Arquivo do mês: setembro 2013

[IGOR FUSER] A América do Sul em busca da riqueza energética

O portal Outras Palavras acaba de publicar um texto de Igor Fuser, doutor em ciência política e professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, analisando como os países sul americanos conseguiram, a partir da virada para o século XXI, reconquistar o controle da exploração de suas reservas de recursos energéticos, antes controlada por empresas estrangeiras.

O texto abaixo, cujo título original é “O nacionalismo de recursos no século 21”1, corresponde ao capítulo 10 do livro “Energia e Relações Internacionais” (Editora Saraiva, 2013), de Igor Fuser. O autor, que ofereceu o texto aos leitores de “Outras Palavras”, convidou a todos para o lançamento do livro, junto com debate de sua obra, realizado nesta quinta-feira (26), às 18h, no curso de Relações Internacionais da PUC de São Paulo, Sala 117-A Prédio Novo (Rua Ministro Godói, 969 – Perdizes – São Paulo.

Gasoduto boliviano: em 2006, país nacionalizou uma de suas riquezas naturais mais importantes.

O NACIONALISMO DE RECURSOS NO SÉCULO 21
por Igor Fuser | para o Outras Palavras

Como países da região reconquistaram, a partir da virada do século, petróleo, gás e eletricidade antes controlados por empresas estrangeiras

O papel do Estado na gestão dos recursos energéticos

Igor Fuser

Igor Fuser, doutor em Ciência Política pela USP e professor do curso de Relações Internacionais da UFABC.

No período que se inicia em 2000, a tendência de alta dos preços da energia inverteu a prolongada depreciação dos recursos energéticos ao longo das décadas de 1980 e 1990. No mundo inteiro, fortaleceu-se a posição das empresas estatais de hidrocarbonetos em sua relação com as transnacionais. Conforme já foi relatado no Capítulo 5, atualmente 77% das reservas mundiais de petróleo se encontram sob o controle de estatais ou semiestatais. Essas empresas – conhecidas pelo acrônimo em inglês NOCs, de National Oil Companies – administram seus recursos energéticos a partir de interesses que nem sempre coincidem com as prioridades do mercado internacional e dos países mais desenvolvidos2. As NOCs, como agentes das políticas públicas traçadas pelos respectivos governos, geralmente buscam outros objetivos além de maximizar a extração e os lucros, tais como a redistribuição da renda nacional, a geração de receitas fiscais e a promoção do desenvolvimento. Estimulados pela alta dos preços, os governos em todos os países produtores de hidrocarbonetos têm procurado reforçar o controle sobre esses recursos, adotando medidas voltadas para ampliar a sua participação na renda petroleira, ou seja, nos excedentes gerados pelas exportações de petróleo e gás natural.

No plano político, essa postura se traduz no chamado nacionalismo de recursos, ou seja, a gestão dos recursos energéticos – especialmente os hidrocarbonetos – pelos Estados proprietários das reservas a partir de critérios de “interesse nacional”, o que geralmente inclui a elevação das receitas fiscais até o máximo possível, o foco no desenvolvimento econômico e social e a preservação das reservas com vistas ao benefício das gerações futuras. A Rússia, para citar apenas um exemplo, adotou a partir da posse do presidente Vladimir Putin, em 2000, uma política de reestatização parcial das empresas de petróleo e gás que haviam sido privatizadas após a dissolução da União Soviética. Entre outras iniciativas que desagradaram os governantes ocidentais, Putin obrigou empresas estrangeiras, como a Shell e a BP, a vender à companhia semiestatal Gazprom grande parte das suas ações nos projetos de exploração de petróleo e gás na Sibéria3. Os críticos ocidentais argumentam que, ao agir dessa maneira, o governo russo bloqueia os investimentos necessários para ampliar a sua produção de combustíveis. A resposta de Moscou é que, enquanto os preços mundiais da energia estiverem em alta, não é preciso ter pressa em explorar as reservas do país.

Uma faceta importante na mudança do paradigma de governança energética diz respeito ao marco regulatório da exploração dos hidrocarbonetos. O modelo tradicional de concessão da propriedade das reservas está em declínio e só sobrevive nos EUA e em alguns países europeus, como Reino Unido e Noruega4. Para substituir as concessões, a fórmula adotada atualmente no mundo inteiro é do contrato de produção partilhada (Production Sharing Agreement, em inglês), pelo qual o Estado se associa a uma empresa estrangeira nos termos de um acordo que define as condições de prospecção, exploração e produção.

O contrato estabelece o prazo de duração da parceria e a área a ser explorada, definindo também um valor mínimo para os investimentos a serem feitos pela empresa estrangeira e o regime de cobrança de impostos e taxas. O investidor deposita uma quantia para ter acesso à área onde se imagina existirem hidrocarbonetos – o bônus. O investidor arca, sozinho, pelos riscos da empreitada, independentemente de encontrar ou não hidrocarbonetos a serem explorados. Em caso de sucesso, o valor da produção é dividido com o Estado, em termos previamente combinados. Todas as despesas com a exploração do campo ficam por conta da empresa contratante, que irá recuperar os seus gastos com os lucros da produção.

A reversão das políticas neoliberais na América Latina

Nos países latino-americanos, a alta dos preços no mercado global da energia trouxe um poderoso alento para a retomada da tendência histórica de políticas nacionalistas na exploração dos hidrocarbonetos. Ao longo de todo o século 20, a América Latina protagonizou episódios que se tornaram referência na disputa global entre os Estados nacionais e as empresas transnacionais pelo controle do petróleo. Na Argentina, em 1922, criou-se a primeira empresa estatal para a prospecção e produção de petróleo, a Yacimientos Petroliferos Fiscales (YPF). Em 1936, a Bolívia se tornou o primeiro país do mundo – depois da União Soviética – a expropriar uma empresa petrolífera estrangeira5. Dois anos depois, em 1938, o México deu um passo adiante e instaurou o monopólio estatal do petróleo pela primeira vez em um país capitalista, expropriando, a exemplo da Bolívia, as transnacionais que operavam em seu território. E a Venezuela, muito antes de nacionalizar o seu petróleo, em 1976, já exercia um papel de liderança na luta global pela apropriação da renda petroleira. Em 1948, inaugurou o movimento internacional pela repartição dos ganhos entre os Estados produtores e as empresas concessionárias na base de 50-50, adotando uma medida unilateral nesse sentido, imediatamente imitada pelos países do Oriente Médio6. Mais tarde, em 1960, o governo venezuelano voltou a se destacar como o autor da proposta de criação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP. Este capítulo apresenta, a seguir, a retomada das políticas de nacionalismo de recursos em quatro países sul-americanos a partir do início da década de 2000.

Venezuela: recuperação da soberania petroleira

A Venezuela reassumiu seu papel de vanguarda no cenário global da energia no governo de Hugo Chávez, que chegou à presidência, em dezembro de 1998, com uma plataforma eleitoral em que se sobressaía a retomada do controle da riqueza petroleira pelo Estado a fim de utilizar as receitas dessa indústria em benefício da maioria da população, mergulhada na pobreza. Foi por iniciativa de Chávez que a OPEP, a partir de 2000, adotou uma política restritiva na oferta global de petróleo a fim de elevar os preços do produto. De fato, o preço do barril de petróleo, que era de US$ 16,2 no início de 1999, passou para pouco mais de US$ 20 às vésperas dos atentados de 11 de setembro de 20017. Essa mudança nas políticas da Opep deu o impulso inicial à tendência altista – por efeito de motivos estruturais e do crescimento acelerado da demanda – e se mantém até a atualidade. No plano doméstico, Chávez tomou uma série de medidas para recuperar o controle do Poder Executivo sobre a empresa estatal PdVSA, que passava por um processo de privatização indireta (a chamada “abertura petroleira”), e sobre as reservas petrolíferas do país, parcialmente entregues à exploração por empresas estrangeiras por meio de joint ventures com a PdVSA8.

Em novembro de 2001, um Congresso de maioria chavista aprovou a Ley Orgánica de Hidrocarburos, que aumentava os repasses de receitas da PdVSA para o orçamento federal e reduzia drasticamente a margem de autonomia da empresa estatal em relação ao poder público. Chávez passou a ser acusado pela grande mídia e pelos setores empresariais conservadores de dividir o país, de atentar contra a propriedade privada e de planejar a implantação de um regime político nos moldes cubanos. O descontentamento desses setores culminou com o golpe de Estado civil-militar de 11 de abril de 2002, que contou com a participação da maioria dos executivos da PdVSA. O golpe fracassou, mas os opositores de Chávez lançaram uma nova tentativa golpista com uma paralisação (locaute) deflagrada a partir da PdVSA, em dezembro de 2002, que levou a economia do país à beira do colapso. O movimento se desfez depois de três meses de intenso confronto social, sem atingir seu objetivo de depor o presidente. O governo demitiu 12 mil funcionários da PdVSA (o equivalente a 40% dos efetivos da estatal) por envolvimento na paralisação.

