Jornal da Globo e o violento ataque ao recém falecido Hugo Chávez

Repercutindo o post publicado no Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães, sobre a violência com a qual o Jornal da Globo atacou ontem [05/03], o recém falecido presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

MORTO, CHÁVEZ É MAIS ATACADO DO QUE QUANDO ESTAVA VIVO
publicado originalmente no BLOG DA CIDADANIA por Eduardo Guimarães

William Waack, na redação do Jornal da Globo

Não se pode dizer que seja exatamente uma surpresa o fenômeno que passou a ser visto após o anúncio da morte de Hugo Chávez. Logo após esse anúncio, o título do texto aqui publicado já dizia que o venezuelano não morrera, mas que, antes, acabara de nascer – ou renascer –, agora como mito.

O fenômeno em tela é o de o ex-presidente, depois de morto, estar sofrendo um nível de ataques na mídia americanizada do Brasil – e nas de tantos outros países latino-americanos – que poucas vezes se viu quando estava vivo.

Foi surpreendente, porém, a virulência com que a edição do Jornal da Globo que foi ao ar entre a noite da última terça-feira e o começo da madrugada de quarta tratou o presidente recém-falecido.

O Jornal Nacional, poucas horas antes, fugiu de mostrar os avanços sociais na Venezuela durante a era Chávez, mas não enveredou pela hidrofobia sem limites que se viu no Jornal da Globo – telejornal destinado ao público que dorme e acorda mais tarde e que tem maior poder aquisitivo.

Abaixo, o texto hidrófobo lido pelo âncora do Jornal da Globo Willian Waack sobre um ser humano que acabara de perder a vida. Um texto desrespeitoso à Venezuela e à parcela esmagadora de seu povo que apoiou o ex-presidente até seu último suspiro e que continua apoiando, agora na figura de Nicolás Maduro, provável herdeiro político de Chávez.

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JORNAL DA GLOBO

http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2013/03/hugo-chavez-morre-aos-58-anos.html

Willian Waack

5 de março de 2013

Hugo Chávez nunca reclamou quando o chamaram de caudilho, embora preferisse o título de comandante revolucionário. Como todo caudilho sul-americano, a revolução era ele.

O dono de um tal de socialismo bolivariano, que ninguém, nem mesmo Chávez, foi jamais capaz de explicar. Começou a carreira como muitos militares do continente, dando um golpe, descontente com políticos e elites tradicionais, que jamais, no caso da Venezuela, foram capazes de distribuir a grande riqueza do país: petróleo e energia.

Chávez fracassou na primeira tentativa de chegar ao poder, em 1992, mas não desistiu. Escolheu a marcha através das instituições formais da democracia como maneira de atacar a própria democracia, que, no entendimento dele, o caudilho bolivariano, só servia apenas aos interesses de quem ele declarava seus inimigos.

Em 1999, eleito presidente, Chávez não perdeu tempo. Convocou uma Assembleia Nacional Constituinte com a qual forjou as ferramentas que o manteriam no poder até o fim da vida.

Um de seus principais alvos era a imprensa independente: Hugo Chávez ganhou um lugar na já repleta história de caudilhos sul-americanos incapazes de conviver com o contraditório e a liberdade de imprensa.

Para ele, pouco importava: admirador dos irmãos Castro e do experimento ditatorial de Cuba, Chávez achava que a revolução social que tinha como propósito justificaria o emprego de qualquer meio. Foi beneficiado por uma extraordinária conjuntura internacional, que favoreceu a principal — quase única — fonte de renda do país: o petróleo.

Chávez transformou a então bem gerida e produtiva PDVSA, a estatal do petróleo, em um braço político dedicado ao distributivismo típico dos caudilhos preocupados apenas com a própria popularidade.

A indústria venezuelana ficou pelo caminho, a corrupção tornou-se ainda pior do que no regime político anterior, a inflação ficou sendo uma das maiores da América do Sul, mas Chávez continuava repetindo: “adelante siempre”.

Fez escola entre outros países ricos em energia, como Equador e Bolívia, onde conquistou adeptos. Tratou de exportar seu modelo para outro país rico na história em caudilhos, a Argentina.

Declarou os Estados Unidos da América como o pior inimigo da Venezuela. Protagonizou um dos piores momentos da Assembleia Geral das Nações Unidas, ao dizer que onde o então presidente americano George W. Bush havia acabado de discursar ainda prevalecia o cheiro de enxofre, o cheiro do diabo.

Sua maior desmoralização internacional, no entanto, ocorreu nas mãos do rei da Espanha, Juan Carlos, que o mandou se calar. Chávez quase foi derrubado em 2002 por um mal-articulado golpe militar no qual ele identificou a mão do império, a mão dos Estados Unidos.

Rompeu relações diplomáticas com Israel e estreitou laços com o Irã. Tornou-se muito popular em Moscou com as pesadas compras de armas, e um inimigo da vizinha Colômbia, que o acusava de abrigar, armar e ajudar os narcoguerrilheiros das Farc.

