Uma história de amor e fúria: uma narrativa da história brasileira através do desenho animado

Estréia hoje (05/04/2013) nos cinemas brasileiros a animação Uma História de Amor e Fúria. Segundo seu diretor, Luiz Bolognesi, um longa-metragem que reflete a história do Brasil ao narrar a trajetória de um personagem que viveu quase 600 anos e testemunhou diversos momentos da história do Brasil.

Segundo Bolognesi, o projeto nasceu de um desejo pessoal de unir história do Brasil com HQ, na tentativa de contar uma história “que nunca foi contada”. Em entrevista a Revista Brasileira de Cinema, Bolognesi, que é jornalista de formação, afirma que a história do Brasil que aparece em seu filme, não é a história que se costuma ver nos livros didáticos, mas sim uma história de quem foi além das versões da história oficial e de quem foi ouvir a versão dos perdedores e dos massacrados e não a de quem massacrou e construiu a estátua para o general responsável pelo massacre.

De modo bastante sucinto, explica ainda que para escrever o roteiro de seu filme, ele foi “visitar a história” para questioná-la, no intuito de desvelar como era esse outro lado da história que foi “varrido para debaixo do tapete”. Portanto, segundo o autor do longa-metragem, “a pegada geral” de seu filme é contar um pouco essa história que foi varrida para debaixo do tapete, isto é, levantar o tapete e mostrar ao seu público a verdadeira história do Brasil que estava escondida e que ninguém havia revelado ainda. Abaixo segue a entrevista de Luiz Bolognesi à Revista Brasileira de Cinema.

Obviamente, na entrevista não há menção de métodos ou das fontes utilizadas para a escrita desse roteiro que pretende contar uma história do Brasil jamais escrita. Tampouco se revela quem são os responsáveis por varrer a história do Brasil para debaixo do tapete e ali deixá-la até que Bolognesi e sua equipe conseguissem levantá-lo para exibir a verdadeira história do Brasil através de sua animação. Há apenas uma presunção de que há uma história não contada, que não há interesse em contá-la e que foi necessário um jornalista/cineasta se interessar no assunto para que ela saísse debaixo do tapete onde era mantida. Além disso, claro, há uma confusão pueril de que a história dos livros didáticos é a “história oficial” e uma maneira bastante ultrapassada de narrar a história do Brasil, narrativa que, pelos avanços da História, já não cabe mais em nosso século, para quem pretende escrever qualquer trabalho que se pretende histórico (na verdade, já não cabia no século passado).

Ambientado num Rio de Janeiro do futuro, com imagens do Cristo Redentor com os braços caídos, o filme volta no tempo e pretende mostrar a verdadeira história do Brasil a partir do fio condutor de uma história de amor, que começa no século XVI e vai se arrastando no tempo até o final do século XXI, graças a um personagem que não morre em todo esse tempo, tendo vivido e testemunhado esses quase 600 anos de história, apaixonado por Janaína, que geração após geração vai reencarnando no Brasil para, assim, continuar sua história de amor através do tempo.

Segundo Daniel Grecco, supervisor de produção do filme, a animação visa atingir um público jovem, em idade escolar, mas sua mensagem atinge a todos os públicos. Portanto, se o objetivo é fazer com que o filme seja visto pelo maior número de pessoas, como disse Luiz Bolognesi em uma sessão de lançamento exclusiva para professores e alunos da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, não poderia haver melhor escolha do que Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro para fazerem as vozes dos principais personagens da animação.

Abaixo o teaser para divulgação da animação:

Do teaser acima, gostaria de destacar as seguintes frases, que aparecem logo no princípio:

Viver sem conhecer o passado é andar no escuro”.

“Nossas memórias não são datas num livro, são histórias vivas, cheias de amor e fúria. Como eu sei disso? Estou vivo há quase 600 anos. Eu vi muita coisa.”