Fortalecido pelas desastradas tentativas golpistas e, mais ainda, pela vitória no referendo revogatório do mandato presidencial, realizado – por convocação das forças oposicionistas – em agosto de 2004, Chávez aprofundou o rumo nacionalista de sua política para os hidrocarbonetos. Em 2005, o governo venezuelano declarou ilegais os 32 convênios firmados com empresas petroleiras transnacionais, obrigando-as a migrar para empresas mistas sob o controle da PdVSA, que passou a ter uma participação mínima de 60% nas novas joint ventures. Os royalties cobrados sobre esses empreendimentos foram aumentados de 16,7% para 33,3%. A mudança na composição da receita fiscal, aumentando os royalties e reduzindo os impostos sobre os lucros, tinha o objetivo de restringir a margem para que as empresas pudessem evadir ou sonegar impostos por meio de manobras contábeis. Como explica o analista argentino Diego Mansilla, o governo venezuelano continuava a reconhecer a necessidade dos investimentos externos, mas passava a atribuir a eles um papel complementar aos aportes estatais – e instaurava a PdVSA como o ator dotado do poder de decisão9. No ano seguinte, 2006, as mesmas regras foram estendidas para as parcerias com as empresas estrangeiras na exploração do petróleo superpesado da Faixa do Orenoco. Em ambos os casos, a maioria das petroleiras transnacionais aceitou as novas condições do governo venezuelano. Das 22 transnacionais petroleiras que operavam no país, apenas quatro – a italiana ENI, a francesa Total e as estadunidenses ConocoPhillips e ExxonMobil – rejeitaram os novos contratos, encaminhando o litígio a tribunais internacionais.

As receitas adicionais obtidas graças à revisão das regras fiscais para o petróleo financiaram uma rede de programas sociais de amplo alcance, que permitiram ao governo venezuelano reduzir pela metade, em apenas cinco anos, a parcela da população vivendo em condições de pobreza – de 55,1% em 2002 para 27,5% em 200710. Os salários, a alimentação e o acesso ao estudo e aos serviços de saúde melhoraram intensamente, o que explica os altos índices de apoio popular obtidos por Chávez. Em contrapartida, a PdVSA diminuiu nesse período sua capacidade produtiva, em parte pela queda dos investimentos – já que a maior parte de sua receita passou a se destinar ao financiamento das políticas sociais do governo – e pela perda de um grande número de quadros qualificados em consequência dos conflitos do início da década.

Equador: o petróleo na “Revolução Cidadã”

Um dos principais exportadores regionais de petróleo, o Equador começou a aplicar medidas inspiradas pelo “nacionalismo de recursos” na gestão do presidente Alfredo Palacio, que assumiu o governo, em 2005, em substituição a Lucio Gutiérrez, derrubado em um levante popular de grandes proporções, conhecido como a “Revolução Cidadã”. Em maio de 2006, Palacio expulsou a empresa estadunidense Occidental Petroleum (Oxy), responsável por 20% da produção petroleira do Equador. A medida foi tomada porque a Oxy desrespeitou os termos do contrato assinado com o governo equatoriano ao vender 40% de suas ações à empresa canadense Encana, sem submeter essa transação à aprovação prévia das autoridades11. Em represália, o governo de George W. Bush suspendeu as conversações para a assinatura de um acordo bilateral de livre-comércio nos moldes da ALCA – uma medida de efeito punitivo discutível, já que o novo governo equatoriano vinha demonstrando pouco entusiasmo por esse projeto, iniciativa de seus antecessores. A Oxy, por sua vez, recorreu à arbitragem do Centro Internacional de Ajuste das Divergências sobre Investimentos (Ciadi), mas a decisão desse organismo foi favorável ao Equador.

Mais importante do que o confronto com os EUA no episódio da Oxy foi a decisão de Palacio, tomada um mês antes, em abril de 2006, de rever a repartição dos lucros do petróleo – o principal produto de exportação do país – entre o Estado equatoriano e as transnacionais petroleiras, de modo a ampliar significativamente a parcela arrecadada pelos cofres públicos. De acordo com a Lei de Hidrocarbonetos vigente na época, as empresas privadas que operam os campos petrolíferos equatorianos devem conceder ao Estado ao menos a metade dos chamados “ganhos extraordinários”, ou seja, aos ganhos obtidos pela diferença entre os preços efetivamente recebidos pelas exportações do petróleo e o preço da época da assinatura dos contratos. Ocorre que desde 2003, quando a maioria dos contratos foi assinada, os cálculos da repartição da renda vinham sendo feitos com base nos preços vigentes na ocasião, em torno de US$ 15 por barril de petróleo, quando em 2006 esses valores já ultrapassavam os US$ 70. Com isso, os ganhos das empresas estrangeiras se multiplicaram astronomicamente, enquanto a parcela destinada ao Equador tinha um aumento apenas marginal. A decisão de Palacio obrigou as empresas estrangeiras a ressarcir o Estado equatoriano no valor da diferença em relação aos preços reais, instituindo essa regra para os cálculos a serem feitos daquela data em diante12. Chávez elogiou a medida e, imediatamente depois, ofereceu ao governo de Palacio um acordo para refinar o petróleo equatoriano na Venezuela, com uma economia de US$ 300 milhões por ano13.

As políticas de “nacionalismo de recursos” no Equador se intensificaram a partir da posse, em janeiro de 2007, de Rafael Correa, eleito com o forte apoio dos movimentos sociais e dos setores de esquerda. Portador de um discurso crítico aos EUA e ao neoliberalismo, Correa defendeu em sua campanha um programa de transformações econômicas, políticas e sociais que o aproximou das perspectivas de Chávez e de Morales – com destaque para a proposta, comum aos três presidentes, de convocar uma Assembleia Constituinte encarregada de “refundar” a república. No campo petroleiro, deixou clara sua intenção de adotar um enfoque nacionalista, o que incluiria o regresso do Equador à OPEP, o que de fato se concretizou. Essas posições, que inevitavelmente alteraram o panorama petroleiro equatoriano em prejuízo do capital externo.

Bolívia: a defesa do gás natural

Ideias de soberania energética levaram centenas de milhares de bolivianos às ruas, na primeira década do século 21, para derrubar dois presidentes – Gonzalo Sánchez de Lozada, em 2003, e Carlos Mesa, quase dois anos depois – e eleger um terceiro, Evo Morales. Na Bolívia, a revisão das regras neoliberais para a indústria do petróleo e do gás natural tem seu marco inicial na primeira “guerra do gás”, de outubro de 2003, quando uma insurreição popular derrubou Sánchez de Lozada (principal arquiteto das privatizações na década de 1990) e colocou no topo da agenda política a nacionalização dos hidrocarbonetos, que vinham sendo explorados em condições extremamente favoráveis pelas empresas transnacionais. Entre essas empresas se destacava a Petrobras, na dupla condição de operadora das principais reservas gasíferas da Bolívia e do Gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol), por onde transitam as remessas de gás boliviano que abastecem importantes setores industriais no sudeste brasileiro. O presidente deposto foi substituído pelo seu vice, Carlos Mesa, que se manteve hesitante entre atender as demandas populares e se curvar às pressões das empresas estrangeiras, contrárias a qualquer alteração nas regras do jogo que garantiam a elas uma participação de até 82% na receita obtida com o gás natural. O impasse se resolveu com uma nova rebelião popular – a segunda “guerra do gás”, de julho de 2005 –, que provocou a renúncia de Mesa e a antecipação das eleições presidenciais, com a vitória do principal líder dos movimentos sociais bolivianos, Evo Morales, que assumiu o governo em janeiro de 2006.

Em cumprimento às suas promessas de campanha, Morales anunciou em 1º de maio de 2006 a nacionalização dos hidrocarbonetos, afetando os interesses da Petrobras e das demais transnacionais com negócios na Bolívia. A decisão do governo boliviano provocou uma crise diplomática com o Brasil, que recebia, na época, 50% do seu suprimento de gás natural por meio do Gasbol. A Petrobras protestou contra a “medida unilateral” dos bolivianos, mas o presidente Lula reconheceu a legitimidade de nacionalização com um “ato de soberania” e, contrariando os setores conservadores da sociedade brasileira que propunham represálias contra a Bolívia, trabalhou para desarmar as tensões e buscar uma solução negociada.

Diferentemente das experiências de nacionalização em outros países (e na própria Bolívia, onde medidas similares já tinham sido adotadas no passado), as novas regras adotadas pelo governo boliviano admitem a permanência das empresas estrangeiras na exploração do petróleo e do gás natural. O que mudou, no essencial, foi a divisão da receita obtida com esses recursos, com o aumento da parcela apropriada pelo Estado para até 70% do total, e a garantia do controle estatal sobre a cadeia produtiva dos hidrocarbonetos. Nesse episódio, os únicos ativos efetivamente nacionalizados foram as duas refinarias da Petrobras, que passaram para o governo boliviano, mediante o pagamento de uma indenização acertada entre as duas partes, depois que a empresa brasileira se recusou a permanecer no empreendimento como acionista minoritária. Os investidores estrangeiros acabaram por assinar novos contratos com as autoridades da Bolívia, assegurando assim a continuidade de seus negócios naquele país. Um fator que acabou contribuindo para um desenlace favorável à Bolívia foi a entrada em cena de um terceiro ator – o governo argentino, chefiado por Néstor Kirchner. No auge do conflito entre as autoridades bolivianas e a Petrobras, em setembro de 2006, Kirchner e Morales assinaram um contrato para o fornecimento de gás boliviano à Argentina em volumes similares aos remetidos ao Brasil, que perdeu assim sua condição de único cliente da Bolívia.

A substituição do modelo neoliberal na indústria dos hidrocarbonetos da Bolívia por uma política de soberania energética trouxe benefícios concretos ao país. Com o aumento da arrecadação fiscal sobre as exportações de petróleo e – principalmente – gás natural, a receita do Estado boliviano com esses recursos saltou de uma média de US$ 300 milhões no período anterior à nacionalização para US$ 1,6 bilhão em 2008, depois que os novos contratos já estavam em vigor. A participação da renda dos hidrocarbonetos no Produto Interno Bruto passou de 5,6% em 2004 para 21,9% em 2009, um avanço que se mostra ainda mais impressionante quanto se constata que, nesse mesmo período, o PIB boliviano duplicou, atingindo US$ 19 bilhões em 2009 – um aumento que se deve, em grande medida, aos efeitos do Decreto de Nacionalização14. Mais importante ainda é verificar que o bom desempenho econômico da Bolívia foi acompanhado por melhorias significativas na distribuição de renda, na redução da pobreza e na elevação do padrão de vida da população em geral.

