MÉDICOS cubanos no Brasil: “que el dolor no nos sea indiferente”

Sobre a vinda dos primeiros médicos cubanos para trabalharem no Brasil, gostaria de compartilhar o relato emocionado de Fernando Brito para o blog Tijolaço, publicado neste último sábado (24).

Não concordo com tudo o que ele escreveu, especialmente porque tenho conhecimento de médicos que discordam veementemente da posição adotada por esse grupo que rechaça os cubanos simplesmente por espírito de corpo ou por uma ideologia tacanha por trás de um estilo de vida que cega uma grande parte da população para o essencial: a vida de seres humanos.

Abaixo segue a íntegra do relato de Fernando Brito.

Corem diante desta negra, doutores! Ela tem o que os senhores perderam
por Fernando Brito para o blog Tijolaço | publicado originalmente em 24.ago.2013

“Somos médicos por vocação, não nos interessa um salário, fazemos por amor”, afirmou Nelson Rodrigues, 45.

“Nossa motivação é a solidariedade”, assegurou Milagros Cardenas Lopes, 61

“Viemos para ajudar, colaborar, complementar com os médicos brasileiros”, destacou Cardenas em resposta à suspeita de trabalho escravo. “O salário é suficiente”, complementou Natasha Romero Sanches, 44.

Poucas frases, mas que soam  como se estivessem sendo ditas por seres de outro planeta no Brasil que vivemos.

O que disseram os primeiros médicos cubanos do  grupo que vem para servir onde médicos brasileiros não querem ir deveria fazer certos dirigentes da medicina brasileira reduzirem à pequenez de seus sentimentos e à brutalidade de suas vidas, de onde se foi, há muito tempo, qualquer amor à igualdade essencial entre todos os seres humanos.

Porque gente que não se emociona com o sofrimento e a carência de seus semelhantes, gente que se formou, muitas vezes, em escolas de medicina pagas com o imposto que brasileiros miseráveis recolheram sobre sua farinha, seu feijão, sua rala ração, gente que já viu seus concidadãos madrugando em filas, no sereno, para obter um simples atendimento, gente assim não é civilizada, não importa quão bem tratadas sejam suas unhas, penteados os seus cabelos e reluzentes seus carros.

Perto desta negra aí da foto, que para vocês só poderia servir para lavar suas roupas e pajear seus ricos filhinhos, criados para herdar o “negócio” dos pais, vocês nao passam de selvagens, de brutos.

Vocês podem saber quais são as mais recentes drogas, aprendidas nos congressos em locais turísticos, custeados por laboratórios que lhes dão as migalhas do lucro bilionário que têm ao vender remédios. Vocês podem conhecer o último e caro exame de medicina nuclear disponível na praça a quem pode pagar. Vocês podem ser ricos, ou acharem que são, porque de verdade não passam de uma subnobreza deplorável, que acha o máximo ir a Miami.

Mas vocês são lixo perto dessa negra, a Doutora – sim, Doutora, negra, negrinha assim!- Natasha é, eu lhes garanto.

Sabem por que? Por que ela é capaz de achar que o que faz é mais importante do que aquilo que ganha, desde que isso seja o suficiente para viver com dignidade material. Porque a dignidade moral ela a tem, em quantidade suficiente para saber que é uma médica, por cem, mil ou um milhão de dólares.

Isso, doutores, os senhores já perderam. E talvez nunca mais voltem a ter, porque isso não se compra, não se vende, não se aluga, como muitos dos senhores, para manter o status de pertencerem ao corpo clínico de um hospital, fazem com seus colegas, para que dêem o plantão em seus lugares.

Os senhores não são capazes de fazer um milésimo do que ela faz pelos seres humanos, desembarcando sob sua hostilidade num país estrangeiro, para tratar de gente pobre que os senhores não se dispõem a cuidar nem querem deixar que se cuide.

Os senhores nao gritaram, não xingaram nem ameaçaram com polícia aos Roger Abdelmassih, o estuprador, nem contra o infleiz que extorquiu R$ 1.200 para fazer o parto de uma adolescente pobre, nem contra os doutores dos dedos de silicone, nem contra os espertalhóes da maternidade paulista cuja única atividade era bater o ponto.

Eles não os ameaçaram, ameaçaram apenas aos pobres do Brasil.

