A crise na educação pública: um projeto

Hoje, como parte das leituras programadas para a minha dissertação, estava lendo uma memória que foi escrita em 1810, por um paulista chamado Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira. Trata-se da Memória sobre o melhoramento da Província de São Paulo que, como indica o título, era um texto no qual o autor sugeria uma série de planos e ações para que a então Província de São Paulo pudesse progredir (entenda-se desenvolver-se economicamente). Dentro os planos, projetos e sugestões, um deles dizia respeito a como ele acreditava ser melhor educar os filhos dos escravos. Abaixo, segue a transcrição de um curto trecho da memória de Veloso de Oliveira:

“Conviria talvez que os filhos dos escravos, nascidos no seio da liberdade, se conservassem nas casas, onde viram a luz do dia, até a idade de 25 anos, recebendo a competente educação, e prestando os devidos e racionáveis serviços, que deles se exigissem, sendo tratados como libertos, ou órfãos, e aprendendo um ofício, ou profissão, de que pudessem viver ao depois. (…) A mais exata polícia se deveria observar a este respeito, debaixo de um regulamento especial; e em tempo oportuno teríamos abundância de oficiais mecânicos, de costureiras, de serviçais, etc.”.

Impossível não relacionar com o texto que escrevi ontem para o Hum Historiador, sobre a desigualdade racial que apareceu nos indicadores divulgados pelo IBGE a respeito da diferença de rendimentos entre brancos e pretos/pardos. Talvez, a relação possa não parecer óbvia, mas se imaginarmos que boa parte da desigualdade racial que aparece na pesquisa do IBGE está diretamente relacionada com a qualidade da educação recebida pelas camadas mais pobres da população (cuja maioria é formada por pretos e pardos), logo se percebe a associação que me ocorreu entre o trecho do texto destacado e o post de ontem. Em especial, o trecho no qual o memorialista, membro da elite paulista, descreve o fim de seu projeto educacional destinado aos filhos dos escravos.

Crise na educação como projetoFoi impossível não pensar imediatamente no projeto de educação oferecido, nos tempos que correm, aos pobres nas escolas públicas de ensino fundamental e médio de todo o país. Para essa verdadeira massa de indivíduos é destinada uma educação que, de modo geral, lhes permitirá ocuparem as posições de “oficiais mecânicos, costureiras, serviçais, etc.”. Na melhor das hipóteses, como as elites necessitam muito de mão-de-obra especializada e não querem ocupar tais cargos, por demasiadamente técnicos, franqueiam acesso dos pobres às Escolas Técnicas. No mais, tudo segue como dantes.

Triste constatar que Darcy Ribeiro tinha razão ao afirmar que a crise na educação brasileira não se trata, na verdade, de uma crise, mas sim de um projeto.

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5 Comentários

Arquivado em Educação

5 Respostas para “A crise na educação pública: um projeto

  1. A crise na educação pública brasileira é um projeto da esquerda para manter-se no poder

    • fernandamlisboa, apesar de todos os erros da “esquerda” que se manteve no poder por meio de pactos com a “direita” jamais poderemos deixar de admitir que foi com a “esquerda” no poder que começaram a expandir as universidades públicas e mais uma série de melhorias que a “direita” jamais quis fazer neste país, até mesmo porque eles sabem muito bem, que, educação gratuita e de forma séria (mesmo com problemas, defeitos e limitações de toda a ordem) emancipa, abre a mente, liberta o indivíduo das amarras dos interesses vis e podres do grupinho podre da “direita” elitista, vendida e racista deste país! creio que você deva fazer parte do seleto grupinho que teve garantidos no berço uma série de “direitos” e privilégios que a “direita” sempre quis manter muito longe do povão…até que uma parte deste povão chegou bem longe depois que um barbudinho loucão promoveu com sua equipe uma série de revoluções em prol da educação neste país. ainda que, reconheço, o barbudinho e a presidenta tenham cometido erros horríveis, eles ainda foram infinitamente melhores para a educação do que qualquer líder da “direita”.

      • Que direita, Emerson? No Brasil só há partidos políticos de esquerda. A educação está pior do que nunca. Quantidade não é qualidade. Há milhares de semianalfabetos diplomados. As universidades estão formando militantes e não intelectuais.

      • Claro!!! Cadê esses militantes formados pelas universidades que não fizeram nada para impedir o golpista Temer de assumir o governo da mãe Dilma, hein Fernandinha?

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