Paraguai: o contencioso de Itaipu

Outro conflito energético entre o Brasil e um vizinho sul-americano — neste caso, o Paraguai – é o que o envolve a energia gerada pela usina hidrelétrica de Itaipu, a segunda maior do mundo, inaugurada 1983, na fronteira entre os dois países. Embora o empreendimento seja compartilhado, formalmente, em partes iguais, por meio da Binacional Itaipu, as regras vigentes durante quase três décadas para o aproveitamento da eletricidade gerada pela usina beneficiavam claramente o Brasil, que até 2011 comprava a baixo preço a quase totalidade da energia destinada ao Paraguai, sem dar ao parceiro a possibilidade de vendê-la livremente no mercado.

O Tratado de Itaipu – assinado em 1973, quando o Brasil e o Paraguai se encontravam sob ditaduras militares – estabelece que cada um dos países tem direito a 50% da energia, sendo que a parte não utilizada deve ser vendida ao outro a preço de custo. Como o Paraguai abastece quase todas as suas necessidades com apenas 5% da eletricidade gerada por Itaipu, os 45% restantes são automaticamente comprados pela estatal brasileira Eletrobrás, que paga por essa energia apenas uma pequena fração dos preços no mercado global15.

A correção dos termos desiguais da parceria energética em Itaipu é uma antiga reivindicação da sociedade paraguaia, que alcançou o primeiro plano da agenda bilateral após a eleição de Fernando Lugo como presidente do Paraguai, em abril de 2008. Apoiado por uma aliança de movimentos sociais e de partidos de esquerda, Lugo apresentou a revisão do Tratado de Itaipu como um dos principais tópicos de sua plataforma eleitoral. Em julho do mesmo ano, Lugo e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva fecharam um acordo pelo qual o Brasil praticamente triplica – de US$ 125 milhões anuais para US$ 360 milhões, em média – o valor do pagamento feito ao Paraguai por abrir mão de sua parte na energia de Itaipu. O acordo estabelece, ainda, que o Paraguai poderá comercializar livremente a sua parcela de energia no mercado elétrico brasileiro ou, ainda, vendê-la a um terceiro país.

Depois de aprovado pelos Congressos dos dois países, o acordo entrou em vigência em agosto de 2011, quando o Brasil efetuou a primeira parcela do pagamento calculado segundo as novas regras. Mas a discussão prossegue, agora em torno da reivindicação paraguaia de que seja feita uma auditoria da dívida do Paraguai para com o Brasil por conta do financiamento da obra.

1 Capítulo 10 do livro Energia e Relações Internacionais, Igor Fuser, Editora Saraiva, 2013.
2 MYERS, Amy; SOLIGO, Ronald. Militarization of Energy: Geopolitical Threats to the Global Energy System, Energy Forum – James A. Baker III Institute for Public Policy of Rice University, Houston (TX), 2008, p.44.
3 KLARE, Michael T.. Rising Powers, Shrinking Planet – The New Geopolitics of Energy. New York: Metropolitan Books, Henry Holt, 2008.
4 SÉRÉNI, Jean-Pierre. “Les Etats s’emparent de l’arme pétrolière”, Le Monde Diplomatique, Paris, Mars 2007, nº 636, p. 18-19.
5 PHILIP, George. Oil and Politics in Latin America: Nacionalist Movements and State Companies. Cambridge (Reino Unido): Cambridge University Press, 1982, p.193-198.
6 YERGIN, Daniel. O Petróleo, São Paulo: Scritta, 1993, p. 444-448.
7 BARROS, Pedro Silva. Venezuela: mudança e perspectivas – A razão chavista. In: CARMO, C.A.; BARROS, P.S.; MONTEIRO, L.V., Venezuela: Mudanças e Perspectiva. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2007, p.88.
8 MOMMER, Bernard. Subversive Oil. In: ELLNER, Steve; HELLINGER, Daniel (eds.), Venezuelan Politics in the Chávez Era. Boulder (EUA), London: Lynne Rienner Publishers, 2003, p. 141.
9 MANSILLA, Diego. Petroleras Estatales en América Latina: entre la transnacionalización y la integración. La revista del CCC [revista virtual]. Enero/abril 2008, nº2. 2008.
10 WEISBROT, Mark. An Empty Research Agenda: The Creation of Myths About Contemporary Venezuela, Center for Economic and Policy Research (CEPR), Washington, Março 2008,
11 LE CALVEZ, Marc. El rediseño de los sistemas de governanza petrolera en el Ecuador y Venezuela. In: FONTAINE, Guillaume; PUYANA, Alicia. (coords.), La Guerra del Fuego – Políticas petroleras y crisis energética en América Latina. Quito: Flacso, 2008, p.61.
12 FONTAINE, Guillaume. Petropolítica – Una teoria de la gobernanza energética. Quito, Lima: Flacso, Abya Yala, Instituto de Estudios Peruanos (IEP), 2010, p.199.
13 WEISBROT, Mark. “Latin America: The End of An Era”. International Journal of Health Services, Vol. 36, No.4, 2006.
14 BARROS, Pedro Silva. “O êxito boliviano durante a crise mundial de 2008-2009”. Boletim de Economia & Política Internacional. Brasília: Instituto de Política Econômica Aplicada, 2010.
15 CANESE, Ricardo. A recuperação da soberania hidrelétrica do Paraguai. In: CODAS, Gustavo (org.), O Direito do Paraguai à Soberania – A questão da energia hidrelétrica, pp. 23-142. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

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MUJICA, o presidente que acredita ser possível uma humanidade melhor.

QUE ESTAMOS VIVOS POR MILAGRE E NADA VALE MAIS DO QUE A VIDA. NOSSO DEVER BIOLÓGICO É, ACIMA DE TODAS AS COISAS, RESPEITAR A VIDA, IMPULSIONÁ-LA, CUIDAR DELA, PROCRIÁ-LA E ENTENDER QUE A ESPÉCIE É A NOSSA GENTE.

O presidente do Uruguai, José “Pepe” Mujica, criticou duramente o consumismo durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU, ontem (24). Segundo reportagem publicada no portal Opera Mundi, Mujica havia prometido aos jornais uruguaios um “discurso exótico” e fugiu do protocolo ao dizer que “tem angústia pelo futuro” e que nossa “primeira tarefa é salvar a vida humana”.

“Sou do Sul (…) e carrego inequivocamente milhões de pessoas pobres na América Latina, carrego as culturas originárias esmagadas, o resto do colonialismo nas Malvinas, os bloqueios inúteis a Cuba, carrego a consequência da vigilância eletrônica, que gera desconfiança que nos envenena inutilmente. Carrego a dívida social e a necessidade de defender a Amazônia, nossos rios, de lutar por pátria para todos e que a Colômbia possa encontrar o caminho da paz, com o dever de lutar pela tolerância”.

Para Mujica, a humanidade sacrificou os deuses imateriais e ocupou o templo com o …

“deus mercado, que organiza a economia, a vida e financia a aparência de felicidade. Parece que nascemos só para consumir e consumir. E quando não podemos, carregamos a frustração, a pobreza, a autoexclusão”. No mesmo tom, ressaltou o fracasso do modelo adotado no capitalismo: “o certo hoje é que para a sociedade consumir como um americano médio seriam necessários três planetas. Nossa civilização montou um desafio mentiroso”.

O jornal uruguaio República, transcreveu o discurso proferido por  Mujica, realizado na 68ª Assembleia Geral da ONU, em 24 de setembro de 2013.

Abaixo peguei a transcrição do discurso em espanhol, tal como publicado pelo jornal uruguaio República, e fiz uma tradução livre e rápida para o português visando levar a mensagem de Mujica ao maior número possível de lusófonos. Quaisquer equívocos de tradução que forem encontrados são todos meus e, antecipadamente, peço desculpas aos leitores.

José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai.

Amigos todos, sou do sul, venho do sul. Esquina do Atlântico e do Prata, meu país é uma peneplanície suave, temperada, uma história de portos, couros, charque, lãs e carne. Teve décadas púrpuras, de lanças e cavalos, até que por fim, no começo do século XX, se transformou em vanguarda no social, no Estado, na educação. Diria que a social democracia foi inventada no Uruguai.

Durante quase 50 anos o mundo nos viu como uma espécie de Suíça. Na verdade, na economia fomos bastardos do império britânico e quando este sucumbiu vivemos o mel amargo de termos comerciais funestos, e ficamos estagnados, saudosos do passado.

Quase 50 anos recordando o Maracanã, nossa façanha esportiva. Hoje ressurgimos neste mundo globalizado talvez aprendendo de nossa própria dor. Minha historia pessoal, a de um rapaz – porque uma vez fui um rapaz – que como outros quis mudar sua época, seu mundo, o sonho de uma sociedade libertária e sem classes. Meus erros são em parte filhos de meu tempo. Obviamente os assumo, mas há vezes que medito com nostalgia.

A FORÇA DA UTOPIA

Quem dera ter a força de quando éramos capazes de abrigar tanta utopia! Sem embargo não olho para trás porque o hoje real nasceu das cinzas férteis do ontem. Pelo contrário não vivo para cobrar contas ou reverberar memórias.

Me caus angústia, e de que maneira, o futuro que não verei, e por ele que me comprometo. Sim, é possível um mundo com uma humanidade melhor, mas talvez hoje a primeira tarefa seja cuidar da vida.

