Documentário They Are We, de Emma Christopher, estabelece conexão cultural entre Cuba e Serra Leoa

Interessante matéria de Emma Christopher, publicada em abril na revista The Atlantic, destaca como o documentário They Are We, de Sérgio Leyva Seiglie, teria ajudado alguns cubanos a descobrirem que são descendentes de escravos sequestrados de uma pequena aldeia localizada em Serra Leoa.

De modo geral, a descoberta se deu há alguns anos, quando o chefe de uma pequena aldeia de Serra Leoa viu que um grupo de cubanos dançavam e cantavam canções em uma língua que, para eles próprios, era desconhecida, todavia muito familiar ao chefe Pokawa da vila de Mokpangumba.

Embora a matéria tenha o claro interesse utilizar essa história para fazer uma crítica ao governo de Cuba (especialmente no período de Fidel Castro), ainda assim achei que valia a pena traduzi-la e repercuti-la aqui no Hum Historiador, pois muitos dos leitores do blog não conseguem identificar nos posts que publico as relações entre o passado de um país que viveu intensamente o regime de escravidão e o presente. Não enxergam, sequer, as ligações entre América-África a partir de seu produto mais óbvio, a herança cultural africana que, após séculos e séculos de sucessivos ataques, ainda persiste.

Abaixo segue uma tradução livre que preparei da matéria tal como foi publicada na revista.

COMO MORADORES DE VILAREJOS DE CUBA DESCOBRIRAM QUE SÃO DESCENDENTES DE ESCRAVOS DE SERRA LEOA

A incrível história das canções e danças tradicionais, passadas por séculos, que ligaram um pequeno grupo étnico caribenho a uma remota tribo africana.

por Emma Christopher | publicado originalmente em 22 de abril de 2013 para The Atlantic

Barmmy Boy Mansaray, é um cameraman de Serra Leoa que trabalhou para o documentário “They Are We”. (Sergio Leyva Sieglie)

O chefe Mabadu Pokawa mal pode acreditar. Sua voz oscilava um pouco entre espanto e esperança, perguntando onde eu havia gravado as canções e danças que ele estava assistindo na tela de meu laptop em sua pequenina e isolada aldeia em Serra Leoa.

Há uma razão para sua descrença. Quando as pessoas da tela não estão cantando em uma língua que, de outro modo, já foi esquecida há muito tempo, estão falando o espanhol rápido à maneira cubana. Eles claramente não são da aldeia de Pokawa, onde poucos falam o inglês dos que passaram pelas escolas e ninguém fala o espanhol.

No entanto, por tudo isso, as pessoas de Perico, Cuba são daqui. São gente de Pokawa, ancestrais que foram exilados séculos atrás como escravos.

A vila de Mokpangumba do chefe Pokawa é implacavelmente pobre, condenada pela geografia assim como pela história. Deixada de fora das estradas ao redor pelas curvas e voltas do rio Taia, seus moradores não tem outra água se não a do fluxo acastanhado do rio e também não contam de nenhum modo com instalações sanitárias. Eletricidade está aquém de suas aspirações. Pokawa, como a maior parte dos homens, planta para sua subsistência, cultivando arroz, inhame e banana para suplementar o peixe que retira do rio.

Agora Pokawa e seu povo estão prontos para celebrar o retorno daqueles que se acreditava há muito terem se perdido. Os habitantes da vila estão todos ocupados se preparando. Cabanas estão sendo preparadas para os visitantes e sacos vazios de arroz estão sendo recheados com folhas para o preparo dos colchões. Um banheiro rudimentar foi cavado e algumas colheres foram colhidas para as refeições, cientes de que os visitantes estão acostumados a tais luxos. Insistindo que eles mesmos contribuem para a celebração pela chegada dos cubanos, os anciãos da vila deram metade do peixe necessário para um banquete para 800 pessoas. Uma coleção de contas sujas de pequeno valor foi tomado para pagar por metade do óleo de palma e pimentas que serão necessárias.

Eles foram inflexíveis sobre todos terem ido embora. Pessoas que cantam as canções da vila – ritmos e melodias que os unem a essa aldeia inacessível – são considerados gente da família. “Nossos avós que nos contaram as histórias sobre nossa gente indo daqui como escravos, sabemos agora que eles não estavam mentindo,” disse Joe Allie, um ancião da villa e tio de Pokawa.

“Esses devem ser nosso povo, “ diz Solomon Musa, um jovem que trabalha como professor na vila, “quando vimos as pessoas que praticam as mesmas coisas que nós costumamos fazer, ficamos muito felizes e cheios de alegria.”

