Arquivo do mês: maio 2013

Documentário They Are We, de Emma Christopher, estabelece conexão cultural entre Cuba e Serra Leoa

Interessante matéria de Emma Christopher, publicada em abril na revista The Atlantic, destaca como o documentário They Are We, de Sérgio Leyva Seiglie, teria ajudado alguns cubanos a descobrirem que são descendentes de escravos sequestrados de uma pequena aldeia localizada em Serra Leoa.

De modo geral, a descoberta se deu há alguns anos, quando o chefe de uma pequena aldeia de Serra Leoa viu que um grupo de cubanos dançavam e cantavam canções em uma língua que, para eles próprios, era desconhecida, todavia muito familiar ao chefe Pokawa da vila de Mokpangumba.

Embora a matéria tenha o claro interesse utilizar essa história para fazer uma crítica ao governo de Cuba (especialmente no período de Fidel Castro), ainda assim achei que valia a pena traduzi-la e repercuti-la aqui no Hum Historiador, pois muitos dos leitores do blog não conseguem identificar nos posts que publico as relações entre o passado de um país que viveu intensamente o regime de escravidão e o presente. Não enxergam, sequer, as ligações entre América-África a partir de seu produto mais óbvio, a herança cultural africana que, após séculos e séculos de sucessivos ataques, ainda persiste.

Abaixo segue uma tradução livre que preparei da matéria tal como foi publicada na revista.

COMO MORADORES DE VILAREJOS DE CUBA DESCOBRIRAM QUE SÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS DE SERRA LEOA

A incrível história das canções e danças tradicionais, passadas por séculos, que ligaram um pequeno grupo étnico caribenho a uma remota tribo africana.

por Emma Christopher | publicado originalmente em 22 de abril de 2013 para The Atlantic

Barmmy Boy Mansaray, é um cameraman de Serra Leoa que trabalhou para o documentário “They Are We”. (Sergio Leyva Sieglie)

O chefe Mabadu Pokawa mal pode acreditar. Sua voz oscilava um pouco entre espanto e esperança, perguntando onde eu havia gravado as canções e danças que ele estava assistindo na tela de meu laptop em sua pequenina e isolada aldeia em Serra Leoa.

Há uma razão para sua descrença. Quando as pessoas da tela não estão cantando em uma língua que, de outro modo, já foi esquecida há muito tempo, estão falando o espanhol rápido à maneira cubana. Eles claramente não são da aldeia de Pokawa, onde poucos falam o inglês dos que passaram pelas escolas e ninguém fala o espanhol.

No entanto, por tudo isso, as pessoas de Perico, Cuba são daqui. São gente de Pokawa, ancestrais que foram exilados séculos atrás como escravos.

A vila de Mokpangumba do chefe Pokawa é implacavelmente pobre, condenada pela geografia assim como pela história. Deixada de fora das estradas ao redor pelas curvas e voltas do rio Taia, seus moradores não tem outra água se não a do fluxo acastanhado do rio e também não contam de nenhum modo com instalações sanitárias. Eletricidade está aquém de suas aspirações. Pokawa, como a maior parte dos homens, planta para sua subsistência, cultivando arroz, inhame e banana para suplementar o peixe que retira do rio.

Agora Pokawa e seu povo estão prontos para celebrar o retorno daqueles que se acreditava há muito terem se perdido. Os habitantes da vila estão todos ocupados se preparando. Cabanas estão sendo preparadas para os visitantes e sacos vazios de arroz estão sendo recheados com folhas para o preparo dos colchões. Um banheiro rudimentar foi cavado e algumas colheres foram colhidas para as refeições, cientes de que os visitantes estão acostumados a tais luxos. Insistindo que eles mesmos contribuem para a celebração pela chegada dos cubanos, os anciãos da vila deram metade do peixe necessário para um banquete para 800 pessoas. Uma coleção de contas sujas de pequeno valor foi tomado para pagar por metade do óleo de palma e pimentas que serão necessárias.

Eles foram inflexíveis sobre todos terem ido embora. Pessoas que cantam as canções da vila – ritmos e melodias que os unem a essa aldeia inacessível – são considerados gente da família. “Nossos avós que nos contaram as histórias sobre nossa gente indo daqui como escravos, sabemos agora que eles não estavam mentindo,” disse Joe Allie, um ancião da villa e tio de Pokawa.

“Esses devem ser nosso povo, “ diz Solomon Musa, um jovem que trabalha como professor na vila, “quando vimos as pessoas que praticam as mesmas coisas que nós costumamos fazer, ficamos muito felizes e cheios de alegria.”

Há uma ideia generalizada de que os africanos são indiferentes ao destino dos descendentes de escravos espalhados pelas Américas. Essa crença nasce em grande parte da tragédia de que a vasta maioria dos que saíram com a diáspora africana ficaram com muito pouco das línguas específicas, culturas, ou crenças que poderiam uni-los a um lugar particular de origem. A insensibilidade total da escravidão, a destruição sem fim das famílias, e o enorme peso das décadas que se passaram contribuíram para atenuar muito do que originalmente cruzou o oceano com os seus antepassados. Na ausência desses laços, alguns afro-americanos tem ido a locais centrais de comemoração, tais como a Ilha Gorée ou o Castelo Cape Coast, em busca de tudo o que foi perdido. Aqueles que esperaram por uma conexão individual com a terra de origem tem, por vezes, relatado um certo desapontamento com esses lugares. Eles são áreas de turismo, no fim das contas. Além disso, a pele escura aqui é norma, de modo que ela só é muito pouco para simbolizar parentesco ou afinidade se não estiver amparada por uma língua, cultura ou experiência partilhada.

Pokawa e seu povo, em contrapartida, encontrou alguns dos seus parentes perdidos nas Américas. Este pequeno grupo de pessoas em Cuba – um país que eles pouco ouviram falar a respeito – cantando e dançando suas músicas, foi um presente de Deus. Ou, mais apropriadamente, de Deus e Allah, ambos adorados aqui lado a lado. Mantidos de fora da mídia e de quase todo sistema educacional do ocidente, para eles as pessoas tomadas como escravas para o comércio transatlântico de escravos ainda são chamadas por seus nomes antigos, invocadas como os perdidos. Havia Gboyangi. Bomboai. Havia uma garota jovem que estava prestes a se casar.

Teaser oficial do documentário THEY ARE WE  de Emma Christopher no Vimeo.

Mas, com meu ceticismo acadêmico, duvidei que poderia ser verdade. Retornei a Cuba e aos arquivos e registros, buscando por alguma evidência escrita de como isso deve ter acontecido. A história inteira, exata provavelmente jamais será recuperada, mas uma mulher específica e seus descendentes preservaram uma série de canções e danças parecidas o bastante para serem claramente identificadas.