Mas sou do sul e venho do sul, a esta Assembleia, em dívida com milhões de compatriotas pobres, nas cidades, nos ermos, nas selvas, nas pampas da América Latina, pátria comum que se está construindo.

O BLOQUEIO INÚTIL A CUBA

Em dívida com as culturas originais esmagadas, com os restos do colonialismo nas Malvinas, com bloqueios inúteis a esse lagarto sob o sol do Caribe que se chama Cuba. Em dívida com as consequências da vigilância eletrônica que não faz outra coisa que não seja semear desconfiança. Desconfiança que nos envenena inutilmente. Cargo com uma gigantesca dívida social, com a necessidade de defender a Amazonia, os mares, nossos grandes rios da América.

Em dívida com o dever de lutar por pátria para todos. Para que Colômiba possa encontrar o caminho da paz, e reconheço o dever de lutar por tolerância, a tolerância que se precisa com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferenças e descordamos. Não se precisa da tolerância para aqueles com quem estamos de acordo.

A TOLERÂNCIA É A PAZ

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que no mundo somos diferentes. O combate a economia suja, ao narcotráfico, à fraude e a corrupção, pragas contemporâneas embarcadas por este antivalor, esse que sustém que somos felizes se nos enriquecemos seja como for. Sacrificamos os velhos deuses imateriais. Ocupamos o templo deles com o deus mercado, que nos organiza a economia, a política, os hábitos, a vida e até nos financia em parcelas e cartões, a aparência de felicidade.

Parece que nascemos só para consumir e consumir, e quando não podemos sofremos com a frustração, a pobreza e até a autoexclusão.

O certo hoje é que para gastar e enterrar os detritos nisso que a ciência chama “pegada de carbono”, se aspirássemos nessa humanidade consumir a média consumida por um americano padrão, seriam necessários três planetas para podermos viver.

O DESPERDÍCIO DE VIDA

Quer dizer, nossa civilização montou um desafio mentiroso e assim como vamos, não é possível para todos manter esse sentido de desperdício que se deu à vida. Na verdade, é cada vez mais difundido como uma cultura de nosso tempo, sempre dirigida pela acumulação e pelo mercado.

Prometemos uma vida de extravagância e desperdício, e no fundo ela se constitui em uma contagem regressiva contra a natureza, contra a humanidade como futuro. Civilização contra a simplicidade, contra a sobriedade, contra todos os ciclos naturais.

“CIVILIZAÇÃO” CONTRA O AMOR

Pior: civilização contra a liberdade que supõe ter tempo para viver as relações humanas, o único transcendente, o amor, a amizade, aventura, solidariedade, família. Civilização contra tempo livre não paga, que não se compra, e que nos permite contemplar e esquadrinhar o cenário da natureza.

Arrasamos a selva, as selvas verdadeiras, e implantamos selvas anônimas de cimento. Enfrentamos o sedentarismo com caminhadores, à insônia com comprimidos, à solidão com equipamentos eletrônicos, porque somos felizes alijados do ambiente humano.

Cabe fazer esta pergunta, fugimos de nossa biologia que defende a vida por si própria, como causa superior, e a suplantamos pelo consumismo em função da acumulação.

A política, eterna mãe do acontecer humano, ficou limitada à economia e ao mercado, de pulo em pulo a política não pode mais do que se perpetuar, e como tal delegou o poder e se entretém, aturdida, lutando pelo governo. Malfadada marcha da história humana, comprando e vendendo tudo, e inovando para poder negociar de algum modo, o que é inegociável. Há marketing para tudo, para os cemitérios, os serviços fúnebres, as maternidades, para pais, para mães, passando pelas secretarias, os carros e às férias. Tudo, tudo é negócio.

No entanto as campanhas de marketing caem deliberadamente sobre as crianças, e sua psicologia para influir sobre os mais velhos e ter no futuro um território assegurado. Sobram provas destas tecnologias bastante abomináveis que as vezes, conduzem às frustrações e muito mais.

O “homenzinho médio” de nossas grandes cidades,vagando entre as financeiras e o tédio rotineiro dos escritórios, as vezes temperados com ar condicionado. Sempre sonha com as férias e a liberdade, sempre sonha em terminar de pagar as contas, até que um dia, o coração para, e adeus. Haverá outro soldado cobrindo as garras do mercado, assegurando a acumulação. A crise se faz impotência, a impotência da política, incapaz de compreender que a humanidade não foge, nem fugirá do sentimento de nação. Sentimento que quase está encrustado em nosso código genético.

UM MUNDO SEM FRONTEIRAS

Hoje, é tempo de começar a esculpir um mundo sem fronteiras. A economia globalizada não tem mais condução do que o interesse privado, de muitos poucos, e cada estado nacional olha sua estabilidade continuista, e hoje a grande tarefa para nossos povos, em minha humilde maneira de ver, é o todo.

Como se isso fosse pouco, o capitalismo produtivo, francamente produtivo, está meio prisioneiro na caixa dos grandes bancos. No fundo são o auge do poder mundial. Mais claro, acreditamos que o mundo demanda a gritos regras globais que respeitem as conquistas da ciência, que abundam. Mas não é a ciência que governa o mundo. São necessárias, por exemplo, uma grande agenda de definições, quantas horas de trabalho e toda a Terra, como converter as moedas, como financiar a luta global por água e contra os desertos.

SOLIDARIEDADE COM OS OPRIMIDOS

Como se recicla e se pressiona contra o aquecimento global? Quais são os limites de cada grande esforço da humanidade? Seria imperioso conseguir consenso planetário para desencadear solidariedade aos mais oprimidos, castigar impositivamente o desperdício e a especulação. Mobilizar as grandes economias, não para criar descartáveis, com obsolescência programada, mas sim com bens úteis, sem fidelidade, para ajudar a levantar aos pobres do mundo. Bens úteis contra a pobreza mundial. Mil vezes mais rentável que fazer guerras. Derrubar um neo-keynesianismo útil de escala planetária para abolir as vergonhas mais flagrantes que existem nesse mundo.

A POLÍTICA E A CIÊNCIA

Talvez nosso mundo necessite de menos organismos mundiais, esses que organizam os foros e conferências, que servem muito às cadeias hoteleiras e às companhias aéreas, no melhor dos casos, mas que ninguém recolhe nada e transforma em decisões…

Necessitamos sim mascar muito o velho e eterno da vida humana junto à ciência, essa ciência que se empenha pela humanidade não para se tornar rica; com eles, com homens de ciência, primeiros conselheiros da humanidade, estabelecer acordos pelo mundo inteiro. Nem os grandes Estados nacionais, nem as transnacionais e muito menos o sistema financeiro deveria governar o mundo humano. Mas sim a alta política entrelaçada com a sabedoria científica, aí está a fonte. Essa ciência que não se importa com o lucro, mas que olha para o futuro e nos diz coisas que não atendemos. Quantos anos faz que nos disseram determinadas coisas que não nos demos por inteirados? Creio que temos que convocar a inteligência ao comando da nave acima da terra, coisas desse estilo e outras que não pude desenvolver nos parecem imprescindíveis, mas requereriam que o determinante fosse a vida, não a acumulação.

NÃO SOMOS TÃO ILUDIDOS

Obviamente, não somos tão iludidos, estas coisas não irão ocorrer, nem outras parecidas. Resta-nos muitos sacrifícios inúteis por diante, muito remendar consequências e não enfrentar as causas. Hoje o mundo é incapaz de criar uma regulação planetária à globalização e isto se dá pelo enfraquecimento da alta política, isso que se ocupa do todo. Por último vamos assistir ao refúgio dos acordos mais ou menos “reclamáveis”, que vão reclamar um mentiroso livre comércio interno, mas que no fundo vão terminar construindo parapeitos protecionistas, supranacionais em algumas regiões do planeta. Por sua vez, vão crescer ramos industriais importantes e serviços, todos dedicados a salvar e melhorar o meio ambiente. Assim vamos nos consolar por um tempo, vamos estar entretidos e naturalmente tudo vai continuar como está para manter a rica a acumulação, para regojizo do sistema financeiro.

IR CONTRA A ESPÉCIE

Continuaram as guerras e portanto os fanatismos até que talvez a mesma natureza chame a ordem e faça inviável nossas civilizações. Talvez nossa visão seja demasiado crua, impiedosa e vemos o homem como uma criatura única, a única que há sobre a terra capaz de ir contra sua própria espécie. Volto a repetir, porque alguns chamam a crise ecológica do planeta, é consequência do triunfo avassalador da ambição humana. Esse é nosso triunfo, também nossa derrota, porque temos impotência política de enquadrarmos em uma nova época. E contribuímos a construir nos damos conta.

Por quê digo isso? São dados nada mais. O certo é que a população se quadruplicou e o PIB cresceu pelo menos vinte vezes no último século. Desde 1990 aproximadamente a cada seis anos se duplica o comércio mundial. Poderíamos seguir anotando os dados que estabelecem a marcha da globalização. O que está ocorrendo conosco? Entramos em outra época aceleradamente mas com políticos, atavios culturais, partidos, e jovens, todos velhos diante da pavorosa acumulação de mudanças que nem sequer pudemos registrar. Não podemos manejar a globalização, porque nosso pensamento não é global. Não sabemos se é uma limitante cultural ou estamos chegando aos limites biológicos.

OS EFEITOS DA GANÂNCIA

Nossa época é portentosamente revolucionária como não conheceu a história da humanidade. Mas não tem condução consciente, ou menos, condução simplesmente instintiva. Muito menos, todavia, condução política organizada porque nem sequer temos tido filosofia precursora ante a velocidade das mudanças que se acumularam.

