Os outros são um inferno

por Liana Machado especialmente para o Hum Historiador

Recentemente um casal de amigos passou por uma situação lastimável. De repente seu filhinho, de apenas 9 anos, passou de bonzinho a extremamente agressivo. Por um tempo ficou deprimido, sem querer falar com ninguém. Depois de muita insistência ele disse à mãe que vinha sofrendo bullying por causa de sua orelha. Eu, sinceramente, nunca havia reparado, mas as crianças não deixam passar nada. Orientados pela psicóloga, resolveram fazer uma cirurgia corretiva a fim de minimizar o problema. Nem vou entrar no mérito de repensar o papel dessa profissional, que ao invés de nos ajudar a lidar com nossas frustrações e nos fazer compreender que jamais seremos como o mundo quer que a gente seja, nos orienta a mudar nosso corpo para  nos adaptarmos. Que mundo maluco  é esse onde uma criança de 9 anos está  a tal ponto preocupada com sua aparência e com um desejo enorme de se enquadrar, que faz com que ela se submeta a uma cirurgia para mudar o corpo?  A cirurgia em si é simples, mas em termos psicológicos e simbólicos o impacto é enorme. À ele foi dito: “sim menininho, você tem um problema”, e sim, “você é o culpado por ele”. O que mais me irritou nessa história é que o garoto mudou o corpo, mas e seus agressores? Me irrita o fato de saber que contra eles, contra os verdadeiros culpados, nada foi feito, e saíram ilesos como Deuses do Olimpo de corpos perfeitos. Achei um absurdo na hora, mas ruminei depois.

Outro fato. Na eminência de ataques a grupos de minorias na “democrática” Augusta, a Folha orientou a gays que não fossem gays (veja a imagem aqui https://www.facebook.com/photo.php?fbid=435333726596918&set=a.116175281846099.19107.100003608837206&type=1&theater). O conselho foi para que não dessem pinta. Esse jornaleco de quinta perdeu (mais uma vez) a oportunidade de enfrentar o problema do preconceito de frente. De novo a vitima potencial se esconde para não ser agredida. Esqueceu a Folha de todos os anos de luta que os grupos LGBTTTs passaram tentando dar visibilidade a causa? Talvez a passeata Gay seja hoje motivo de festa e balada, mas ela já foi o centro irradiador de debate político muito importante contra o preconceito. Então a gente se esconde?

Terceiro, uma vez o Roger e eu discutíamos a implementação de vagões, no metrô do Rio de Janeiro, só para mulheres. O objetivo do governo era diminuir o assédio sexual. Bizarro, não? Ao invés de promover uma campanha veiculada para os homens, para dizer “hei cara, isso não é legal”, “isso não faz de você mais homem”, ou sei lá o que, preferiu-se mais uma vez esconder a vítima. Sem contar que a implementação dos tais vagões pode aumentar o número de assédios, já que se uma mulher não estiver no tal vagão, é porque está querendo… Sim, somos culpadas! Quando ele me perguntou se eu usaria o vagão de mulheres, assim de supetão, eu disse que sim. Claro que repensando depois achei um absurdo ter sequer cogitado isso. Mas meu erro de cálculo tem algo de natural.

Quarto. Ninguém discute a importância da Lei Maria da Penha. Certo? Certo. Mas devemos lembrar que a lei só protege mulheres que dão queixa. Ou seja, quando há agressão, a mulher deve sair de casa levando seus filhos, mudar de vida, mudar de emprego, de grupo social. E quando ela não faz nada disso? Bom então aí ela gosta. Culpadas de novo! Ao homem agressor, que muitas vezes é o provedor e um ótimo pai, nada é dito até que ele responda penalmente. Em termos gerais, tudo depende da vítima.

Todos esses casos são muito lastimáveis. Agonisticamente lastimáveis. Por certo que eu não concordo com a Folha de que as pessoas devam se esconder, nem tão pouco que deva haver vagões para mulheres. Também a Lei Maria da Penha é importantíssima, e levantou o debate. Mas só isso não é suficiente. Não é a vítima que tem mudar, é o agressor! Nosso papel enquanto pensadores, educadores, médicos e políticos é promover uma luta incessante contra o ataque aos direitos humanos, uma luta incessante pelo direito de ser quem somos.

Mas em termos práticos, o que fazer num mundo tão cruel com as diferenças? Como reagir diante de uma situação de preconceito onde você é o agredido? Talvez seja exatamente o motivo pelo qual inicialmente respondi que usaria os vagões “especiais”. Estratégia de sobrevivência? Será que podemos condenar pais que só querem proteger seu filho? Como munir as crianças contra tamanha pressão social? Muito lastimável tudo isso. Porque eu sei que é o agressor que deve pagar, mas no fundo a gente só quer sobreviver…


Liana Machado é historiadora e está concluindo seu mestrado, também em História, pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

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5 Comentários

Arquivado em Comportamento, Jornais, Machismo

5 Respostas para “Os outros são um inferno

  1. Parabéns Liana pelo texto. Eu como mãe talvez tivesse a mesma reação da dos pais do menininho pois, por ter sentido a vida toda o bullying na pele meu instinto de proteção seria imediatamente acionado. Sabemos que os outros são os outros e temos que ser o que somos em qualquer circunstância mas vejo a difilculdade de tantas pessoas em mudar parâmetros moldados pelos próprios pais e seus semelhantes e sair da caixinha é dificil, mais ainda adotar uma perspectiva de vida diferente da qual foram acostumados e passar para frente “valores invertidos”( foi o termo mais bizarro já usado comigo em debates sobre o assunto). Um abraço

  2. Belos pontos. Viver é uma coisa, não?

  3. Às vezes me pego pensando, que se eu estivesse em uma ilha deserta, não faria uma jangada e tentaria voltar para a “civilização”. Ficaria lá. Pelo menos morreria longe dessa sociedade doente.

  4. Angelica

    Lembrei do livro da Eva Furnari, que conta a história do coelhinho Felpo Filva, que tinha uma orelha maior do que a outra, sofria com os coleguinhas da escola por causa disso e até chega a usar um aparelho bizarro para corrigir o defeito… O livro é dedicado a todos aqueles que tem “orelhas diferentes”! =)

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