Pelas frases acima, percebe-se um flerte com ideia de “História mestra da vida”, segundo a qual a história serve para ensinar os homens os erros do passado para que não se volte a cometê-los no futuro. Na sessão exclusiva realizada com alunos e professores da rede pública de ensino do Rio de Janeiro, as palavras do estudante Yuri, não deixam dúvidas (avançar o filme até o 2:22 para ver a declaração de Yuri):

“Historia magistra vitae” é um conceito antigo, que aparece em Cícero e que foi bem analisado por Fernando Cartoga, da Universidade de Coimbra, em artigo publicado na revista Estudos Ibero-Americanos, da PUC-RS. Artigo, aliás, que recomendo aos que se interessarem por saber mais sobre alguns problemas da historiografia. Aqui neste espaço, gostaria apenas de deixar algumas perguntas ao diretor e roteirista do filme, Luiz Bolognesi, que são apenas uma amostra mínima dos questionamentos com os quais um historiador de ofício deve se preocupar antes de pensar em escrever uma narrativa que se pretende histórica:

  1. Será que a melhor forma de contar uma história do Brasil que jamais foi escrita é através de uma narrativa do tipo “historia magistra vitae”, já utilizada por um historiador romano um século antes de Cristo e que passa a ser questionada pela historiografia do século XIX e XX?

    Cicero

    Marco Túlio Cícero (106 a.C – 43 a.C.)

  2. Será mesmo que hoje, em pleno século XXI, aquele que vai escrever uma narrativa histórica deve continuar a enxergar o devir histórico, ou se preferir, o tempo histórico, da mesma forma como Cícero o encarava para contar a história de Roma?
  3. Nós, que escrevemos História hoje, devemos continuar representando o tempo histórico como um itinerário possível de ser determinado e, portanto, que impede o surgimento do novo, já que todas as respostas estão no passado?
  4. Por fim, tal como pergunta Fernando Cartoga em seu artigo: “poderá acolher a experiência do novo, quando a história é apresentada como um encadeamento necessário, no qual, em última análise, a ideia apriorística de fim se encontra insinuada desde a origem?”

Quanto a escolha do narrador dessa “história dos perdedores”, Luiz Bolognesi optou por fazer uso de uma TESTEMUNHA OCULAR da história que, por ter vivido quase 600 anos, viu tudo (ou muita coisa) e, em função disso, poderia contar essa história com [mais] propriedade do que qualquer outro. Aqui, parte-se também de um antigo pressuposto de que, por ser narrada por quem viu e testemunhou os acontecimentos no calor do momento, a história narrada por este indivíduo seria verdadeira e não poderia ser contestada por alguém que não tivesse visto o que se passou. Como os historiadores costumam dizer, trata-se de uma visão muito positivista da História. A valorização do documento histórico acima de tudo, ou em outras palavras, é o documento histórico quem conta o que se passou. O trabalho do historiador é apenas encontrar o documento e jogar luz em seu conteúdo.

No mundo artístico brasileiro, a ideia explorada pelo filme não é nova, Raul Seixas já brincava com ela na década de 1970 quando escreveu “Eu nasci há 10 mil anos atrás”. Em sua música, Raul descreve ter testemunhado diversos momentos históricos vividos pela humanidade, desde a queda da Babilônia, passando pelo nascimento de Jesus, até o extermínio dos judeus pela Alemanha nazista. Contudo, no fim da canção, Raul Seixas ironiza a versão da história que ele próprio está contando ao levantar a possibilidade de haver algumas mentiras em sua narrativa: “(…) e para aquele que provar que eu estou mentindo, eu tiro o meu chapéu”. Abaixo o clipe da música de Raul Seixas.

Gostaria de finalizar o post, deixando apenas essas considerações registradas por ter me incomodado com a maneira como Luiz Bolognesi fala da história do Brasil e do papel dos historiadores na entrevista que concedeu a Revista Brasileira de Cinema. Escrever história é bastante complexo, requer uma erudição muito grande e, ao contrário do que se pensa, não é algo que se pode fazer simplesmente consultando enciclopédias e ouvindo um par de pessoas nas ruas. Bolognesi me pareceu bastante leviano ao confundir a “história oficial” (se é que existe uma história oficial) com a história dos livros didáticos, e mostrar um profundo desconhecimento da existência de inúmeros trabalhos de historiadores brasileiros à respeito das minorias massacradas nas diferentes temporalidades abarcadas por seu filme.