O que nós sabemos é que havia uma garota chamada Josefa, sequestrada de sua terra natal na década de 1830, que sobreviveu muito mais do que os sete anos típicos dos engenhos cubanos, em meados do século dezenove. Na verdade, ela viveu até uma idade avançada, tempo suficiente para experimentar a liberdade, e ensinar a sua bisneta Florinda sua herança africana. Forinda, por sua vez, ensinou seu neto, que ela criou desde a infância. Seu nome é Humberto Casanova, agora ele mesmo um bisavô. É a Casanova e três de seus amigos por quem Pokawa e seu povo estão esperando.

O esforço de manter as canções e danças vivas é especialmente notável, pois desde o começo da década de 1960 até o fim da década de 1980, suas performances foram proscritas de Cuba. Fidel Castro restringiu atividades culturais e religiosas afro-cubanas da mesma forma como barrou o catolicismo e outras fés. Foi apenas em tempos mais recentes que elas foram permitidas a ser celebradas abertamente, e poucos grupos lograram ressuscitar suas canções, danças e rituais. De alguma forma Humberto Casanova e sua fiel assistente Magdalena (Piyuya) Mora conseguiram realizar esse feito singular. (Aos 85 anos de idade, Piyuya está muito frágil para fazer a viagem a Serra Leoa, então será representada por seu sobrinho, o entalhador Alfredo Duquesne.)

Levou dois anos para se obter a permissão para a visita, e estas só foram possíveis recentemente em função do relaxamento das leis de viagem em Cuba. Nesses dois anos eu voltei a Serra Leoa diversas vezes para mantê-los a par do andamento da viagem, sem esquecer da ironia de que, 180 anos depois, os africanos são muito pobres para retirarem certidões de nascimentos que lhes permitiriam obter passaportes, enquanto os cubanos descendentes dos escravos não são tão livres para viajar como gostariam. O pessoal da aldeia jamais desistiram de ter esperanças. Eles esperaram por 170 anos pelo retorno de seus antepassados, afinal de contas, o que são alguns meses a mais?

O que esta visita significa para Pokawa e seu povo é quase impossível de compreender plenamente. As pessoas aqui são definidas por suas relações familiares, com muito pouco da pessoa existindo além da unidade familiar. Como reincorporar pessoas que se foram a tanto tempo, que agora falam uma língua diferente mas que, inescapavelmente, são seus parentes, é uma questão que pode apenas ser tratada através da aceitação de coração aberto. Apenas saber que eles estão vivos, que sua cultura floresceu em algum outro lugar, é maravilhoso. Pokawa estendeu o convite para que eles permanecessem na aldeia o quanto quisessem, o que para esta viagem será apenas uma semana.

Assim como os tambores da celebração estão sendo preparados, o “diabo” também está, uma dançarina fantasiada com ráfia dos pés à cabeça e com painéis de madeira em suas costas, representando todos os ancestrais. Pois os ancestrais estão, finalmente, dançando com prazer e alegria.

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Antônio Cândido e a difícil arte de indicar dez livros [mais um] para se conhecer o Brasil

Republicado recentemente no Blog da Boitempo, em 17/05/2013, abaixo segue um artigo retirado da revista Teoria & Debate, no já longínquo ano 2000. Nele o sociólogo, crítico literário e ensaísta Antônio Cândido justifica sua escolha para a elaboração de uma lista de dez livros necessários para quem deseja conhecer o Brasil e, de modo bastante suave, burla a encomenda que lhe foi feita, nos presenteando com bem mais do que os dez livros da proposta original.

ANTÔNIO CÂNDIDO INDICA DEZ LIVROS [ou mais] PARA CONHECER O BRASIL

por Antônio Cândido*

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.

Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.

Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora.

São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.

Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.

Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”.

Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução: História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.

Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.

Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.

Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler também Formação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material.

Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) e O movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).

Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império (1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II.

A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras.

Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas.

Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) é Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930).

O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes, A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política.

Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.

No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc.

* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000

Antonio Cândido é sociólogo, crítico literário e ensaísta.

Resumo das indicações de Antônio Cândido:

  1. O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro;
  2. Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda;
  3. História dos Índios do Brasil (1992), de Manuela Carneiro da Cunha;
  4. Ser escravo no Brasil (1982), de Kátia de Queirós Mattoso;
  5. Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre;
  6. Formação do Brasil contemporâneo, colônia (1942), de Caio Prado Júnior;
  7. A América Latina, males de origem (1905), de Manuel Bonfim;
  8. Do Império à República (1972), de Sérgio Buarque de Holanda;
  9. Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha;
  10. Coronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal;
  11. A revolução burguesa no Brasil (1974), de Florestan Fernandes.

Outras obras sugeridas à revelia do limite proposto:

  1. O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco;
  2. A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes;
  3. A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart;
  4. D. João VI no Brasil (1909), de Oliveira Lima;
  5. O movimento da Independência (1922), de Oliveira Lima;
  6. Um estadista do Império (1897, de Joaquim Nabuco;
  7. A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems;
  8. Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni;
  9. Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento.

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Pedro Saraiva: Sobre a vinda dos 6.000 médicos cubanos

Ainda continuando o assunto da vida dos 6 mil médicos cubanos, aproveito para republicar matéria que li no VIOMUNDO e que foi retirada do Blog do Nassif. Acredito que o post abaixo respondem aos comentários de Maria Elizabeth Difini e Carvalho em minha postagem anterior.

A QUESTÃO DA VINDA DOS MÉDICOS CUBANOS AO BRASIL
Por Pedro Saraiva, no blog do Nassif

publicado em 9 de maio de 2013 às 9:43

Olá Nassif, sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil. Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.

– O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Antônio Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.

– Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.

– Portugal já importa médicos cubanos desde 2009. Aqui também há dificuldade de convencer os médicos a ir trabalhar em regiões mais longínquos, afastadas dos grandes centros. Os cubanos vieram estimulados pelo governo, fizeram prova e foram aprovados em grande maioria (mais à frente vou dar maiores detalhes deste fato).

A população aprovou a vinda dos cubanos, e em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes. Portanto, um dos países com melhores resultados na área de saúde do mundo importa médicos cubanos e a população aprova o seu trabalho.

– Acho que é ponto pacífico para todos que médicos estrangeiro tenham que ser submetidos a provas aí no Brasil. Não faz sentido importar profissionais de baixa qualidade. Como já disse, o próprio ministro da saúde diz concordar com isso. Eu mesmo fui submetido a 5 provas aqui em Portugal para poder validar meu título de especialista. As minhas provas foram voltadas a testar meus conhecimentos na área em que iria atuar, que no caso é Nefrologia. Os cubanos que vieram trabalhar em Medicina de família também foram submetidos a provas, para que o governo tivesse o mínimo de controle sobre a sua qualidade.

