Quem sustenta o Rei do Camarote?

Capas da Revista Veja e Veja São Paulo publicadas em 05 de Novembro de 2013

Capas da Revista Veja e Veja São Paulo publicadas em 05 de Novembro de 2013

Ia escrever um texto sobre o bizarro vídeo do Rei do Camarote lançado pela revista Veja São Paulo neste último fim de semana (04), mas encontrei um post do Fábio Chap, no blog Escrevi. Escrevo. Escreverei? que contempla parte do que gostaria de escrever.

O texto de Chap vai de encontro com alguns dos últimos posts que andei publicando por aqui, especialmente quando ele fala sobre o que produz um “Rei do Camarote” e a custa de quem eles se mantém em seus “bunkers” protegidos, enquanto os miseráveis morrem à míngua nas favelas ou mais um assaltante é morto pela polícia em algum lugar de São Paulo. Pensamento bem representado na passagem abaixo:

“(…) a repressão nas favelas existe para que reis de camarotes pelo Brasil afora tenham cada vez mais garantias para esbanjar. Um assaltante pobre a menos – morto – por uma vela a mais piscando na garrafa de Veuve Clicquot; a sociedade topa rapidinho.”  

Abaixo, a íntegra do post de autoria do escritor Fábio Chap publicado em seu blog.

O DESAFORO 100.000.000 – O REI DO CAMAROTE E O QUASE INVISÍVEL RASTRO DE SANGUE
por Fábio Chap para o blog Escrevi. Escrevo. Escreverei?

Como vai você? Já tomou um soco de cifrões nesse final de semana? Se não, lhes apresento o ‘rei do camarote’ Alexander de Almeida, o empresário que ‘caiu na balada’ e nos deixou em choque. E o susto não foi porque ele tem dinheiro saíndo pelos poros. Sabemos que muitas pessoas têm. Mas pelo modo com o qual ele torra essa grana e pelo modo como ele chama aqueles que criticam seu estilo de vida: ‘invejosos’.

Para compreendermos melhor a figura do senhor Alexander precisamos, antes, pincelar o principal propósito do capitalismo: gerar lucro. Uma vez que o sistema capitalista seja praticado quase unanimemente em todo o mundo, podemos chegar à conclusão: o sistema do lucro funciona à primeira vista e mexe com o âmago das pessoas. Com a alma. Alguns se arriscam a tudo para ter uma fatia cada vez maior; alguns correm riscos maiores que outros. Aí entra a cafonice, a ousadia e o desespero.

A revista Veja – uma lamentável ferramenta de manobras políticas – mandou benzasso no modo que apresentou o empresário ao grande público. Foi de uma ironia fina tão grande que nem o próprio entrevistado sacou o quanto estava sendo ridicularizado. Alguém ciente de que ele poderia soar ainda mais patético disse assim: ‘Então, vamos filmar o closet, depois uma porta vai se abrir bem em frente ao seu rosto; magicamente você já estará vestido com as melhores grifes. Aí sim tamos prontos pra cair na noite’. Obviamente ele concordou com a fanfarronice. É um cara já desprovido de senso crítico.

Ele sabe que é uma figura amada por uns e odiada por muitos outros. Se diverte com isso. Diz que é inveja. E realmente é. Não é que gostaríamos exatamente de ter uma Ferrari, já nos bastaria sair de um lugar ao outro – principalmente em grandes cidades – sem sermos aloprados por um transporte público humilhante. Sendo de carro, de trem, metrô ou busão, a gente só gostaria mesmo é de ser 1/5 respeitado como o rei do camarote é.

Nem acho que a maioria de nós – no máximo príncipes e princesas da pista molhada e apertada – quer seguranças com 1 metro de bíceps garantindo passagem. Só não sermos empurrados como gado às 7h da manhã na linha vermelha do metrô já estaria de bom tamanho.

Não precisamos de tanto champagne; se não faltar nada para nossos filhos já está bom. Nem fralda, nem suco, cultura diversificada e uma vaga naquela escola que realmente ensine a ter conhecimento. Não precisamos de um helicóptero para agilizar as coisas, basta que, se nossos pais e avós tiverem uma emergência, que sejam tratados como seres humanos pelo sistema se saúde. Que as escaras dos nossos parentes doentes não tenham moscas e larvas se alimentando da carne podre nos corredores de hospitais públicos (http://goo.gl/UzRM8Z).

Acredito que a maioria de nós não faria questão de pessoas da mídia ou celebridades em nossas festas, bastaria que conseguíssemos terminar essa festa. No RJ um aniversário acabou com bomba de gás lacrimogêneo no bolo da criança (assista à partir de 5’20’ do vídeo – http://goo.gl/rgGm6v). A repressão nas favelas existe para que reis de camarotes pelo Brasil afora tenham cada vez mais garantias para esbanjar. Um assaltante pobre a menos – morto – por uma vela a mais piscando na garrafa de Veuve Clicquot; a sociedade topa rapidinho.

O rei do camarote precisa entender que é inveja, sim, não dos carros, das casas, das bebidas e das bundas. É a inveja de poder levar uma vida feliz, aparentemente mais tranquila e menos submissa à imundície de quem faz tudo para não perder dinheiro. Tudo. A inveja é no sentido de não ser tirado, humilhado e atropelado por um sistema prontinho pra devolver qualquer indignação com um cassetete no meio da testa, mesmo quando se está a trabalho (http://goo.gl/qQY1II).

