Carta resposta do professor Marcelo Rede – DH- USP, a professora Marlene Suano.

    A propósito da Carta Aberta da prof. Marlene Suano.

Sendo membro titular da CCP do Programa de História Social e tendo participado de modo ativo do processo seletivo ainda em curso, a Carta Aberta da prof. Marlene Suano inclui-me em seu imaginário ‘Reino dos Sem Critérios’.

Sem ter procuração dos demais colegas na mesma situação, permito-me fazer algumas considerações sobre certos pontos levantados, em particular porque o texto apresenta-se como uma mistura de apreensões legítimas – que poderiam, portanto, levar a um aperfeiçoamento de nosso sistema de ingresso – e de virulentos e injustificáveis ataques, que põem na berlinda princípios éticos e morais, pessoas e instituições.

Subsidiariamente, visto que o público destinatário da Carta excedeu em muito o âmbito do Departamento de História, ofereço alguns elementos de precisão que, espero, permitirão que a desconfiança não prospere no terreno fértil do desconhecimento dos fatos.

Em relação à estrutura e ao governo da Pós-Graduação:

– o fato de as CCPs terem autonomia em relação aos Departamentos advém da própria natureza dos Programas de Pós. Ainda que, em geral, constituídos majoritariamente por professores de um Departamento, os Programas têm corpo mais diversificado (por exemplo, em nosso caso, proveniente de Museus como o MAE e o Museu Paulista ou do IEB). Por outro lado, professores de um Departamento podem se filiar a Programas diferentes (História Social, História Econômica ou mesmo outro). Não são, portanto, instâncias coincidentes.

– Disso decorrem implicações administrativas que parecem escapar à missivista e não podem ser, simplesmente, denegridas sob rótulos como ‘Frankenstein’ ou ‘monstro sem cabeça’. Cabe às CCPs conduzir o Programa e também o processo seletivo. Como, no caso do Programa de História Social, as reuniões são continuadas e abertas a todos os professores – para além, pois, de seus 10 membros titulares e 10 membros suplentes -, é nessa instância que decisões são tomadas. E assim foi quanto à seleção de ingresso.

– Foi também por isso que espantou e mereceu nosso rechaço a primeira manifestação da professora, exigindo à Chefia de Departamento que constituísse ‘uma comissão que efetivamente corrigisse as provas’. Como se isso não houvera sido feito, mas falarei das provas abaixo. Por ora, aponte-se apenas que a solicitação era extemporânea e apresentada a instância incompetente para tal. Acrescente-se que, da Plenária do Departamento de História, fazem parte professores de Programas diversos e mesmo representantes discentes da graduação. Não seria, certamente, esse o fórum apto a decidir sobre questões relativas ao Programa de História Social.

– De fato, a prof. Marlene Suano reconhece, e se exaspera com, essa autonomia. Poderíamos até mesmo concordar que alguns inconvenientes surgem de tal situação. É inadmissível, porém, que a atuação daqueles que assumiram a responsabilidade administrativa e acadêmica de conduzir um Programa de Pós, segundo as regras e estruturas estabelecidas, seja posta sob suspeição preventiva. Participasse a professora minimamente dos processos e constataria que os debates e encaminhamentos têm sido feitos com grande abertura e devida transparência.

– Que sirva de exemplo o ajuste ao Novo Regimento, ora em curso. Decisões importantíssimas têm sido consumadas em reuniões consecutivas nas últimas semanas; encontros em que todos os professores do Programa, não apenas membros da CCP, têm voz e voto. Infelizmente, o quórum de tais plenárias vem sendo baixíssimo.  Imperfeições poderão, portanto, existir e deverão ser reparadas no futuro. Elas não resultam, contudo, de alguma maquinação bandida de uma ‘sociedade secreta’ ou de autoritarismo na condução dos processos, senão, e muito mais, do absenteísmo.

Em relação à seleção de ingresso e à correção das provas:

– nosso modelo de seleção foi, justamente, instituído – e enfrentando duras resistências – para que o processo fosse mais amplo, transparente e coletivo, substituindo-se à antiga prerrogativa autocrática do orientador em escolher seus orientandos. Dele fazem parte as provas metodológicas. De fato, não há um ‘gabarito’ que lhes sirva de patamar. A própria noção me parece estranha no contexto de uma seleção de ingresso na pós-graduação. Trata-se, entretanto, de uma dissertação sobre tema de caráter teórico e historiográfico (portanto, não de avaliação sobre conhecimento temático específico). Além disso, já no Edital do concurso, uma bibliografia mínima estabelece algumas balizas acerca das questões que poderão ser objeto da avaliação. Por fim, no momento de sua realização, um fragmento de texto, teórico-metodológico ou historiográfico, sinaliza ao candidato os problemas e limites do que será considerado.

– não parece, portanto, que estamos no universo da mais total e completa aleatoriedade, como censura a prof. Marlene Suano. Com efeito, alguns colegas têm, de modo sereno e na instância adequada, ponderado que tais elementos não seriam suficientes para identificar, dentre duzentos candidatos, aqueles habilitados a seguirem o percurso da pós-graduação. É possível e mesmo muito provável. Cabe, então, rediscutirmos o que queremos para as próximas seleções e apresentarmos modelos mais adequados e eficazes de prova. Isso não se confunde e não se coaduna com macular de suspeita infundada um processo em andamento que se conformou estritamente ao que foi pactuado e ao que consta formalmente do Edital.