Encontrou no governo petista do Brasil um aliado confortável em várias iniciativas no continente, como a expansão do Mercosul, através de um truque diplomático articulado contra o Paraguai.

Faltou, porém, com a palavra dada a um de seus maiores amigos, o ex-presidente Lula, com quem combinou construir uma refinaria em Pernambuco. Até hoje, o aporte financeiro prometido por Chávez não se materializou, obrigando a Petrobras a tocar sozinha o projeto.

Ajudado por uma oposição desarticulada, desmoralizada e vítima também de perseguições, Chávez dominou a Venezuelal, mas não conseguiu realizar o tal do socialismo bolivariano, inspirado na figura de Simon Bolívar, que ele mandou exumar e venerava como um santo.

Como todo caudilho, embevecido de si mesmo, Chávez detinha a última palavra em qualquer assunto. Tinha a certeza de que seu nome, e a inspiração aos camisas vermelhas, seria o suficiente para levar a Venezuela a um grande futuro, pelo qual o país — dividido, traumatizado, empobrecido e violento — continua esperando.

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Um aspecto interessante desse texto lido por Waack no ar é que, a certa altura, parece lamentar o insucesso da tentativa de golpe de Estado contra Chávez em 2002 ao dizer que ele “Quase foi derrubado em 2002 por um mal-articulado golpe militar no qual ele identificou a mão do império, a mão dos Estados Unidos”.

A quantidade de distorções dos fatos contida na cobertura da Globo e do resto da grande mídia sobre o que foi o governo Chávez, é imensurável. Essa afirmação de que foi o venezuelano que “identificou” a interferência dos EUA na tentativa de golpe que sofreu, é hilária.

A tentativa de golpe contra Chávez em 2002 foi publicamente condenada pelas nações latino-americanas (os presidentes do Grupo do Rio se reuniram em San José, Costa Rica, na época, e emitiram um comunicado conjunto de repúdio ao golpe) e pelas organizações internacionais.

Apenas os Estados Unidos e a Espanha rapidamente reconheceram o governo de facto da Venezuela, agora presidido pelo rico empresário Pedro Carmona, presidente da Fiesp venezuelana, a “Fedecámaras”.

Como primeira medida, o “presidente” Carmona fechou o Congresso e a Suprema Corte de Justiça do país e reprimiu, com tropas leais, as manifestações pró-Chávez que tomaram Caracas, com a população descendo dos morros que circundam a cidade para irem protestar diante do Palácio Miraflores, sede do governo venezuelano.

E para que fique absolutamente claro que a participação dos EUA no golpe não foi uma invenção de Chávez, basta ver notícia que o portal da mesma Globo na internet, o G1, publicou em 2009. Leia, abaixo, trecho da matéria.

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Jimmy Carter diz que EUA sabiam de golpe contra Hugo Chávez em 2002

G1

20 de setembro de 2009

http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1311305-5602,00-JIMMY+CARTER+DIZ+QUE+EUA+SABIAM+DE+GOLPE+CONTRA+HUGO+CHAVEZ+EM.html

Os Estados Unidos estavam sabendo do golpe que quase derrubou o presidente venezuelano Hugo Chávez em 2002, e talvez tenham até apoiado a frustrada tentativa, declarou o ex-presidente americano Jimmy Carter em entrevista publicada neste domingo (20) pelo jornal colombiano “El Tiempo”.

“Acho que não há dúvidas sobre o fato de que em 2002 os Estados Unidos estavam sabendo, ou tiveram participação direta, no golpe de Estado”, disse Carter ao jornal. Assim, as críticas de Chávez contra os Estados Unidos “são legítimas”, destacou o ex-dirigente democrata, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2002.

(…)

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Parece-me material suficiente para que, ao menos, a Globo não atribuísse só a Chávez a acusação de que os Estados Unidos foram parte integrante da tentativa fracassada de golpe em 2002 na Venezuela, certo?

É claro que o que o Jornal da Globo apresentou não foi uma reportagem, mas um editorial capenga, cheio de furos e que, se fosse publicado em uma televisão norte-americana, seria passível de ser contestado no ar por qualquer cidadão que se sentisse prejudicado, como determina o Federal Communications Commision (FCC), órgão regulador das comunicações eletrônicas naquele país.

Mas isso é nos EUA, que, como todos sabem, é um país “marxista”…

Voltando à dura realidade brasileira, no mesmo Jornal da Globo ainda tivemos Arnaldo Jabor com mais opinião e ainda menos fatos, vociferando sem parar contra Chávez, omitindo, distorcendo, inventando etc.

Nos blogs e sites, os antichavistas pareceram ter enlouquecido com a imortalidade recém-adquirida por Chávez. Virulentos, pornográficos, hidrófobos ao impensável, mentecaptos de todas as idades e de todas as regiões do país tentavam se superar em palavrões, insultos e praguejamentos diversos contra um ser humano que acabara de falecer e que, segundo informações minimizadas e distorcidas da Folha de São Paulo do dia seguinte, reduziu a pobreza na Venezuela de 20% para 7%.