Ao contrário do que ele pensa, a história que ele pretendia contar com seu filme, já foi escrita sim e não apenas por um, mas por centenas e centenas de trabalhos de historiadores que estudaram anos a fio e pormenorizadamente seus objetos para, ao fim e ao cabo, escreverem suas narrativas que jamais pretendem esgotar o assunto ao qual se propuseram estudar. Aquilo que ele alega estar debaixo do tapete e que jamais foi escrito pela “história oficial”, tendo sido necessário ser desvelado por um jornalista/cineasta com sua animação, já foi revelado por tantos e tantos trabalhos de historiadores há décadas, não havendo, portanto, novidade histórica alguma em seu filme.

Cabe agora assistir ao filme na íntegra para ver se há alguma surpresa ou outras maneiras como o diretor optou por contar sua história do Brasil. Por enquanto, fico com a sensação de que a ideia é interessante, o formato escolhido para o filme também, mas a visão que o diretor tem sobre História, bem como as escolhas de narrativa para contar a sua versão dos oprimidos, deixaram muito a desejar, especialmente para quem tinha a pretensão de contar uma história do Brasil que nenhum historiador tinha descoberto ainda ou, no pior dos casos, preferido deixar debaixo do tapete. Nesse sentido (revelar uma história do Brasil inédita), mesmo sem tê-lo visto na íntegra posso afirmar que o objetivo do autor não se concretizou e, portanto, trata-se de um retumbante fracasso. Quanto ao filme em si, entendo que no fim, pode até ser uma boa diversão. Apenas isso, um bom entretenimento.

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4 Comentários

Arquivado em Cinema, Cultura, Filmes

4 Respostas para “Uma história de amor e fúria: uma narrativa da história brasileira através do desenho animado

  1. Então, as críticas do seu texto são bastante duras, suficientes para que eu tenha ido atrás da entrevista para a Revista de Cinema, e ao menos na versão eletrônica disponibilizada no dia 03/04 (http://revistadecinema.uol.com.br/index.php/2013/04/entrevista-luiz-bolognesi/), considerei que a sua crítica não procede. Pelo menos não do que se tira dessa entrevista específica.

    Primeiro porque é bem salientado que o filme é um trabalho de ficção, em nenhum momento ele disse que deveria ser uma versão definitiva sobre a históri. Em relação a história mestra da vida, o único que vi dizer algo que claramente pudesse ser alinhado com essa visão foi o menino na entrevista, por sinal uma criança em idade escolar e que provavelmente deve ter ouvido isso a vida toda porque faz parte do senso comum (não acho que devamos ser fiscais do senso comum).

    Ele indica como fonte de pesquisa o Puntoni e não sei mais quem, além de ter cursado Sociais, e ter consultado especialistas, não acho que o trabalho filmico tivesse que ser pautado nos trabalhos individuais desses especialistas, muito menos que devesse estar sob o julgo dessas disciplinas. Nem acho que filme tenha que ter nota de rodapé, mesmo porque é uma ficção.
    Em termos de temporalidades propriamente ele deixa bem claro que apesar de o recorte ter um contínuo temporal a perspectiva é antropológica, logo…

    Enquanto narrativa como um todo ele expressa a preocupação de não cosntruir uma leitura maniquísta dos personagens, bem como deixar claro o processo de lutas sociais e tal. Eles elencaram 40 episódios da nossa história e segundo o diretor escolheram 3, não por serem determinantes entre si, mas pelo valor que cada um tinha em seu próprio momento histórico [“Depois ficamos em dúvida entre a Balaiada, a Revolta dos Malês e a Cabanagem. Escolhemos a Balaiada porque foi nesse momento que nasceu o cangaço e o exército brasileiro. Hoje em dia, o neocangaço está nas favelas.”] Chamar as relações que ocorrem nas favelas é uma analogia, mas dizer que o cangaço surgido na balaiada é precursor dos primeiros é uma inferência bem grande.