Pois bem, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Fui procurar dados sobre o Revalida, exame brasileiro para médicos estrangeiros e descobri que no ano de 2012, de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Há algo de estranho em tamanha dissociação. Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?

Seria bem interessante que nossos médicos se submetessem a este exame ao final do curso de medicina. Não seria justo que os médicos brasileiros também só fossem autorizados a exercer medicina se passassem no Valida? Se a preocupação é com a qualidade do profissional que vai ser lançado no mercado de trabalho, o que importa se ele foi formado no Brasil, em Cuba ou China?

O CFM se diz tão preocupado com a qualidade do médico cubano, mas não faz nada contra o grande negócio que se tornaram as faculdades caça-níqueis de Medicina. No Brasil existe um exército de médicos de qualidade pavorosa. Gente que não sabe a diferença entre esôfago e traqueia, como eu já pude bem atestar. Porque tanto temor em relação à qualidade dos estrangeiros e tanta complacência com os brasileiros?

– Em relação este exame de validação do diploma para estrangeiros abro um parêntesis para contar uma situação que presenciei quando ainda era acadêmico de medicina, lá no Hospital do Fundão da UFRJ.

Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer sua profissão. Como era de se esperar, o rapaz foi submetido a um exame, que eu acredito ser o Revalida (na época realmente não procurei me informar). O fato é que a prova prática foi na enfermaria que eu estava estagiando e por isso pude acompanhar parte da avaliação.

Dois fatos me chamaram a atenção, o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato. Não tenho dúvidas que ele já havia sido prejulgado antes da prova ter sido iniciada. Outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram.

Lembro bem que as perguntas feitas para o rapaz eram bem mais difíceis que aquelas que nos faziam nas nossas provas. Lembro deles terem pedidos informações sobre detalhes anatômicos do pescoço que só interessam a cirurgiões de cabeça e pescoço. O sujeito que vai ser médico de família, não tem que saber todos os nervos e vasos que passam ao lado da laringe e da tireoide. O cara tem que saber tratar diarreia, verminose, hipertensão, diabetes e colesterol alto. Soube dias depois que o rapaz tinha sido reprovado.

Não sei se todas as provas do Revalida são assim, pois só assisti a uma, e mesmo assim parcialmente. Mas é muito estranho os médicos cubanos terem alta taxa de aprovação em Portugal e pouquíssimos passarem no Brasil. Outro número que chama a atenção é o fato de mais de 10% dos médicos em atividade em Portugal serem estrangeiros. Na Inglaterra são 40%. No Brasil esse número é menor que 1%. E vou logo avisando, meu salário aqui não é maior do que dos meus colegas que ficaram no Brasil.

– Até agora não vi nem o CFM nem a imprensa irem lá nas áreas mais carentes do Brasil perguntar o que a população sem acesso à saúde acha de virem 6000 médicos cubanos para atendê-los. Será que é melhor ficar sem médico do que ter médicos cubanos? É o óbvio ululante que o ideal seria criar condições para que médicos brasileiros se sentissem estimulados a ir trabalhar no interior. Mas em um país das dimensões do Brasil e com a responsabilidade de tocar a medicina básica pulverizada nas mãos de centenas de prefeitos, isso não vai ocorrer de uma hora para outra.

Na verdade, o governo até lançou nos últimos anos o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que oferece salários mensais de R$ 8 mil e pontos na progressão de carreira para os médicos que vão para as periferias. O problema é que até hoje só 4 mil médicos aceitaram participar do programa. Não é só salário, faltam condições de trabalho. O que fazemos então? Vamos pedir para os mais pobres aguentar mais alguns anos até alguém conseguir transformar o SUS naquilo que todos desejam? Vira lá para a criança com diarreia ou para a mãe grávida sem pré-natal e diz para ela segurar as pontas sem médico, porque os médicos do sul e sudeste do Brasil, que não querem ir para o interior, acham que essa história de trazer médico cubano vai desvalorizar a medicina do Brasil.

– É bom lembrar que Cuba exporta médicos para mais de 70 países. Os cubanos estão acostumados e aceitam trabalhar em condições muito inferiores. Aliás, é nisso que eles são bons. Eles fazem medicina preventiva em massa, que é muito mais barata, e com grandes resultados. Durante o terremoto do Haiti, quem evitou uma catástrofe ainda maior foram os médicos cubanos. Em poucas semanas os médicos dos países ricos deram no pé e deixaram centenas de milhares de pessoas sem auxílio médico.

Se não fosse Cuba e seus médicos, haveria uma tragédia humanitária de proporções dantescas. Até o New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, fez há poucos meses um artigo sobre a medicina em Cuba. O destaque vai exatamente para a capacidade do país em fazer medicina de qualidade com recursos baixíssimos (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1215226).

– Com muito menos recursos, a medicina de Cuba dá um banho em resultados na medicina brasileira. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica aqui no Brasil. O CFM diz que a medicina de Cuba é de má qualidade, mas não explica por que a saúde dos cubanos, como muito menos recursos tecnológicos e com uma suposta inferioridade qualitativa, tem índices de saúde infinitamente melhores que a do Brasil e semelhantes à avançada medicina americana (dados da OMS).

– Agora, ninguém tem que ir cobrar do médico cubano que ele saiba fazer cirurgia de válvula cardíaca ou que seja mestre em dar laudos de ressonância magnética. Eles não vêm para cá para trabalhar em medicina nuclear ou para fazer hemodiálises nos pacientes. Medicina altamente tecnológica e ultra especializada não diminui mortalidade infantil, não diminui mortalidade materna, não previne verminose, não conscientiza a população em relação a cuidados de saúde, não trata diarreia de criança, não aumenta cobertura vacinal, nem atua na área de prevenção. É isso que parece não entrar na cabeça de médicos que são formados para serem superespecialistas, de forma a suprir a necessidade uma medicina privada e altamente tecnológica. Atenção! O governo que trazer médicos para tratar diarreia e desidratação! Não é preciso grande estrutura para fazer o mínimo. Essa população mais pobre não tem o mínimo!

Que venham os médicos cubanos, que eles façam o Revalida, mas que eles sejam avaliados em relação àquilo que se espera deles. Se os médicos ricos do sul maravilha não querem ir para o interior, que continuem lutando por melhores condições de trabalho, que cobrem dos governos em todas as esferas, não só da Federal, melhores condições de carreira, mas que ao menos se sensibilizem com aqueles que não podem esperar anos pela mudança do sistema, e aceitem de bom grado os colegas estrangeiros que se dispõe a vir aqui salvar vidas.

Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania. Enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à mingua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano.

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Por que os médicos cubanos assustam

Publicado orignalmente no Blog do Porfírio em 07/mai/2013

De Pedro Porfírio

ELITE CORPORATIVISTA TEME MUDANÇA DE FOCO QUE ABALE O NOSSO SISTEMA MERCANTIL DE SAÚDE 

A virulenta reação do Conselho Federal de Medicina contra a vinda de 6 mil médicos cubanos para trabalhar em áreas absolutamente carentes do país é muito mais do que uma atitude corporativista: expõe o pavor que uma certa elite da classe médica tem diante dos êxitos inevitáveis do modelo adotado na ilha, que prioriza a prevenção e a educação para a saúde, reduzindo não apenas os índices de enfermidades, mas sobretudo a necessidade de atendimento e os custos com a saúde.

Essa não é a primeira investida radical do CFM e da Associação Médica Brasileira contra a prática vitoriosa dos médicos cubanos entre nós.

Em 2005, quando o governador de Tocantins não conseguia médicos para a maioria dos seus pequenos e afastados municípios, recorreu a um convênio com Cuba e viu o quadro de saúde mudar rapidamente com a presença de apenas uma centena de profissionais daquele país.

A reação das entidades médicas de Tocantins, comprometidas com a baixa qualidade da medicina pública que favorece o atendimento privado, foi quase de desespero.

Elas só descansaram quando obtiveram uma liminar de um juiz de primeira instância determinando em 2007 a imediata “expulsão” dos médicos cubanos.

NO BRASIL, O APEGO ÀS GRANDES CIDADES

Dos 371.788 médicos brasileiros, 260.251 estão nas regiões Sul e Sudeste. Neste momento, o governo da presidenta Dilma Rousseff só  está cogitando de trazer os médicos cubanos, responsáveis pelos melhores índices de saúde do Continente, diante da impossibilidade de assegurar a presença de profissionais brasileiros em mais de um milhar de municípios, mesmo com a oferta de vencimentos bem superiores aos pagos nos grandes centros urbanos.

E isso não acontece por acaso. O próprio modelo de formação de profissionais de saúde, com quase 58% de escolas privadas, é voltado para um tipo de atendimento vinculado à indústria de equipamentos de alta tecnologia, aos laboratórios e às vantagens do regime híbrido, em que é possível conciliar plantões de 24 horas no sistema público com seus consultórios e clínicas particulares, alimentados pelos planos de saúde.

Mesmo com consultas e procedimentos pagos segundo a tabela da AMB, o volume de  clientes é programado para que possam atender no mínimo dez por turnos de cinco horas. O sistema é tão direcionado que na maioria das especialidades o segurado pode ter de esperar mais de dois meses por uma consulta.

Além disso, dependendo da especialidade e do caráter de cada médico, é possível auferir faturamentos paralelos em comissões pelo direcionamento dos exames pedidos como rotinas em cada consulta.

SEM COMPROMISSO EM RETRIBUIR OS CURSOS PÚBLICOS

Há no Brasil uma grande “injustiça orçamentária”: a formação de médicos nas faculdades públicas, que custa muito dinheiro a todos os brasileiros, não presume nenhuma retribuição social, pelo menos enquanto  não se aprova o projeto do senador Cristóvam Buarque, que obriga os médicos recém-formados que tiveram seus cursos custeados com recursos públicos a exercerem a profissão, por dois anos, em municípios com menos de 30 mil habitantes ou em comunidades carentes de regiões metropolitanas.

Cruzando informações, podemos chegar a um custo de R$ 792.000,00 reais para o curso de um aluno de faculdades públicas de Medicina, sem incluir a residência. E se considerarmos o perfil de quem consegue passar em vestibulares que chegam a ter 185 candidatos por vaga (UNESP), vamos nos deparar com estudantes de classe média alta, isso onde não há cotas sociais.

Um levantamento do Ministério da Educação detectou que na medicina os estudantes que vieram de escolas particulares respondem por 88% das matrículas nas universidades bancadas pelo Estado. Na odontologia, eles são 80%.

Em faculdades públicas ou privadas, os quase 13 mil médicos formados anualmente no Brasil não estão nem preparados, nem motivados para atender às populações dos grotões. E não estão por que não se habituaram à rotina da medicina preventiva e não aprenderam como atender sem as parafernálias tecnológicas de que se tornaram dependentes.

CONCENTRADOS NO SUDESTE, SUL E GRANDES CIDADES

Números oficiais do próprio CFM indicam que 70% dos médicos brasileiros concentram-se nas regiões Sudeste e Sul do país. E em geral trabalham nas grandes cidades.  Boa parte da clientela dos hospitais municipais do Rio de Janeiro, por exemplo, é formada por pacientes de municípios do interior.

Segundo pesquisa encomendada pelo Conselho,  se a média nacional é de 1,95 médicos para cada mil habitantes, no Distrito Federal esse número chega a 4,02 médicos por mil habitantes, seguido pelos estados do Rio de Janeiro (3,57), São Paulo (2,58) e Rio Grande do Sul (2,31). No extremo oposto, porém, estados como Amapá, Pará e Maranhão registram menos de um médico para mil habitantes.

A pesquisa “Demografia Médica no Brasil” revela que há uma forte tendência de o médico fixar moradia na cidade onde fez graduação ou residência. As que abrigam escolas médicas também concentram maior número de serviços de saúde, públicos ou privados, o que significa mais oportunidade de trabalho. Isso explica, em parte, a concentração de médicos em capitais com mais faculdades de medicina. A cidade de São Paulo, por exemplo, contava, em 2011, com oito escolas médicas, 876 vagas – uma vaga para cada 12.836 habitantes – e uma taxa de 4,33 médicos por mil habitantes na capital.

Mesmo nas áreas de concentração de profissionais, no setor público, o paciente dispõe de quatro vezes menos médicos que no privado. Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar, o número de usuários de planos de saúde hoje no Brasil é de 46.634.678 e o de postos de trabalho em estabelecimentos privados e consultórios particulares, 354.536.Já o número de habitantes que dependem exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) é de 144.098.016 pessoas, e o de postos ocupados por médicos nos estabelecimentos públicos, 281.481.

A falta de atendimento de saúde nos grotões é uma dos fatores de migração. Muitos camponeses preferem ir morar em condições mais precárias nas cidades, pois sabem que, bem ou mal, poderão recorrer a um atendimento em casos de emergência.