Tanto o telejornalismo da Globo quanto os grandes jornais impressos do dia seguinte simplesmente não deram uma linha sobre o fato de que Chávez conseguiu os maiores avanços em termos de redução da pobreza, da miséria e de distribuição de renda na América Latina, sem falar do feito histórico de ter acabado com o analfabetismo em seu país, conforme referendo público da Unesco.

A impressão que o noticiário sobre a morte de Chávez deu a qualquer um que assistiu ou leu – mesmo às pessoas despolitizadas –, foi de surpresa. Muitos não conseguiram entender a razão de tanto ódio contra alguém que acabara de deixar a vida para entrar na história.

A explicação, porém, já foi dada aqui mesmo poucas horas após o falecimento de Hugo Rafael Chávez Frías: morto, está mais poderoso do que nunca. É relativamente simples destruir os vivos – ainda que, às vezes, como no caso de Chávez ou do próprio Lula, nem tanto. Mas é praticamente impossível destruir um mito.

O que se viu e ainda será visto nos próximos dias, semanas e até anos em termos de hidrofobia político-ideológica contra o falecido Chávez, portanto, não passa de um medo absolutamente visceral que a direita sente de um homem que ergueu a América Latina social e economicamente.

Chavez

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5 Comentários

Arquivado em Política, TV

5 Respostas para “Jornal da Globo e o violento ataque ao recém falecido Hugo Chávez

  1. Teco

    O pessoal da Globo esquece que é preferível ler o que se diz de Chávez
    mundo afora, do que foi dito quando morreu o tal do Dr Roberto. E o que
    dirão , quando em breve partirão os 3 filhotes ?

  2. Felipe Alves

    Oi Rogério, boa noite!

    Peço desculpas mas o comentário que vou fazer aqui não tem relação ao falecido presidente Hugo Chávez.

    Estava eu navegando na Internet quando descobri o seu blog e um texto que você postou me deixou de boca aberta…você escreveu um texto referente a postura elitista de alguns alunos da Universidade Presbiteriana Mackenzie que eram contra a utilização do ENEM no vestibular da Universidade.

    Eu, Felipe Jose Alves, 22 anos, realizei o ENEM e obtive uma nota que credenciou a minha entrada na PUC para cursar Geografia que sempre foi meu grande sonho. Para ter uma ideia, na 7º série do ensino fundamental eu já lia algumas obras de Caio Prado Jr. rsrsrs.

    Infelizmente em tão pouco tempo lá dentro eu já vivenciei momentos constrangedores onde “infelizes preconceituosos” tentaram me intimidar e me diminuir como pessoa. O que eles não sabem é que eu tenho uma irmã que já havia se formado na Universidade pelo Prouni e que a todo momento me incentiva para seguir em frente, onde minha cabeça seria uma fortaleza que ninguém jamais iria invadir.

    Estou escrevendo isso porque minha irmã também se tornou uma historiadora, uma ótima profissional, uma ótima professora. Quando li seu texto eu me lembrei dela e parecia que aquele texto foi escrito por ela, diretamente pra mim rsrsrs.

    Se não fosse pelo Enem e pelo Prouni, minha irmã não se formaria e eu jamais teria a oportunidade de começar o curso. Serei um profissional 2X melhor que àqueles que são contra o Enem e Prouni, pois ao contrário deles eu dou valor de verdade à educação

    Desculpe ocupar seu espaço e seu tempo rsrs, mas parece que não importa o tempo, se foi 100 anos atrás ou se é agora…sempre haverá uma disputa entre as classes sociais…

    At.,

    Felipe J. Alves

  3. No meu modo de entender um editorial reflete a opinião de uma pessoa ou de uma publicação. Assim sendo, pode trazer pontos de vista pessoais que, caso contenham inverdades, calúnias ou difamações obrigam o responsável a responder por elas. O falecido Hugo Chávez sempre provocou reações extremadas, seja de apoio seja de rejeição. Devem ter sido publicados milhares de artigos louvando desbragadamente as realizações chavistas que certamente não mencionam seu lado sombrio. A extrema fragilização da economia venezuelana, cuja dependência do petróleo é total, a perseguição aos veículos de imprensa que lhe faziam oposição, o aparelhamento dos poderes legislativo e judiciário, o sucateamento da indústria e da agricultura do país, entre outras, são questões que não podem ser simplesmente ignoradas, bem como a propria oposição existente no país, como ficou evidente na ultima eleição. Mas, deixando as questões de opinião de lado, o que chama a atenção num artigo de um historiador, nesse momento importante da história, é a ausência de uma análise desse fenômeno latinoamericano chamado caudilhismo. Acho que essa é uma boa hora para uma visão crítica desse modelo tão antigo e próprio de nosso continente e que, quando parece extinto, renasce com força e vigor. Qual sua relação com a situação de desenvolvimento econômico e social dos paises latinoamericanos, que resultados tem trazido ao longo dos séculos. Acho que essa seria uma contribuição mais produtiva do que imaginar que os conservadores, a direita, os americanistas, ou seja lá como chamem, se opõe a esse tipo de governante por que ” tem um medo visceral” de alguém que traz o desenvolvimento e o progresso.

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