A ganância, tão negativa e tão motor da história, isso que empurrou o progresso material técnico e científico, que fez aquilo que é nossa época e nosso tempo e um fenomenal avanço em muitas frentes, paradoxalmente, essa mesma ferramenta, a ganância  que nos empurrou a domesticar a ciência e transformá-la em tecnologia nos precipita a um abismo brumoso. A uma história que não conhecemos, a uma época sem história e estamos ficando sem olhos nem inteligência coletiva para seguir colonizando e perpetuarmos transformando-nos.

O QUE É O TODO?

Porque se uma característica tem este bichinho humano, é que é um conquistador antropológico. Parece que as coisas tomam autonomia e as coisas submetem aos homens. Por um lado ou outro, sobram ativos para vislumbrar essas coisas e em todo caso, vislumbrar o rumo. Mas nos é impossível coletivizar decisões globais por esse todo. Mais claro, a ganância individual triunfou grandemente sobre a ganância superior da espécie. Esclarecemos: o que é o todo? O que é essa palavra que utilizamos?

Para nós é a vida global do sistema terra incluindo a vida humana com todos os equilíbrios frágeis que fazem possível que nos perpetuemos. Por outro lado, mais fácil, menos opinável e mais evidente. Em nosso ocidente, particularmente, porque daqui viemos ainda que venhamos do sul, as repúblicas que nasceram para afirmar que os homens somos iguais, que ninguém é mais do que ninguém, que seus governos deveriam representar o bem comum, a justiça e a equidade. Muitas vezes, as repúblicas se deformam e caem em esquecimento da gente corrente, a que anda pelas ruas, o povo comum.

As repúblicas não foram criadas para vegetar em cima da grey, mas sim o contrário, são um grito na história para fazer funcionais à vida dos próprios povos e, portanto, as repúblicas se devem às maiorias e a lutar pela promoção das maiorias.

A CULTURA CONSUMISTA

Pelo que for, por reminiscencias feudais que estão aí em nossa cultura; pelo classismo dominador, talvez pela cultura consumista que nos rodeia a todos, as repúblicas frequentemente em suas direções adotam um viver cotidiano que exclui, que coloca distância com o homem da rua.

De fato, esse homem da rua deveria ser a causa central da luta política na vida das repúblicas. Os governos republicanos deveriam se parecer cada vez mais a seus respectivos povos na forma de viver e na forma de se comprometer com a vida.

O fato é que cultivamos arcaísmos feudais, cortesanismos consentidos, fazemos diferenciações hierárquicas que no fundo minam o melhor que existe nas repúblicas: que ninguém é mais do que ninguém. O jogo destes e outros fatores nos retém na pré-história. E hoje é impossível renunciar a guerra quando a política fracassa. Assim se estrangula a economia, desperdiçamos recursos.

DOIS MILHÕES POR MINUTO

Escutem bem, queridos amigos: em cada minuto do mundo se gastam dois milhões de dólares com orçamento militar nesta terra. Dois milhões de dólares por minuto com orçamento militar!! Em pesquisa médica, de todas as doenças que avançaram grandemente e é uma benção para a promessa de viver alguns anos mais, essa pesquisa apenas cobre a quinta parte da pesquisa militar.

Este processo do qual não podemos sair, é cego. Assegura ódio e fanatismo, desconfiança, fonte de novas guerras e isto também, desperdício de fortunas. Eu sei que é muito fácil, poeticamente, autocriticarmos, pessoalmente. E creio que seria uma inocência nesse mundo desejar que ali existam recursos para economizar e gastar em outras coisas úteis. Isso seria possível, outra vez, se fossemos capazes de exercitar acordos mundiais e prevenções mundiais de políticas planetárias que nos garantissem a paz e que deem, aos mais fracos, garantias que não temos. Aí haveria enormes recursos para recortar e atender as maiores vergonhas sobre a Terra. Mas basta uma pergunta: nesta humanidade, hoje, aonde se iria sem a existência dessas garantias planetárias? Então cada país faz acordos de armas conforme sua magnitude e aí estamos porque não podemos pensar como espécie, mas apenas como indivíduos.

As instituições mundiais, particularmente hoje vegetam à sombra consentida das dissidências das grandes nações que, obviamente, querem reter sua cota de poder.

O  PAPEL DA ONU

Bloqueiam a essa ONU que foi criada com uma esperança e como um sonho de paz para a humanidade. Mas pior ainda, a desassociaram da democracia no sentido planetário porque não somos iguais. Não podemos ser iguais em um mundo onde existem mais fortes e mais fracos. Por tanto esta é uma democracia planetária ferida que está  cerceando a história de um possível acordo de paz mundial, militante, combativo e que verdadeiramente exista. E então, curamos doenças lá onde elas eclodem e se apresentam segundo parecem a algumas das grandes potencias. Os demais olhamos de longe. Não existimos.

Amigos, eu creio que é muito difícil inventar uma força pior que o nacionalismo chauvinista das grandes potencias. A força que é liberadora dos fracos. O nacionalismo, pai dos processos de descolonização, que é formidável para os fracos, se transforma em uma ferramenta opressora nas mãos dos fortes e que, nos últimos 200 anos, tivemos exemplos por todas as partes.

NOSSO PEQUENO EXEMPLO

A ONU, nossa ONU definha, se burocratiza por falta de poder e de autonomia, de reconhecimento e sobretudo de democracia em direção aos mais fracos que constituem a maioria absoluta do planeta. Dou um pequeno exemplo, pequenino. Nosso pequeno país tem em termos absolutos, a maior quantidade de soldados em missões de paz dos países da América Latina espalhados pelo mundo. E lá estamos, onde nos pedem que estejamos.

Mas somos pequenos, fracos. Onde se repartem os recursos e se tomam as decisões, não entramos nem para servir o café. No mais profundo de nosso coração, existe um enorme anseio de ajudar para que o homem saia da pré-história. Eu defino que o homem enquanto viva em clima de guerra, está na pré-história, apesar dos muitos artefatos que possa construir.

AS SOLIDÕES DA GUERRA

Até que o homem não saia desta pré-história e arquive a guerra como recurso quando a política fracassa, essa é a longa marcha e o desafio que temos por diante. E o dizemos com conhecimento de causa. Conhecemos as tristezas da guerra. No entanto, esses sonhos, esses desafios que estão no horizonte implica lutar por uma agenda de acordos mundiais que comecem a governar nossa história e superar passo a passo, as ameaças à vida. A espécie como tal, deveria existir um governo para a humanidade que supere o individualismo e lute por recriar cabeças políticas que trilhe o caminho da ciência e não apenas aos interesses imediatos que não estão governando e afogando.

Paralelamente temos que entender que os indigentes do mundo não são da África ou da América Latina, são de toda a humanidade e esta deve como tal, globalizada, tender a empenhar-se em seu desenvolvimento, para que possam viver com decência por conta própria. Os recursos necessários existem, estão nesse desperdício depredador de nossa civilização.

A LÂMPADA DE 100 ANOS

Há poucos dias fizeram ali, na Califórnia, em um corpo de bombeiros, uma homenagem a uma lâmpada elétrica que há 100 anos está ligada. Cem anos que está ligada, amigo! Quantos milhões de dólares nos tiraram do bolso fazendo deliberadamente porcarias para que as pessoas comprem, comprem e comprem.

Mas esta globalização de olhar para todo o planeta e por toda a vida significa uma mudança cultural brutal. É o que nos está requerendo a história. Toda a base material mudou e oscilou, e os homens, com nossa cultura, permanecemos como se não houvesse ocorrido nada e em lugar de governar a civilização, esta é que nos governa. Há mais de 20 anos que discutíamos a humilde taxa Tobi. Impossível aplicá-la ao nível do planeta. Todos os bancos do poder financeiro se levantam feridos em sua propriedade privada e que sei lá eu quantas coisas mais. No entanto, isso é o paradoxal. No entanto, com talento, com trabalho coletivo, com ciência, o homem passo a passo é capaz de transformar em verde aos desertos.

O HOMEM É CAPAZ

O homem pode levar a agricultura ao mar. O homem pode criar vegetais que vivam com água salgada. A força da humanidade se concentra no essencial. É incomensurável. Ali estão as mais portentosas fontes de energia. Que sabemos da fotossíntese? Quase nada. A energia no mundo sobra se trabalharmos para usá-la com ela. É possível extirpar toda a indigência do planeta. É possível criar estabilidade e será possível às gerações futuras, se lograrmos começar a pensar como espécie e não só como indivíduo, levar a vida à galaxia e seguir com esse sonho conquistador que nós, seres humanos, levamos em nossos genes.

Mas para que todos esses sonhos sejam possíveis, necessitamos governarmos a nós mesmos ou sucumbiremos porque não somos capazes de estar a altura da civilização que fomos desenvolvendo.

Este é nosso dilema. Não nos entretenhamos apenas remendando consequências. Pensemos nas causas de fundo, na civilização do desperdício, na civilização do use-descarte que o que está descartando é tempo da vida humana mal gasto, derrotando questões inúteis. Pensem que a vida humana é um milagre. Que estamos vivos por milagre e nada vale mais do que a vida. E que nosso dever biológico acima de todas as coisas é respeitar a vida e impulsioná-la, cuidar dela, procriá-la e entender que a espécie é a nossa gente.

Obrigado.

