-mails pqnab@bol.com.br / p.qnab@ig.com.br / p.qnab@yahoo.com.br

  3. Rodrigo

    Cotas é bom, mas só cotas para pobres, e não para negros.

    Não há como você provar que é negro. Ninguém chega um documento pra isso. Ninguém olha pra você. Apenas para sua prova. E todos temos DNA de africano, apesar de uns terem mais. Mas nunca determinaram a porcentagem que torna alguém negro.
    Acho que já ouve até um caso de gêmeos univitelinos em que um teve direito a cotas e outro não.
    Não há nem um medidor de tonalidade da pele ou de melanina.

    E se um negro é rico, ele não precisa de cotas.
    Já se um negro é pobre, ele não merece vantagem nenhuma em relação aos brancos e asiáticos pobres.
    Acabando com a desigualdade social você acaba com a desigualdade social entre negros e brancos.

    Lei contra discriminação já existe.
    Cotas é só outra medida contra discriminação. Mas se for pra colocar cotas, não é em concurso público que tem que colocar, mas sim em entrevistas de emprego para empresas particulares, onde o entrevistador fica frente a frente com o entrevistado, podendo julgar pela aparência, pelo estilo ou etnia.
    Num concurso público, só as provas são vistas, e não a aparência dos candidatos.

    Além disso, para os de direita mais fanáticos, o sentimento de I justiça provocado pelas cotas só aumenta o ódio contra os negros.

    Aliás, existe discriminação contra negro de terno? Eu nunca vi. Já vi discriminação contra negro E branco de piercing, alargador, tatuagem e outras modificações corporais.
    O que fazer quanto a isso? Essa discriminação me parece até pior, porque afeta todas as etnias e todas as classes sociais.

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