Chega de papelão: os ecos dissonantes de uma caixa verde

Diariamente temos sido expostos a uma campanha do Grupo Pão de Açúcar que visa explicar um dos programas de reciclagem adotado pelos supermercados dessa rede e que ficou conhecido como Caixa Verde.

Supermercado do Grupo Pão de Açúcar que já aderiram ao programa Caixa Verde. Fonte: Pão de Açúcar Sustentável

De modo geral, trata-se da colocação de caixas verdes, posicionadas estrategicamente logo após as caixas registradoras, com o objetivo de coletar as embalagens plásticas ou de papelão dos produtos recém-adquiridos pelos consumidores que, por sua vez, não querem levá-las pra suas casas. Assim, imediatamente após comprarem os produtos, os clientes que quiserem participar do programa devem retirá-los de sua respectiva embalagem, e dispensar essas últimas na tal caixa verde.

Na voz de Clarice Falcão, o vídeo da campanha, que tem sido veiculado nas TVs já há algum tempo, explica como funciona o programa.

Ora, toda vez que assisto a esse comercial, não deixo de pensar em uma aula do professor Ulpiano Bezerra de Menezes que nos provocava a pensar como um objeto tão simples, como um copo descartável, poderia ser um artefato de museu e colocado em uma exposição para instigar os visitantes a refletir sobre a relação de nossa sociedade com aquele objeto. Como se produz aquele objeto? Com que fim? De que maneira é utilizado no cotidiano? Perguntas que, ao tentarmos responder, pode impressionar ao levar-nos a constatação de como um objeto tão trivial tem a capacidade de revelar tanto a respeito de nossa sociedade.

Vejamos, rapidamente, algumas considerações sobre a produção e o uso dos copos descartáveis:

  1. Feito de material plástico, o copo descartável utiliza petróleo em sua composição.
  2. É produzido e distribuído por todo planeta a fim de que as pessoas possam servir-se de alguma bebida em algum ambiente que não a própria casa ou a de algum amigo, isto é, um ambiente onde a pessoa se encontra em trânsito: escritórios, consultórios, praças de alimentação, etc.
  3. Utilizado, de modo geral, para tomar água, mas também pode ser utilizado para outras bebidas. É comum que corporações ordenem a fabricação de tais objetos imprimindo nos mesmos suas marcas, tornando o custo de produção mais caro ao agregarem mais matérias-primas para produzirem os copos personalizados.
  4. Com frequência as pessoas costumam puxar os copos de um porta-copos afixado em uma parede ou próximas do galão de água, servirem-se de uma ou duas porções e, após alguns segundos de uso do objeto, dispensam-no na lata de lixo.

Portanto, um objeto que passa por um ciclo de produção complexo, desde a extração de petróleo e sua conversão em plástico, produção do copo, transporte e distribuição até os pontos de venda para, finalmente, chegar ao usuário final, tem um uso médio de poucos segundos (talvez até menos de dez segundos) para, em seguida, serem dispensados.

As relações que estabelecemos com o meio ambiente podem ser observadas muito facilmente através desse exercício com o copo descartável e, através dele, também é bastante fácil percebermos algumas características marcantes da sociedade em que vivemos. Não vou me aprofundar na análise dessa provocação proposta pelo professor Ulpiano, pois trouxe-a para este post apenas para ajudar-nos a pensar sobre a proposta da Caixa Verde que o Grupo Pão de Açúcar está nos fazendo.

Se pararmos para refletir um pouco sobre as embalagens dos produtos vendidos nos supermercados, veremos que as mesmas tem um uso muito específico pelo consumidor e, de modo geral, de curtíssima duração. Pior ainda que os copos descartáveis, do ponto de vista do usuário final, as embalagens de produtos como um creme dental, por exemplo, servem apenas para serem jogadas no lixo. Ora, penso que se as redes de supermercado estivessem seriamente comprometidas com a sustentabilidade do planeta, não estariam propondo aos consumidores que, imediatamente após pagarem pelo produto, tirassem o mesmo de sua embalagem e dispensassem esta última na tal caixa verde para ser reciclada. Ao fim e ao cabo, isso apenas encurta ainda mais o uso daquela embalagem em si que, nessa lógica, seria produzida para ser descartada imediatamente após a compra. O que as redes de supermercados deveriam propor, se realmente estivessem preocupadas com o desenvolvimento sustentável, era que os fabricantes parassem de produzir as embalagens, que servem apenas para justificar o aumento do preço do produto, e comercializassem seus produtos sem as mesmas.