Segue o vídeo contendo o discurso na íntegra

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[PONDÉ] Sobre a ética das baratas e a eugenia…

Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

Luiz Felipe Pondé é filósofo pela USP. Foto: Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem

Nessa última segunda-feira (16), o filósofo escreveu em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo texto intitulado “A ética das baratas“, no qual faz duras críticas aos militantes vegetarianos (veganos em especial) e defensores dos direitos dos animais que, segundo ele, ganharam força quando foram “abençoadas” pelo filósofo australiano Peter Singer e seu livro Animal Liberation.

Que o Pondé tenha se especializado em falar bobagens (se é que algum dia falou algo de útil), não é novidade para ninguém. Contudo, nesta coluna ele chega às raias da imbecilidade ao construir raciocínios como os que destaco abaixo:

“Às vezes me pergunto o que faz uma pessoa razoável cair num delírio como esse. Como assim “não se deve matar nenhuma forma de vida”?

A pergunta é: essa moçadinha seguidora de uma mistura de filosofia singeriana aguada e budismo light (com pitadas de delírio) já olhou para natureza a sua volta?

A natureza é a maior destruidora de vidas na face da Terra. Ela mata sem pena fracos, pobres e oprimidos. A natureza é a maior “opressora” da face da Terra”.

Ora. Tal raciocínio segue uma trilha muito perigosa que já levou muitos cientistas a justificarem práticas como esterilização em massa, a eugenia e limpezas étnicas, dentre outros crimes contra a humanidade. Não sei o que pensa Luiz Felipe Pondé sobre esses assuntos em particular, mas que suas ideias flertam com esses pensamentos extremistas que estavam, em exemplo mais marcante, na raiz da justificativa do holocausto, não há como negar.

Por trás desse discurso do século XIX, que Pondé usou para criticar vegetarianos (“o struggle for life”, de Spencer), há quem ainda hoje justifique que portadores de qualquer tipo de deficiência, doenças genéticas, ou pertençam a determinado grupo étnico ou social, sejam simplesmente impedidos de procriar ou, em casos extremos, sejam eliminados.

Pondé é provocador, e faz isso para chamar atenção. Não creio que ele, pessoalmente, seja capaz de usar tal raciocínio para justificar qualquer prática aplicada a seres humanos. No entanto, não tenho esta relativa segurança no que tange a seus leitores. Recentemente acompanhamos os casos dos incêndios em favelas de São Paulo e, ao ler os comentários das notícias que divulgavam as tragédias recorrentes durante a gestão Serra/Kassab, estarrecia-me a quantidade de pessoas que não se importavam com a prática higienista e criminosa de queimar favelas (levando algumas pessoas à morte) para tirar “aquelas pessoas” do centro da cidade. Segundo muitos comentaristas, “crackeiros” e “toda aquela gente miserável tem que ser impedida de ter filhos ou, até mesmo, sumir”. (Aliás, o mesmo se ouviu a respeito dos nordestinos e pobres de modo geral quando Lula foi reeleito e, mais recentemente, Dilma e Haddad ganharam suas eleições).

No mais, a argumentação de Pondé é fraca e rasteira. Ele conclui sua coluna com uma piada ridícula, que o Jô Soares adora repetir ad nauseam em seu programa global:

Pergunto a esses adoradores de baratas: ele já pensou que as alfaces também sofrem? ela já pensou que quando come uma alface está interrompendo toda uma vida feliz de fotossíntese? Que as alfaces também choram? Malvados e insensíveis…

Seria desnecessário lembrar, se não ouvisse esse argumento em cada conversa sobre vegetarianismo que presenciei na minha vida, que alfaces não tem um sistema nervoso central. É simplesmente uma imbecilidade sem tamanho comparar o tratamento dado a animais (especialmente mamíferos) com aquele que se dá aos vegetais.

Talvez Pondé desconsidere o fato de sermos seres dotados de inteligência e, como tal, termos a opção de refletir se devemos agir ou não como a natureza. Será que nós, como humanos, não deveríamos agir de modo cada vez menos instintivo e mais racional em nossos hábitos, de modo mais específico, e no modo de nos organizamos socialmente, de modo mais geral? Fica a pergunta…

MAIS SOBRE O MODO COMO TRATAMOS OS ANIMAIS

Pra quem jamais teve a oportunidade de ver e realmente quer entender um pouco mais sobre o assunto que Pondé ridiculariza de uma forma bisonha, recomendo o documentário A CARNE É FRACA, que disponibilizo abaixo.

MAIS SOBRE O ASSUNTO EM HUM HISTORIADOR

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Quem tem medo do feminismo?

Estava lendo as novidades na Revista Fórum e encontrei um post que foi escrito originalmente para o Blogueiras Feministas, por Ticiane Figueiredo, que merece ser repercutido por aqui por trazer algumas informações básicas sobre “O que é o feminismo” e “O que é ser feminista”, dentre outras questões e abordagens que podem interessar bastante os leitores do Hum Historiador.

QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO

por Ticiane Figueiredo | Blogueiras Feministas – 18/09/2013

De todos os tipos de intolerâncias existentes em nossa sociedade, a que se impõe contra o Movimento Feminista é uma das que mais me incomodam. Não porque sou feminista ou porque não aceito a opinião alheia, mas pelo simples fato de tal relutância estar embasada em puro preconceito e alienação.

Então quer dizer agora que todas as mulheres são obrigadas a serem feministas? Não, não são.

Ainda que eu cultive esperanças de que todas as pessoas tenham a consciência de que o Feminismo é necessário para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária e, que acima de tudo é preciso militar, isso não quer dizer que todas as mulheres são obrigadas a serem feministas. Isto porque, para mim, as pessoas devem ser livres para serem o que quiserem, como quiserem e quando quiserem.

O problema é que sendo do gênero feminino, a sua liberdade é limitada e suprimida, seja pelos valores culturais machistas que “justificam” o estupro, o abuso, as cantadas indecentes, a passada de mão no ônibus ou metrô lotado; seja pela rua escura que te amedronta e te inibe de ocupar o espaço público, pelo(a) chefe que sabe que você precisa do emprego e te assedia moral/sexualmente ou pela violência doméstica. A sua liberdade é sufocada simplesmente pelo fato de você pertencer ao gênero feminino, ao “sexo frágil”, de ser mãe solteira, de não arrumar um marido, de se vestir como uma biscate, de “não se dar o devido respeito”, de estar acima do peso, de ter celulite…

Por estes e tantos outros motivos é que eu acho que sem o Feminismo você não é livre, ainda que não concorde comigo.

Vejo com freqüência nas redes sociais, e fora delas também, as pessoas atacando o Feminismo das mais diversas formas. Como se nós, bruxas pagãs, quiséssemos destruir algo lindo que a sociedade patriarcal construiu com todo o amor e carinho, como se “a moral e os bons costumes” fossem emanadas da vontade geral e consciente e não de uma minoria que detém o poder e o domínio.

Segundo o livro ‘Breve história do Feminismo no Brasil’(1):

“E são as feministas que cobram a grande dívida social e econômica que em o patriarcado perante a humanidade, em vista das injustiças milenares cometidas sob a sua autoridade. A maior delas é “a imposição do ‘grande silêncio’ histórico e cultural sobre as mulheres (heterossexuais e homossexuais); os papéis estereotipados que mantêm as mulheres à distância da ciência, da tecnologia e dos outros estudos ‘masculinos’, ligações sócio-profissionais masculinas que excluem as mulheres”. Trecho da intervenção feita por Miriam Botassi em 1988, no Seminário do NEIM (Núcleo de Estudos interdisciplinares sobre a Mulher).

Para mim, a melhor forma de combater a tal alienação é a informação. Contudo sei que este é um processo lento de desconstrução de “valores”, mas mesmo assim é preciso tentar e é por isso que estamos aqui.

Foto: Facebook/Juliane Alves/Marcha das Vadias DF

O que é o Feminismo?

Segundo Maria Amélia de Almeida Telles (1):

“O feminismo é um filosofia universal que considera a existência de uma opressão específica a todas as mulheres. Essa opressão se manifesta tanto no nível das estruturas como das superestruturas (ideologia, cultura e política). Assume formas diversas conforme as classes e camadas sociais, nos diferentes grupos étnicos e culturas.

Em seu significado mais amplo, o feminismo é um movimento político. Questiona as relações de poder, a opressão e a exploração de grupos de pessoas sobre as outras. Contrapõe-se radicalmente ao poder patriarcal. Propõe uma transformação social, econômica, política e ideológica da sociedade.”

Apesar das idéias defendidas pelo Feminismo estarem muito claras, ainda há pessoas que pensam que nós queremos nos sobrepor aos homens e dominar o mundo, além de matar criancinhas, claro.

O Feminismo representa sim um meio utilizado para se quebrar determinados paradigmas sociais que se mostram opressores, mas sua finalidade não é a sobreposição hierárquica de um gênero ao outro, mas sim a igualdade entre ambos. Por isso que ele se mostra como:

“Um conjunto de idéias e práticas radicais que tenham o poder de subverter, mudar, transformar as ideias e práticas patriarcais que vivemos. Se entendemos que o sistema se organiza por um conjunto de instituições sociais, econômicas, jurídicas e culturais que atuam para preservar o poder do patriarcado – seja no capitalismo ou no socialismo-, temos que ir ganhando a noção de como nos relacionar com as instituições, mantendo nossa liberdade de pensar e exprimir idéias radicais e formas autônomas de organização”. Trecho da intervenção feita por Miriam Botassi em 1988, no Seminário do NEIM (Núcleo de Estudos interdisciplinares sobre a Mulher) (1).

Nós queremos uma sociedade mais justa e mais igualitária para todas as pessoas, sem distinção, mas para alcançar tal objetivo é preciso que conquistemos muitos direitos que foram negados a nós, mulheres, no decorrer da história, para daí então alcançarmos uma equidade material.

O Feminismo é para todas?