    Por fim, não vejo a escolha por uma narrativa de testemunho como exclusivamente uma pretensão de ser uma versão definitva, mas associo muito mais a história oral e ao próprio movimento que faz a antropologia. Bom, é isso, acho que vejo o filme semana que vem, vamos ver como fica essa história toda.

  2. Olá Flávia,

    Então, meu post e minhas críticas foram feitos com base na entrevista que o Luiz Bolognesi concedeu a Revista Brasileira de Cinema (RCB). Acabo de ler a entrevista que você postou em seu comentário e, ainda assim, acho que as críticas continuam bastante pertinentes. Na verdade, ainda mais.

    Outro dia conversava com Célia Regina sobre a questão da regulamentação da profissão de historiador e Célia defendia uma postura mais radical com relação a quem poderia considerar seu trabalho como sendo histórico, na medida em que não utiliza os métodos e as fontes próprias do historiador. O problema, no caso do filme de Luiz Bolognesi, foi o fato de ele ter concedido uma entrevista onde ele afirmou, literalmente, que seu trabalho pretende “contar uma história que nunca foi contada”. Não sou eu que interpretei o que ele disse, foi o próprio diretor quem afirmou que “a história do Brasil que aparece em seu filme, não é a história que se costuma ver nos livros didáticos, mas sim uma história de quem foi além das versões da história oficial e de quem foi ouvir a versão dos perdedores e dos massacrados e não a de quem massacrou e construiu a estátua para o general responsável pelo massacre”. Portanto, ao fazer tais afirmações, o diretor do filme não entende sua obra como mera “ficção”, como você apontou, mas sim, que ele traz embutida em si, por trás de uma historinha de amor, uma história do Brasil que jamais foi contada antes e, pior, foi mantida por debaixo do tapete com anuência dos “historiadores oficiais”.

    Oras, assim como a Célia me falava acaloradamente neste outro dia, como é que um jornalista [ou ex-estudante de Ciências Sociais], pode fazer tais afirmações e, ainda por cima, entender que seu filme se trata de uma história do Brasil inédita, quando sequer ele respeitou métodos e fontes próprios de um trabalho histórico? No máximo, poderíamos classificar o roteiro como um “romance histórico” ou uma obra de ficção com base em alguns estudos históricos. Jamais uma obra de cunho histórico tal como ele descreveu na entrevista à RCB. Meu post veio criticar justamente uma percepção generalizada de que, para escrever um trabalho de História, basta fazer uso de umas enciclopédias e consultar duas ou três pessoas e pronto. Está lá uma obra que, além de tudo, revela uma série de coisas que os historiadores jamais perceberam ou fizeram questão de deixar debaixo do tapete.

    Quanto ao fato do “história mestra da vida”, minha crítica foi feita com base nas duas frases que destaquei e na percepção que o estudante teve após assistir o filme (aliás, percepção compartilhada pela imprensa que, ao divulgar o filme, destaca justamente o futuro distópico representado na parte final do filme, no qual a humanidade vive com baixo suprimento de água). Não quero ser fiscal de senso comum, aliás, muito longe disso. Estou apenas tentando perscrutar se a obra produzida por Bolognesi é coerente com as altas ambições de quem afirma ter produzido uma obra de história do Brasil jamais escrita. As frases que destaquei, a percepção que o garoto teve do filme, assim como a divulgação feita pela imprensa, dão-me indícios de que ele tenha feito uso sim de uma narrativa à moda antiga. A se confirmar essas impressões, só teria que lamentar a escolha por uma representação do tempo histórico tão ultrapassada para quem afirma ter tamanhas pretensões no campo do conhecimento histórico, além do gasto de tanto tempo com pesquisa e com consultoria de especialistas na área.

