[RACISMO] Poluição visual e mau cheiro

Ainda há quem diga que não existe racismo no Brasil, ainda há quem acredite que realmente vivemos em uma linda “democracia racial”, onde todas as pessoas tem as mesmas oportunidades independente da cor de sua pele. Contudo, exemplos de racismo como os vistos nos chamados “rolezinhos” ou no caso de trabalhadores negros que foram ofendidos pelo administrador de um condomínio da Barra da Tijuca, são só os mais recentes casos de quão racista é a sociedade brasileira. Tal discrepância entre a realidade e o que certas pessoas e grupos dizem da realidade me faz perguntar por que o brasileiro não quer enxergar o racismo cotidiano? Por que o brasileiro prefere acreditar em pessoas como Ali Kamel e Demetrio Magnoli que, apesar da quantidade de exemplos de racismo que vê diariamente nas ruas, nos escritórios, nos departamentos de polícia ou nos shoppings, insistem em negar a existência dessa prática hedionda? Nos sentimos melhor escondendo de nós mesmos o fato de que SIM, NÓS SOMOS RACISTAS?

Abaixo, o Hum Historiador repercute notícia publicada no site do Geledés Instituto da Mulher Negra, nesta última sexta-feira (17) detalhando a agressão sofrida por trabalhadores que estavam diante de um condomínio comercial na Barra da Tijuca, apenas aguardando atendimento em uma clínica para fazerem exames médicos admissionais, quando foram ofendidos por um dos administradores do edifício comercial que disse que aqueles trabalhadores causavam “poluição visual e mau cheiro” no ambiente.

Trabalhadores negros causam “poluição visual e mau cheiro”, disse administrador de condomínio da Barra

O objetivo, para a maioria, era realizar os exames médicos para, em breve, iniciar um emprego novo. Mas a expectativa transformou-se em frustração na porta do condomínio comercial Le Monde, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Barrados na entrada, 18 trabalhadores ainda ouviram um administrador dos edifícios dizer que causariam “poluição visual e mau cheiro” no espaço, segundo consta no registro de ocorrência feito na 16º DP (Barra) na noite desta quarta-feira. A ofensa também foi presenciada por um PM que foi ao local atender o chamado.

O grupo começou a chegar ao endereço, situado no número 3.500 da Avenida das Américas, por volta das 8h. O destino de todos era a clínica BioCardio, especializada em medicina do trabalho, que ocupa três salas no quarto andar do bloco 7. Com idades variando entre 18 e 59 anos, alguns deles negros, boa parte dos pacientes iria começar a atuar em funções como pedreiro, ajudante de pedreiro e servente, entre outras, nas obras da Linha 4 do Metrô. Após realizarem exames de raio-x e de sangue num laboratório próximo, veio a surpresa: nenhum deles conseguiu autorização para se dirigir à clínica.

As tratativas com a equipe de segurança e com a administração do condomínio, capitaneadas pelo cardiologista Renato Sérgio Fernandes Pinto, sócio da BioCardio, duraram mais de quatro horas – em jejum para os exames, os trabalhadores não comiam nada desde a véspera. Apenas por volta de 15h, depois da ameaça do médico de acionar a PM, o acesso foi liberado. O grupo, contudo, não aceitou a oferta, e preferiu aguardar a chegada do policial. A essa altura, já haviam ouvido seguranças pedirem “para que não tocassem as paredes”. Mais tarde, na presença de um PM, escutaram Felipe Alencar Gilaberte, administrador do Le Monde, proferir a frase sobre poluição visual e mau cheiro.

– Houve uma total discriminação. E não foi a primeira vez, trata-se de uma briga antiga que eu tenho com o condomínio. Dizem que a nossa clínica não deveria funcionar aqui, devido ao tipo de público que atendemos. Acredito que me criam esse tipo de constrangimento para tentar forçar uma mudança de endereço – afirmou o doutor Renato Sérgio.

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O cardiologista Renato Sérgio Fernandes Pinto, sócio da clínica BioCardio Foto: Thiago Lontra

Ação contra o condomínio

A clínica BioCardio funciona no Le Monde há cerca de 2 anos. Em novembro do ano passado, o estabelecimento entrou com uma ação contra o condomínio por conta de problemas como o desta quarta-feira. O registro de ocorrência feito na 16ª DP, inclusive, será anexado ao processo.

Injúria e desobediência

No registro, que tem o administrador Felipe Alencar Gilaberte como alvo, constam os crimes de injúria e de desobediência – esse segundo por conta do desrespeito a uma lei que proíbe a restrição de acesso pela entrada social de edifícios residenciais e comerciais.

Versão do Le Monde

Na porta da delegacia, cercado por três advogados que inicialmente o aconselharam a não conversar com o EXTRA, Felipe deu a sua versão para os fatos. Segundo ele, a confusão na portaria ocorreu porque o grupo teria se negado a apresentar seus documentos de identificação.

‘Isso é história’

O administrador também negou que tenha ofendido os trabalhadores, embora o próprio PM tenha confirmado em seu depoimento o uso dos termos “poluição visual” e “mau cheiro”. Felipe acusou a BioCardio de ter inventado essa versão: “Isso é história do proprietário, que quer atender cem pessoas por dia”.

racismo barra 2
Trabalhadores mostram documentos referentes ao caso Foto: Thiago Lontra

‘Aquilo é para carga e descarga’

Depoimento do operador de escavadeira Leonardo Moraes da Silva, de 31 anos

“Essa foi a terceira vez que fui nessa clínica, e em todas fui tratado da mesma forma: cheguei na portaria e me mandaram dar a volta por trás, para subir pelo elevador de carga. É humilhante, porque o próprio nome diz: aquilo é para carga e descarga. E o que disseram sobre os documentos é mentira, porque entreguei a minha carteira de habilitação na entrada e mesmo assim me fizeram passar por tudo isso”.

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3 Comentários

Arquivado em Preconceito, Racismo

3 Respostas para “[RACISMO] Poluição visual e mau cheiro

  1. chegar escoltado por 3 advogados é indicio de muita culpa não e não?

  2. Jandira Granja

    E vergonhoso saber que no Brasil o racismo e embutido e as emissoras de rádio e TV se quer comentaram este fato

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