Há uma ideia generalizada de que os africanos são indiferentes ao destino dos descendentes de escravos espalhados pelas Américas. Essa crença nasce em grande parte da tragédia de que a vasta maioria dos que saíram com a diáspora africana ficaram com muito pouco das línguas específicas, culturas, ou crenças que poderiam uni-los a um lugar particular de origem. A insensibilidade total da escravidão, a destruição sem fim das famílias, e o enorme peso das décadas que se passaram contribuíram para atenuar muito do que originalmente cruzou o oceano com os seus antepassados. Na ausência desses laços, alguns afro-americanos tem ido a locais centrais de comemoração, tais como a Ilha Gorée ou o Castelo Cape Coast, em busca de tudo o que foi perdido. Aqueles que esperaram por uma conexão individual com a terra de origem tem, por vezes, relatado um certo desapontamento com esses lugares. Eles são áreas de turismo, no fim das contas. Além disso, a pele escura aqui é norma, de modo que ela só é muito pouco para simbolizar parentesco ou afinidade se não estiver amparada por uma língua, cultura ou experiência partilhada.

Pokawa e seu povo, em contrapartida, encontrou alguns dos seus parentes perdidos nas Américas. Este pequeno grupo de pessoas em Cuba – um país que eles pouco ouviram falar a respeito – cantando e dançando suas músicas, foi um presente de Deus. Ou, mais apropriadamente, de Deus e Allah, ambos adorados aqui lado a lado. Mantidos de fora da mídia e de quase todo sistema educacional do ocidente, para eles as pessoas tomadas como escravas para o comércio transatlântico de escravos ainda são chamadas por seus nomes antigos, invocadas como os perdidos. Havia Gboyangi. Bomboai. Havia uma garota jovem que estava prestes a se casar.

Teaser oficial do documentário THEY ARE WE  de Emma Christopher no Vimeo.

Mas, com meu ceticismo acadêmico, duvidei que poderia ser verdade. Retornei a Cuba e aos arquivos e registros, buscando por alguma evidência escrita de como isso deve ter acontecido. A história inteira, exata provavelmente jamais será recuperada, mas uma mulher específica e seus descendentes preservaram uma série de canções e danças parecidas o bastante para serem claramente identificadas.

O que nós sabemos é que havia uma garota chamada Josefa, sequestrada de sua terra natal na década de 1830, que sobreviveu muito mais do que os sete anos típicos dos engenhos cubanos, em meados do século dezenove. Na verdade, ela viveu até uma idade avançada, tempo suficiente para experimentar a liberdade, e ensinar a sua bisneta Florinda sua herança africana. Forinda, por sua vez, ensinou seu neto, que ela criou desde a infância. Seu nome é Humberto Casanova, agora ele mesmo um bisavô. É a Casanova e três de seus amigos por quem Pokawa e seu povo estão esperando.

O esforço de manter as canções e danças vivas é especialmente notável, pois desde o começo da década de 1960 até o fim da década de 1980, suas performances foram proscritas de Cuba. Fidel Castro restringiu atividades culturais e religiosas afro-cubanas da mesma forma como barrou o catolicismo e outras fés. Foi apenas em tempos mais recentes que elas foram permitidas a ser celebradas abertamente, e poucos grupos lograram ressuscitar suas canções, danças e rituais. De alguma forma Humberto Casanova e sua fiel assistente Magdalena (Piyuya) Mora conseguiram realizar esse feito singular. (Aos 85 anos de idade, Piyuya está muito frágil para fazer a viagem a Serra Leoa, então será representada por seu sobrinho, o entalhador Alfredo Duquesne.)

Levou dois anos para se obter a permissão para a visita, e estas só foram possíveis recentemente em função do relaxamento das leis de viagem em Cuba. Nesses dois anos eu voltei a Serra Leoa diversas vezes para mantê-los a par do andamento da viagem, sem esquecer da ironia de que, 180 anos depois, os africanos são muito pobres para retirarem certidões de nascimentos que lhes permitiriam obter passaportes, enquanto os cubanos descendentes dos escravos não são tão livres para viajar como gostariam. O pessoal da aldeia jamais desistiram de ter esperanças. Eles esperaram por 170 anos pelo retorno de seus antepassados, afinal de contas, o que são alguns meses a mais?

O que esta visita significa para Pokawa e seu povo é quase impossível de compreender plenamente. As pessoas aqui são definidas por suas relações familiares, com muito pouco da pessoa existindo além da unidade familiar. Como reincorporar pessoas que se foram a tanto tempo, que agora falam uma língua diferente mas que, inescapavelmente, são seus parentes, é uma questão que pode apenas ser tratada através da aceitação de coração aberto. Apenas saber que eles estão vivos, que sua cultura floresceu em algum outro lugar, é maravilhoso. Pokawa estendeu o convite para que eles permanecessem na aldeia o quanto quisessem, o que para esta viagem será apenas uma semana.

Assim como os tambores da celebração estão sendo preparados, o “diabo” também está, uma dançarina fantasiada com ráfia dos pés à cabeça e com painéis de madeira em suas costas, representando todos os ancestrais. Pois os ancestrais estão, finalmente, dançando com prazer e alegria.

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Arquivado em Cultura, Documentários, Filmes

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