Comissão de Direitos Humanos e Minorias: uma análise por Wilson Gomes

O professor Wilson Gomes, titular da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, publicou uma análise sobre a permanência de Marcos Feliciano na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, o qual entendo deve ser repercutida através dos blogs e das redes sociais.

Abaixo segue texto na íntegra do professor Wilson Gomes, tal como publicado em sua timeline do Facebook.

Pois é, amigos, o PSC não só manteve Marco Feliciano na CDHM da Câmara mas ainda mandou um recado: se ele fosse ficha suja sairia, mas a ficha do deputado é limpa – então, fica. A mensagem é clara, não é? Se Genoíno e e João Paulo Cunha podem, por que o Pastor Marco Feliciano, que tem ideias tenebrosas mas a ficha asseadinha, não poderia ficar? Fica, sim, que o PSC faz questão.

“Por que o PSC fez isso?” vocês podem estar se perguntando. Não era melhor livrar-se de Feliciano e salvar a própria imagem? Feliciano já declarou que da Comissão só sairia morto, replicando célebre frase de muitos que saíram sem óbito algum. Feliciano quebra o queixo, mas não larga o osso – é sabido. De resto, o constrangimento era geral. Uma presidência de Comissão da Câmara (alguém aí se lembra do nome do último presidente da CDHM?), que fora uma ou duas não dá a ninguém qualquer sonora no JN, virou uma batata quente para o Congresso Nacional. Como se diz por aí, “o defunto fedeu”. O PT, que abriu mão da CDHM para apostar em cavalos mais importantes para a governabilidade, esqueceu-se da sua parte na bagunça e deu declarações e fez protestos. Até lágrimas eu vi. O PMDB, que tem a presidência da Casa e abriu mão das suas 4 vagas na Comissão para abrir espaço para a galera pesada do PSC, fez de conta que não tinha nada com o Furdúncio e “sugeriu” saídas higienizantes, mas por conta dos “Sociais Cristãos”.

Só que os “sociais cristãos” (ah, Cristo, apesar de ter tido aqueles coleguinhas no Calvário, ainda não aprendeste a escolher as companhias!) não quiseram passar recibo de pau de galinheiro. Bateram o pé uma vez e bateram o pé agora de novo. Possivelmente, de forma definitiva. Estão lá porque ganharam o direito (eleitoral, queridos) de lá estar e não querem ser tratados com cães sarnentos. Nem pensem: a vaca não só está na sala, mas já avisou que não sai. Por que?

Primeiro, não estão de passagem no Congresso. O PSC é pequeno (14 deputados em exercício e 1 senador sergipano), mas a bancada evangélica do Congresso deve ter uns 70 deputados. Seria a terceira maior força do Congresso se fosse um partido. Não se esqueçam que na história da conquista da CDHM da Câmara à dispensa da presidência da Comissão pelo PT seguiu-se o “abrir mão” de vagas por diversos partidos, inclusive o PSDB. Quem abriu mão? A maçonaria evangélica do Congresso pavimentou o caminho do Pastor Feliciano. Só não se deram conta de que tinham passado do ponto, a não ser quando o defunto exalou uns ares desagradáveis. Mas, voltando aos números, entre a 52ª Legislatura e a 53ª, a atual, os evangélicos cresceram 50% na Câmara dos Deputados. Realismo, queridos: estão lá porque têm votos. E a CDHM de Feliciano, o decente, e o ministério de Crivella, o pescador, são apenas o começo. Anotem e aguardem.

Independente disso, há uma lógica na decisão dos “sociais cristãos” (não quero irritá-los ainda mais, mas o lema do partido é “o ser humano em primeiro lugar”). Estamos com cerca de 34 partidos políticos disputando o mercado eleitoral brasileiro. Muitos deles são nanopartidos, quiosques minúsculos, buscando um lugar ao sol. A maior parte não tem gosto de nada, nem ideologia nem sentido. O PSC está numa ponta do mercado eleitoral crescente, ainda pequena e muito concorrida: os neopentecostais, conservadores, socialmente inferiorizados, que encontram no fervor evangélico das igrejas de missão uma identidade e um amparo. Disputa esta ponta com PR, PTC, PDSC e assemelhados.

A demografia eleitoral diz que eles não podem crescer muito, a não ser que virem outra coisa, então precisam se preocupar apenas com o seu público consumidor. Se pudessem crescer, iriam se preocupar em estabelecer pontos, canais de diálogo com o grande público, produzir uma imagem palatável para os jornalistas e a classe média. Mais vale para eles falar para dentro do círculo: aumentar os seus medos, construir demônios para enfrentar juntos, mostrar o sacrifício dos líderes, radicalizar as posições, mostrar a perseguição. E resistir. O seu capital não é bridging (o que cria pontes), mas bonding (o que cria identidades). “Resista, pastor” foi o que mais vi nas redes sociais conservadoras nesses dias. Mutatis mutandis, o PSC faz o mesmo que o PCO e PSTU fazem na sua fatia de mercado eleitoral: radicalizar para criar identidade e sobreviver. Nós somos o não-eles.

Só há uma inconveniente nesta estratégia – a necessidade de coligações e coalizões eleitorais e governamentais. O PSC têm vivido estes anos fornecendo aos grandes partidos, principalmente ao PT, a importante injeção eleitoral majoritária dos votos neopentecostais. Enquanto o presidente, o governo ou o prefeito são do PT (do PSDB ou do Dem, consultem os mapas), o PSC emplaca seus vereadores e deputados. Não é que o PT seja apenas hospedeiro; na verdade, vive em uma peculiar simbiose com partidinhos moralmente conservadores. O problema é que, para isso dar certo, o partido acoplado não pode chamar muito a atenção: tem que entregar o bônus dos votos, sem o ônus de estragar a imagem liberal (ops.. progressista) do partido. Se não, acontece um efeito-Marina: o que entra de um lado, sai pelo outro, de forma que o input evangélico aumentou a vazão ambientalista e as contas não fecharam. Pois é, o que acontece se todo mundo começar a notar que o PSC – doravante o partido dos feios, sujos e malvados – está na coligação eleitoral ou na coalização governamental? O bônus dos votos da arraia-miúda evangélica compensará o estrago da rejeição ao bonde felicianista?

É esperar para ver. Boa noite, meus amigos.

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Arquivado em Política, Preconceito, Racismo, Religião

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