Pedro Saraiva: Sobre a vinda dos 6.000 médicos cubanos

Ainda continuando o assunto da vida dos 6 mil médicos cubanos, aproveito para republicar matéria que li no VIOMUNDO e que foi retirada do Blog do Nassif. Acredito que o post abaixo respondem aos comentários de Maria Elizabeth Difini e Carvalho em minha postagem anterior.

A QUESTÃO DA VINDA DOS MÉDICOS CUBANOS AO BRASIL
Por Pedro Saraiva, no blog do Nassif

publicado em 9 de maio de 2013 às 9:43

Olá Nassif, sou médico e gostaria de opinar sobre a gritaria em relação à vinda dos médicos cubanos ao Brasil. Bom, como opinião inteligente se constrói com o contraditório, vou tentar levantar aqui algumas informações sobre a vinda de médicos cubanos para regiões pobres do Brasil que ainda não vi serem abordadas.

– O principal motivo de reclamação dos médicos, da imprensa e do CFM seria uma suposta validação automática dos diplomas destes médicos cubanos, coisa que em momento algum foi afirmado por qualquer membro do governo. Pelo contrário, o próprio ministro da saúde, Antônio Padilha, já disse que concorda que a contratação de médicos estrangeiros deve seguir critérios de qualidade e responsabilidade profissional. Portanto, o governo não anunciou que trará médicos cubanos indiscriminadamente para o país. Isto é uma interpretação desonesta.

– Acho estranho o governo ter falado em atrair médicos cubanos, portugueses e espanhóis, e a gritaria ser somente em relação aos médicos cubanos. Será que somente os médicos cubanos precisam revalidar diploma? Sou médico e vivo em Portugal, posso garantir que nos últimos anos conheci médicos portugueses e espanhóis que tinham nível técnico de sofrível para terrível. E olha que segundo a OMS, Espanha e Portugal têm, respectivamente, o 6º e o 11º melhores sistemas de saúde do mundo (não tarda a Troika dar um jeito nesse excesso de qualidade). Profissional ruim há em todos os lugares e profissões. Do jeito que o discurso está focado nos médicos de Cuba, parece que o problema real não é bem a revalidação do diploma, mas sim puro preconceito.

– Portugal já importa médicos cubanos desde 2009. Aqui também há dificuldade de convencer os médicos a ir trabalhar em regiões mais longínquos, afastadas dos grandes centros. Os cubanos vieram estimulados pelo governo, fizeram prova e foram aprovados em grande maioria (mais à frente vou dar maiores detalhes deste fato).

A população aprovou a vinda dos cubanos, e em 2012, sob pressão popular, o governo português renovou a parceria, com amplo apoio dos pacientes. Portanto, um dos países com melhores resultados na área de saúde do mundo importa médicos cubanos e a população aprova o seu trabalho.

– Acho que é ponto pacífico para todos que médicos estrangeiro tenham que ser submetidos a provas aí no Brasil. Não faz sentido importar profissionais de baixa qualidade. Como já disse, o próprio ministro da saúde diz concordar com isso. Eu mesmo fui submetido a 5 provas aqui em Portugal para poder validar meu título de especialista. As minhas provas foram voltadas a testar meus conhecimentos na área em que iria atuar, que no caso é Nefrologia. Os cubanos que vieram trabalhar em Medicina de família também foram submetidos a provas, para que o governo tivesse o mínimo de controle sobre a sua qualidade.

Pois bem, na última leva, 60 médicos cubanos prestaram exame e 44 foram aprovados (73,3%). Fui procurar dados sobre o Revalida, exame brasileiro para médicos estrangeiros e descobri que no ano de 2012, de 182 médicos cubanos inscritos, apenas 20 foram aprovados (10,9%). Há algo de estranho em tamanha dissociação. Será que estamos avaliando corretamente os médicos estrangeiros?