We Can Do ItO Feminismo é algo amplo e como tal, abrange dentro de si demandas das mais diversas e específicas. Afinal, não podemos falar que lutamos contra a opressão direcionada às mulheres se, em contrapartida, não abrirmos espaço para falar de todas elas e, é dentro dessa ótica que surgem algumas “divisões” no Feminismo para que se enxergue a questão das mulheres negras, trans*, lésbicas etc.

Ocorre que na prática há uma forte tendência em direcionar a militância. Isso porque cada pessoa tem mais facilidade em enxergar a opressão machista e patriarcal dentro de sua própria realidade. Porém, o grande problema é que as mulheres também são desiguais entre si, uma vez em que algumas possuem mais privilégios que outras. Não enxergar essas diferenças ou, na pior hipótese, negar veemente a sua existência, pode ser uma forma de opressão.

No meu ponto de vista, não existe Feminismo certo ou errado. O Feminismo é uma “filosofia universal” e não podemos creditar a ele ações pessoais dessa/desse ou daquela/daquele militante. Não é culpa do Movimento Feminista que aquela pessoa não enxergue seus privilégios ou que ela, individualmente, seja contra determinada questão. É muito triste sim, ver que há pessoas assim dentro do movimento, mas estamos lutando para que todas as pessoas retirem seus cabrestos. A militância é um processo contínuo de aprendizagem. Contudo,  vamos sempre denunciar a opressão seja ela vinda de fora ou de dentro do movimento porque, aproveitando uma palavra de ordem utilizada por uma militante: ou o Feminismo é para todas (os) ou não será!

O que é ser feminista?

Muitas pessoas, ainda que saibam de cor a pauta feminista ou tenham uma ideia de qual seja, sentem insegurança em se assumirem como tal. Seja por motivos internos, por medo de rótulos sociais ou ainda por não se sentirem representadas. A estas pessoas, acho interessante compartilhar um pensamento da grande intelectual Heleieth Saffioti (2):

“Na verdade, eu sempre relutei em me dizer feminista no Brasil. No passado, este termo tinha uma carga ideológica muito grande e ainda apresenta uma carga razoável. Eu gosto de dizer: eu sou feminista mas meu feminismo é este (…) porque eu tenho muito medo que tomem o meu feminismo através dessa adulteração que se fez do termo que interessa muito a ditadura, de se entender que esta é uma luta das mulheres contra os homens, e eu não quero de maneira alguma ser interpretada desta forma. Tenho muito respeito pelos homens. Acho que eles também são vítimas dessa sociedade, embora nós sejamos mais vítimas do que eles.”

Não há uma definição do que necessariamente é ser feminista. Muitas pessoas são, mas não se assumem. Muitas pessoas assumem, mas não são. O importante, na prática, é saber o que o Feminismo como um todo busca e, perceber que no fundo é o que você também deseja. Afinal, não acho que ninguém goste de viver uma sociedade que oprime e mata as mulheres.

Por isso que sempre me pergunto: quem, no fundo, tem medo do Feminismo?

Referências:

(1) TELES, Maria Amélia de Almeida. Breve história do feminismo no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1993.

(2) Entrevista ao jornal Mulherio, n.º 6, março e abril de 1982.

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PS: Deixo todo meu apoio às feministas (e ao feminismo), e deixo aqui uma foto que enviei ao pessoal do “Quem precisa do feminismo?”, com minha mensagem singela de força.

Eu preciso do feminismo

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[THE GUARDIAN] Pre-para… nova polêmica sobre racismo e preconceito é reacendida pelo fenômeno Anitta

Neste último domingo (08) o jornal britânico The Guardian trouxe uma matéria assinada pelo correspondente latino-americano do jornal, Jonathan Watts, na qual discute o ressurgimento do debate à respeito do clareamento de pele artificial e do racismo no país após uma publicação ter mostrado fotos da nova estrela do funk, Anitta, antes e depois do sucesso.

O Hum Historiador fez uma tradução livre da matéria tal como publicada no The Guardian visando repercutir a discussão proposta pelo jornal aqui no Brasil, ao atingir um maior número de leitores que não dominam o idioma inglês.

Abaixo, a íntegra do texto de Jonathan Watts tal como publicado no jornal britânico.

ESTRELA DO FUNK BRASILEIRO, ANITTA, ACENDE NOVO DEBATE SOBRE CLAREAMENTO DE PELE E RAÇA
por Jonathan Watts para o THE GUARDIAN | 08/09/2013

Anitta Antes e Depois_The Guardian

Anitta fotografada quando era relativamente desconhecida e no palco no Brasil no último mês. Foto: Mauricio Santana/Corbis

A última sensação do funk brasileiro, Anitta, ganhou milhões de fãs ao levar o som da favela ao mainstream, mas ela está agora à frente e no centro de um debate sobre cor de pele.

Autores de campanhas anti-discriminação e comentaristas sociais dizem que a mais rápida estrela ascendente da música industrial teve que sacrificar sua origem negra para ser bem sucedida na classe média predominantemente branca do mercado.

A polêmica foi motivada pela publicação then-and-now photographs (fotografias antes e depois) que mostra um clareamento dramático no tom de pele de Anita desde que ela assinou um contrato com a Warner.

Na primeira, quando Anitta era relativamente desconhecida, ela parecia mais escura. Na segunda – uma foto de marketing após ela ter ficado famosa – ela aparece mais pálida. Quer isso tenha sido resultado de produtos de clareamento de pele e cirurgias cosméticas ou – mais provável – ajustes no Photoshop, o contraste reacendeu a discussão sobre o quanto você necessita ser branco para se dar bem no Brasil.

Jarid Arraes, estudante de psicologia e blogueiro, escreveu um post criticando a discriminação latente na mídia e marketing que ela sentiu ter representado a mudança da imagem de Anitta. “As pessoas se negam a aceitar que são racistas e que vivem em uma democracia multirracial, mas as estatísticas mostram que isso está longe da verdade. O clareamento nos mostra uma sociedade profundamente intolerante que não suporta a diversidade… branco é a imagem do rico, do legal, do bem sucedido, do bom, enquanto as pessoas enxergam o preto como o oposto de tudo isso”.

Nascida Larissa de Macedo Machado, a pretendente a diva foi uma corista de igreja em sua infância. Durante a adolescência, fez o nome por si mesma no cenário do baile funk carioca como uma cantora e dançarina curvilínea, “mexedora de bunda”.

Esse ano ela explodiu no conhecimento do público com um álbum e um enorme single de sucesso, Show das Poderosas, que liderou as paradas e atraiu 52 milhões de visitas no YouTube.

Apesar de ter sido adorada inicialmente como ídolo pop com uma mensagem forte e algumas melodias cativantes, seus apoiadores a projetam como uma ponte cultural entre as favelas predominantemente habitadas por pretos e mestiços nas encostas dos morros do Rio e os bairros mais ricos e brancos localizados morro abaixo.

Ela amenizou a dança sugestiva [sexo], referência gangsta e letras explícitas do baile funk e intensificou o R&B transglobal em vários vídeos promocionais mais suaves, inclusive um para Meiga e Abusada no qual ela janta com uma família branca.

Agora, contudo, questões estão sendo feitas se ela – ou seu time de marketing – foi tão longe ao reconstruir sua imagem para atrair uma demografia mais lucrativa. “Se eles tem cabelos crespos, vão se sentir coagidos a alisá-lo. Se eles tem um nariz grande, serão coagidos a fazer uma rinoplastia“, disse Arraes. “Isso cria um círculo vicioso de auto-estima”.

Este é um tema sensível nessa nação grande e altamente mestiça. Brasil – um dos últimos grandes países do mundo a banir a escravidão – tem a maior população de descendentes de africanos fora da África, mas raça e descendência são menos importante aqui do que cor. E apesar do objetivo declarado da nação de ser uma democracia multirracial, há uma relação clara entre o tom da pele e a desigualdade.

Nas cidades brasileiras, trabalhadores brancos ganham quase o dobro do que os descendentes de africanos. Até 2011, estudantes pretos ou mestiços também passavam dois anos a menos nas escolas do que a média dos estudantes.

O governo diz que essa diferença está diminuindo graças ao sistema de cotas raciais para bancos universitários e outras formas de ações afirmativas. Mas o abismo permanece flagrantemente aparente. A vasta maioria dos executivos de negócio e do governo são brancos, enquanto a maior parte dos empregos mais braçais são feitos por pretos e mestiços. Caminhe por Ipanema, Gávea ou outros bairros de luxo na Zona Sul do Rio e você estará mais propenso a ver babás pretas empurrando carrinhos com bebês brancos do que o contrário.

Definir cor é complexo. Pessoas que se autodefinem como brancas estão em minoria pela primeira vez no censo mais recente realizado em 2010. entre os 197 milhões de pessoas que vivem no Brasil, 82 milhões disseram que eram pardos, 15 milhões pretos, dois milhões asiáticos e 0,5% indígenas.

Sylvio Ferreira, professor de psicologia na Universidade Federal de Pernambuco, acredita que Anitta conquistou o coração da classe média por ter tirado um som de rebeldia e tornando-o mais domesticado e mais palatável a todos os estratos sociais.

“Isso foi conquistado a partir do clareamento racial? Não”, diz ele. “O que ocorreu foi uma mudança do espaço social onde Anitta produziu sua arte: da periferia para o centro”.

Outros concordam que que a questão da cor da pele foi exagerada. Maycon de Mattos Batista, um analista financeiro que trabalhou com Anitta quando ela era uma estagiária na Vale, disse que houve uma grande transformação na imagem de Anitta, mas não de sua cor.