A solução dos médicos cubanos é mais transcendental pelas características do seu atendimento, que mudam o seu foco no sentido de evitar o aparecimento da doença.  Na Venezuela, os Centros de Diagnósticos Integrais espalhados nas periferias e grotões, que contam com 20 mil médicos cubanos, são responsáveis por uma melhoria radical  nos seus índices de saúde.

CUBA É RECONHECIDA POR SEUS ÊXITOS NA MEDICINA E NA BIOTECNOLOGIA

Em  sua nota ameaçadora, o CFM afirma claramente que confiar populações periféricas aos cuidados de médicos cubanos é submetê-las a profissionais não qualificados. E esbanja hipocrisia na defesa dos direitos daquelas pessoas.

Não é isso que consta dos números da Organização Mundial de Saúde.  Cuba, país submetido a um asfixiante bloqueio econômico, mostra que nesse quesito é um exemplo para o mundo e tem resultados melhores do que os do Brasil.

Graças à sua medicina preventiva, a ilha do Caribe tem a taxa de mortalidade infantil mais baixa da América e do Terceiro Mundo – 4,9 por mil (contra 60 por mil em 1959, quando do triunfo da revolução) – inferior à do Canadá e dos Estados Unidos. Da mesma forma, a expectativa de vida dos cubanos – 78,8 anos (contra 60 anos em 1959) – é comparável a das nações mais desenvolvidas.

Com um médico para cada 148 habitantes (78.622 no total) distribuídos por todos os seus rincões que registram 100% de cobertura, Cuba é, segundo a Organização Mundial de Saúde, a nação melhor dotada do mundo neste setor.

Segundo a New England Journal of Medicine, “o sistema de saúde cubano parece irreal. Há muitos médicos. Todo mundo tem um médico de família. Tudo é gratuito, totalmente gratuito. Apesar do fato de que Cuba dispõe de recursos limitados, seu sistema de saúde resolveu problemas que o nosso [dos EUA] não conseguiu resolver ainda. Cuba dispõe agora do dobro de médicos por habitante do que os EUA”.

O Brasil forma 13 mil médicos por ano em  200 faculdades: 116 privadas, 48 federais, 29 estaduais e 7 municipais. De 2000 a 2013, foram criadas 94 escolas médicas: 26 públicas e 68 particulares.

FORMANDO MÉDICOS DE 69 PAÍSES

Em 2012, Cuba, com cerca de 13 milhões de habitantes, formou em suas 25 faculdades, inclusive uma voltada para estrangeiros, mais de 11 mil novos médicos: 5.315 cubanos e 5.694 de 69 países da América Latina, África, Ásia e inclusive dos Estados Unidos.

Atualmente, 24 mil estudantes de 116 países da América Latina, África, Ásia, Oceania e Estados Unidos (500 por turma) cursam uma faculdade de medicina gratuita em Cuba.

Entre a primeira turma de 2005 e 2010, 8.594 jovens doutores saíram da Escola Latino-Americana de Medicina. As formaturas de 2011 e 2012 foram excepcionais com cerca de oito mil graduados. No total, cerca de 15 mil médicos se formaram na Elam em 25 especialidades distintas.

Isso se reflete nos avanços em vários tipos de tratamento, inclusive em altos desafios, como vacinas para câncer do pulmão, hepatite B, cura do mal de Parkinson e da dengue.  Hoje, a indústria biotecnológica cubana tem registradas 1.200 patentes e comercializa produtos farmacêuticos e vacinas em mais de 50 países.

PRESENÇA DE MÉDICOS CUBANOS NO EXTERIOR

Desde 1963,  com o envio da primeira missão médica humanitária à Argélia, Cuba trabalha no atendimento de populações pobres no planeta. Nenhuma outra nação do mundo, nem mesmo as mais desenvolvidas, teceu semelhante rede de cooperação humanitária internacional. Desde o seu lançamento, cerca de 132 mil médicos e outros profissionais da saúde trabalharam voluntariamente em 102 países.

No total, os médicos cubanos trataram de 85 milhões de pessoas e salvaram 615 mil vidas. Atualmente, 31 mil colaboradores médicos oferecem seus serviços em 69 nações do Terceiro Mundo.

No âmbito da Alba (Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América), Cuba e Venezuela decidiram lançar em julho de 2004 uma ampla campanha humanitária continental com o nome de Operação Milagre, que consiste em operar gratuitamente latino-americanos pobres, vítimas de cataratas e outras doenças oftalmológicas, que não tenham possibilidade de pagar por uma operação que custa entre cinco e dez mil dólares. Esta missão humanitária se disseminou por outras regiões (África e Ásia). A Operação Milagre dispõe de 49 centros oftalmológicos em 15 países da América Central e do Caribe. Em 2011, mais de dois milhões de pessoas de 35 países recuperaram a plena visão.

Quando se insurge contra a vinda de médicos cubanos, com argumentos pueris, o CFM adota também uma atitude política suspeita: não quer que se desmascare a propaganda contra o  regime de Havana,  segundo a qual o sonho de todo cubano é fugir para o exterior. Os mais de 30 mil médicos espalhados pelo mundo permanecem fiéis aos compromissos sociais de quem teve todo o ensino pago pelo Estado, desde a pré-escola e de que, mais do que enriquecer, cumpre ao médico salvar vidas e prestar serviços humanitários.

Fonte: Blog do Porfírio

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Crimes de Guerra: o Massacre de Nanjing (Nanquim) – 1937

Recentemente tive minha atenção atraída ao assunto do Massacre de Nanjing após assistir um filme muito bonito (ao mesmo tempo muito triste) intitulado Flores do Oriente (Flowers of War), lançado em 2012, dirigido pelo cineasta chinês Zhang Yimou e estrelado pelo ótimo Christian Bale.

O filme todo se passa praticamente dentro de uma igreja católica na cidade de Nanjing que, em 1937, estava sob ataque brutal do exército japonês que invadia a cidade no contexto da II Guerra Sino-Japonesa.

Alguns amigos (Cido Araújo e Ximena Leon) me indicaram um blog bem interessante, chamado Deadlyblogque dentre outras matérias traz posts bastante informativos sobre alguns dos crimes de guerra mais hediondos ocorridos no século XX. Um deles é justamente sobre o Massacre de Nanjing, trazendo inclusive muitas fotos (algumas muito fortes) desse crime de guerra que, até hoje, não é reconhecido pelo Japão que, tal como a Turquia em relação aos armênios, prefere negar que o mesmo tenha ocorrido. Como se verá abaixo, segundo o post do Deadlyblog, em 2004 um Ministro da Educação japonês teria ordenado que este tema fosse retirado dos livros didáticos japoneses, por alegar que o fato nunca aconteceu.