    Também não acho que o trabalho fílmico tenha que ter notas de rodapé. Muito pelo contrário, acho que os filmes, assim como outras obras de ficção, devem estar livres das amarras do conhecimento acadêmico. Contudo, o problema surge quando o próprio diretor confunde sua obra de ficção com uma produção de cunho acadêmico. Foi exatamente o que ele fez ao conceder a entrevista à RBC e dizer que seu filme apresentaria ao mundo a história do Brasil que estava escondida debaixo do tapete. Oras, com tais afirmações, o diretor simplesmente retira seu filme do campo ficção e o coloca mais próximo do campo acadêmico, no qual o mesmo deve ser analisado e criticado com o rigor próprio dessa área. Não se trata de querer subjugar a produção fílmica ao conhecimento histórico e antropológico, mesmo porque seria ridículo, mas é de querer chamar atenção do diretor que ele está exagerando ao considerar seu filme como uma OBRA DE HISTÓRIA, o que ele não é. Trata-se apenas de uma mera ficção inspirada em fatos históricos.

    Em termos de temporalidades, a própria maneira como ele concebe um futuro distópico reforça ainda mais a ideia de tempo histórico linear, fechado, possível de ser determinado e que, portanto, impede o surgimento do novo. Tal concepção de tempo histórico é totalmente compatível com “história mestra da vida” de Cícero, já que nessa representação, o futuro é determinado pelo passado ou, se preferir as palavras dele, iluminado por ele. Uma concepção de História determinista e que se aproxima bastante de uma concepção teleológica, na qual o futuro é determinado pelo passado, não importa as ações e as lutas dos personagens históricos.

    Se considerarmos a entrevista que você postou em seu comentário, a percepção de que a escolha da representação do tempo histórico foi totalmente equivocada somente aumenta. Na entrevista, Bolognesi revela a concepção da direção de arte para cada uma das etapas da jornada do HERÓI [palavras dele]. Segundo esse conceito, a história do HERÓI seria contada em fases e as cores escolhidas para contar cada uma dessas fases representam uma estação do ano: descobrimento = primavera; balaiada = verão; ditadura = outono e futuro = inverno. Oras, a representação do tempo histórico em fases é algo tão antigo quanto a própria história e era uma estratégia de narrativa utilizada pelos próprios gregos em seus épicos [por isso destaquei também a palavra HERÓI]. Soa até bastante engraçado ele ter dito não se alinhar tanto a influência da matriz greco-romana de seu trabalho quando, na verdade, em sua representação do tempo, a IDADE DE OURO da humanidade está no passado, assim como era entre os gregos.

    Para Bolognesi, a história é representada em fases [quatro fases], sendo que ao contrário dos positivistas, ao invés de caminhar para o progresso da humanidade, ela caminha para sua destruição. [Aliás, para quem afirma que pretende contar a história dos massacrados, bastante estranho a história começar a partir do descobrimento e o protagonista ter 600 anos]. Enfim, nada tão velho e tão datado, historiograficamente, do que essa concepção de tempo histórico.

    Uma vez mais, a visão determinista que ele tem dos processos históricos é um erro primário que qualquer aluno do segundo ou terceiro ano de história evitaria antes de fazer qualquer afirmação mais peremptória, como você salientou em seu próprio comentário. Como sustentar que o cangaço e o Exército Brasileiro nascem com a Balaiada? Ou ainda, que o que está ocorrendo nas favelas hoje em dia é o que ele denominou de “neocangaço”? Será mesmo que os fatos mais importantes do século XX no Brasil foram a Revolução de 30 e a Ditadura Militar?

    Eu sei que cada um puxa a sardinha pra sua brasa. Já vi historiadores afirmando que o Exército Brasileiro nasce mesmo com a Guerra do Paraguai, ou ainda, a partir de outros eventos, e relacionam dezenas ou centenas de trabalhos e fontes que corroboram com suas afirmações. Agora fica difícil quando isso parte de um Jornalista/Cineasta que, por estar fazendo uma obra de ficção, não teria nenhum compromisso em sustentar tal afirmação, mas que ao afirmar se tratar de uma obra de cunho histórico, deveria ter sim tal compromisso. Será que seus consultores referendam as afirmações que ele faz em entrevistas?