– a correção das provas ocupa o centro das sérias acusações da prof. Marlene Suano. É preciso, de pronto, separar suas dimensões técnica e ética. Quanto à primeira, poderíamos, de fato, ter uma banca restrita, designada pela Coordenação ou escolhida pela CCP. É esta, aliás, a minha preferência. Mas decidimos, coletivamente e ao longo de sucessivos processos seletivos, que a correção seria aberta a todos os professores do Programa, sem distinção. É o exato contrário da ausência de democracia aventada na Carta Aberta.

– Note-se novamente, e infelizmente, que, apesar de convocação geral aos docentes, apenas sete dos mais de 80 professores atenderam ao apelo; nem todos eles membros da CCP.

– A seu favor, talvez tal procedimento de correção tenha o potencial de imprimir à seleção uma maior diversidade de olhares, fazendo com que o filtro não seja unívoco. Mas é possível, igualmente, que exacerbe uma pulverização de critérios avaliativos. Em todo caso, o princípio que preside tal escolha é o de que todos os professores do Programa têm competência e seriedade para ler uma prova e proferir seu julgamento. Provas, acrescente-se, que são corrigidas sob o sigilo dos anonimatos de candidatos e avaliadores, o que se acreditou ser um dispositivo de despersonalização e não um ‘esconderijo’ para encobrir atos tortos.

– O que é, justamente, inaceitável nos termos da Carta é sua insinuação de improbidade. Como, a partir de quê, pode-se dizer que os professores leem as provas ‘se quiserem’? Há fundamento para suspeita tão gravíssima? Nenhum processo está ao abrigo de irresponsabilidades individuais ou falhas. Para tanto e para o mais, existem, justamente, mecanismos de revisão, que, aliás, foram acionados e funcionaram no caso em questão: 23 candidatos recorreram de suas correções; dois tiveram revistos seus resultados.

– Escandaliza-se a professora por não terem as provas nem notas nem anotações. Não as têm porque não são previstas ou exigidas. Os corretores devem apenas distinguir entre ‘aprovados’ e ‘reprovados’, sem conferir notas. Anotações podem ser eventualmente feitas, mas esta é uma iniciativa individual do corretor. No mais, frequentemente um corretor hesita quanto ao veredito e remete a prova a um segundo leitor.

– Eis a segunda – e principal – dimensão: o que há de vergonhoso ou antiético em tudo isso? É vergonhoso ter-se prontificado a participar de uma seleção para escolher os futuros pós-graduandos da Universidade? É antiético ter-se conduzido pelas normas pré-estabelecidas e de público conhecimento?  Podemos ter nossos limites e o processo pode ter suas inadequações, mas isso não faz de nós uma camarilha de mal intencionados nem da seleção que conduzimos, uma impostura. Há muito, sem dúvida, que pode ser feito para aprimorar o concurso de ingresso na Pós. Há esferas e meios adequados para tanto. Há também modos civilizados de se dirigir aos colegas e responsáveis. Mas não há lugar para irresponsabilidade acusatória ou denuncismo fácil. Tal disposição perenemente suspicaz só leva à degradação de nosso convívio acadêmico e profissional.

Deixemos à margem outros elementos da Carta Aberta da prof. Marlene Suano, seja porque, esperemos, merecerão eles próprios detalhamento ulterior, seja porque, por trás de sua pretensa precisão matemática, suscitam desconfiança, o que inclui números e porcentagens apresentados, como também levantamento comparativo de critérios de seleção.

Seja como for, criar, a partir de poucos dados movediços e de muito azedume retórico, uma dualidade entre o Mal (que ‘joga na lama décadas de luta pela democracia’) e o Bem (que se pretende justificar pela genealogia de nossos prestigiosos ancestrais da FFLCH) não só é procedimento falacioso como em nada contribui ao debate institucional. Abundam, nas linhas do texto, palavras e noções que nos são caras: ética e transparência; vergonha e honestidade; democracia. É de se esperar que, pela sua importância, ao serem evocadas, o sejam com o respeito que merecem. O peso de suas implicações, como sempre concordei com a professora, não admite leviandade.

Marcelo Rede

CCP – Programa de Pós-Graduação em História Social

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Divulgado pelo DH-USP via e mail institucional da Universidade de São Paulo.
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2 Comentários

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2 Respostas para “Carta resposta do professor Marcelo Rede – DH- USP, a professora Marlene Suano.

  1. Ximena Leon

    Eu não conhecia ninguém no DH quando prestei as provas do mestrado, nem tinha sido aluna especial nem nada. Bombei na primeira vez e passei na segunda.

  2. Pois é Ximena, eu entrei de primeira no processo do final de 2011 para ingressar no primeiro semestre de 2012. Depois que vi toda esta lavação de roupa suja em público, fiquei me questionando se eu mereci ter sido aprovado no processo que participei… =( Claro que estou seguro de que eu fiz boas provas, de que meu projeto era bom e, em decorrência disso, meu trabalho que está prestes a ser qualificado também é bom, mas é impossível não sentir todo esse meu esforço questionado ao ler as cartas de nossos professores.

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