Como é ser menina no país do futebol

por Liana Machado especialmente para o Hum Historiador

Brasileiras comemoram gol contra o Chile no Torneio Internacional de Futebol Feminino. Foto: André Borges/Com Copa

Ontem zapeando a TV descobri que o time brasileiro de futebol feminino realizava um jogo contra o Chile. O jogo faz parte do Torneio Internacional de Futebol, no qual o Brasil tentará o tetracampeonato. O jogo aconteceu em Brasília diante de arquibancadas praticamente vazias e uns poucos torcedores apáticos. Não vi o jogo, mas vi o primeiro gol de Marta. Eu não entendo de futebol, mas a calma com que ela planejou o ataque demonstra além de talento, muita experiência. Em uma pesquisa rápida na internet, descobri que a Copa do Mundo feminino é realizada desde 1991, e que apesar de nunca ter ganhado o título a Marta foi eleita a melhor jogadora do mundo por cinco vezes consecutivas. Nenhum homem conseguiu a mesma proeza. Será que um dia vai?

Mas no Brasil não existe machismo!

Iniciemos pelo início. Sabe o que Pelé disse sobre a atuação de Marta no Pan de 2007? “Ela é o Pelé de saias”, ou seja, ela é um homem, ou tem atitude de homem, ou é tão bom quanto um homem, só que ela não tem pênis. Ótimo! Então, podemos dizer que Neymar é uma Marta de calças? Claro que não. A referência é o homem, a mulher é o outro. Mas continuemos com a Copa.

Quanto alarde fazemos com a Copa do Mundo, heim? Fosse aqui ou não. Copa essa, aliás, que nem precisa dizer que é masculina. Mas a Copa é aqui. Quanta preocupação com os estádios! Vão ficar prontos, ou não vão? Precisamos cobrar as autoridades, gastar dinheiro, desapropriar barracos (não, nem vou entrar no mérito de como eu acho que a Copa do Mundo é um evento elitista para o qual não fui convidada, o assunto é outro). Milhares de turistas virão para ver os homens jogando. Paga-se caro por passagens aéreas, hospedagens, alimentação. O evento é grande e reúne muita gente.

E na semana passada a TV transmitiu o sorteio das chaves (acho que é assim que chamam). E ficou-se uma hora dizendo coisas do tipo E2, B4, C1. Importante, né? Depois do sorteio, enquanto eu jogava paciência no PC a Rede Globo ficou fazendo milhões de prognósticos: quem vai pra final com quem, quem vai para as oitavas, quem joga com o Brasil nas quartas de final. Uma hora da programação da maior rede de transmissão brasileira para pura futorologia. Incrível. O mundo realmente dá muita atenção a esse torneio. O masculino, claro.

O feminino não merece a mesma atenção, o mesmo respeito, o mesmo incentivo. Não provoca a mesma alegria. Ninguém falta às aulas para assistir a copa do mundo feminino (com letra minúscula mesmo). Ninguém sai do trabalho. Ninguém vai para o bar ver o jogo com a galera, ninguém compra fogos de artifício. A coca-cola não envia 100 amigos para ver o jogo, o cabelo de Formiga (jogadora da seleção, caso você não saiba) não faz a cabeça de ninguém. O número 10 de Marta não faz o mesmo sucesso. Não! Mulheres e homens vão torcer pelos homens. Não pelas mulheres. Que ridículo seria um estádio como o Maracanã lotado de gente, as ruas vazias, todo o Brasil na frente da TV para ver Marta jogando!  Você leitor, se imagina viajando ao Canadá em 2015 para ver a copa do mundo?

Mas aqui não existe machismo.

Só pra terminar, o narrador do jogo de ontem fez muito elogios às jogadoras brasileiras. Elogios do tipo “como ela é bonita”, “mas que sorriso lindo ela tem”. Elogios certos para as mulheres. Porque mulher que é mulher prefere ser apreciada pelos seus atributos físicos. Mesmo que ela seja a melhor jogadora de futebol do mundo.

Abaixo, os dois gols da seleção no jogo contra o Chile.


Liana Machado é historiadora e está concluindo seu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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1 comentário

Arquivado em Cultura, Esportes

Uma resposta para “Como é ser menina no país do futebol

  1. Pelé de saias é um elogio e tanto, ainda mais vindo do Rei. É uma metáfora (eu sei que você sabe). Como vejo, seria preconceito algo como “apesar de ser mulher, Marta joga bem”. Mas enfim: o futebol feminino praticado no Brasil (e em boa parte do mundo) e´enfadonho e, como entretenimento, me aborrece. Não estranho o vazio das arquibancadas, trata-se de um evento fraco em atrativo, mesmo com a Marta jogando. Acho que você tá de mau humor, e mesmo assim conseguiu fazer um post pra la de interessante.

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