Os professores e a greve de Alunos na USP

O texto a seguir foi reproduzido no grupo de discussão da História USP e circula abertamente no Facebook. Trata-se de uma reflexão proposta pelo professor de História Contemporânea da USP, Lincoln Secco, à respeito da posição de alguns professores não só na presente greve que está acontecendo naquela universidade, mas em todos os movimentos congêneres que ocorrem de tempos em tempos por lá. 

GREVE DE ALUNOS
por Lincoln Secco

Marcelo Brammer/Brazil Photo Press/Estadão Conteúdo

Imagine que durante uma greve de professores universitários os alunos tomem a seguinte decisão: “Como esta greve não é nossa, exigimos a contratação de professores substitutos, pois temos direito à aula”. Jamais o movimento estudantil agiu desta forma torpe. Todavia, é comum que greves isoladas de alunos suscitem a ira mesmo de professores que fazem suas próprias greves.

Argumentam que o corpo discente não realiza greve posto que não trabalha. Mas numa universidade acoplada intimamente à reprodução do capital é no mínimo duvidoso afirmar que professores, alunos de graduação e pós graduação não concorram coletivamente para a geração de conhecimento científico. Lembremos que a ciência é uma força produtiva.

Mas o que importa é que a universidade não se reduz à sala de aula ou aos laboratórios de pesquisa. A sociedade espera dos estudantes que eles aprendam a conviver, a participar em assembleias, a decidir coletivamente e aceitar os riscos de suas decisões. Os conteúdos das disciplinas escolares não são um fim, mas um meio. O fim é a autonomia que permite que novos pesquisadores, docentes e, especialmente seres humanos melhores se formem. Por isso, numa verdadeira universidade os alunos aprendem dentro da sala de aula e fora dela.

A categoria dos professores não é obrigada a participar de uma greve que ela não decidiu, contudo, ela tem o dever de prestar solidariedade aos seus alunos.

Solidariedade não exige concordância ou participação. O que se espera é apenas que os professores não se comportem como patrões dos seus alunos, vociferando pedidos de punição e praticando a humilhação daqueles que ele tem o dever de ajudar a se auto-educar.

Os alunos são a única categoria desinteressada na universidade pública. Não lutam por salário ou privilégios. Em suas ações cometem erros táticos e exageros utópicos. Ainda bem! Entre o “erro” de uma porta quebrada ou um piquete erguido e o acerto de malversações de verba pública decididas por uma cúpula que não é eleita e não se reporta a ninguém, o que você prefere?


Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP

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3 Comentários

Arquivado em Educação, Universidade

3 Respostas para “Os professores e a greve de Alunos na USP

  1. Assista ao documentário gravado por Dr.Valdecy Alves em que debate as principais violações à Lei do Piso do professor, Lei Federal nº 11738/2008, gravado na manhã de 06/03/2014. Além da análise de cada uma das violações desde 2008, demonstra as principais fraudes praticadas contra direitos dos professores contidos na lei e da educação de qualidade. http://valdecyalves.blogspot.com.br/2014/03/documentario-sobre-lei-do-piso-violada.html

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