O machismo cotidiano que jamais para de transformar suas vítimas em culpadas

Volto a trazer péssimas notícias sobre a maneira como a sociedade trata as vítimas de machismo. Suzane Jardim, aquela estudante da USP que foi atirada pela janela de um prédio de quatro andares porque chamou um homem de machista, está sofrendo uma nova onda de ataques, dessa vez, de pessoas que estão no conforto do seu lar (ou escritório), julgando-a pela Internet e transformando-a em culpada pela agressão que sofreu.

Nesse post, reproduzirei alguns dos comentários que a notícia sobre o ocorrido com a Suzane recebeu no portal do G1. Embora saibamos que comentários de notícias da Internet são sempre espaços abertos para o ódio, é triste ver que mesmo em um caso claro no qual Suzane é a vítima, ela acaba sendo culpabilizada por ter sido vítima de uma agressão. É o machismo cotidiano fazendo o que sabe fazer de melhor, isto é, transformar suas vítimas em culpados.

Como disse Suzane em seu desabafo numa rede social, o objetivo ao postar esses comentários hediondos, é mostrar o que pensa o “cidadão de bem” sobre o que ocorreu com ela. Flagrar o pensamento machista que grassa em nossa sociedade e que não hesita em aparecer quando há um espaço no qual ele pode se manifestar sem amarras.

Abaixo, a reprodução do desabafo de Suzane Jardim numa rede social ao tomar conhecimento dos comentários feitos pelos visitantes do portal G1 sobre a notícia da tentativa de homicídio que ela sofreu e que foi veiculada naquele portal.

DESABAFO DE SUZANE JARDIM

Taí a explicação do que aconteceu comigo na voz do “cidadão de bem”, sempre “muito bem informado”.

Ser mulher é uma enorme de uma bosta e se você fazer qualquer coisa pra mudar isso, terá que lidar com esse tipo de coisa.

Não, não nasci pra esse mundo…

ALGUNS COMENTÁRIOS QUE A NOTÍCIA DA TENTATIVA DE HOMICÍDIO DE SUZANE RECEBEU NO PORTAL DO G1

“18 anos e já mãe solteira , depois saiu naquela noite pra ficar ( meter ) com o amigo , depois vão pra boteco encher a cara …..! Boa parte da mulherada não se da valor e respeito , então não podem se queixar !”

“Se estivesse em casa cuidando do filho de 4 anos, nada disso teria acontecido, vamos procurar chifre em cabeça de cobra, as vezes se acha”

“Se eu tivesse uma namorada feia desse jeito eu também já a teria jogado do prédio.”

“conheceu o cara na rua e já foi entrando no apartamento dele com mais um casal, bem feito.”

“Tambem, vai ficando com qq um que nem conhece, bebum ainda por cima. Ta querendo o que? Beber junto? Quando nem a mãe suporta, é osso. Deu nisso. Ja que tem filho porque nao sai da aula e vai la ficar com ele? Larga pros pais tomarem conta. Vê se acorda.”

“Já sei! Ele bebeu pra tomar coragem e pegar essa coisa feia. Daí passou o efeito, ele se arrependeu, ficou com raiva e tentou matá-la pra ninguém ficar sabendo que ele pegou e zuarem com ele.”

“Certamente, não ficaram só na cervejinha.”

“Desententimentos entre nóias… só isso!”

“Generalizar é burrice, mais se tratando de uma aluna da USP não da pra confiar 100% na história!”

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3 Comentários

Arquivado em Machismo, Preconceito, Universidade

3 Respostas para “O machismo cotidiano que jamais para de transformar suas vítimas em culpadas

  1. Geraldo Lima

    Pelo menos as redes sociais deixam às claras a mentalidade tacanha de grande parte dos participantes. Essa turma não teria coragem de repetir essas barbaridades cara a cara e se sentem confortáveis atrás do anonimato e da proteção de uma tela.

    • Debora

      Infelizmente Geraldo Lima eu já percebo que as pessoas estão expondo o machismo sem nenhuma vergonha, vejo isso nas conversas informais do dia a dia, não apenas homens, mas, muitas mulheres, que geralmente também sofrem com o machismo, mas que acabam reproduzindo falas e atitudes que desrespeitam todas as mulheres. Mas, claro que por outro lado, creio, que a internet possibilitou falar mal de qualquer pessoa sem ao menos conhece-la, ai as pessoas utilizam-se do anonimato. É tão triste esse mundo em que vivemos.

  2. Essas coisas nos deixam mais rasos e estreitos. Muito triste a constatação.

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