Se há alguns meses atrás fiz um post neste blog criticando duramente o maior crime de guerra perpetrado contra a humanidade, quando os Estados Unidos da América decidiu despejar duas bombas atômicas sobre sobre o Japão para acabar com a II Guerra Mundial (Hiroshima e Nagasaki: maior crime de guerra contra a humanidade segue impune), não poderia deixar de fazer as mesmas duras críticas contra os japoneses que, apenas alguns anos antes, haviam perpetrado um crime de guerra bárbaro contra a população civil chinesa ao invadir Nanjing, em 1937, durante a II Guerra Sino-Japonesa.

Abaixo segue a íntegra do post tal como publicado no Deadlyblog.

2ªGM – O Massacre de Nanjing (Nanquim) – 1937

Os desentendimentos entre China e Japão são seculares, mas na história moderna, estes desentendimentos tiveram início em 1894, quando teve início a chamada “Primeira Guerra Sino-Japonesa”, que terminaria em 1895, com a vitória japonesa. Esta guerra marcaria o início da ascensão militar japonesa e o início da derrocada da China imperial.

As tensões entre os dois países continuaram ao longo dos anos seguintes até 1931, quando ocorreu o chamado “Incidente de Mukden”, a sabotagem ferroviária ocorrida em 18 de setembro de 1931, no sudoeste da Manchúria, onde militares japoneses explodiram uma seção da ferrovia do sul da província, de propriedade do Japão, nas proximidades de Mukden, atual Shenyang. O exército imperial japonês acusou dissidentes chineses pelo ato de sabotagem e utilizaram o fato como pretexto para a invasão e anexação da Manchúria.

A China já se via dividida internamente por uma guerra civil, onde comunistas e capitalistas de degladiavam para ver quem assumiria o poder. O exército chinês era mal equipado e mal treinado, sendo constituído inclusive por criminosos e simples camponeses. Já o exército japonês era muito mais profissional e melhor equipado.

As tensões entre as nações só fizeram aumentar, numa espécie de guerra não-declarada, culminando com outro incidente, o “Incidente da Ponte Marco Pólo, ocorrido em 7 de julho de 1937, considerado o início da Segunda Guerra Sino-Japonesa, que só terminaria em 1945, com a derrota do Império do Japão.

Bebê abandonado em Xangai após a ocupação japonesa, em 1937.

O Japão então dá início à sua campanha de conquista da China em agosto do mesmo ano, sem uma declaração formal de guerra, bombardeando Xangai. Durante quase um mês, o exército japonês desembarca tropas e equipamentos na costa chinesa, afim de estruturar nove unidades de infantaria e duas unidades de artilharia. Estas unidades marchariam a Xangai, conquistando a cidade após quatro meses de combates, ao final de novembro de 1937. O Exército Imperial do Japão estava agora a apenas 300 quilômetros de Nanjing, a capital chinesa. Com a queda de Xangai, a população civil e o remanescente do exército chinês, batem em retirada em direção à capital, adotando a tática da “Terra Arrasada”, destruindo todos os recursos que possam auxiliar o exército inimigo a se estruturar e ganhar força.

O exército chinês, se divide então para combater em três frontes, ao norte, ao sul e ao leste de Nanjing. Já o exército japonês divide suas forças em dois frontes, norte e sul e inicia sua marcha a Nanjing.

As forças chinesas se batem contra as forças japonesas, mas a superioridade militar japonesa se faz sentir, as tropas chinesas são derrotadas e seus remanescentes são obrigados a recuar a Nanjing, onde se agrupam sob o comando do general Tang Shengzhi, com a missão de defender a cidade. Ele então declara publicamente que irá manter o fronte com suas tropas e que se for necessário, ele e seu exército morrerão na defesa da capital. É realizado então o recrutamento de 100’000 novos soldados na cidade. A grande maioria sequer tem algum treinamento militar.

Além disso, as tropas do general Tang não contavam com nenhum apoio aéreo e terrestre e nenhuma comunicação entre elas. Estas foram as tropas que tiveram a ingrata tarefa de impedir o avanço das forças inimigas, numa batalha que teve início em 05 de dezembro e que se estendeu até a queda da cidade em 13 de dezembro do mesmo ano.

As forças militares japonesas, sob o comando do Príncipe Tenente-General Asaka Yasuhiko, recebem a ordem para tomar a cidade de assalto, além disso, veio a ordem para que o exército imperial japonês eliminasse imediatamente todos os prisioneiros de guerra, fossem eles homens, mulheres ou crianças.

Segundo o Deadlyblog: A faixa diz: Nanjing caiu – A Vitória do Exército Imperial Japonês

Quando a cidade foi tomada, em 13 de dezembro, as ruas estavam repletas de civis desesperados e soldados chineses que tentavam resistir sem qualquer espécie de organização. Os soldados japoneses iniciaram o fuzilamento indiscriminado de chineses, em busca da neutralização de qualquer espécie de resistência.

Em poucas horas, o exército japonês obtêm o controle da cidade, com uma fúria bárbara e brutal. Todos os militares chineses sobreviventes são então identificados e separados dos demais prisioneiros, sendo então torturados, fuzilados, enforcados ou decapitados.

A organização civil também é brutal, as pessoas são separadas por sexo e idade. O exército japonês inicia a busca sistemática em toda a cidade. As execuções são realizadas em todos os cantos, inclusive nos templos. Num vislumbre de bestialidade, centenas de pessoas são obrigadas e se dirigir a uma pedreira, onde são obrigados a entrar em um imenso buraco, formado pela extração do material, que se transformaria em sua sepultura. Quando já estavam no interior do buraco, soldados japoneses cercaram o local e abriram fogo com metralhadoras e fuzis. Como muitas pessoas não morreram em virtude deste primeiro ataque, os soldados japoneses receberam a ordem para procurar sobreviventes e executá-los.

Infelizmente, a brutalidade não estava perto de se findar. Sob o comando do general Iwane Matsui, a brutalidade tomou formas ainda piores:

  • Como numa prática esportiva, soldados japoneses disputavam entre si para saberem quem era o mais rápido e eficiente em decapitar prisioneiros;
  • Prisioneiros eram usados como alvo-vivo em exercícios de assalto com baionetas.

Na tentativa de justificar os assassinatos de civis, oficiais japoneses alegaram se tratar de militares disfarçados. Entre algumas das brutalidades descritas por testemunhas sobreviventes, podemos destacar que em diversas ocasiões, os soldados japoneses obrigavam os filhos a estuprarem sua próprias mães. Os que se recusavam, eram assassinados imediatamente.