Estes aì, sim, estes os ameaçam. Ameaçam a aceitação do que vocês se tornaram, porque deixaram que a aspiração normal e justa de receber por seu trabalho se tornasse maior do que a finalidade deste próprio trabalho, porque o trabalho é um bem social e coletivo, ou então vira mero negócio mercantil.

É isto que estes médicos cubanos representam de ameaça: o colocar o egoísmo, o consumismo, o mercantilismo reduzidos ao seu tamanho, a algo que não é e nem pode ser o tamanho da civilização humana.

Aliás, é isso que Cuba, há quase 55 anos, representa.

Um país minùsculo, cheio de carências, que é capaz de dar a mão dos médicos a este gigante brasileiro.

E daí que eles exportem médicos como fonte de receita? Nós não exportamos nossos meninos para jogar futebol? O que deu mais trabalho, mais investimento, o que agregou mais valor a um país: escolas de medicina ou esteiras rolantes para exportar seus minérios?

É por isso que o velhissimo Fidel Castro encarna muito mais a  juventude que estes yuppiescoxinhas, cuja vida sem causa  cabe toda dentro de um cartão de crédito.

Eu agradeço à Doutora Natasha.

Ela me lembrou, singelamente, que coração é algo muito maior  do que aquele volume que aparece, sombrio, nas tantas ressonâncias, tomografias e cateterismos porque passei nos últimos meses.

Ele é o centro do progresso humano, mais do que o cérebro, porque é ele quem dá o norte, o sentido, o rumo dos pensamentos e da vida.

Porque, do contrário, o saber vira arrogância e os sentimentos, indiferença.

E o coração, como na música de Mercedes Sosa, una mala palabra.

Como vimos, ao fim de seu relato, Brito nos lembra de Mercedes Sosa e, como ele, gostaria também de rememorar umas palavras desta grande “cantante”, que infelizmente, perdemos recentemente.

SOLO LE PIDO A DIÓS
por Mercedes Sosa

Sólo le pido a Dios
Que el dolor no me sea indiferente,
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacío y solo sin haber hecho lo suficiente.

Sólo le pido a Dios
Que lo injusto no me sea indiferente,
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después que una garra me arañó esta suerte.

Sólo le pido a Dios
Que la guerra no me sea indiferente,
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente.

Sólo le pido a Dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos,
Que esos cuantos no lo olviden fácilmente.

Sólo le pido a Dios
Que el futuro no me sea indiferente,
Desahuciado está el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente.

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7 Comentários

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7 Respostas para “MÉDICOS cubanos no Brasil: “que el dolor no nos sea indiferente”

  1. Achei, se me permite, o pensamento do autor bem miope, distorce a real discussão, essa falácia que é a importação de médicos “para ampliar a saúde dos brasileiros”. Por definição, amplia-se algo que já existe e convenhamos. Todo o resto do raciocínio é que canta, entoa, só falta o “hay de endurecer pero bla bla bla”. Não tenho dúvida da boa intenção dos cubanos, ignoro se são médicos ou qual a qualidade da sua formação. Mas convenhamos, se a resposta para a questão da saúde vem de Cuba, a pergunta está mal feita.

  2. Super Rogério, tudo? Tomara que sim. Leio sempre seus excelentes pontos de vista, gosto muito de visitar seu blog. Então, em primeiro lugar, parabéns por ele. O que aconteceu? O problema é justo este: não aconteceu nada. Você é um sujeito inteligente e por certo sabe que não faço parte da “imprensa golpista”, aliás, tive o cuidado de não “fazer parte” de clube nenhum, à direita ou à esquerda da minha vida. O lance dos pagamentos serem feitos diretamente ao governo de Cuba, uma notória ditadura, cheira mal, isso cheira. Acredito na competência de base dos médicos cubanos, vi de perto isso. Só não creio que FHC ou Lula ou Dilma estejam corretos nesse tipo de avaliação. Todo o resto é poesia, com o que não se trata da saúde de ninguém. Super abraço.

    • Caro Mariel,

      Obrigado pelos comentários e por sempre acompanhar o blog. Como disse, eu não concordo com absolutamente tudo o com o que o autor do post que repercuti no Hum Historiador escreveu em seu relato, mas achei bastante pertinente alguns dos pontos ali colocados. Hoje, ao ver o noticiário e me enojar com o racismo e o classismo de algumas pessoas, as palavras do Fernando me calaram ainda mais fundo.

      Grande abraço,

      RB

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