Embalagem da Colgate Luminous White.

Foto da embalagem do creme dental Colgate Luminous White.

“Ah! Não, mas daí é mais difícil”, diriam os responsáveis pelas redes de supermercados. Afinal de contas, os fabricantes de creme dental investem milhões e milhões de dólares em pesquisas para desenvolver uma embalagem que brilha naquele tom de vermelho e prateado que vai chamar a atenção do consumidor a metros de distância da gôndola. Outro tanto de dinheiro em equipes de marketing para criar aquela frase que vai tocar o coração do consumidor e fazê-lo acreditar que pode ter dentes com um tom mais branco em uma semana. E mais outro tanto de dinheiro com especialistas para elaborar uma maneira de armazenar as embalagens no supermercado visando produzir o efeito visual mais eficiente afim de que o consumidor, em um só relance, queira comprar aquele produto. Isso para não mencionar na grande soma de dinheiro que os fabricantes nos pagam para que seus produtos sejam dispostos nas áreas mais nobres e mais visíveis de nossas lojas. Não!!! Parar de produzir as embalagens jamais. Não podemos perder essa receita. O mais fácil mesmo é fazer com que os consumidores acreditem que essa tarefa é deles. Mais do que isso, temos que aproveitar a oportunidade e fazer com que eles entendam que a rede de supermercados está preocupada com essa pauta e está aí para auxiliá-los na nobre tarefa de construir um planeta sustentável “poupando o tempo deles”.

Ora, amigos, além de tudo isso, alguma vez vocês já pararam para se perguntar quem é que paga pela embalagem que envolve o produto que você consome? Já se perguntaram qual seria o preço de um creme dental se o mesmo não viesse envolvido com aquela embalagem supertecnológica e colorida? Eu gostaria mesmo de saber qual seria o valor da tal Luninous White se fôssemos poupados de sua embalagem. Não duvidaria se alguém me dissesse que uma boa porcentagem do preço final do produto é pra pagar a embalagem. Como diria um colega que trabalha na área de marketing de uma dessas multinacionais multimarcas, o trabalho dele é agregar valor ao produto de modo que o consumidor esteja disposto a pagar mais por algo similar produzido por outros concorrentes.

Portanto, amigos, além do meu mau humor habitual, compartilho com vocês minha indignação toda vez que sou exposto a esse maldito comercial da Caixa Verde do Pão de Açúcar. Como acabo de lhes dizer, considero tratar-se de um programa ineficaz e oportunista, cujo objetivo é associar a imagem da rede de supermercados à agenda do desenvolvimento sustentável e do eco-ambientalismo, iludindo seus clientes com a ideia de que deixar as embalagens de plástico ou papelão na tal da caixa verde seria uma ajuda e tanto para o meio-ambiente quando, na verdade, não significa lá grande coisa, servindo apenas para deixar as consciências dos compradores daquela rede de supermercados tranquilas, fazendo-os acreditar que já estão fazendo a sua parte na construção de um planeta melhor, mais sustentável, apenas por livrarem-se das tais embalagens “de papelão, ou de plástico, ou de outra embalagem qualquer que ele não queira levar pra casa”.

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2 Comentários

Arquivado em Economia, Opinião

2 Respostas para “Chega de papelão: os ecos dissonantes de uma caixa verde

  1. Como ideia, também acho que o comercial poderia ser melhor. Então, do ponto de vista criativo, é convencional e penso que ficou chato. É o que imagino que te incomoda, não tanto o conteúdo em si. No que se refere ao conteúdo, acho que se trata do princípio que pede que cada um faça o esforço possível e tal.

  2. Bruno

    Esse mesmo raciocínio pode ser ampliado para todas as práticas ecochatóides pregadas: desde economia de água em casa até o “vai de ônibus”. Quer dizer, não que não sejam medidas importantes para a preservação, mas isso é delegar a responsabilidade da proteção ao meio ambiente ao cidadão comum e não às corporações que são, de fato, quem mais poluem: colocam as práticas empresariais poluentes (como criação de nova linha de produto, manutenção da produção de determinado produto e a exploração de recursos) como um mal necessário e inevitável.

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