As mulheres em especial, eram também “caçadas” por soldados japoneses, para que estas servissem como “escravas sexuais” de oficiais e soldados, em Nanquim e nas imediações. Além disso, muitas mulheres foram “exportadas” como escravas sexuais, para os mais de 2000 bordéis militares criados pelo Japão.

John Rabe posa na esntrada do abrigo que utilizou para salvar centenas de chineses

Curiosamente, um nazista seria uma das figuras mais importantes no auxílio aos chineses. O alemão John Rabe, então representante da empresa alemã Siemens na China, valeu-se do fato de ser filiado ao partido nazista, para pedir que Berlim pressionasse o Japão, para que este respeitasse a região onde a propriedade alemã estava, como uma “Zona Neutra”. Ele chegou ao ponto de pendurar no teto de sua casa uma enorme suástica pintada em tecido, para que os japoneses não usassem a desculpa de não saber qual era sua casa. Rabe conseguiu reduzir os assaltos dos soldados japoneses à zona neutra em busca de chineses refugiados e mulheres para serem usadas como escravas sexuais, o que lhe valeu postumamente o título de “Schindler de Nanjing”.

A bestialidade durou cerca de seis semanas, estendendo-se até fevereiro de 1938, embora não se possa precisar com exatidão. De 150 a 300 mil pessoas foram executadas nas mais atrozes condições (mulheres estupradas, homens torturados, crianças enterradas vivas). A cidade foi saqueada e incendiada. Um sem número de corpos foi queimado junto com a cidade, outros foram jogados no rio Yang Tsé e outros enterrados aos montes.

O massacre de Nanquim seria o único crime de guerra a ser tratado em separado pelo Tribunal de Tóquio. O general Iwane Matsui foi condenado à morte por não ter impedido a carnificina cometida pelas tropas que comandava.

Embora existam muitas provas sobre tamanha brutalidade, o governo japonês se recusa a reconhecer ainda hoje, os crimes cometidos pelo seu exército, a exemplo da Turquia, que também se recusa a reconhecer o genocídio cometido contra os armênios em 1915. Em 2004 o Ministro da Educação japonês ordenou que este tema fosse retirado dos livros didáticos japoneses, por alegar que o fato nunca aconteceu.

Cliquem no link ao lado para verem todas as fotos do Massacre de Nanjing disponibilizadas pelo Deadlyblog. Por muitas imagens serem ofensivas, sugere-se cautela na visualização das mesmas.

FONTES UTILIZADAS PELO DEADLYBLOG

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Cinco razões por que Stephen Hawking está certo ao boicotar Israel

Notícia divulgada pelo portal da Al Jazeera informa que o físico teórico e cosmólogo Stephen Hawking se recusou a participar de uma conferência que está sendo organizada em Israel atendendo a um boicote àquele país em função do tratamento que este vem dando aos palestinos.

Abaixo segue uma tradução livre que fiz da notícia que foi veiculada originalmente no portal em 09 de maio de 2013.

Hawking está de parabéns por ter se retirado de uma conferência israelense como forma de protesto ao tratamento que Israel concede aos palestinos.

por Ben White – 09/mai/2013

Cosmólogo britânico Stephen Hawking havia sido escalado a falar em uma conferência de alto nível em Junho organizada pelo presidente de Israel Shimon Peres [AP]

Conforme anunciado pelo Comitê Britânico para as Universidades da Palestina (BRICUP) e posteriormente pelo The GuardianReuters e outras, o renomado físico teórico e cosmólogo Professor Stephen Hawking decidiu atender o chamado palestino por boicote, e se retirar de uma conferência israelense organizada pelo presidente Shimon Peres em Junho. Após uma confusão inicial notícia foi confirmada – Hawking irá se manter afastado por razões políticas.Aqui estão cinco razões pelas quais o Professor Hawking está correto ao optar pelo boicote:5. Encobrimento do ApartheidO governo israelense e vários grupos de lobistas utilizam eventos como as “Conferências Presidenciais” para to encobrir os crimes cometidos por Israel no passado e no presente, uma tática algumas vezes referidas como “rebranding”. Como Ministro das Relações Exteriores informou oficialmente após o massacre de Gaza em 2009, este é o tipo de abordagem que significa enviar “romancistas e escritores famosos para o exterior, companhias de teatro, [e] exposições” com o objetivo de “mostrar a face bonita de Israel, de modo que nós não sejamos lembrados apenas no contexto da guerra”. “a marca Israel” é sobre criar uma imagem positiva para um país que é o alvo das campanhas de Direitos Humanos ao redor do planeta – como se inovações tecnológicas ou conferências de alto nível pudessem esconder a realidade da ocupação e limpeza étnica.4. Shimon Peres Apesar de sua reputação no ocidente como uma “pomba”,  a carreira de Peres até os dias de hoje inclui crimes de guerra no Líbano, apoio à punição coletiva de Palestinos em Gaza, e, em conversas privadas, incitação contra cidadãos não judeus. Qualquer um faria bem em evitar uma conferência organizada por tamanho hipócrita. Simplesmente não ser Ariel Sharon não basta; Peres deverá agendar uma viagem para Haia não atendendo dignatários estrangeiros e celebridades.

3. Boicote não é incompatível com ‘diálogo’ 

Na contramão da retórica de funcionários e simpatizantes do governo de Israel, boicote não é contrário ao diálogo. A decisão de Hawking, por exemplo, significará que as pessoas estão discutindo políticas israelenses e estratégias para acabar com a ocupação. Isso não é átipico – iniciativas BDS normalmente encorajam uma significativa troca de pontos de vista e perspectivas. No entanto, algumas pessoas abusam do conceito de diálogo para defender um status quo assimétrico, deixando intacto uma dinâmica de poder colonial na qual, segundo as palavras do poeta sul africano James Matthews, “o opressor permanece cauterizado com seus despojos/sem nenhum desejo de compartilhar igualdade/deixando o oprimido procurando o calor/no fogo frio do/Diálogo”. Boicote não tem nada a ver com ter, ou não ter, conversações – é sobre ser responsável , e se opor, violações básicas dos direitos das pessoas. Confrontar e resistir a realidade do apartheid israelense gera um diálogo que é completamente realizado no contexto da igualdade e descolonização.

2. Impunidade e responsabilidade 

O boicote é fundado firmemente em fatos bem documentados sobre as políticas de Israel. O Departamento de Estado dos Estados Unidos fala de “discriminação institucional” sofrida por cidadãos palestinos, enquanto o  Human Rights Watch diz que Israel mantém um “sistema de dois níveis” na Cisjordânia. Do controle “discriminatório” e  distribuição dos recursos hídricos (Anistia Internacional) até as “transferências forçadas da população nativa” (União Européia), não surprende que o Comitê das Nações Unidas para a Eliminação da Discriminação Racial relatou Israel por ter violado proibições contra “segregação racial e apartheid”.