Seria bem interessante que nossos médicos se submetessem a este exame ao final do curso de medicina. Não seria justo que os médicos brasileiros também só fossem autorizados a exercer medicina se passassem no Valida? Se a preocupação é com a qualidade do profissional que vai ser lançado no mercado de trabalho, o que importa se ele foi formado no Brasil, em Cuba ou China?

O CFM se diz tão preocupado com a qualidade do médico cubano, mas não faz nada contra o grande negócio que se tornaram as faculdades caça-níqueis de Medicina. No Brasil existe um exército de médicos de qualidade pavorosa. Gente que não sabe a diferença entre esôfago e traqueia, como eu já pude bem atestar. Porque tanto temor em relação à qualidade dos estrangeiros e tanta complacência com os brasileiros?

– Em relação este exame de validação do diploma para estrangeiros abro um parêntesis para contar uma situação que presenciei quando ainda era acadêmico de medicina, lá no Hospital do Fundão da UFRJ.

Um rapaz, se não me engano brasileiro, tinha feito seu curso de medicina na Bolívia e havia retornado ao país para exercer sua profissão. Como era de se esperar, o rapaz foi submetido a um exame, que eu acredito ser o Revalida (na época realmente não procurei me informar). O fato é que a prova prática foi na enfermaria que eu estava estagiando e por isso pude acompanhar parte da avaliação.

Dois fatos me chamaram a atenção, o primeiro é a grande má vontade dos componentes da banca com o candidato. Não tenho dúvidas que ele já havia sido prejulgado antes da prova ter sido iniciada. Outro fato foi o tipo de perguntas que fizeram.

Lembro bem que as perguntas feitas para o rapaz eram bem mais difíceis que aquelas que nos faziam nas nossas provas. Lembro deles terem pedidos informações sobre detalhes anatômicos do pescoço que só interessam a cirurgiões de cabeça e pescoço. O sujeito que vai ser médico de família, não tem que saber todos os nervos e vasos que passam ao lado da laringe e da tireoide. O cara tem que saber tratar diarreia, verminose, hipertensão, diabetes e colesterol alto. Soube dias depois que o rapaz tinha sido reprovado.

Não sei se todas as provas do Revalida são assim, pois só assisti a uma, e mesmo assim parcialmente. Mas é muito estranho os médicos cubanos terem alta taxa de aprovação em Portugal e pouquíssimos passarem no Brasil. Outro número que chama a atenção é o fato de mais de 10% dos médicos em atividade em Portugal serem estrangeiros. Na Inglaterra são 40%. No Brasil esse número é menor que 1%. E vou logo avisando, meu salário aqui não é maior do que dos meus colegas que ficaram no Brasil.

– Até agora não vi nem o CFM nem a imprensa irem lá nas áreas mais carentes do Brasil perguntar o que a população sem acesso à saúde acha de virem 6000 médicos cubanos para atendê-los. Será que é melhor ficar sem médico do que ter médicos cubanos? É o óbvio ululante que o ideal seria criar condições para que médicos brasileiros se sentissem estimulados a ir trabalhar no interior. Mas em um país das dimensões do Brasil e com a responsabilidade de tocar a medicina básica pulverizada nas mãos de centenas de prefeitos, isso não vai ocorrer de uma hora para outra.

Na verdade, o governo até lançou nos últimos anos o Programa de Valorização do Profissional da Atenção Básica (Provab), que oferece salários mensais de R$ 8 mil e pontos na progressão de carreira para os médicos que vão para as periferias. O problema é que até hoje só 4 mil médicos aceitaram participar do programa. Não é só salário, faltam condições de trabalho. O que fazemos então? Vamos pedir para os mais pobres aguentar mais alguns anos até alguém conseguir transformar o SUS naquilo que todos desejam? Vira lá para a criança com diarreia ou para a mãe grávida sem pré-natal e diz para ela segurar as pontas sem médico, porque os médicos do sul e sudeste do Brasil, que não querem ir para o interior, acham que essa história de trazer médico cubano vai desvalorizar a medicina do Brasil.