Algumas pessoas não enxergam as contradições dentro de si. Compartilham vídeo e matéria sobre Alexander ao mesmo tempo em que criticam os movimentos sociais das ruas. Não percebem que um black block, quando quebra um banco ou concessionárias de carros importados, está surtado com esse tipo de esbanjamento. Gritando para que existam menos Alexanders e menos Amarildos sumidos. As pessoas criticam a atitude de lavar o chão com champagne – citada na matéria – e, ao mesmo tempo, mandam a polícia ‘descer bala’ em quem se revolta com esse show de horrores esfregados na nossa cara tanto pelo poder público quanto por determinados empresários conchavados. Não está muito claro que só estamos apanhando na rua pra sustentarmos mais reis do camarote? Seja um camarote no palanque ou na noite? O consumo e os grandes empresários são os verdadeiros donos de SP, do RJ, do Brasil e de boa parte do mundo. Todo aquele que se voltar raivosamente – em pleno surto – contra serviços maus prestados e abuso de poder será espancado, preso e, assim que possível, condenado – preferencialmente como organização criminosa. Na visão das autoridades não é Alexander que comete um crime – ao menos às vistas -, é quem se revolta na prática com essa sujeira.

Uma das coisas que – preciso dizer – não é tanta inveja assim, é a visão de mundo que você, rei de areia, tem. Está muito claro que só o seu ângulo te importa, mas sinto lhe dizer, apesar da Gucci e Prada na sua gaveta, você está ‘so last week’ com esse pensamento. Somos de uma geração que quer outros ângulos. Quer mais verdade. Uma geração que se importa mais e cuida mais. Seus movimentos são no sentido de ter o luxo garantido e manter o padrão quase bilionário. Nossos cuidados são para que, ao menos, exista uma padrão não humilhante de vida. Seja nos impostos, nos transportes, na moradia, na educação e saúde. Alguns de nós não sentem necessidade de ir pra Ibiza todo ano, mas que, pelo menos, consigamos ir até a Câmara gritar que ‘tá tudo errado’ sem respirarmos gás, pimenta ou recebermos argolas de aço em nossos pulsos.

O dinheiro parece comprar tudo, mas só parece. Que comprou a sua decência, é um fato, rei do camarote. Mas ele não compra a minha chance de te dar a letra: vamos caçar seu estilo de vida esbanjador e cheio de vontade de humilhar até pegarmos. Seu lifestyle vai morrer por falta de circulação.

Esse lixo de tapete vermelho que te estendem é pintado com o sangue de cada fudido amassado no trem, assaltado na viela, assaltante de viela, preso nas manifestações, humilhado em seus empregos, retirado de suas casas, jogado nos presídios, abandonados nas UTI’s, rejeitados nas escolas, condenados por nascerem sem pulserinha vip.

Meu camarote é a rua e lá eu vou sangrar para dar fim à sua festa. 2014 vai te dar medo de viver, Alexander.

ATUALIZAÇÃO DO POST

Após a publicação desse post, circulou a notícia de que a gravação do vídeo e a reportagem da Veja São Paulo tenha sido uma “brincadeira” ou, em outros termos, uma “trollagem” e que Alexander de Almeida seria uma personagem fictícia. Era evidente, porém, que este não foi o caso. Ao ver que

A Veja São Paulo acaba de publicar um texto em seu site intitulado “O rei do camarote: a dura vida após a fama” no qual confirma todo o conteúdo de sua matéria de capa, bem como a autenticidade do vídeo, afirmando ainda que: “Alexander de Almeida se queixa de assédio. Para quem ainda duvida: sim, ele existe. E é exatamente quem VEJA SÃO PAULO mostrou”. E mais adiante, a Veja São Paulo reafirma:

“Portanto, sim, Alexander existe. Mais do que isso, é um exemplo de um tipo que vem se proliferando nas casas noturnas paulistanas. Foi retratado nas páginas de VEJA SÃO PAULO, sem qualquer tipo de julgamento, por ter um comportamento que é comum entre um grupo de pessoas – por mais ultrajante que isso possa soar para alguns”.

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5 Comentários

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5 Respostas para “Quem sustenta o Rei do Camarote?

  1. Olha, tá super com cara de falso total. Não é?

    • Inácio Silva

      Não, não é falso. O cara tem uma empresa toda encrencada com o Detran, o banco Panamericano, deve R$ 55 mil de IPTU (ou o que ele gasta numa noite). Isto do IPTU está no Diário Oficial de SP. Esse tal Alexander é amigo do pessoal do Pânico. Quando a repercussão do vídeo começou a ser extremamente negativa e começaram rumores de que a Receita Federal queria investigar como alguém era tão rico e pouco conhecido, o tal Alexander, numa entrevista à rádio Band (emissora em que passa o Pânico) disse se tratar de uma trollagem, etc. Mas não é, e gente como as jornalistas Daniela Abade e Rosana Hermann garantem que pode pintar até polícia na história, já que O Rei do Camarote teve enriquecimento impressionante e não-condizente com o tipo de negócio que ele possui (um escritório de despachante). A história parece ser bem menos engraçada no que aparenta no bizarro e insano vídeo.

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