Assentamentos ilegais são utilizados para colonizar a Cisjordânia, palestinos em Gaza são bloqueados e bombardeados, palestinos em Jerusalém Oriental tem suas casas demolidas – e ao mesmo tempo, é claro, os refugiados palestinos expulsos a apenas algumas milhas de suas propriedades ainda são impedidos de retornar a suas casas sob a alegação de que não são judeus. E percebam que o argumento “mas o que aconteceu em China/Myanmar/Síria etc” perde o ponto (assim como coloca Israel em uma companhia bastante interessante). Um boicote é uma tática, recomendável em alguns contextos, e não em outros. Não é sobre uma escala de injustiças ou de ilegalidade. Trata-se de uma estratégia cujo alvo são os abusos de direitos humanos e violações do direito internacional, solicitado pelo colonizado. O que nos traz a…

1. O chamado palestino por solidariedade 

Palestinos sofrendo sob o apartheid israelenses estão clamando por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) como uma estratégia na realização de seus direitos básicos, um fato que muitos sionistas optam por ignorar quando atacam as campanhas de boicote. O chamado da sociedade civil palestina por BDS foi lançado oficialmente em 9 de julho de 2005, um ano após a opinião do consultor da Corte Internacional de Justiça sobre a ilegalidade do Muro de Separação de Israel. O clamor dos signatários do BDS partiram de representantes dos palestinos na Cisjordânia e Faixa de Gaza, cidadãos palestinos de Israel, e refugiados palestinos. Desde então, números crescentes de pessoas da academia, mundo da arte, sindicatos e comunidades religiosas atenderam o chamado de BDS com iniciativas que colocaram o foco firmemente nas violações rotineiras de Israel do direito internacional e terminando com a cumplicidade nesses crimes. O professor Hawking está de parabéns em seguir os conselhos de acadêmicos palestinos, e atender seu pedido de solidariedade internacional em um luta de décadas por liberdade e justiça.

Ben White é um jornalista freelance, escritor e ativista, especializado na questão Palestina/Israel. Ele é graduado pela Universidade de Cambridge.

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Peste teria contribuído com o declínio do Império Romano

Segundo notícia divulgada no site da revista estadunidense HuffPost Science, alguns pesquisadores revelam que praga pode ter contribuído com o declínio do Império Romano.

Abaixo segue uma tradução livre que fiz da íntegra da notícia tal como publicado no site HuffPost Science.

Novas evidências sugerem que a bactéria causadora da Peste Negra também foi a responsável pela Peste Justiniana que abalou a Europa dos séculos VI-VIII. A pandemia, responsável pela morte de mais de 100 milhões de pessoas, foi nomeada por causa do imperador Bizantino Justiniano I (ilustrado aqui).

Peste ajudou a acabar com o Império Romano, sugere DNA analisado em tumbas medievais

Por: Charles Choi, LiveScience Contributor
Publicado originalmente em: 10/05/2013 em LiveScience

Peste pode ter contribuído com o declínio do Império Romano, revelam alguns pesquisadores.

A peste é uma doença tão fatal que se tornou sinônimo de algo perigoso e de rápido contágio. Ela foi associada a um dos primeiros exemplos de Guerra Biológica, quando mongóis catapultavam vítimas da peste dentro das cidades.

A bactéria que causa a peste, Yersinia pestis, tem sido associada a pelo menos duas das mais devastadoras pandemias já registradas na história. Uma, a Grande Peste, que durou dos séculos 14 ao 17, incluindo a epidemia infame conhecida como Peste Negra, que pode ter matado aproximadamente dois terços da Europa em meados de 1300. Outra, a Peste Moderna, que grassou ao redor do mundo durante os séculos 19 e 20, tendo começado na China, em meados dos anos 1800 e se espalhado pela África, Américas, Austrália, Europa e demais partes da Ásia.

A mesma bactéria causadora da Peste Justiniana é também responsável pela Peste Negra que teria matado aproximadamente dois terços da Europa em meados dos anos 1300. Na foto acima, remanescentes de esqueletos de um túmulo de vítimas da Peste Negra de 1348, em Londres.

Embora estudos anteriores confirmem que este germe estava associado com ambas catástrofes, muita controvérsia existe quanto a saber se ela também teria causado a Peste Justiniana que ocorreu entre os séculos seis e oito de nossa era. Essa epidemia, que teria recebido o nome do imperador bizantino Justiniano I, matou mais de 100 milhões de pessoas. Alguns historiadores sugeriram que ela teria contribuído para o declínio do Império Romano.

Para ajudar a resolver este mistério, cientistas investigaram DNA antigo retirado dos dentes de 19 esqueletos diferentes do século dezesseis retirados de uma tumba medieval localizado na Bavaria, Alemanha, de pessoas que aparentemente teriam sucumbido vítimas da Peste Justiniana.

Sem sombra de dúvidas, eles encontraram a bactéria da peste Y. pestis naqueles ossos.

” É sempre muito excitante quando podemos encontrar hoje a causa das pestilências do passado” disse a pesquisadora Barbara Bramanti, uma arqueogeneticista da Universidade Johannes Gutenberg in Mainz, Alemanha.

“Depois de tanto tempo — aproximadamente 1,500 anos, ainda é possível detectar o agente da peste através de métodos moleculares modernos,” diz o pesquisador Holger Scholz, um microbiologista molecular do Instituto Bundeswehr Institute de Microbiologia em Munique, Germany, disse ao LiveScience.

Os pesquisadores afirmam que esses achados confirmam que a Peste Justiniana cruzou os Alpes, matando pessoas no que hoje é a Bavaria. Análises do DNA sugerem que assim como as últimas duas epidemias de peste, essa primeira foi originada na Ásia, “ainda que registros históricos digam que ela tenha chegado primeiro na África antes de se espalhar pela bacia do Mediterrâneo e para a Europa,” disse Bramanti ao LiveScience.

Após a Peste Moderna ter se espalhado mundialmente, ela se entrincheirou em algumas áreas rurais, e a Organização Mundial de Saúde ainda registra milhares de casos de peste a cada ano. Contudo, doutores podem tratá-la atualmente com antibióticos modernos.

Os pesquisadores esperam agora reconstruir toda a sequência do genoma da peste nesses dentes antigos para aprenderem mais a respeito da doença, disse Scholz.

Os cientistas detalharam suas descobertas online no dia 02 de maio na Revista PLOS Pathogens.

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