– É bom lembrar que Cuba exporta médicos para mais de 70 países. Os cubanos estão acostumados e aceitam trabalhar em condições muito inferiores. Aliás, é nisso que eles são bons. Eles fazem medicina preventiva em massa, que é muito mais barata, e com grandes resultados. Durante o terremoto do Haiti, quem evitou uma catástrofe ainda maior foram os médicos cubanos. Em poucas semanas os médicos dos países ricos deram no pé e deixaram centenas de milhares de pessoas sem auxílio médico.

Se não fosse Cuba e seus médicos, haveria uma tragédia humanitária de proporções dantescas. Até o New England Journal of Medicine, a revista mais respeitada de medicina do mundo, fez há poucos meses um artigo sobre a medicina em Cuba. O destaque vai exatamente para a capacidade do país em fazer medicina de qualidade com recursos baixíssimos (http://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMp1215226).

– Com muito menos recursos, a medicina de Cuba dá um banho em resultados na medicina brasileira. É no mínimo uma grande arrogância achar que os médicos cubanos não estão preparados para praticar medicina básica aqui no Brasil. O CFM diz que a medicina de Cuba é de má qualidade, mas não explica por que a saúde dos cubanos, como muito menos recursos tecnológicos e com uma suposta inferioridade qualitativa, tem índices de saúde infinitamente melhores que a do Brasil e semelhantes à avançada medicina americana (dados da OMS).

– Agora, ninguém tem que ir cobrar do médico cubano que ele saiba fazer cirurgia de válvula cardíaca ou que seja mestre em dar laudos de ressonância magnética. Eles não vêm para cá para trabalhar em medicina nuclear ou para fazer hemodiálises nos pacientes. Medicina altamente tecnológica e ultra especializada não diminui mortalidade infantil, não diminui mortalidade materna, não previne verminose, não conscientiza a população em relação a cuidados de saúde, não trata diarreia de criança, não aumenta cobertura vacinal, nem atua na área de prevenção. É isso que parece não entrar na cabeça de médicos que são formados para serem superespecialistas, de forma a suprir a necessidade uma medicina privada e altamente tecnológica. Atenção! O governo que trazer médicos para tratar diarreia e desidratação! Não é preciso grande estrutura para fazer o mínimo. Essa população mais pobre não tem o mínimo!

Que venham os médicos cubanos, que eles façam o Revalida, mas que eles sejam avaliados em relação àquilo que se espera deles. Se os médicos ricos do sul maravilha não querem ir para o interior, que continuem lutando por melhores condições de trabalho, que cobrem dos governos em todas as esferas, não só da Federal, melhores condições de carreira, mas que ao menos se sensibilizem com aqueles que não podem esperar anos pela mudança do sistema, e aceitem de bom grado os colegas estrangeiros que se dispõe a vir aqui salvar vidas.

Infelizmente até a classe médica aderiu ao ativismo de Facebook. O cara lê a Veja ou O Globo, se revolta com o governo, vai no Facebook, repete meia dúzia de clichês ou frases feitas e sente que já exerceu sua cidadania. Enquanto isso, a população carente, que nem sabe o que é Facebook morre à mingua, sem atendimento médico brasileiro ou cubano.

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5 Comentários

Arquivado em Educação, Política, Sociedade, Universidade

5 Respostas para “Pedro Saraiva: Sobre a vinda dos 6.000 médicos cubanos

  1. Fabio nogueira

    Infelizmente os uma maioria dos nossos médicos quando formados já saem com emprego garantido ou seja:Um consultório médico ou a rede particular. Ouço muito falar da medicina,outro dia uma jornalista fazendo um trabalho em Cuba, contraiu uma conjutivite foi ao posto médico após preencher o formulário foi atendida e medicada 15 minutos. Pediram para continuar o tratamanto no Brasil,quando foi uma clínica PARTICULAR,ela ficou esperendo por 2 horas. Sem comentários.
    !!VIVA CUBA!!

  2. Gostei da abordagem eloquente, focada e sensata do autor da matéria, qualidades escassas na maioria das opiniões emitidas nas mídias digitais.

