[SAFATLE] Racismo travestido de humor

Excelente texto do professor Vladimir Safatle, publicado na Folha hoje (19), discute brevemente como o racismo está sendo justificado através da bandeira do humor e do ataque ao politicamente correto. Tema que venho tratando recorrentemente neste blog, mais recentemente com a entrevista do professor Kabengele Munanga e, também, a denúncia do humorismo racista do Danilo Gentili.

LIBERDADE PARA O RACISMO
por Vladimir Safatle | para a Folha de S. Paulo

Há alguns dias, uma revista francesa publicou na sua capa uma foto da ministra da Justiça da França, a negra Christiane Taubira, comparando-a a uma macaca à procura de banana.

Ela já havia sido comparada ao nosso parente distante por uma criança em uma manifestação anticasamento homossexual, sem que ninguém esboçasse uma reação indignada. A maior indignação partiu, vejam só vocês, da revista em questão, que inverteu o jogo alegando que tudo era apenas uma piada e que não suportava a “ditadura do politicamente correto”.

É interessante perceber como, atualmente, todos os que são pegos em franco delito de racismo e preconceito (contra imigrantes, ciganos, árabes, negros, índios, homossexuais, ecologistas, feministas) alegam, na verdade, serem perseguidos pela implacável polícia do politicamente correto. Estamos diante de uma legião de humoristas incompreendidos a lutar contra burocratas da língua que procuram impor à sociedade um discurso asséptico e uma maneira de ser.

Afinal, que época é esta em que não se pode mais chamar uma negra de macaca, ou dizer, com uma ironia calculada, que mulher gosta é de apanhar? Será que todos perderam seu senso de humor?

Há anos, isso era tão engraçado, mas, agora, as pessoas parecem que se deixam policiar por todos os lados, abrindo mão de sua liberdade de livre-pensar e brincar de adolescentes à procura da opinião mais bombástica capaz de chocar seus pais intelectualizados. Sim, meus amigos, a mais nova moda é chamar racismo e preconceito de afirmação rebelde da liberdade.

Esses estilistas do ressentimento social apareceram travestindo inicialmente seu discurso político de indignação moral. Foram imbuídos do dever de denunciar todos os que usavam o palavreado da igualdade e da tolerância e que, segundo eles, procuravam ganhar dinheiro em ONGs ou aumentar sua vontade de poder.

Mas, em vez de criticar a pretensa hipocrisia em questão e defender a igualdade e a tolerância de seus usurpadores, eles preferiram aproveitar o que entendiam como fraqueza moral de seus oponentes e colocar na avenida todo o ressentimento escondido durante décadas.

Assim, aquele sentimento de desconforto diante da diferença e da transformação social, de recusa a auto- crítica de seus próprios valores, de mediocridade medrosa e de colonialismo xenófobo mal disfarçado podiam, enfim, voltar. Pior, voltar com o selo da liberdade. Poucos, entretanto, se enganam com o tipo de mundo medieval e pequeno que tal “liberdade” produz.

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4 Comentários

Arquivado em Jornais, Opinião, Política, Preconceito, Racismo

4 Respostas para “[SAFATLE] Racismo travestido de humor

  1. fabio nogueira

    Depois que grupos organizados resolveram dar a cara a tapa para o confronto,certos intelectuais vem com o discurso do politicamente correto. Sentem-se ameaçados pela reação daqueles que por anos viveram num processo de exclusão. Sentem medo porque tem culpa n o cartório .

    Se politicamente correto for defender aquilo que acredito,então me incluo nesse.

  2. Meu melhor amigo é preto. Daria mais trabalho se eu fosse obrigado a dizer que meu melhor amigo é afro desccendente. E não ficaria tão legal quanto preto e isso é uma coisa, acho eu. Outra coisa é um calma lá para a tal “ironia calculada”. Porque mulheres apanham, têm clitores arrancados, mais todos o bla bla bla associado ao tema. Porque macacos não pensam, fazem exclusivamente micagens e têm bichos nogentos na pele. Não é “ironia calculada”, nem falta de bom humor. Bons modos mantém os dentes na boca, certo? Não, não pode atirar banana em estádio quando um jogador negro pega na bola. Não, não pode dizer que comeria a mulher com o filho dentro. Não, não pode passar a mão porque a garota está de saia curta. Não não pode dizer que é ruim porque é sertanejo. Não se trata de uma atitude ranzinza, mas inclusiva. Há muitas formas de fazer rir. Uma delas é o Zorra Total, mas felizmente há outras.

    • Pois é, Mariel, não pode mesmo. Nós sabemos quando estamos diante de uma pessoa que não é preconceituosa ou racista e trata o outro com palavras que poderiam ser vistas como racistas, mas que no fundo são carinhosas pela amizade antiga ou pelo sentimento que os une. O que temos visto nos jornais, nas tvs, nos estádios e até mesmo nas ruas é outra coisa completamente diferente…

      Abs.

      RB

  3. fabio nogueira

    Mariel,a questão não e ser preto ou afro e o que pode vim depois dessas duas palavras como por exemplo negro fedorento,negro macaco,preto iso ,preto aquilo. Sou seja : os pejorativos que constantemente ouvuamos quando éramos crianças e todos achavam”normal”.

    Vou confessar uma coisa para você,me amarro quando me chamam de crioulo. Gosto mesmo. Agora que não venham com esses outros adjetivos negativos que não aceitarei.
    O fato de ser chamado de afro é simplesmente para afirmar nossas origens,pois quando os negros foram capturados para o Brasil não havia documentos sobre sua s origens. Quando houve a abolição não se sabe os motivos para que Rui Barbosa,destruísse os documentos sobre a escravidão no Brasil.

    Mariel, não caia na pilha. Fique a vontade de chamar de preto sem aqueles pejorativos negativos.

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