    Bom, é isso. Também quero ver o filme para ver se minhas percepções se confirmam ou não. Contudo, não retrocedo em relação às minhas críticas iniciais em relação a entrevista que ele concedeu à Revista Brasileira de Cinema. Toda essa discussão [e até mesmo o post] não existiria se ele tivesse deixado claro que seu filme se trata de uma obra de ficção, sem nenhuma pretensão de contar a história do Brasil jamais contada por historiadores incompetentes ou mal intencionados.

    • É vendo comentários como estes contrários ao filme que fico assustado com a proposta de regulamentação da profissão de historiador: vocês estão, no fundo, desejando construir um tribunal inquisitorial que dirá o que é e o que não é ofício histórico.

      Não assisti ao filme e nem pretendo fazê-lo, pois ele me parece desinteressante enquanto CINEMA. É assim que se deve analisá-lo, não como obra histórica que ele não quer ser: o que o diretor diz deve ser considerado na análise do filme enquanto produção cinematográfica, como um dado para entender determinadas escolhas cinematográficas. É óbvio que o diretor está instrumentalizando a história: é isto o que ocorre em qualquer produção cultural em um sistema de cultura de massas.

      Daqui a pouco vão mandar prender os autores de novelas “de época” por atentarem contra o “bom método”. Impedirão que se montem peças teatrais sem a bibliografia adequada, devidamente referendada pelo mais bem definido conselho de notáveis. Proibirão exposições de arte que não tenham sido organizadas por um historiador (que, aliás, pode não entender nada de arte e confundir Manet com Monet…), pois, afinal, precisamos proteger os leigos inocentes de um equívoco historiográfico qualquer. Os leigos, afinal, são seres sem qualquer capacidade crítica e sua inocência deve ser protegida dos malvados positivistas e deterministas!

      E, para manter a provocação que já fiz aqui e ali, mandarão demitir o Antônio Cândido da USP pelo fato dele OUSAR lecionar história da literatura e sequer possuir diploma de História!

      O Conselho Nacional de História também vai publicar uma lista de livros proibidos? Haverá uma lista negra?

      Gente, estudem um pouquinho de semiologia, análise do discurso, história da arte, teoria crítica e (perdõem a provocação, pois já vi que vocês não gostam de antropólogos!) antropologia da performance, entre outros, pois nunca vi tantos comentários POSITIVISTAS a respeito das representações sociais quanto nesta crítica ao filme. Vocês realmente acham que uma representação deve ser expressão da verdade histórica?

      O que sinto é que se deseja “proteger” a sociedade do mau uso da história, em uma iniciativa policialesca e, em certo sentido, messiânica (além, obviamente, de paternalista e corporativista).

      Em outros tempos também já se procurou defender a sociedade de intelectuais que ousavam transgredir as normas acadêmicas correntes. Creio que vocês, historiadores, sabem melhor do que eu os resultados disto.

      Parabéns: se a regulamentação da profissão continuar, o que vocês criarão será um monstro inquisitorial.

      • Olá Gabriel,

        Sugestões de estudos devidamente anotadas. Já quanto a suas preocupações empregatícias, entendo já haver recomendado em outro post que não se preocupe tanto, basta escolher uma instituição que contenha historiadores no corpo dos funcionários e poderá manter sua posição tranquilamente. Da mesma forma, Antonio Cândido, Ulpiano Bezerra de Meneses e todos os outros que você mencionou anteriormente jamais serão impedidos de dar aulas de História da Literatura e demais especialidades, uma vez que nos quadros da USP e de seus museus há historiadores em quantidade.

        Quanto ao uso de palavras como “inquisitoriais”, “index prohibitorum” e afins, acho que você força a mão em sua provocação/interpretação. Talvez um conhecimento histórico mais aprofundado sobre o funcionamento dos Tribunais do Santo Ofício, sua estrutura e métodos o fariam perceber que qualquer aproximação entre isso e a regulamentação da profissão de historiador é absurdo risível. Fica a sugestão.

        Att.

        RB

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