    A bem da verdade, o que nos falta é sensibilidade e compaixão para com a vida dos semelhantes.

    Enquanto a humanidade tiver um cofre no lugar dos corações, e o egocentrismo em torno dos interesses de pequenos grupos predominar, mesmo causando sofrimento à milhares de milhões pelo planeta, as mudanças necessárias levarão algum tempo para acontecer, e estas serão o fruto do trabalho persistente e altruísta de seres conscientes espalhados por nossa sociedade decadente, que não desistem da humanidade.

    (*) Lembrei-me agora de “Ensaio Sobre A Cegueira” de Saramago.
    …..
    Parabéns pela transcrição desta, vou compartilhá-la nas redes sociais. Estou certo de que irá iluminar a percepção de muitos que gostariam de contribuir para apoiar e resolver a questão em pauta.

    Aliás, este espaço agrega valor às redes sociais, onde transbordam notícias tendenciosas, mal escritas e de má qualidade. Desejo longa vida aos projetos!

    Jorge Silva.

  3. João Matheus

    Cara, gostei muito do seu texto e ele me fez refletir bastante… Sou estudante de medicina e até participei do movimento do Revalida Já!.. Mas, depois de ler seu texto pensei nos benefícios que esse decreto poderia trazer…pensei também nos malefícios.. Bom, se vierem apenas médicos estrangeiros, que sejam realmente estrangeiros, e não brasileiros que foram pra bolívia para evitar o processo de vestibular, que além de muito difícil tem se tornado muito custoso.. (inscrições estão em torno de 200 reais). Não acho justo com quem passou anos no cursinho, gastou tanto pra entrar na faculdade e em alguns casos até gastou o que tinha e o que não tinha para pagá-la e se formar aqui no Brasil, enquanto um colega, que nunca quis nada com os estudos e até já perdeu o primeiro ano do ensino médio por falta, resolveu ir pra bolívia, gastando mil reais por mês pra se sustentar muito bem e ainda pagar a faculdade, fazendo um curso de medicina de menor duração que o brasileiro e ainda voltando pra trabalhar aqui indiscriminadamente.. Após ler seu texto acho que até apoio a vinda de cubanos, espanhóis e portugueses, mas por tempo determinado e com um limite numérico. O governo poderia resolver isso de outra forma: Deveria ser obrigatório que todo aluno que teve o beneficio do prouni e teve sua faculdade paga pelo governo, ou aluno que como eu teve a faculdade financiada pelo FIES, trabalhasse por 3 e 2 anos, respectivamente, em uma região determinada pelo próprio governo. Essa seria uma solução… Outra solução é o PROVAB, que eu mesmo pretendo aderir… Vc falou que a aderência ao programa foi baixa, mas acho que seus dados estão desatualizados… Mesmo assim o programa foi muito mal divulgado, tanto que eu soube há pouco tempo dele e procurei me informar mais…O problema maior é sobre a validade desse decreto… Com certeza uma vez implantado ninguém mais tira… Assim como o bolsa família… Acho que deveriam pensar em como melhorar a estrutura sim e também estudar uma forma de relocar os médicos, e que nesses 3 anos de medicos estrangeiros aqui isso fosse colocado em prática… Que fizessem planos de carreira pros médicos, assim como existe na área jurídica, onde um juiz fica por uns 5 anos em uma comarca menor, determinada pelo governo, antes de ir para outra maior e mais importante. Não é tão difícil contornar essa situação, ainda mais q a maioria dos estudantes de medicina dependem do sistema de financiamento do governo, o FIES… Na verdade falta boa vontade de pensar em uma forma de agir em prol dos dois lados. Que tragam profissionais estrangeiros, mas que seja com muito critério e cuidado, e que enquanto eles estão aqui temporariamente, se crie outras formas de solucionar o problema.

  4. Marcelo da Silva

    Parabéns Dilma pela iniciativa. Isso só tem a contribuir para a melhora da saúde pública no Brasil. Espero que isso venha a se concretizar, e que esse médicos, possam nos ajudar.

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