“Eu não acredito que se trate de clareamento; é mais a maneira como ela está sendo produzida com a maquiagem, estilistas de cabelo e o modo como se veste”, ele disse. “Eu não acho que foi por causa de pressão que colocaram nela. Ela sempre gostou de se mostrar, cantar e dançar. Isso é algo natural para ela. Eu acredito que é por conta de sua naturalidade que ela é o que é hoje em dia”.

Leandro Silva de Souza, um ativista por igualdade racial na cidade nordestina de Salvador, disse que o preconceito reside não na sociedade mas nos produtores musicais e executivos de mídia. O público, diz ele, provou que está interessado na música em si após ter escolhido Oléria – uma lésbica negra – como a mais recente vencedora do The Voice Brasil, um show similar ao Pop Idol.

Anitta ainda tem de ser ouvida à respeito desse debate e o The Guardian não conseguiu contatá-la para ouvir seus comentários. Contudo, em uma entrevista recente publicada no Folha blog, ela descreveu a necessidade por identidade para ser bem definida.

“Toda poderosa é uma mulher que não precisa de ser bonita, mas tem tanta atitude que é maravilhosa, é poderosa”, diz Anitta à apresentadora Sabrina Sato. “O que tento passar no meu trabalho para todo mundo é que nós podemos ser quem desejamos”.

Com reportagem adicional por Anna Kaiser.

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CIÊNCIA HOJE: Profissão Historiador

A edição número 307 da revista Ciência Hoje traz um texto da professora Laura de Mello e Souza (Departamento de História – Universidade de São Paulo) sobre o polêmico projeto de lei que tramita no Congresso Nacional tratando a questão da profissionalização do historiador.

A Associação Nacional dos Historiadores (ANPUH) traz uma página com prévia e link para download do texto na íntegra em formato PDF, tal como publicado na revista Ciência Hoje.

PROFISSÃO FANTASMA
como publicado na página da ANPUH | 11/09/2013

Laura de Mello e Souza

Prof. Laura de Mello e Souza (USP)

Não existem historiadores, apesar de existirem várias profissões, algumas bem recentes, como as de bombeiros civis, mototaxistas, motoboys e turismólogos. Mas historiador não existe, pelo menos no Brasil.

Tal ausência não se deve, contudo, aos que pensam ser historiadores, e que ao longo da vida conseguiram iludir entidades de pesquisa e obter bolsas de estudo, trazendo contribuições relativamente significativas ao conhecimento histórico. O Brasil tem hoje uma das maiores comunidades científicas de estudiosos de história, como atestam congressos que recebem historiadores do mundo todo. Professores, pesquisadores e estudantes de história têm combatido nos últimos 45 anos para regulamentar o que pensam ser sua profissão. Nove projetos de lei entraram na Câmara dos Deputados nas últimas quatro décadas, caindo no esquecimento ou recebendo parecer negativo de parlamentares dos mais variados partidos políticos.

Em agosto de 2009, um senador encaminhou pela primeira vez proposta neste sentido ao Senado Federal, e aí a coisa caminhou. O projeto foi aprovado e encaminhado à apreciação da Câmara dos Deputados. Em julho último, em cartas à Câmara, duas importantes entidades científicas manifestaram-se contra o reconhecimento da profissão. Temem que disciplinas como história da medicina, história da ciência, história da biologia sejam sacrificadas quando oferecidas por docentes sem formação em história. Pedem maior discussão nacional sobre o assunto, o que alargaria os já 45 anos de espera dos aspirantes a historiador.

Parece ter faltado comunicação entre as partes, apesar do amplo debate sobre a questão nos últimos decênios, em fóruns variados.
O que se defende é o reconhecimento da especificidade profissional, como ocorre com tantas outras áreas da pesquisa científica brasileira, sem que isso implique empecilhos ao livre ensino, discussão ou produção sobre a matéria da história.

A história é uma forma de conhecimento tão antiga e tão essencial que, com boa dose de ironia, o renomado historiador francês
Paul Veyne escreveu: “Como tudo é história, a história não existe”. Conforme Marc Bloch (1886-1944), gigante da historiografia do
século 20, “mesmo que a história fosse julgada incapaz de outros serviços, restaria dizer, a seu favor, que ela entretém”. Talvez esse aspecto às vezes jogue contra ela, levando a crer que lhe falte rigor ou método. Por isso, nunca é demais lembrar que de sua costela nasceram tantas formas de conhecimento hoje específicas que seria fastidioso enumerá-las. Parcela substantiva do método que serve ainda hoje às ciências humanas e exatas brotou da reflexão histórica de homens como Lorenzo Valla (1407-1457), que, no Renascimento, ensinou o modo de se ler um texto e mostrar sua falsificação, e os sábios seiscentistas, que polemizaram sobre a cronologia, os eventos citados na Bíblia e a idade das civilizações antigas. Uma forte corrente cética se desenvolveu a partir desses impasses, fornecendo seiva ao empirismo científico.

Amplitude e especificidade marcam concomitantemente a face da história. Se muitos podem contar histórias e até escrever sobre história, produzindo resultados interessantes, muito menos são os que podem refletir de modo consistente sobre a natureza do conhecimento histórico ou desenvolver pesquisa qualificada sobre os testemunhos deixados pelos humanos. Este é o campo exclusivo do historiador.

Trago à reflexão fato ocorrido na primeira semana de agosto: após gestão memorável no Arquivo Público do Estado de São Paulo, seu diretor, Carlos Bacellar, professor do Departamento de História da Universidade de São Paulo e autor de importantíssimos trabalhos de história do Brasil, foi demitido pelo governo estadual. Seu substituto é advogado e presidente do PSDB de Jacareí. Já entidades como o Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), que servem às ciências ditas exatas, contam, como determinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, com corpos de especialistas nas áreas respectivas para a escolha de seus diretores.

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LIBERDADE e democracia?

Quino_Estátua_Liberdade

Charge: Quino

Diante de uma nova invasão estadunidense à Síria, vi uma postagem que está circulando nas redes sociais e que gostaria de publicar aqui no Hum Historiador também.

Trata-se de uma relação dos países que foram bombardeados pelos Estados Unidos com o pretexto de estabelecer a democracia, desde o final da Segunda Guerra Mundial até os recentes bombardeios à Líbia.

Abaixo a lista dos países, junto com o período em que foram bombardeados pelos Estados Unidos, comprovando que, não importa quem esteja ocupando a Casa Branca, a política armamentista e militar deve ser mantida.

  • China 1945-1946
  • Korea 1950-1953
  • China 1950-1953
  • Guatemala 1954
  • Indonésia 1958
  • Cuba 1959-1960
  • Guatemala 1960
  • Congo Belga 1964
  • Guatemala 1964
  • República Dominicana 1965-1966
  • Peru 1965
  • Laos 1964-1973
  • Vietnã 1961-1973
  • Camboja 1969-1970
  • Guatemala 1967-1969
  • Líbano 1982-1984
  • Granada 1983-1984
  • Líbia 1986
  • El Salvador 1981-1992
  • Nicarágua 1981-1990
  • Irã 1987-1988
  • Líbia 1989
  • Panamá 1989-1990
  • Iraq 1991
  • Kuwait 1991
  • Somália 1992-1994
  • Bósnia 1995
  • Irã, 1998
  • Sudão, 1998
  • Afeganistão, 1998
  • Sérvia 1999
  • Afeganistão, 2001
  • Iraq in 2003
  • Líbia 2011

Em meio ao iminente bombardeio da Síria, vale lembrar as óbvias palavras do presidente uruguaio José Pepe Mujica, divulgadas no portal Opera Mundi nesse último sábado (07).

“ÚNICO BOMBARDEIO ADMISSÍVEL SERIA DE LEITE EM PÓ E BISCOITOS”
por Opera Mundi | publicado originalmente em 07/09/2013

É impossível cessar uma guerra com mais guerra, disse o presidente uruguaio sobre possibilidade de intervenção militar

O presidente uruguaio defende que uma ação militar não é o melhor caminho para solucionar o conflito civil no país. “Isso seria tentar apagar uma fogueira colocando mais combustível”, argumenta em referência ao plano norte-americano de intervenção. “A guerra não se resolve introduzindo mais guerra. Isso leva a situação para um caminho de conflitos intermináveis que promove um profundo ressentimento que vai transformar em luta e resistência “aqui e ali”, reitera em entrevista a uma emissora local do Uruguai.

José “Pepe” Mujica, presidente do Uruguai. Foto: Agência Efe

Citado pela imprensa espanhola neste sábado (07/09), o presidente uruguaio fez referências na história contemporânea para argumentar os impactos negativos da guerra. “Cada uma das tentativas nos últimos 30 anos de impor a democracia ocidental – da forma como conhecemos –, na Ásia ou no mundo Árabe, teve o resultado semelhante de sacrifício e dor”, analisou ao El Pais.

Na contramão de Mujica, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pediu hoje (7) aos membros do Congresso que não fechem os olhos ao uso de armas químicas na Síria. “Nós somos os Estados Unidos. Não podemos ficar cegos diante das imagens da Síria. É por isso que peço aos membros do Congresso, dos dois partidos, que se unam e ajam para promover o mundo onde nós queremos viver, o mundo que queremos deixar aos nossos filhos e às futuras gerações”, disse Obama, que procura o apoio do Congresso para ataques militares à Síria. O presidente falou à população em um programa semanal de rádio.

O Congresso norte-americano deve começar, na segunda-feira (9), a debater os ataques defendidos por Barack Obama como reação ao uso de armas químicas no dia 21 de agosto, nos arredores de Damasco, capital síria, pelo qual responsabiliza o regime do presidente Bashar Al Assad.

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